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Memórias da lousa: o legado de professores que marcam gerações 

14 de julho de 2026,
E-docente
O legado dos professores

 “Se pude enxergar mais longe foi porque me apoiei em ombros de gigantes” (Isaac Newton) 

Um dos marcos mais importantes da vida adulta é a escolha de uma profissão. O problema é que, em geral, fazemos isso aos 17, 18 anos de idade, quando estamos lidando com uma série de questões que envolvem o amadurecimento do corpo, das emoções; quando ainda estamos tentando entender quem somos e qual é o nosso lugar no mundo. Talvez você, caro(a) leitor(a), esteja pensando: “mas essa não precisa ser uma escolha definitiva. Se a primeira opção não der certo, é possível mudar de planos, escolher outro caminho”. A questão é que, para mim, como para muitos outros adolescentes neste país, não existia “se não der certo”. Tinha que dar certo. E deu. 

Aos 17 anos, eu escolhi ser professora. Era final da década de 1990. Minha mãe, que não pôde cursar uma graduação, fazia um esforço muito grande para pagar as mensalidades da minha escola e repetia sempre: “Estude. Não há outro caminho para quem não nasceu rico. Estude. Não existe liberdade para quem não tem autonomia financeira. Estude. O melhor casamento que você pode ter é com o seu trabalho”. Era um mantra. Hoje eu sei que ela tinha razão. A docência não apenas me deu autonomia como moldou o meu caráter e eu devo isso aos meus professores (e à minha mãe, é claro). 

Tocou a sirene: a aula vai começar 

Analisando a minha trajetória em retrospecto, já me questionei algumas vezes: por que escolhi ser professora? Não venho de uma família de professores, então não tive nenhuma referência próxima, a profissão não é – já há muito tempo – atrativa, em especial para a juventude.

Leia mais: Trilhas formativas para professores dos Anos Iniciais

Quando anunciei que faria Letras, ouvi, entre outras frases de encorajamento: “Por quê? Você tem condições de passar para um curso melhor!”, “Vai ganhar pouco, mas o bom é que não falta emprego”, “Coitada, vai passar fome”. Eu tinha consciência de que não seria uma trajetória acadêmica e profissional fácil (em alguma área é?), mas, quando olhava para os meus professores, eu não via amargura, arrependimento. Eu via dignidade, esperança. 

As primeiras memórias da infância e a alfabetização

Algumas das minhas primeiras memórias da infância vêm da escola. Lembro-me com carinho da professora que me alfabetizou, tia Iara. Ela era uma mulher negra bonita, vaidosa, de sorriso largo, voz potente e longas unhas pintadas de esmalte café.

Lembro dos seus dedos percorrendo meu caderno, apontando as letras e palavras que eu estava aprendendo a escrever e me encorajando, dizendo que eu aprendia rápido, que em pouco tempo estaria lendo. Eu queria muito ler. Não apenas para fazer parte daquele universo das letras, para entender o que estava escrito em todos os textos que me cercavam; eu queria muito ser como tia Iara.

Para mim, grande parte da postura altiva, do carisma daquela mulher vinha do conhecimento que ela tinha. Tia Iara era poderosa porque sabia ler.

A relação afetiva com a leitura e a escrita no Ensino Fundamental

Durante os anos iniciais do Ensino Fundamental, tive uma relação muito carinhosa com as minhas professoras. Eu adorava trocar cartinhas com elas. Escrevia-lhes sobre o quanto as admirava, o quanto aprendia com elas e que, por isso, eram muito queridas e importantes para mim. Receber as cartinhas de resposta era muito especial. Eu me sentia importante. Olhava com admiração a letra bonita, o carinho nas palavras, os desenhos que ilustravam o texto. Eram tesouros que eu guardava só para mim.   

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É possível que você, caro(a) leitor(a), esteja pensando que eu era uma criança introvertida, solitária, que buscava alguma atenção nessa correspondência com as minhas professoras. Não era. Sempre tive muitos amigos e participava de atividades coletivas, mas entre as brincadeiras havia sempre um tempo reservado para a leitura.

Frequentava a biblioteca da escola, tinha assinatura de revistas em quadrinhos e, nos períodos de férias, sempre pedia de presente um Almanacão da Turma da Mônica e um exemplar da clássica coleção Vaga-lume. A leitura sempre foi, para mim, companhia, acesso, descoberta, tomada de consciência.  

Eu já tinha uma relação de pertencimento com a escola, mas, quando me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse, a resposta nunca era professora. Na verdade, passei grande parte do período escolar sem me preocupar com isso.

Ainda era cedo para pensar a respeito, para decidir. Quando chegou o terceiro ano do Ensino Médio, comecei a ter que fazer escolhas: minha turma seria de Humanas, Exatas ou Saúde? Cursaria Inglês ou Espanhol? Assistiria às aulas complementares, de aprofundamento do conteúdo, de que disciplinas? As escolhas foram, naturalmente, direcionando o meu perfil e, no momento de preencher a ficha de inscrição do vestibular, ainda pensei: Letras, História ou Jornalismo? Marquei a primeira opção. Queria ser professora de Literatura. 

Hora do recreio: a descoberta de um novo mundo chamado universidade 

Assim como a escola ocupou um espaço de suma importância na minha infância, o início da minha vida adulta foi moldado pela vivência na universidade. Em um momento político como o que estamos vivendo, de tantos ataques às universidades públicas e a seus professores, eu não poderia deixar de reafirmar a minha honra e gratidão pela formação que recebi.

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Ao longo de dez anos de formação (graduação, mestrado e doutorado) na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), reafirmei minha escolha pelo curso de Letras e aprendi uma série de lições, as quais levo comigo para a profissão e para a vida. Aprendi, sobretudo, que conhecimento é para ser generosamente compartilhado, então, neste texto, gostaria de oferecer a você, caro(a) leitor(a), algumas das lições que aprendi com os meus professores: 

O legado de professores: as 8 grandes lições da minha trajetória acadêmica

  1. “Em qualquer lugar no mundo pode ter espaço para a mediocridade, menos na escola”. Ouvi essa frase em uma aula de Filosofia, no primeiro período da graduação, e ela mantém sua importância ainda hoje. O Prof. Ângelo Monteiro, poeta e filósofo, sempre conduziu suas aulas de forma pouco ortodoxa. Figura carismática, expunha opiniões marcantes e fundamentadas em estudos consistentes não apenas sobre Filosofia, mas também Arte e Estética. Esse ensinamento carrega consigo o respeito dele pelo espaço escolar, reforçando o compromisso e responsabilidade do(a) professor(a) em oferecer educação de qualidade e, consequentemente, ampliar o horizonte de possibilidades dos estudantes.

2. “Ler é mais importante do que estudar”. Essa frase é, na verdade, de autoria de Ziraldo, mas acho que a Prof.ª Márcia Mendonça concordaria com ele. A importância de construirmos um repertório que vá além das obras acadêmicas – fundamentais para a nossa formação – e que contemple obras literárias, música, cinema, teatro, cultura pop é condição básica para que as nossas aulas sejam envolventes, interessantes e que mostrem aos estudantes que o conhecimento é, por natureza, dialógico. Nas suas aulas de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, as quais permanecem vivas na minha memória, desde a graduação, a Prof.ª Márcia apresentava excelentes sequências didáticas, nas quais os eixos de leitura, produção textual e análise linguística e semiótica conectavam gêneros e linguagens diversas, ressaltando o caráter vivo e heterogêneo dos estudos linguísticos.

3. “É justo que muito custe o que muito vale”. Essa máxima é atribuída a Santa Teresa D’Ávila, mas poderia ter sido cunhada pela Prof.ª Angela Dionisio. Como minha orientadora de mestrado e coorientadora de doutorado, Angela nunca aceitou menos que a excelência, mesmo que isso não significasse a perfeição, mas empenho na construção. A dedicação dela ao trabalho, seu entusiasmo pela pesquisa, pela docência, sua disposição em fazer com que a gestão elevasse a qualidade dos nossos cursos e a da instituição sempre foram uma inspiração. A Prof.ª Angela sempre foi exigente, criteriosa, mas também muito generosa no suporte, na orientação. Confesso que sofri, em muitos momentos, para alcançar os resultados que ela esperava de mim, mas colho, ainda hoje, os frutos do rigor com que ela me formou.

4. “A pesquisa é sua. Ninguém a conhece melhor do que você”. Ouvi essa frase da minha orientadora de doutorado, a Prof.ª Medianeira Souza, algumas vezes durante o processo de orientação da minha tese. Com muito afeto, generosidade e paciência, Medi – como é chamada pelos seus estudantes e colegas – forjou a minha estima acadêmica. Se hoje acredito que posso escrever bem, que meu texto pode, além de atender às exigências da Academia, ser também interessante, prazeroso, foi Medi quem me ensinou. Durante as diversas reuniões de orientação, ela fazia as críticas ao trabalho, apresentava sugestões para que ele melhorasse, mas sempre incentivou minha autonomia. Nunca deixou de trazer um elogio, uma palavra de incentivo. Fazer com que os estudantes acreditem em seu potencial, dar a eles confiança para seguir em frente é uma marca de grandes professores. Medi está nesse rol.

5. “Escrevam sobre o que quiserem. Vocês já têm que aturar minhas aulas!” Essa resposta, ao questionarmos sobre como seria o texto para a avaliação em uma de suas disciplinas, eu ouvi de um dos maiores linguistas do mundo, o Prof. Luiz Antônio Marcuschi. Tive o privilégio de ser aluna de Marcuschi na graduação, no mestrado e no doutorado e, para mim, era como se eu estivesse diante de um astro da música pop, mas ele tinha uma postura correspondente ao que se classifica hoje, na internet, como “diva acessível”. Sempre acolheu nossas dúvidas basilares e as tratou com importância, oferecendo sugestões de leitura e exemplos. E jamais, em tempo algum, tive que aturar suas aulas. Sempre as acompanhei como se fossem um espetáculo, um grande acontecimento porque era o que, de fato, representavam. Marcuschi era o exemplo de que um grande cientista tem ainda mais valor quando se mostra acessível e disposto a interagir com os aprendizes.

6. “Não há prática que não carregue em seu bojo concepções teóricas nem teoria que não passe por um processo de transformação no contato com a prática”. Esse pensamento é da Prof.ª Elizabeth Marcuschi, ou apenas Beth, como a conhecemos. Em suas aulas, ela nos mostrou que a teoria, se não passar por uma transposição para a prática, perde grande parte de sua importância, e que a prática sem o suporte da teoria tende a ser inconsistente, espontaneísta. Beth me ensinou sobre a importância da coerência entre teoria e prática. Durante a qualificação da minha dissertação de mestrado, ela questionou se eu estava ciente do posicionamento político de um certo colunista de uma revista de grande circulação que eu havia citado na introdução. Eu mencionava um dado extraído de um de seus textos, mas não havia atentado para o fato de que a postura do autor ia de encontro ao que eu defendia nas minhas análises, nas escolhas teóricas que havia feito. A postura responsável de Beth me ensinou que a coerência legitima, dá credibilidade e que as nossas escolhas teóricas definem e suportam a nossa prática.

7. “A arte existe porque a vida não basta”. A conhecida frase do poeta Ferreira Gullar traduz bem a minha experiência como aluna da professora e também poetisa Lucila Nogueira. A presença de Lucila nos corredores e salas de aula do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE já nos ensinava que a arte, a beleza e a poesia deveriam estar presentes no cotidiano, ocupando os espaços mais prosaicos, e não apenas os grandes palcos. Lucila se vestia de forma lúdica, extravagante, sem temer julgamento algum. Parecia estar alheia aos olhares surpresos daqueles que a viam atravessar o hall do prédio, em uma terça-feira de manhã, vestida como uma cigana estilizada. Em sala de aula, Lucila nos ensinou o poder curativo e libertador da poesia. Ensinou que devíamos ler obras de mulheres e, assim, honrá-las, celebrá-las e homenageá-las.

8. “Tudo que nóiz tem é nóiz” (sic). Essa última lição é do cantor e compositor Emicida, mas ela representa todos os professores com os quais convivi durante minha formação, e convivo até hoje, seja no papel de alunos, de amigos, de colegas de profissão. A grande maioria de nós não vem de famílias abastadas. Nós sabemos que não chegamos aqui sozinhos e que não nos mantemos sozinhos. Somos professores porque acreditamos no poder transformador da educação. Somos professores porque nos recusamos a desistir diante das dificuldades, porque incentivamos o sonho, o protagonismo daqueles que não encontram lugar para si na sociedade. Somos professores porque temos consciência da força da coletividade.

Tocou a sirene: apaga a lousa, desliga o computador, recolhe o material. Estuda, planeja, produz. O trabalho não termina. 

Produzir este texto foi, para mim, uma oportunidade de olhar para a minha trajetória, reafirmar a escolha que fiz, ainda adolescente, e homenagear, como uma forma de agradecimento, os professores e professoras que cruzaram o meu caminho. A educação norteou a minha vida e permitiu que eu mantivesse a esperança e a fé na humanidade. Sou cria da universidade pública, onde conheci a potência da educação justa, igualitária, gratuita e de qualidade. Sou professora de uma universidade pública, onde procuro, através do meu trabalho, honrar todos os professores que tive e mostrar aos meus alunos, professores em formação, que essa carreira vale a pena, apesar de todas as dificuldades que enfrentamos.  

Aos meus alunos, desejo que tenham memórias e experiências inspiradoras, emocionantes, desafiadoras como as que tive e que foram responsáveis pela minha escolha e permanência na docência. Espero que reconheçam a sua potência e importância, mesmo quando o mundo parece dizer o contrário. Desejo que tenham esperança porque, sem ela, é melhor nem começar, mas que também tenham consciência dos seus direitos e que exijam ser tratados com o respeito e a dignidade que merecem. Aos meus professores, toda a minha reverência, reconhecimento e agradecimento.  

Minibio da autora 

Paloma Borba é doutora em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professora adjunta do curso de Letras/Português da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do curso de Especialização em Estudos da Linguagem e Formação Docente (LINFOR/UFRPE). Atua na área de Linguística, com ênfase nos estudos sobre Gêneros Textuais, Multimodalidade, Letramentos e Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa.

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