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A criança, o espaço e a introdução à cartografia no Ensino Fundamental

20 de agosto de 2026,
E-docente

O uso de cartas náuticas, mapas de diversos tipos, bússolas e os modernos GPS é uma constante em boa parte da história da Humanidade. Lançando mão de diversos recursos, baseados na tecnologia disponível em cada época, os homens sempre buscaram se localizar, a fim de desenvolverem trajetos seguros e bem orientados.

Valer-se desses instrumentos na prática, porém, não é tarefa fácil. É preciso desenvolver habilidades específicas de leitura, dominar convenções e aplicá-las à leitura do espaço à sua volta. Por isso, ao fazer a introdução à cartografia nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, é importante que o(a) professor(a) mobilize as crianças a realizarem uma leitura cuidadosa do espaço que as cerca. Leia mais: Mapas e uso da linguagem cartográfica

O estudo da cartografia não precisa contemplar, desde o início, o trabalho com mapas convencionais. É possível apresentar às crianças outras formas de representação gráfica, de forma a familiarizá-las com noções de escala, proporção, legenda, cor e símbolo. Neste texto, apresentaremos algumas sugestões para a introdução desse assunto na escola.

Estratégias e sequências didáticas na escola

O trabalho com representações e pontos de vista

Um trabalho inicial para isso pode ser a proposta de desenhar um mesmo objeto sob diferentes ângulos. Cada criança pode escolher um brinquedo ou outro objeto de sua preferência e, dividindo uma folha A4 em quatro partes, ser convidada a desenhá-lo de quatro formas: visto de frente; visto por trás; visto por cima; e visto por baixo.

A socialização desse momento é de suma importância, e cada estudante pode ser convidado(a) a apresentar suas representações. Pode-se, inclusive, propor um jogo, em que o restante da turma precise adivinhar qual é o objeto proposto, a partir de uma ou duas de suas representações.

Esse trabalho pode ser ampliado incluindo-se mais de um objeto. Nesse caso, a criança terá que pensar em questões como: o segundo objeto está à direita ou à esquerda do primeiro? Qual é o maior, e qual é a diferença de tamanho entre eles? Como representar esses aspectos no papel?

O(a) professor(a) pode ir fazendo intervenções, durante os desenhos, propondo esse tipo de questão aos estudantes, levando-os a refletir sobre esses aspectos tão essenciais para o estudo cartográfico.

Da maquete ao desenho: compreendendo a planta baixa

A partir dessas representações, o(a) professor(a) pode trabalhar com os estudantes o conceito de “planta baixa”, explicando que a planta baixa nada mais é que a representação de um ambiente visto de cima. Pode-se pedir que a turma traga panfletos imobiliários (geralmente distribuídos em empreendimentos imobiliários em grandes centros urbanos) e, com esse material em mãos, propor a comparação entre a planta baixa dos diferentes apartamentos e/ou salas comerciais. Caso esse não seja um tipo de material fácil de ser encontrado em determinada região, ele pode ser facilmente acessado pela internet, em sites de construtoras e/ou imobiliárias.

Conhecendo o conceito de planta baixa, as crianças podem ser convidadas a desenhar a planta da sala de aula. Para iniciar essa tarefa, é interessante propor um trabalho coletivo: em grupos, os estudantes compõem a “maquete” da sala de aula dentro de uma caixa de sapato. Para isso, podem usar material de sucata, como caixas de fósforos para simbolizar as carteiras, tampa de pasta de dente para representar a lixeira e caixas de remédios para cumprir o papel de mesa do(a) professor(a). Dispondo os materiais na mesma posição que ocupam na sala de aula, os estudantes podem verificar as maquetes uns dos outros e, quando estiverem satisfeitos com seu trabalho, é o momento de “colar” as peças em seu devido lugar, de modo a fixá-las na posição escolhida. Ao final, podem cobrir a parte de cima da caixa com plástico transparente.

Leia mais: Qual o objetivo do ensino de Geografia

Pronto esse material, é o momento de entender a representação da planta baixa: com uma caneta hidrográfica, os estudantes devem ser convidados a “desenhar”, no plástico transparente, o que veem ali de cima. Para representar as carteiras representadas pelas caixas de fósforo, por exemplo, desenharão pequenos retângulos. Um círculo simbolizará a tampinha de pasta que ocupa o lugar da lixeira, e assim por diante. Dessa forma, os estudantes perceberão de que forma os objetos tridimensionais, que vemos em nosso dia a dia, assumem uma representação bidimensional no desenho da planta baixa.

Trajetos cotidianos e a prática com croquis

Depois dessa proposta inicial, as crianças podem ser apresentadas aos croquis. Por serem esboços visuais elaborados de forma mais simples e esquemática, eles constituem uma boa introdução ao trabalho com mapas.

No croqui, um percurso pode ser apresentado de forma esquemática (uma linha, por exemplo) e incluir apenas pontos de referência essenciais. Uma boa proposta é pedir que cada criança desenhe um croqui representando o trajeto de sua casa até a escola.

Nessa proposta, as ruas por onde a criança passa podem ser representadas por uma única linha, ou por duas linhas paralelas, caso ela deseje simbolizar os dois lados da calçada. É importante chamar a atenção da turma para que as linhas representem a direção e o sentido utilizados no caminho: é fundamental representar as curvas, as esquinas, as diferentes quadras etc.

Além da representação das ruas em si, os estudantes deverão desenhar os principais pontos de referência deste trajeto: sua casa em uma ponta, e a escola na outra. No meio do percurso, ainda se podem sinalizar praças, semáforos, estabelecimentos comerciais ou outros pontos de referência conhecidos por todos.

A depender do interesse da turma, depois de realizarem seus croquis individuais, os estudantes podem ser agrupados em duplas ou trios, de forma a incorporarem os croquis uns dos outros, comparando a localização dos diferentes pontos de referência representados por cada um.

Leia mais: Entrevista Exclusiva: O Ensino de Geografia nos Anos Iniciais e a Construção do Pensamento Espacial

Outras atividades práticas e metodologias

Além dessas, outras sequências didáticas podem contribuir para a apropriação da linguagem cartográfica: embrulhar uma esfera com o planisfério, por exemplo, pode ser uma ótima atividade para que as crianças compreendam as representações da Terra por meio de mapas e do globo terrestre. Jogar batalha naval, por sua vez, pode ser uma boa forma de se pensar sobre coordenadas e sobre a representação da água nos diferentes mapas.

Construir “montanhas” usando diferentes cores de massa de modelar (uma cor para a base, outra para as etapas intermediárias e outra para o topo) e, depois, representar essas diferenças altimétricas por meio de desenhos bidimensionais é uma boa forma de compreender os mapas de altitude.

O uso da tecnologia e a localização espacial

Finalmente, não se pode deixar de apresentar, a uma geração tão tecnológica, o trabalho com GPS. Usar localizadores e seguir um caminho indicado no quarteirão da escola pode ajudá-los a compreender tanto as coordenadas mais utilizadas (“Quando o GPS manda seguir 250 m, isso é muito ou pouco?”, por exemplo) quanto o funcionamento da tecnologia cartográfica atual.

Leia mais: Como usar o Google Earth nas aulas de Geografia: sequência didática para o Ensino Fundamental Anos Finais 

O importante é que, nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, no processo de introdução à cartografia, as crianças possam aprender a fazer a leitura dos espaços onde circulam e, a partir dela, consigam promover uma representação gráfica eficaz para orientação e localização de si próprios e de qualquer outra pessoa que se deparar com sua produção.

Minibio da autora

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e na pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP). Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista/SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e em Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FE-USP. É autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014), Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação.

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