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Técnicas de escuta ativa e acolhimento de alunos em vulnerabilidade e/ou sofrimento psíquico

19 de setembro de 2025,
E-docente
Técnicas de escuta ativa e acolhimento aos alunos_famílias em vulnerabilidade

O ambiente escolar apresenta contextos e histórias dinâmicas, muitas vezes consolidando cenários complexos de vulnerabilidade social e sofrimento psíquico. Isso exige da equipe pedagógica uma postura coerente com os desafios cotidianos que ali surgem, e a escuta ativa é uma ferramenta crucial para isso. Situações de violações de direitos, adoecimento, processo de perdas, luto, dentre outros processos pessoais, podem interferir direta e indiretamente no processo de trabalho do professor ou da equipe pedagógica. Para melhor lidar com essas experiências tão frágeis, é necessário e urgente que o profissional de Educação se instrumentalize com técnicas de acolhimento, com o intuito de melhor compreender e direcionar ações que sejam úteis no momento em que é procurado.

O que é acolhimento?

Acolhimento é uma diretriz ética da Política Nacional de Humanização (PNH), envolvendo escuta ativa, reconhecimento da autonomia do indivíduo e responsabilização compartilhada. Usando por empréstimo alguns conceitos da Saúde, o acolhimento é uma postura ética, sem limites de tempo ou profissional, focada em escutar, respeitar e responder às necessidades dos usuários.

Uma das melhores definições sobre acolhimento é a do Ministério da Saúde (2006) que diz que acolher é dar acolhida, ou seja, admitir, aceitar, dar ouvidos, dar crédito a, agasalhar, receber, atender, admitir. O acolhimento como ato ou efeito de acolher expressa, em suas várias definições, uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, uma atitude de inclusão. Essa atitude implica, por sua vez, estar em relação com algo ou alguém.

Leia mais: O professor como agente de detecção precoce: Guia prático para identificar sinais de sofrimento nos alunos

A relação entre acolhimento e escuta ativa

A escuta ativa é uma forma segura de garantir acolhimento. Trazendo essas diretrizes para a sala de aula, é possível citar Oliveira-Formosinho (2013), que, por sua vez, afirma que a escuta ativa é fundamental na construção do conhecimento infantil. Isso envolve ouvir atentamente a criança, valorizar suas contribuições e registrar suas ideias para criar um processo de aprendizado colaborativo e significativo. Para alcançar tal feito, é essencial implementar uma abordagem contínua e ética no cotidiano educativo, buscando entender os interesses, as motivações e as experiências das crianças dentro da comunidade escolar (Oliveira-Formosinho, 2013).

Leia mais: A escuta ativa como elemento da oralidade

Parente (2011) reforça que observar e escutar crianças envolve registrar detalhadamente suas ações, palavras e realizações para compreender suas potencialidades. A análise das interações infantis revela que a participação efetiva é um desafio para todos os envolvidos. É impossível acolher efetivamente sem que haja uma escuta ativa. A escuta ativa exige que o profissional de Educação mantenha um genuíno interesse em conhecer o aluno, estando aberto e disponível para ele.

Como praticar a escuta ativa?

Para promover o desenvolvimento e o aprendizado infantil, é fundamental que educadores pratiquem uma escuta ativa, oferecendo atenção personalizada e relações significativas. Isso envolve o papel do educador no cumprimento de alguns passos técnicos que organizei para vocês a partir da abordagem centrada na criança/adolescente. Aprimorei essas práticas na condição de psicóloga clínica com 16 anos de atuação em consultório particular e ambulatórios do Sistema Único de Saúde (SUS), bem como na experiência apurada da Psicologia Escolar. São estes os passos:

  • Entender interesses e necessidades individuais.
  • Fomentar curiosidade e exploração.
  • Proporcionar experiências diárias enriquecedoras.
  • Conhecer com detalhes quem é a criança em vários aspectos de sua existência.
  • Fazer observações cuidadosas e intencionais.
  • Ter atenção resolutiva e voltada para a ação.
  • Escutar atenta e reflexivamente.
  • Orientar de maneira personalizada.
  • Criar um ambiente educacional confortável, confiável e motivador.
  • Minimizar julgamentos/juízo de valor.
  • Eliminar preconceitos (não revitimizar o aluno).
  • Atentar para a responsabilização permanente.
  • Atender às necessidades infantis e familiares.
  • Desenvolver competências e potencialidades.
  • Fomentar investigação e criatividade.
  • Garantir um início de relação de cuidado, assistência e proteção.
  • Estar disponível para ouvir, com tempo hábil e imparcialidade.

A incorporação e a prática efetiva da escuta ativa são possíveis mediante alguns princípios, que descrevo a seguir.

Princípios para o acolhimento e a escuta ativa

O acolhimento é uma prática essencial em diversas áreas, como Saúde, Educação e Assistência Social (Santos; Quixadá, 2023). Envolve criar um ambiente seguro, respeitoso e empático para receber indivíduos em situações vulneráveis. Para tanto, é fundamental que se preservem alguns princípios do acolhimento e escuta ativa:

  1. Atenção às expressões não verbais: observe as expressões faciais e corporais para compreender melhor a situação. Concentre-se na fala. Utilize linguagem corporal aberta e acolhedora.
  2. Não repressão de emoções: permita que a vítima expresse seus sentimentos sem julgamento.
  3. Disponibilidade e imparcialidade: esteja disponível para escutar e mantenha uma postura neutra.
  4. Gestão eficaz do tempo: verifique a disponibilidade, comunique-se claramente e controle o tempo.
  5. Interesse genuíno: mostre interesse real em compreender o caso.
  6. Curiosidade construtiva: faça perguntas para esclarecer dúvidas.
  7. Empatia: compreenda e valide os sentimentos.
  8. Perguntas abertas: encoraje a vítima a compartilhar informações.

Durante a escuta de situações que envolvam violações de direitos, registre os principais pontos e conte com uma testemunha de confiança. Antes de registrar, confirme sempre o que o aluno disse com: “Deixe-me ver se compreendi e você me corrige caso tenha me equivocado”, e repita como compreendeu a situação, repetindo suas palavras e pedindo correções necessárias.

Leia mais: Como trabalhar a alfabetização emocional na educação infantil

Fomente a autonomia e força do aluno, reposicionando-o como agente do processo. Estimule a responsabilização e ação dentro do processo e questione:

  • O que você espera de mim e da escola nesse momento?
  • Como imagina que essa situação deva ser solucionada?

Recomendações pós-escuta ativa

Após a escuta ativa, é possível garantir assistência através de encaminhamentos que possibilitem que o aluno tenha acesso a uma escuta qualificada por meio de profissionais de saúde mental ou que preconizem proteção social (Santos; Quixadá, 2023).

É importante avaliar as condições da vítima de buscar rede de apoio; caso haja contexto de violência, é preciso buscar Ministério Público, Conselho Tutelar, Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas) ou uma delegacia especializada. É fundamental que se criem orientações práticas a curto, médio e longo prazo, além de encaminhamentos de acordo com a avaliação (condições psíquicas/emocionais diante do assédio, apoio familiar, financeiras etc.). Também é preciso transmitir validação e retorno continuado ao estudante, tirá-lo do contexto do isolamento e medo e fomentar fortalecimento coletivo escolar para enfrentamento dos agentes estressores.

Minibio da autora

Camille Gomes é Psicóloga pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com prática clínica há 15 anos. Tem título de especialista em Psicologia Social pelo Conselho Federal de Psicologia, é Mestra em Antropologia e especialista em Terapia Familiar pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa sobre educação, relações raciais, gênero e saúde reprodutiva. É professora universitária há 9 anos, atua no SUS e é discente de Pedagogia na UFPE.

Referências

SANTOS, Camila Maria Ferreira dos; QUIXADÁ, Luciana Martins. Reflexões sobre a empatia e a escuta ativa no contexto escolar. Práticas Educativas, Memórias e Oralidades, v. 5, n. 1, p. 1-17, 2023.

FORMOSINHO, João. Prefácio. OLIVEIRA-FORMOSINHO, Julia (org.). Modelos pedagógicos para a Educação de Infância: construindo uma práxis de participação. Porto: Porto Editora, 2013, p. 9-24.

PARENTE, Cristina. Observar e escutar na creche: para aprender sobre a criança. Porto: CNIS, 2012.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política Nacional de Humanização (PNH). Cartilha da PNH: Acolhimento com classificação de risco, 2004.

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