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A escola é do estudante: o protagonismo discente como essencial para a formação de uma nova escola 

27 de maio de 2026,
E-docente
A escola é do estudante - o protagonismo discente como essencial para a formação de uma nova escola 

Atualmente, percebemos um crescente desinteresse de jovens pela escola, o que nos traz diversas preocupações como educadores. Diante disso, debater o protagonismo discente torna-se fundamental, pois diversos trabalhos ressaltam a necessidade de uma reinvenção da instituição escolar, seja no que diz respeito à forma, à estrutura ou ao conteúdo trabalhado. As demandas do mundo atual mudaram, mas e a escola? 

A insatisfação parte não só dos alunos, que vêm demonstrando até fisicamente tal incômodo, mas também dos professores e dos demais atores do processo educacional. E esse problema não está somente nas escolas públicas, mas em todas essas instituições que insistem em se manter, em sua maioria, em uma estrutura que remete ao século XIX, cuja centralidade está longe das necessidades reais do estudante. 

Leia mais em: Saúde mental dos alunos nas escolas públicas: dados e desafios

Críticas à educação tradicional: de Paulo Freire a José Pacheco

Paulo Freire, em sua Pedagogia do oprimido (1987), critica a chamada educação bancária oferecida nas salas de aula, que, resumidamente, reflete a crença de que os estudantes, passivos, quanto mais conteúdos adquirirem, mais preparados estarão. É comum ouvirmos por aí coisas do tipo: “A escola W que é boa, porque meu filho está sempre cheio de tarefas para fazer”; ou: “Eu quero que meu filho estude na escola X porque lá ele vai sair pronto pro vestibular”. Mas cadê a educação libertadora? A pedagogia da autonomia? Nada disso importa? 

Outro educador que traz pensamentos revolucionários é o português José Pacheco, criador da Escola da Ponte, de Portugal. Para ele, temos, na média, uma Pedagogia do século XIX, com profissionais do século XX, tentando atuar no século XXI. A partir dessa crítica, ele nos traz ótimas ideias a partir de sua experiência na criação dessa escola, que seria a única do mundo em que o estudante é o protagonista de verdade. 

Ao longo deste texto, refletiremos sobre algumas situações que nos fazem pensar se é possível essa escola agradável, atraente, colocar verdadeiramente o estudante como centro, como protagonista. Ou se isso é uma utopia pedagógica para a realidade brasileira, como alguns insistem em dizer quando tratamos de qualquer melhoria em nossa educação, principalmente a pública.

O desafio de aplicar o protagonismo discente na realidade escolar

Quem é o protagonista na escola?

Sejamos sinceros: em qual escola o aluno é verdadeiramente o protagonista? Você conhece alguma instituição em que o planejamento parta de suas reais necessidades? Os jovens são ouvidos para que, a partir daí, toda a equipe pedagógica desenvolva seus planejamentos?  

Normalmente, o caminho é contrário: todo o plano parte de instâncias superiores, até mesmo de fora da escola, e são impostos a cada instituição, a fim de que diretores, orientadores pedagógicos, coordenadores, professores, cumpram planejamentos totalmente distantes da realidade da comunidade escolar. E isso traz insatisfação a todos, não só aos estudantes. 

Leia mais: Participação política nos Anos Iniciais: a construção de pequenos cidadãos

Há muito tempo, partimos de uma ideia de que os discentes, por serem os pares menos experientes, não sabem do que necessitam, e precisam de nós, professores, para dizer o que é melhor para eles. Claro, há experiências de escolas mais atentas, que se reúnem com os estudantes e fazem uma anamnese detalhada a fim de conhecer melhor a realidade de cada um. Porém, não percebemos uma estruturação de todas as ações para que tudo parta realmente desse conhecimento adquirido. Fazem-se adaptações dos conteúdos predeterminados a alguns casos específicos, o que acaba mantendo o estudante como coadjuvante, não como protagonista, tomador de decisões. 

O modelo atual e o conceito de “cela de aula”

“Tiago, como vamos estruturar as escolas se temos de dar conta de salas com até 45 alunos? Falar é fácil, né?”. Meu leitor, sei que é complexo, e é aí que está o grande problema. A ideia de uma sala de aula fechada e uma pessoa que tem de dar conta de 45 outros seres, de uma outra geração, que preferiam estar fazendo qualquer outra coisa que os interessasse, com componentes curriculares fatiados, que não conversam entre si e muitas vezes não se aplicam à realidade em que vivemos, pode dar certo? Por isso, estão todos aflitos para saírem “em condicional”, tendo como momento mais esperado “a hora do recreio” ou “a hora da saída”. Entendem agora o conceito de “cela de aula”?

Figura 1: Representação de uma sala de aula tradicional. (Fonte: Imagem gerada por Inteligência Artificial via ChatGPT) 

Vivemos em um mundo completamente diferente daquele em que essa estrutura de escola foi criada, por isso, não é possível que permaneçamos tentando implementar as mesmas estratégias de dois séculos atrás. Quais seriam as saídas, então?

Conhecer e entender o ser humano na educação

Recomendo que assistam a uma entrevista do professor José Pacheco, criador da Escola da Ponte, em Portugal: Especial José Pacheco – Escola da Ponte. Ele traz um depoimento muito motivador, ressaltando como o sucesso de sua escola está intrinsicamente ligado à questão da atenção ao ser humano, às necessidades que cada um tem, o que parece ter sido esquecido na maioria das fracassadas escolas da atualidade e das últimas décadas (que são praticamente as mesmas).  

O professor fala, entre tantas outras coisas, da importância de olharmos para os nossos estudantes como seres únicos, cada qual com suas necessidades, anseios, medos. Somos de gerações diferentes, geralmente de classes sociais diferentes, vivemos em realidades diferentes, então, minimamente, precisamos conhecer nosso aluno para que nosso planejamento, ainda que não tenha sido criado para o protagonismo, traga elementos que motivem esse jovem a se interessar pela aula, em vez de ansiar pela hora da saída.  

Olhar para o estudante hoje e lembrar daquela criança que fomos em sala de aula, de nossas aflições, de nossas angústias, pode nos ajudar nessa reflexão empática, que visa criar uma nova escola, que realmente dê importância ao que sente cada um dos jovens que nela atuam (e a palavra atuar é proposital aqui, já que queremos atuações em vez de passividades).   

A escola seria uma bolha? 

Mais uma reflexão necessária em meio a tantas que procuro instigar neste nosso breve texto: as situações que vivemos na escola, seja a atual ou aquela em que estudamos, refletem qual contexto que temos em nossa vida? Já pararam pra pensar nisso? As aulas, provas, apresentações de trabalho são simulações tão ensimesmadas, tão presas à realidade apenas da escola, que acabam também sendo entediantes, desmotivando principalmente os jovens que não veem aplicações práticas dessas aulas na sua vida “real”. 

Além disso, há, nessa bolha, uma necessidade de cumprimentos exagerados de regras que remetem muito mais a um ambiente militarizado, de disciplinas impostas sem discussões prévias, do que a um lugar de criação, pensamento, reflexão. A integralidade das atividades nas escolas e a busca por uma democratização do ensino por meio de escolas públicas de qualidade, sonhadas por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, parecem se transmutar em necessidade de trancar os jovens em instituições que apenas os entretenham enquanto os pais trabalham.   

Apesar de algumas escolas desenvolverem estratégias pedagógicas baseadas em projetos, que buscam a interdisciplinaridade e a inserção destes em contextos reais, integrando instituição escolar e comunidade, essas ainda são exceções em meio à regra da escola atrasada, desinteressante. 

Diálogo e pertencimento no ambiente escolar: “Paz sem voz não é paz, é medo”

“Nossa, a escola General Y é muito boa, não se ouve um piu nas salas”. Esse tipo de comentário também é bastante comum em meio àqueles que acreditam que instituições escolares devem ser silenciosas e que disciplina é sinônimo de obediência, medo. Precisamos entender que uma boa escola deve incentivar os estudantes a discutirem, a questionarem, a trabalharem por investigação.  

O professor e todos que atuam na escola precisam estar abertos ao diálogo. Mas não ao diálogo em que há uma relação vertical de hierarquia, em que os estudantes até são recebidos, mas depois ignorados. Falo do diálogo proposto por Paulo Freire, destacado em sua Pedagogia do oprimido (1987, p. 46): 

A auto-suficiência é incompatível com o diálogo. Os homens que não têm humildade ou a perdem não podem aproximar-se do povo. Não podem ser seus companheiros de pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz de sentir-se e saber-se tão homem quanto os outros, é que lhe falta ainda muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há homens que, em comunhão, buscam saber mais.  

Incentivar a contribuição de todos em prol da construção de uma escola plural, em que docentes e discentes dividem a responsabilidade por erros e acertos, faz com que todos se sintam parte da instituição, levando a uma sensação de pertencimento àquele local. A escola passa a se assemelhar mais a um lar acolhedor, em vez de parecer um sistema prisional, em que apenas se cumprem ordens. “Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho?”, também questiona Freire (1987).  

O ensino contextualizado e a parceria em vez da competição 

É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. (provérbio africano) 

Mas como fazer, então, para que pessoas tão diferentes se interessem por conteúdos comuns ensinados na escola? Se você assistiu à entrevista de José Pacheco e chegou até aqui neste texto, viu algumas dicas. Cada escola está inserida em um contexto específico, e conta com uma comunidade que, apesar de sua diversidade, reúne pessoas com interesses comuns.  

Não é tão difícil assim traçar perfis que representem grupos inseridos nesses contextos para, a partir daí, elaborar planejamentos e estratégias (sempre flexíveis) que atraiam o interesse desses jovens que comporão o corpo discente da instituição, de modo que lhes sejam apresentadas novas realidades e novas possibilidades a partir daquelas que eles já conhecem.  

Além disso, os perfis diversos serão uma grande riqueza que contribuirão para que esses grupos possam se complementar, trocando experiências e cuidando de suprir as dificuldades uns dos outros. E é aí que entra o sentido do provérbio africano que inicia esta seção. Quando uma aldeia privilegia as trocas em vez das disputas; as conversas em vez das brigas; os acordos em vez das imposições; a parceria em vez da competição, criamos uma comunidade, uma coletividade que consegue ser muito mais forte e, apesar de plural, consegue se destacar em suas individualidades. 

Conclusão – Por que não apostar no protagonismo discente?

Por que não criarmos espaços temáticos dentro das escolas que permitam aos estudantes aprenderem o que desejam naquele momento? Por que não fazer deles os verdadeiros protagonistas, inserindo-os nas reuniões de planejamento, nas decisões mais importantes das escolas? Por que não romper com a lógica do fatiamento do saber em componentes curriculares?  

Por que não permitir que estudantes de idades diferentes acessem o mesmo espaço de aprendizagem, trocando experiências com o que cada fase do desenvolvimento humano tem de melhor? Por que não tirar as grades das portas e janelas das escolas e permitir que as entradas e saídas sejam espontâneas, interessadas, empolgadas? Por que não incentivar a autonomia, o questionamento, a crítica, inclusive de nossas ações como docentes, por parte dos discentes? 

Por que não parar de importar modelos finlandeses ou outros estrangeiros em vez de olharmos para o que temos de melhor em nosso país, em nossos estados, em nossos municípios, em nossa comunidade, em nossa gente? Por que não lutarmos por políticas públicas que permitam uma formação continuada para docentes e toda a equipe pedagógica das escolas? 

Entendo que haja muitos obstáculos para que alcancemos escolas que primem por esses princípios, como burocracia (tanto na esfera pública quanto na privada), resistência ao diferente, problemas de infraestrutura, violência escolar etc. Mas é necessário que se busquem caminhos que tirem a escola do caminho em que está há séculos, pois esse se mostra cada vez menos eficaz.  

Apesar de haver tentativas de rompimento com o retrógrado, como escolas montessorianas, waldorf etc., ainda percebemos fragilidades frente à nova realidade que enfrentamos. Criar uma sociedade menos egoísta, menos competitiva, mais humana e empática não é apenas uma opção, é algo essencial para que tenhamos um futuro como coletividade. A aldeia precisa agir para se proteger, derrubando grades e criando pontes em vez de muros.   

Referências 

EDUCA Play – SEED Paraná. Especial José Pacheco – Escola da Ponte. YouTube, 29 mai. 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=53bNtzTVix4. Acesso em: 11 mar. 2025. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.  

MARANGON, Cristiane. José Pacheco e a Escola da Ponte, Nova escola, 01 abr. 2004. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/335/jose-pacheco-e-a-escola-da-ponte. Acesso em: 11 mar. 2025. 

Minibio do autor 

Tiago da Silva Ribeiro é professor do Magistério Superior no Instituto Nacional de Educação de Surdos nos componentes curriculares de Língua portuguesa e Tecnologias da Informação e Comunicação. Tem experiência em turmas do Ensino Fundamental e Médio, além de já ter atuado na modalidade on-line como mediador, orientador de trabalhos finais de curso, desenhista educacional, professor-autor e coordenador de curso. Seu doutorado em Letras é pela PUC-Rio e teve como tema de trabalho o Internetês. Acredita que o olhar humano, individual, é a melhor estratégia para que criemos uma coletividade acolhedora, empática, humanizada.  

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