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Vamos falar de anticapacitismo na escola? Por uma desconstrução de preconceitos

17 de dezembro de 2025,
E-docente
Vamos falar de anticapacitismo na escola

Como aprender a lidar com diferenças sem verdadeiramente conhecer o que é diferente?

Na escola, a compreensão sobre a beleza da diversidade e das diferenças é algo teorizado e colocado em planos e projetos educacionais como um pilar para a formação de uma sociedade mais equânime.

Mas como isso pode se concretizar num cotidiano marcado por concepções prévias e construções sociais que se transformam em preconceitos? Para aprender a lidar com diferenças, é preciso reconhecê-las e compreender que diferença não significa impossibilidade, que não é um atributo negativo, como habitualmente é retratada.

Dentre as várias formas de preconceito, deparamo-nos com o capacitismo. E este texto trata justamente disso: de refletirmos sobre esse conceito, com o objetivo de pensar em como promover uma educação anticapacitista na escola junto a crianças, adolescentes, jovens e toda a comunidade escolar.

O que é capacitismo?

Nós sabemos o que é racismo? Sexismo? Misoginia? Xenofobia? Certamente. Muitas discussões importantes ocorrem e precisam ocorrer para dar visibilidade a situações que devem ser combatidas. A escola tem tentado fazer isso. E, nesse mesmo escopo, pode-se perguntar: o que é capacitismo?

Capacitismo é a discriminação contra pessoas com deficiência. Essa atitude se baseia na presunção de que existe um padrão físico e comportamental “capaz”, e qualquer desvio desse padrão aponta para um atributo de inferioridade ou incapacidade. Essa ideia leva à exclusão e à invalidação das inúmeras possibilidades de ser e estar na sociedade das pessoas com deficiência.

É importante pontuar que a discriminação não está somente no comportamento individual. O capacitismo se revela também nas barreiras e na falta de acessibilidade existentes nos ambientes físicos, na comunicação, nos transportes e no uso da tecnologia, por exemplo.

Para promover uma educação anticapacitista, não bastam palestras pontuais em datas específicas, ela precisa acontecer na prática diária, na experiência que transforma o modo como enxergamos o outro e a nós mesmos. É uma construção a ser vivenciada, para além da conceituação e da compreensão teórica.

Refletir sobre o capacitismo nos confronta com um questionamento pessoal: quando sou capacitista? Quando naturalizo expressões como se não houvesse problema no uso das palavras? Quando infantilizo uma pessoa adulta com deficiência para “protegê-la”? Quando, intimamente, acredito que um estudante com deficiência não vai aprender, justamente porque tem uma deficiência? O quanto sou capacitista? Vamos pensar…

Educação anticapacitista: o papel da escola

A escola tem o potencial e o dever de ser um agente ativo na desconstrução dessa lógica que incapacita e exclui. Isso perpassa a vida, não é uma discussão vazia que não me afeta. Falar sobre e analisar situações capacitistas cabe na escola. Tem que caber.

Práticas pedagógicas consistentes estão alinhadas a bases legais e teóricas de sustentação. A luta anticapacitista na educação se ampara, por exemplo, na Lei Brasileira de Inclusão – LBI (Lei nº 13.146/2015), que assegura o direito a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, apontando para a eliminação de barreiras e para a organização de um sistema de apoio que promova o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência.

Da mesma forma, podemos citar a teoria sociocultural de Vygotsky, que afirma que o aprendizado é um processo social que se dá na relação entre pessoas e instrumentos culturais. Nesse processo, a ação docente é mediadora: educadores oferecem os suportes necessários para que cada estudante avance, considerando todo o seu potencial. Isso combate diretamente a ideia capacitista de esperar menos de um aluno, pois a deficiência não define o limite de aprendizagem de alguém.

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho. Os homens se educam em comunhão, mediados pela realidade”. Esse ensinamento de Paulo Freire é um pressuposto para o desenvolvimento de práticas escolares visando à desconstrução coletiva de preconceitos e à formação de uma cultura anticapacitista.

Da teoria à prática: como agir na escola?

A intencionalidade pedagógica é o que move o cotidiano escolar. Assim, para que todo o discurso se transforme em aprendizagem, o planejamento de um conjunto diversificado de atividades e estratégias deve ser elaborado e aplicado durante todo o período letivo, de modo contínuo e sistemático.

A seguir, apresentamos algumas ideias a serem analisadas, ampliadas e adequadas a cada realidade. São possibilidades de vivências para toda a comunidade escolar e, dependendo do objetivo, podem servir para a formação docente, a interação com as famílias ou as práticas de sala de aula junto aos estudantes.

Filmes e animações para promover debates:

Como exemplo, entre inúmeros títulos, podemos citar o filme Extraordinário, em que há cenas que permitem refletir sobre o papel da escola, da relação familiar e das interações entre as crianças.

Existem várias animações curtas e interessantes, disponíveis no YouTube, como Ian, Cordas (Cuerdas), Por que, Heloísa?, Fitas, EX-ET, Os olhos do pianista, Tamara, El cazo de Lorenzo, Leonel, pé-de-vento, entre outros, que podem disparar muitos assuntos e construir novas experiências em relação às diferenças.

Pessoas com deficiência em cena:

A elaboração de projetos para conhecer a biografia de pessoas de destaque das áreas das artes, das ciências e dos esportes amplia a visão sobre possibilidades e autonomia.

Conhecer a vida e a história de Frida Kahlo, Stephen Hawking, Stevie Wonder, Temple Grandin, assim como de vários paratletas, músicos, artistas e cientistas, inclusive brasileiros, traz realidades de pessoas ativas e influentes.

Leia mais: Ser e Aprender — Abrindo Caminhos: a solução completa para a Educação Inclusiva

Protagonismo na literatura:

Incluir sempre, nas rodas de leitura, livros cujo protagonismo é de personagens com deficiência ou de autores com deficiência.

Hoje, a literatura é ampla nesse aspecto; é preciso uma procura adequada e um olhar sensível, pois há muito material de qualidade para o nosso dia a dia. Há também obras que abordam diferenças e possibilidades por meio de metáforas e enredos sensíveis, como A Parte que Falta, de Shel Silverstein.

Glossário anticapacitista:

A criação coletiva de um material informativo, onde os autores (podem ser estudantes, professores, funcionários da escola, familiares) pesquisam e listam expressões capacitistas do dia a dia — como “dar uma de João sem braço”, “está cego?”, “que mancada”, “mongol”, “é surda, mas é linda”, “é deficiente intelectual, mas trabalha”, “usa cadeira de rodas, mas é casado e tem filhos” — é uma ótima atividade.

Leia mais: O que é a Educação Inclusiva: conceitos fundamentais

Para cada expressão, o grupo cria explicações sobre por que ela é ofensiva, apresentando alternativas para um melhor uso das palavras.

Rodas de conversa com pessoas com deficiência:

Trazer para a sala de aula pessoas do entorno, da comunidade ou das famílias, que tenham alguma deficiência, para que falem sobre seu dia a dia, seus sonhos, desafios e realidade, para além da deficiência.

Estudos de caso:

Promover diálogos a partir de relatos, pequenas histórias ou imagens que envolvam rótulos e situações que precisam ser problematizadas.

Leia mais: Educação inclusiva e educação especial: um guia estratégico para gestores e professores da rede pública

Por exemplo: uma imagem de alguém isolado com a frase: “Ele é autista, então prefere ficar sozinho”; imagens de crianças brincando juntas — algumas cadeirantes, outras cegas — em interação no mesmo espaço; contar o caso de uma criança cadeirante que não pode participar de uma brincadeira porque o espaço é inacessível; relatar sobre um rapaz surdo ignorado na roda de amigos.

Olhar para a acessibilidade:

Em vez de simulações que possam reforçar estereótipos (como simular uma cegueira com uma venda nos olhos), a proposta é que os participantes (sejam alunos, docentes, funcionários ou familiares) observem o espaço escolar ou alguma área de lazer próxima e analisem: existem rampas? Há banheiros acessíveis? Como uma pessoa com baixa visão se locomoveria neste espaço? Este espaço é para todos? Qualquer pessoa pode usufruir deste lugar? A tarefa é identificar barreiras e propor soluções concretas.

Além disso, no dia a dia, o planejamento didático deve garantir que os estudantes com deficiência ou com outras especificidades, que estão presentes nas salas de aula, possam participar das atividades, contribuindo de variadas formas e valorizando múltiplas habilidades. Se um aluno com deficiência intelectual ainda não escreve como os outros, ele pode pesquisar imagens para compor trabalhos coletivos; um estudante com TDAH pode fazer a apresentação oral representando seu grupo.

Leia mais: Educação inclusiva e multiculturalismo

A elaboração de materiais manipuláveis, sensoriais, em leitura fácil, o uso de legendas, de textos em multiformatos, e outras formas diversificadas de acessibilidade, atendem a turma toda e, especificamente, garantem o acesso ao conhecimento para alunos com deficiência.

Assim como o planejamento de atividades recreativas diversificadas como jogar bola sentado, brincadeiras sensoriais que não dependam da visão, usar bolas com guizos e jogos cooperativos podem promover a participação de todos para que brinquem juntos. A escola é para todos e com todos.

Um compromisso contínuo

Para finalizar sem concluir, vamos nos apoiar numa afirmativa de Mariana Rosa e Karla Garcia Luiz, autoras de um material chamado Como educar crianças anticapacitistas (2023), organizado por Geisa Böck e ilustrado por Paloma Santos:

Numa abordagem da ética do cuidado e da justiça social, nenhuma pessoa pode ser deixada para trás – o que significa dizer que, sem esse princípio fundamental que leve em conta todas as pessoas, não há democracia.

Então, refazendo a pergunta inicial… Como aprender a lidar com diferenças sem reconhecer a potência de cada um?

Desconstruir preconceitos e educar para uma cultura anticapacitista é um processo que exige compromisso e diálogo constantes. A escola cumpre seu papel ao promover práticas colaborativas, representativas e reflexivas que podem tornar o mundo mais equânime e humano.

Márcia Marin Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Professora Titular aposentada do Colégio Pedro II. Doutora e mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Graduada em Pedagogia, com habilitação em Educação Especial (UERJ). Áreas de interesse: formação docente; processos de escolarização de pessoas com Deficiência Intelectual; práticas pedagógicas diferenciadas; ensino colaborativo.

Referências

ROSA, Mariana; LUIZ, Karla Garcia. Como educar crianças anticapacitistas [livro eletrônico]. Organização Geisa Leticia Kempfer Böck; ilustração Paloma Santos. 1. ed. Florianópolis, SC: Ed. das Autoras, 2023. PDF. Bibliografia. ISBN 978-65-00-70965-0. Disponível em: livreto_v8_16915865291588_4647_1691588551302_4647.pdf. Acesso em: 15 ago 2025.


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