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Entrevista Exclusiva: O Ensino de Geografia nos Anos Iniciais e a Construção do Pensamento Espacial

26 de junho de 2026,
E-docente
Geografia nos Anos Iniciais - entrevista autora Apis Mais Geografia

O desenvolvimento do raciocínio geográfico e o ensino de geografia nos anos iniciais do Ensino Fundamental configuram um dos pilares mais desafiadores e essenciais da educação contemporânea. Mais do que memorizar capitais ou contornos de mapas, a criança precisa aprender a ler o mundo através do espaço.

Com a aprovação da coleção Ápis Mais Geografia para o PNLD 2027 Anos Iniciais (Editora Ática), conversamos com a sua principal autora, a Dra. Maria Elena Simielli. Nesta entrevista exclusiva, a maior referência em Cartografia Escolar do Brasil detalha como transformar mapas, gráficos e o próprio entorno dos alunos em ferramentas vivas de investigação, cidadania e letramento.

O processo de apropriação da linguagem gráfica e o desenho infantil

A compreensão do espaço geográfico pela criança não ocorre de forma imediata; trata-se de uma construção progressiva que demanda intencionalidade pedagógica. Para que o aluno passe de uma percepção puramente intuitiva do seu entorno para o domínio de representações mais complexas, como plantas e mapas, o professor deve atuar como um mediador dessa transição cognitiva. O ponto de partida fundamental é a compreensão de que a Cartografia se ancora em uma linguagem essencialmente gráfica.

De acordo com a Dra. Maria Elena Simielli, o domínio dessa estrutura de comunicação acompanha de perto o amadurecimento intelectual do estudante. Por essa razão, a prática pedagógica deve, obrigatoriamente, iniciar-se na realidade concreta, valorizando o espaço que a criança já conhece, vivencia e habita, para só então expandir as fronteiras em direção a recortes espaciais mais amplos e abstratos.

Nesse cenário, os primeiros anos escolares oferecem uma janela de oportunidade única. É o momento em que o desenho infantil ocupa um lugar central na rotina pedagógica como forma de expressão espontânea e legítima. O trabalho cartográfico inicial conecta-se diretamente a essa manifestação. Gradualmente, o professor direciona o olhar do aluno do desenho livre para a decodificação de símbolos e códigos padronizados.

“O domínio dessa linguagem segue um processo que acompanha o desenvolvimento cognitivo da criança”

Esta transição cuidadosa é o que possibilita a formação de alunos que sejam, simultaneamente, leitores críticos do mundo e mapeadores conscientes de sua própria realidade.

A iconografia como fonte de investigação e leitura crítica do mundo

Muitas vezes, recursos visuais como fotografias, croquis e gráficos são relegados a um papel meramente ilustrativo ou decorativo nos materiais didáticos. Romper com essa lógica é urgente para consolidar uma Geografia verdadeiramente investigativa nos anos iniciais. A iconografia precisa ser encarada como um documento rico, um excelente meio de transmissão de informações que exige método e leitura efetiva.

Para guiar as crianças na análise de fotografias, por exemplo, a metodologia proposta pela autora estabelece um roteiro prático de perguntas estruturantes que extraem dados diretamente da imagem:

  • O quê? estimula o aluno a identificar os elementos retratados.
  • Onde? ativa o senso de localização espacial.
  • Quando? insere a indispensável dimensão temporal e histórica.
  • Como? leva a turma a refletir sobre as técnicas e o meio de produção daquela imagem.

No caso dos croquis, a estratégia pedagógica ideal começa com a própria ação do estudante: orienta-se primeiro a confecção de croquis simples baseados em fotografias familiares para, em um segundo momento, avançar para a leitura geral de croquis mais abstratos, dos quais se extraem informações progressivamente complexas.

Já a abordagem dos gráficos nos anos iniciais exige o respeito à percepção natural do aluno. O caminho mais eficiente é iniciar por gráficos de colunas com disparidades visuais evidentes (da menor para a maior). Esse formato permite que a criança deduza imediatamente as noções de “mais” e “menos” pela simples observação da anatomia do gráfico. Somente após a consolidação dessa leitura intuitiva e qualitativa é que o professor deve introduzir o trabalho com os valores numéricos e dados quantitativos específicos.

A iconografia tem que ir muito além da ilustração, sendo um excelente meio de comunicação e transmissão da informação, desde que corretamente trabalhada pelo professor. — Dra. Maria Elena Simielli

A transição das escalas e o desafio do tridimensional para o bidimensional

Um dos nós metodológicos mais complexos no ensino de Geografia e Cartografia no Ensino Fundamental está no manejo das escalas e na capacidade de fazer o aluno compreender espaços macro (como o território brasileiro) sem que isso se torne uma abstração vazia e desconectada de sua vida. Para assegurar que o aprendizado seja incorporado de forma perene, a regra de ouro consiste em partir sempre do plano mais próximo e concreto para o mais distante.

Leia mais: Como usar o Google Earth nas aulas de Geografia: sequência didática para o Ensino Fundamental Anos Finais 

O principal desafio cognitivo dessa etapa reside na transição da visão tridimensional — aquela que a criança experimenta no dia a dia — para a representação bidimensional das folhas de papel e telas. Quando lidamos com um mapa físico ou de relevo do Brasil, estamos exigindo que o estudante domine, simultaneamente, a redução proporcional da escala, a interpretação de legendas complexas (como as cores altimétricas) e a adoção da visão vertical (olhar de cima para baixo).

Para vencer essa barreira, a coleção Ápis Mais Geografia propõe uma transposição didática fascinante, que ancora o conceito de altitude no próprio corpo do estudante. O ponto de partida é a análise da mão da criança, onde é fácil identificar visualmente as diferentes alturas dos dedos. A partir dessa experiência tátil e anatômica, a mediação pedagógica evolui para a construção e estudo de uma maquete tridimensional. Somente após a compreensão desse intermediário físico é que os alunos são conduzidos à leitura do mapa do Brasil, associando com naturalidade as cores da legenda às diferentes altitudes do relevo do país.

A pesquisa e o estudo do meio como impulsionadores do raciocínio espacial

Levar a aprendizagem para além das barreiras físicas do livro didático e promover investigações de campo são ações que, embora exijam planejamento rigoroso e tirem a rotina da zona de conforto, geram retornos inestimáveis para o desenvolvimento do raciocínio espacial. A observação direta in loco permite que a criança teste hipóteses, colete evidências e confronte a teoria com a dinâmica viva do espaço urbano ou rural.

Leia mais: O diálogo necessário entre Geografia e História

Reconhecendo a riqueza desse encaminhamento, a estrutura didática da obra foi pensada para amparar o docente nesse desafio. Através de seções estruturadas como o Pesquise, o material conecta os temas de cada capítulo a proposições práticas de investigação coletiva ou individual. Isso garante que a pesquisa não seja um evento isolado, mas parte orgânica de uma Geografia investigativa que estimula a autonomia e a curiosidade científica desde a infância.

É importante enfatizar que a Cartografia utiliza a linguagem gráfica. O domínio dessa linguagem segue um processo que acompanha o desenvolvimento cognitivo da criança, daí a necessidade de partir de uma realidade próxima. — Dra. Maria Elena Simielli

O papel da Geografia nos Anos Iniciais: o processo de alfabetização e letramento

Há uma profunda e virtuosa sinergia entre o aprendizado das ciências humanas e o ciclo de alfabetização nos anos iniciais. Longe de ser uma disciplina isolada, a Geografia atua como um vetor de ampliação cultural e letramento, fornecendo contextos reais e significativos para o domínio da palavra escrita. A apropriação de palavras-chave e conceitos geográficos elementares funciona como um poderoso motor para o enriquecimento do vocabulário e para a estruturação do pensamento lógico da criança.

Leia mais: O papel do professor no combate à reprovação e evasão escolar

Expressões que definem relações espaciais, paisagens e dinâmicas sociais ganham contornos nítidos quando trabalhadas sistematicamente. Na coleção aprovada para o PNLD 2027, essa preocupação ganha contornos práticos e lúdicos por meio da seção dedicada Minha Coleção de Palavras de Geografia. Ao isolar, conceituar e aplicar termos fundamentais da ciência geográfica dentro do universo infantil, o material oferece um suporte robusto que ampara o letramento global do estudante, provando que aprender a ler o espaço e aprender a ler a língua portuguesa são processos que andam de mãos dadas.

Cidadania, sustentabilidade e a pegada ecológica no cotidiano escolar

Abordar temas socioambientais contemporâneos de alta complexidade, como a sustentabilidade, as mudanças climáticas e as intensas transformações causadas pela ação humana nas paisagens, exige do educador uma postura ética, responsável e desprovida de alarmismos pedagógicos vazios. Com crianças pequenas, o caminho mais eficaz para a conscientização não passa pela teorização distante, mas pela inserção direta do aluno no centro do problema, correlacionando grandes temas globais às suas pequenas ações diárias.

Essa filosofia pedagógica é materializada nos livros através de sequências didáticas que promovem o protagonismo e o exercício active da cidadania. Um dos grandes destaques práticos é o trabalho voltado à conservação ambiental por meio da atividade da “pegada ecológica”. Adaptada para a faixa etária, a proposta orienta os estudantes a mapearem e calcularem, de forma lúdica e visual, o volume de recursos naturais que consomem em suas rotinas (como água, energia e produção de lixo).

Ao mensurar esse impacto, “fica evidente o problema que cada um de nós pode deixar como marca no nosso espaço de vivência”, ressalta a pesquisadora. Esse diagnóstico individual e coletivo serve como o gatilho perfeito para um debate profundo sobre responsabilidade compartilhada, culminando em projetos práticos de intervenção, cuidado e preservação do meio ambiente dentro da comunidade escolar.

Avaliação formativa: os pontos de partida e de chegada na evolução espacial

Por fim, a consolidação de um pensamento espacial robusto requer um olhar atento e contínuo sobre o percurso de aprendizagem de cada estudante. A avaliação em Geografia não deve se limitar a testes somativos de memorização ao final dos ciclos; ela precisa ser essencialmente diagnóstica e processual, servindo como uma bússola tanto para o professor reorientar suas estratégias pedagógicas quanto para a coordenação pedagógica acompanhar a evolução da turma.

A dinâmica proposta na coleção através dos eixos estruturais Ponto de Partida e Ponto de Chegada ilustra perfeitamente a importância dessa prática. O Ponto de Partida, aplicado no início do ano letivo, funciona como uma sondagem diagnóstica profunda, mapeando as noções espaciais prévias, os níveis de letramento cartográfico e as vivências trazidas pelos alunos. É essa fotografia inicial que confere ao docente a real dimensão de onde residem as principais defasagens e em quais tópicos a atenção deve ser redobrada.

Com um planejamento personalizado e calibrado por esse diagnóstico, o percurso ganha fluidez, permitindo monitorar o avanço processual e garantir que a turma atinja o Ponto de Chegada com resultados substancialmente mais sólidos, conscientes e significativos.

Sobre a Autora

Maria Elena Simielli é Doutora em Geografia Física e Livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP). Com uma vasta e reconhecida trajetória docente, é considerada a principal referência no Brasil na área de ensino de Cartografia Escolar. Sua atuação profissional destaca-se pela capacidade ímpar de unir o rigor teórico-acadêmico à prática pedagógica cotidiana das salas de aula, acumulando experiências valiosas tanto na rede pública quanto na rede particular de ensino.

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