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Compreendendo o Racismo como Problemática Branca

16 de fevereiro de 2026,
E-docente
Compreendendo o racismo como privilégio branco

AApós ser acusada de racismo durante sua participação na 15ª edição do reality A Fazenda, da TV Record, a jornalista Raquel Sheherazade respondeu: “Sou neta de uma mulher negra. Preta como você. Pode não estar na minha pele, mas está nos meus genes. Não tenho culpa se houve miscigenação na minha família. Aliás, ninguém tem culpa por nascer branco ou preto neste país. Somos o resultado de uma miscigenação, de uma união de cores e etnias, e todos merecemos igual respeito”.

Fonte: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/a-fazenda/rachel-sheherazade-rebate-denuncia-de-racismo-em-a-fazenda-15-nao-tenho-culpa-109717

Fenótipo vs. Ancestralidade: O Reconhecimento da Pessoa Negra no Brasil

Não vamos entrar no mérito a respeito do cometimento do crime de racismo ou não pela jornalista. O que nos interessa aqui é o argumento levantado por ela em sua defesa. Como sabemos, no Brasil, diferentemente da história estadunidense, a identificação e o reconhecimento da pessoa negra (parda e/ou preta) se dá pelos traços fenotípicos. Logo, lançar mão de ascendências ou de outros relacionamentos com negros, como “já namorei um negro”, “tenho amigo negro”, “meu marido é negro”, não caracteriza ninguém como tão negro quanto nem muito menos exime de práticas racistas se for o caso.

Ademais, o discurso de Sheherazade também nos permite pensar sobre a responsabilização de pessoas brancas na luta contra o racismo. Nesse sentido, é preciso lembrar que a branquitude se manifesta como um sistema de poder e privilégios, simbólico, jurídico, econômico e  sociocultural. Vamos, então, refletir a respeito dessas questões em que todos, brancos e não brancos, estamos implicados!

Descolonizando o Conhecimento e as Desigualdades Reais

Nesse debate, precisamos falar sobre desigualdades raciais no Brasil. Afirmamos isto porque a cor da pele costuma definir as condições reais de vida de um brasileiro. Quando falamos em privilégios e poder, também devemos olhar para as pessoas que ficam de fora, que não são atingidas pelo sistema que opera simbólica e materialmente na vida de cada um. Quando você acessa lugares privilegiados economicamente, quem são as pessoas que estão lá? Em uma escola particular ou mesmo na universidade, quantos professores são negros?

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ufbZkexu7E0

A escritora Grada Kilomba nos alertou sobre a desumanização da pessoa negra, o que significa entender que o racismo retira sua subjetividade. Daí a necessidade de atuar na contramão da colonização. Nesse campo, a pessoa negra foi colocada como o Outro. Já o indivíduo branco, enquanto vítima compassiva, atribui ao Outro tudo aquilo que rejeita em si. A autora explica como o Outro se constitui no antagonista do eu.

Identidade Política e o Sistema da Branquitude

Na luta antirracista, como no contexto brasileiro que se sustenta no mito da democracia racial, torna-se fundamental a construção de uma identidade política, já que qualquer mudança passa pela autodefinição. Argumentos como o utilizado por Sheherazade costumam ser oportunos para muitos. Então, precisamos entender o que está em jogo.

Ser branco é uma afirmação política. É fato que o indivíduo branco se coloca como universal. A discriminação cria a diferença ou a hierarquização da diferença, como disse Kabengele Munanga. Precisamos lembrar que as diferenças são recíprocas. Por isso, também é indispensável implicar pessoas brancas nessa discussão, já que sistemas racistas se pautam em branquitude.

A historiadora Lília Schwarcz descreve a branquitude como um sistema que se fundamenta em legados históricos e se manifesta no presente, gerando um conjunto de privilégios que se baseia em uma posição de invisibilidade social, em um não lugar. Isto é, a branquitude deve também se autoclassificar, reconhecendo seus poderes e privilégios. Sem esse reconhecimento a luta não avança.

O Reconhecimento de Privilégios Além da Culpa

Voltando à discussão sobre racismo em A Fazenda 15, Sheherazade ainda afirmou: “Não tô aqui pra fazer proselitismo de raça A, raça B, até porque não acredito em raças, acredito numa só raça: a raça humana. Temos várias etnias, vários tons de pele, mas uma raça só, a humana. Temos que ser tratados com igual respeito, pretos, brancos, amarelos, a cor que tivermos”. Como já discutimos aqui no blog, o conceito de raça não se limita ao campo biológico, muito menos se refere a uma crença pessoal, subjetiva de alguém, tratando-se sobretudo de um construto social (ler também https://www.edocente.com.br/blog-raca-etnia/ ).

Durante a discussão no reality, a cantora Cariúcha pontuou: “Mas você é branca. Mas você continua sendo privilegiada. É diferente”. Novamente, não estamos no mérito da prática de racismo pela jornalista. Porém, a cantora trouxe para o debate o que importa, que é o reconhecimento de privilégios.

O Impacto do Trauma e a Voz do Colonizado

O que está no cerne desse debate não é a culpa, mas, sim, o reconhecimento de uma sociedade que se organiza não apenas simbólica, mas, sobretudo, materialmente em torno do racismo. Faz-se necessário, então, desistir de certos privilégios, e isto não é fácil. O vídeo O jogo do privilégio branco, disponível no YouTube, pelo canal ID_BR, é bastante ilustrativo dessa questão.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=MuOE3IJZoZU&t=151s

É interessante observar que, quanto menos afetado por essas questões, mais privilegiado você é. Essa relação inversamente proporcional evidencia o quão desigual é a nossa sociedade. A vida não é igual para todos.

Embora não falemos em culpa, precisamos falar sobre traumas. Mais uma vez, busco as ideias de Kilomba para lembrar que a pessoa negra é confrontada com imagens de sua negritude que estão longe de ser realistas ou mesmo gratificantes. Isto se explica porque o racismo retira do indivíduo quaisquer possibilidades de acessar sua identidade. Trata-se, portanto, de se relacionar com o que o branco fantasia sobre a negritude.

Leia mais: Variação linguística, gramática e ensino: uma discussão necessária

Para entendermos essa perspectiva psicanalítica, em que o indivíduo é vítima de trauma por ser sempre o “Outro”, o diferente, o incompatível, o conflitante, o estranho e o incomum, vejamos como Fanon (2008, p. 118) explica isto:

Eu fui odiado, desprezado, detestado, não pela vizinha do outro lado da rua ou pelo meu primo por parte de mãe, mas por uma raça inteira. Eu competi contra algo irracional. Os psicanalistas dizem que nada é mais traumatizante para a criança do que estes encontros com o que é racional. Eu diria, pessoalmente, que para um homem cuja arma é a razão, não há nada mais neurótico do que o contato com o irracional

Educação Antirracista e a Construção da Empatia

O texto de Fanon nos mostra como pode ser desconfortável ao colonizador (branco) ser confrontado com as verdades do Outro. O negro tem muito a revelar, e isto causa medo no branco que se recusa a ouvir. Por isso, mesmo é comum que pessoas, instituições e estruturas se organizem articuladamente como agentes repressores. Isto explica também por que o conhecimento do Outro não é reconhecido.

Ao negar ao indivíduo negro o direito de falar por si, de se identificar realmente, a pessoa branca aciona um poderoso instrumento de repressão. Ou seja, busca manter distante do seu consciente as verdades do Outro. O vídeo 8 relatos sobre como é ser negro no Brasil, disponível no canal Veja+,  traz uma importante amostra.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=fl6tvDlTJbg&t=83s

Conhecer essas feridas é fundamental para entender os mecanismos pelos quais o racismo opera. É no entendimento dessa dinâmica social que poderemos nos confrontar com esse Outro. Nesse processo, pode ser desenvolvida a empatia que é indispensável para mudanças de comportamentos. É com essa realidade que os indivíduos brancos precisam ser confrontados.

Não é possível conceber uma escola antirracista que não promova momentos de geração de empatia com o diferente. Somente no enfrentamento de suas fragilidades é que a pessoa branca atuará na desestruturação do racismo. Desenvolver uma educação que perceba as diferenças enquanto valores, e não para inferiorizar certos grupos, é promover uma educação antirracista.

Conclusão: Responsabilização e Mudança Estrutural

Esse debate nos força a perceber o grau de desigualdades a que está submetida a pessoa negra, observando o sistema carcerário, por exemplo. Porque é nesse tipo de espaço, situação, que o número de pessoas negras supera, inclusive, o percentual de negros na população brasileira. Já discutimos aqui no blog aspectos importantes da luta antirracista (https://www.edocente.com.br/blog-educacao-antirracismo/ ).

Conhecer a história pelo ponto de vista dos vencidos, e não dos vencedores, mostra-se uma ação de ruptura com os processos de repressão e silenciamento a que os negro foram submetidos. Precisamos romper com esse regime de autorização discursiva. Isto se faz também reconhecendo os favorecimentos e privilégios de determinados grupos.

O reconhecimento é que nos leva à responsabilização. Esse é o caminho para romper com práticas que não estejam comprometidas com mudanças estruturais na sociedade. A educação tem papel fundamental nesse trabalho. Este é um convite para que possamos conhecer outros autores e que possamos conhecer o Outro por ele mesmo, e não através do  colonizador.

Referências

FANON, Frantz. Pele Negra, máscaras brancas. Tradução: Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

KILOMBA, Grada. A máscara. Tradução: Jesus, J. O. Cadernos de Literatura em Tradução, n. 16, p. 171-180, 2015.

MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de Raça, Racismo, Identidade e Etnia. In: Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira. Niterói: EDUFF, 2000.

MUNIZ, Kassandra. Educação antirracista: o que é e como aplicá-la. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=T_P4_iYaTC4.

RIBEIRO, Djamila. “O racismo é problemática branca”, diz Grada Kilomba. https://www.cartacapital.com.br/politica/201co-racismo-e-uma-problematica-branca201d-uma-conversa-com-grada-kilomba/.

Minibio da autora

Jaciara Gomes é Doutora em Linguística (UFPE) e Professora Adjunta na UPE. Pesquisadora de práticas de letramento e relações étnico-raciais, lidera o grupo Lepdic e coordena o projeto Culperifa, atuando na fronteira entre a pesquisa acadêmica e as culturas periféricas.

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