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O perfil do professor do futuro: como mediar afeto, tecnologia e inovação na rede pública

22 de setembro de 2026,
Rafael Palasio
Perfil do professor do futuro

O professor do futuro – assim como o do presente – deve ser remunerado dignamente e ter condições de trabalho adequadas, além de voz e vez em uma gestão escolar democrática. Só depois dessa pequena introdução é possível começar a refletir com o leitor sobre o perfil do professor do futuro, ou seja, sem ignorar as condições em que se encontra, que podem ser confirmadas por meio da observação e da vivência da própria prática docente, da literatura (Silva, 2025) e das reivindicações das organizações sindicais. Dito isso, como afeto, tecnologia e inovação podem ser usados na reflexão sobre o perfil do professor do futuro? Nessa tríade, o afeto vem primeiro.

Afeto e acolhimento no perfil do professor do futuro

Para José Moran (2023), falar sobre afeto é falar sobre acolhimento. Quando a pessoa está em um ambiente em que se sente acolhida, é mais fácil confiar, experimentar, acertar, errar e escolher caminhos diferentes. E, para acolher, é necessário se abrir para a singularidade de cada um. Então, talvez a primeira característica do professor do futuro que leva afeto para a sala de aula seja sua capacidade de se abrir para acolher as diferenças.

Segundo Moran (2023), a afetividade tem um lugar central na educação, contribuindo para o desenvolvimento socioemocional de crianças e jovens, no que diz respeito à construção da autenticidade e da autoestima:

Estabelecer conexões emocionais positivas na educação é fundamental para criar um ambiente propício ao crescimento cognitivo, emocional e social de alunos e filhos, onde eles se sintam seguros para explorar, questionar e aprender (Moran, 2023, p. 1).

Ainda de acordo com o autor, o afeto está intimamente relacionado à aprendizagem significativa, ou seja, a aprendizagem que permanece, que forma o sujeito e que o motiva porque promove conexões com a realidade que o cerca (Moran, 2023).

A afetividade está relacionada à confiança, fundamental para tornar viva a comunidade escolar, que acolhe, respeita as diferenças e se abre ao diálogo, favorecendo o engajamento de todos. Para Moran (2023, p. 3),

Quando criamos esse clima de confiança, é muito mais fácil desenhar estratégias metodológicas, sequências didáticas, formas de avaliação. Elas funcionam melhor quando conversamos com os estudantes, explicamos os objetivos e chegamos a consensos. Quando sentimos que somos importantes, que nossa participação conta, nossa atitude se torna muito mais propícia à mudança (sejamos gestores, docentes, alunos ou pais). Ao internalizar valores como respeito, compaixão e tolerância, nos tornamos agentes de mudança em nossas comunidades.

O afeto deixa a vida mais leve e contribui para uma atmosfera de acolhimento, apoio, esperança e aceitação. Para Moran (2023), o afeto é o combustível para a exploração do mundo, que se transforma através dele.

Afeto e aprendizagem significativa

Henri Wallon é outro autor importante para pensarmos a relação entre afetividade e cognição no processo de ensino-aprendizagem. Sua teoria parte da ideia de que o sujeito é integral, não fragmentado, reunindo emoções, movimento e intelecto (Wallon, 2007).

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Entretanto, ver a pessoa como um sujeito integral não significa formá-la para que seja “um indivíduo qualificado e criativo para compor uma máquina perversa”, adaptada ao sistema capitalista, o que distorceria a posição de Wallon, conforme afirmam Ferreira e Acioly-Régnier (2010, p. 36). Por isso, para as autoras, Wallon rompe com as finalidades formativas dos sistemas de educação atuais.

Ver a pessoa de modo integral se conecta a um paradigma educacional que inclui outras dimensões além da inteligência, como sensibilidade, ética, estética, responsabilidade, criticidade, imaginação etc. (Gadotti, 2000 apud Ferreira; Acioly-Régnier, 2010).

Emoções, sentimentos e paixões podem ser entendidos como manifestações da afetividade, que vão se desenvolvendo de forma orgânica até atingirem conexões dinâmicas com a cognição (Ferreira; Acioly-Régnier, 2010). Ou seja, aprende-se e ensina-se com o todo que forma o indivíduo: cognição, movimento e emoção. Por isso, na sala de aula, todas essas dimensões devem ter espaço.

Dito de outro modo, afetar e deixar-se afetar fazem parte do processo educativo. Para reforçar esse ponto, Ferreira e Acioly-Régnier (2010) descrevem situações em que dois alunos de um projeto de educação não formal, vítimas de violência, foram incentivados a se expressar por meio da produção textual, o que possibilitou que relatassem suas experiências. Nesses casos, a afetividade demandou inclusão, cuidado, abertura na sala de aula e valorização da expressão dos alunos.

O afeto pode levar à motivação e à participação do aluno. Bell Hooks, em seu livro Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade (2017), afirma que é preciso ver os seres humanos de forma integral, tal como Wallon, tentando perceber as histórias por trás deles. Ao mesmo tempo, a autora adverte: “Não quero que partilhem nada que eu mesma não partilharia” (Hooks, 2017, p. 35). Dito de outra forma, o engajamento do aluno em sala de aula só ocorre em um ambiente de confiança.

É interessante a posição de Hooks (2017) quando afirma que os alunos não devem ser os únicos chamados a partilhar, a conversar. O professor também é chamado a se colocar, mas em sua prática docente deve sempre se autoatualizar, se cuidar, estar atento ao seu bem-estar, pois, antes de oferecer ao outro cuidado, acolhimento e confiança, deve buscar isso para si mesmo.

Ao enfatizar o afeto no processo educativo, não estamos simplificando as condições estruturais do trabalho docente, mencionadas no início deste texto. Porém, mesmo a precariedade das condições estruturais não pode impedir a resistência. E educar com afeto é um ato de resistência. Relembrando as palavras de Hooks (2021, p. 55): “O que não podemos imaginar não pode vir a ser”.

Com essa autora, percebemos que o afeto é uma via de mão dupla. A intenção não é fazer da sala de aula um consultório psicanalítico, mas possibilitar que o professor relacione as narrativas confessionais ao conhecimento, mostrando como as experiências podem iluminar e expandir o entendimento dos temas trabalhados em sala de aula.

Mas não é possível falar em afeto sem mencionar Paulo Freire, para quem ensinar exige afeto, ou, nas palavras do próprio autor: “Ensinar exige querer bem aos educandos” (2002, p. 72). Questionado sobre o perfil do professor de uma escola pública de qualidade, Freire respondeu:

[…] uma professora de uma escola séria é séria, segundo é uma professora competente e permanentemente envolvida na busca de ficar mais competente. É uma pessoa curiosa, justa, amorosa, quer dizer uma professora que não tem medo de dizer que ama, que não tem medo de dizer que quer bem e de expressar o seu bem ao aluno. É uma professora que ama também o que faz, que sabe porque faz, que indaga, que procura, que pesquisa, quer dizer no fundo uma professora de uma escola tal como tu perguntaste, é uma pessoa viva e que não se satisfaz com jamais parar, quer dizer ela recusa o imobilismo, porque ela sabe que é só no fazer-se permanente que a gente se faz e refaz (TV Cultura, 2021, n. p.).

O perfil do professor para Freire é o de alguém que exercita a imaginação ao pensar na transformação do mundo e atua nesse sentido, amando o que faz, prezando pela ética, pesquisando, se afetando, se posicionando politicamente ao buscar a transformação das estruturas opressoras, se fazendo e se refazendo permanentemente e apoiando seus alunos no mesmo processo, que é viver.

Afeto, tecnologia e inovação na formação docente

Os recursos digitais podem ajudar no processo de construção de uma comunidade escolar viva, guiada pelo afeto, sem perder de vista o que é essencial no processo educativo, que é conhecer, acolher, escutar ativamente e incentivar a participação dos estudantes para que possam se sentir valorizados na escola (Moran, 2023).

Leia mais: Os principais desafios do professor na escola pública e as estratégias para superar barreiras na sala de aula

É interessante perceber em Freire como a relação entre afeto, formação científica e clareza política do educador pode contribuir para a transformação da sociedade e como a atuação de um educador que seja apenas um “transferidor de saberes”, um tecnicista, pode contribuir para um “futuro desproblematizado” (Freire, 2002, p. 73).

Por isso, Freire defendia o uso crítico da tecnologia, mas não no sentido de afastá-la do processo educativo, pois o educador deve experienciar seu tempo, com as novidades tecnológicas que ele traz. No entanto, o autor adverte que o uso da tecnologia deve estar orientado por uma consciência crítica, no sentido de questionar se ela está melhorando apenas a vida de alguns enquanto piora a vida de outros (Freire, 2002).

Já a inovação se relaciona à produção de algo novo ou à renovação de algo que já existe, a partir de sua melhoria (Fiocruz, s. d.). Para inovar é preciso imaginar. Imaginar outras possibilidades a partir do que se tem ou do que ainda não foi feito. E para desenvolver a imaginação no processo educativo, conforme já foi dito, a pessoa deve ser vista de modo integral, o que só é possível com afeto.

Como os recursos digitais podem contribuir para formar uma comunidade de afeto?

No portal E-docente há várias sugestões de atividades que podem tornar o ato de ir à escola mais interessante e envolvente. Em Como organizar um sarau escolar e despertar novos poetas (E-docente, 2026), há um passo a passo bem prático para organizar um sarau escolar, que pode ser sobre o que os alunos e professores quiserem: leitura, slam, cordel, declamação ou música. Os recursos digitais podem ser usados para divulgação do sarau, com murais, livretos, e-books coletivos e publicações no portal da escola.

Leia mais: Memórias da lousa: o legado de professores que marcam gerações 

Considerações finais

O perfil do professor do futuro bebe nas fontes de Paulo Freire: educa com afeto e usa a tecnologia de modo crítico. Por isso, ao final desta reflexão, retornamos ao autor:

E o que dizer, mas sobretudo que esperar de mim, se, como professor, não me acho tomado por este outro saber, o de que preciso estar aberto ao gosto de querer bem, às vezes, à coragem de querer bem aos educandos e à própria prática educativa de que participo. […] A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade (Freire, 2002, p. 72).

Ao abordar o perfil do professor do futuro, a partir da referência a autores como Wallon e Freire, fomos ao passado, aprendendo com eles sobre como o afeto importa no processo educativo. Com suas dificuldades e possibilidades, olhamos para o presente. Quanto ao futuro, este está à espreita, nos provocando sobre o que fizemos com o nosso ‘esperançar’ (Freire, 2019).

Neste texto, manifesta-se o desejo por melhores condições para o exercício da docência e pelo descortinamento da realidade, de modo que esta possa ser transformada na direção da cidadania e da consciência crítica. Essa transformação parte do afeto, conforme Hooks (2021), para quem o amor é uma ação que inclui responsabilidade e comprometimento. Assim, a construção do professor do futuro consolida-se como um compromisso ético e diário com a educação pública.

Minibio da autora

Atualmente, Verônica Eloi de Almeida realiza o pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e é docente da Pós-graduação Stricto Sensu Profissional em Novas Tecnologias Digitais na Educação, do Centro Universitário Carioca (Unicarioca). Verônica é doutora e mestra em Sociologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduada (bacharelado e licenciatura) em Ciências Sociais pela UERJ. No Ensino Superior, tem experiência nas áreas de Sociologia da Cultura, Educação Inclusiva e na aplicação de novas tecnologias no campo educacional. Integra o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Educação e Sociedade (NEPTES/UERJ).

Referências 

E-DOCENTE. Como organizar um sarau escolar e despertar novos poetas. 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.edocente.com.br/blog/como-organizar-um-sarau-escolar/. Acesso em: 3 ago. 2026. 

FERREIRA, Aurino Lima; ACIOLY-RÉGNIER, Nadja Maria. Contribuições de Henri Wallon à relação cognição e afetividade na educação. Educar em Revista, Curitiba, n. 36, p. 21-38, 2010. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/er/n36/n36a03.pdf. Acesso em: 29 jul. 2026. 

FIOCRUZ. Conceito de inovação. Rio de Janeiro: Fiocruz, [s. d.]. Disponível em: https://mooc.campusvirtual.fiocruz.br/rea/inovacao_medicamentos/conceito_de_inovao.html. Acesso em: 3 ago. 2026. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. 26ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019. 

GADOTTI, M. Perspectivas atuais em educação. Porto Alegre: Artmed, 2000. 

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017. 

HOOKS, Bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021. 

MORAN, José. A educação pelo afeto é transformadora. Educação Transformadora, 29 dez. 2023. Disponível em: https://moran.eca.usp.br/wp-content/uploads/2023/12/afeto.pdf. Acesso em: 29 jul. 2026. 

SILVA, Amanda Moreira da (Org.). Reconfigurações do trabalho docente pós-2020: ser professor(a) na era do capitalismo digital, plataformização e reformas. Curitiba: CRV, 2025. 

TV CULTURA. Escola Viva entrevista Paulo Freire. YouTube, 14 set. 2021. 1 vídeo (36 min, aprox.). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bwvHZJLfhYE. Acesso em: 2 ago. 2026. 

WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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