Escrita e pesquisa: o processo do escritor de literatura – por Ivan Jaf

09 de janeiro, 2020 - Por Victor Thadeu

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Ivan Jaf iniciou sua carreira com as palavras nos anos 80. Depois de transitar entre vários gêneros textuais, firmou-se enquanto autor de obras infantojuvenis no começo da década de 1990. Desde então, seus livros começaram a integrar as bibliotecas e as salas de aula de todo país.

Neste artigo sobre uma de suas mais primorosas obras, veja as impressões do escritor acerca de Três maneiras de manter a alma unida ao corpo, obra aprovada no PNLD Literário 2020. Com nomes reais do Barroco brasileiro, o livro é marcado por diálogos que nos levam a questionamentos muito válidos na contemporaneidade.

Três maneiras de manter a alma unida ao corpo

No início de 2013 comecei a pesquisar sobre o estilo literário predominante no século XVII no Brasil, o Barroco. Eu pretendia escrever uma peça de teatro baseada nos famosos Sermões, do Padre Antônio Vieira (1608-1697). Acabei estudando também a obra do poeta Gregório de Matos.

Uma das características dessa escola é a tensão entre duas forças contraditórias: a razão e a fé, a carne e o espírito, o  materialismo e o idealismo, a Idade Média e o Renascimento. Na literatura do Brasil essa dicotomia havia surgido de forma explícita na obra dos dois maiores representantes do estilo na época: Gregório como corpo, Vieira como alma. Juntos eles formavam a síntese do Barroco brasileiro.

Eu já não queria trabalhar apenas com o padre. O poeta precisava entrar também na peça. Como uni-los? Comecei a estudar os pontos em comum. Contemporâneos, ambos viveram em Salvador, na Bahia. Apesar de Antônio Viera ser três décadas mais velho, morreram quase no mesmo ano. Os dois estudaram no Colégio de Jesuítas de Salvador. E atravessaram o Atlântico diversas vezes, entre Lisboa e Bahia.

A pesquisa se aprofundou. Não seria mais uma peça, queria mais espaço. Sim, um livro. A ideia surgiu: estariam num mesmo navio, um galeão português, vindo de Lisboa para cá. Uma violenta tempestade. Em seguida uma infinita calmaria. Todos a bordo morreriam. Só sobrariam os dois. Diante da morte, o poeta satírico, blasfemo e antireligioso, e o padre místico, jesuíta e temente a Deus, defenderiam suas crenças e filosofias, num confronto de idéias que resultaria na tal síntese do Barroco brasileiro. E eu construiria esse diálogo com trechos das obras dos próprios personagens!

O trabalho empacou. A ideia era boa, mas esquemática. As duas visões opostas de mundo se complementariam e correriam o risco de se anular. Eu precisava de uma terceira energia, um ponto de vista que mostrasse a tal dicotomia de longe. Foi então que apareceu João Roxo, o calafate.

Clique na capa para conferir a obra na integra.

Calafate era o operário encarregado de tapar as frestas e os furos que apareciam no casco dos navios, e operar as bombas para retirada da água que se infiltrava. Era o personagem perfeito. Enquanto no convés os dois letrados das classes altas travariam o grande embate filosófico entre a carne e o espírito, nos porões o trabalhador braçal lutaria para não deixar o barco afundar.

Para construir João Roxo me baseei em um livro: História Trágico-Marítima, organizado por Ricardo Gomes de Brito, e publicado em Portugal, em dois volumes, em 1735 e 1736. São relatos verídicos de naufrágios de naus portuguesas, ocorridos nos séculos XVI e XVII, contados por sobreviventes. Os heróis aí são os trabalhadores anônimos, membros da tripulação. O povo.

Como sempre acontece, fui descobrindo o caminho ao caminhar. Quanto mais meu livro avançava, mais cada um dos três se destacava, disputando o protagonismo. O calafate entrou na briga de cabeça erguida.

Eu os submeti a uma tormenta medonha, que matou boa parte dos passageiros e da tripulação e quase destroçou o galeão e o pôs a pique. Em seguida, quando estavam flutuando precariamente, condenei todos à mais cruel calmaria, e a loucura e a doença acabou por aniquilá-los, restando apenas os três. Foi então que percebi que cada um tinha uma crença, uma fé inabalável, em um dos três pilares em que a humanidade se sustenta: Arte, Religião e Ciência. E que era essa fé intrínseca que os fazia lutar contra a morte. Cada qual com a sua. O poeta com a Arte, o padre com a Religião e o calafate com sua Ciência.

Minha história extrapolou o confronto barroco e mergulhei no embate universal das três forças que disputam a soberania da consciência humana.

No fim, sem declarar vitória a nenhuma delas, concluiu que todas as três eram eficazes para fortalecer o espírito humano e capacitá-lo a enfrentar a vida e a manter a alma unida ao corpo.

Meu livro é narrado por José de Azevedo, guarda-mor da Torre do Tombo de Lisboa, a quem João Roxo conta a aventura. E é isso que ele é: um livro de aventuras, com homens lutando pela vida, contra os elementos.

Tentei me aproximar ao máximo da forma narrativa da língua portuguesa do século XVII, usando a sintaxe e o vocabulário da época.

Foi publicado em 2015, pela editora Scipione, e indicado ao Jabuti na categoria juvenil no ano seguinte. Em 2019 ganhou o edital do PNLD Literário.

Confira outro texto de Ivan Jaf para o e-docente: A vida por trás da obra.

Dado o fator histórico, este livro de Ivan Jaf representa um material muito adequado para mesclar as aulas de Português, História e Arte. Quer conferir aspectos da interdisciplinaridade? Baixe o e-book gratuito e veja como o livro literário pode auxiliar a prática.

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