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Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e o planejamento didático

17 de junho de 2026,
E-docente
Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e o planejamento didático

“A aula de hoje é sobre as partes principais que compõem uma flor” – o livro didático traz as partes principais nomeadas numa imagem em desenho. Isso bastaria para alguns professores e para alguns estudantes para a apresentação desse tema. Bastaria mesmo, para promover uma aprendizagem efetiva? A cena clássica de uma apresentação oral feita pelo docente na frente da turma e a postura passiva dos estudantes olhando para uma imagem estática é bem conhecida. Depois, uma avaliação escrita, individual, para que as partes da flor sejam nomeadas corretamente, poderia dar fim a esse conteúdo. Mas por que dar uma aula assim? Confira a seguir sobre como o Desenho Universal para a Aprendizagem se aplica nessa realidade e transforma o planejamento didático.

Práticas pedagógicas e a diferenciação no planejamento didático

A aula de partes da flor pode ter as informações do livro didático para uma síntese final, mas as informações desse tema considerariam ser introduzidas e analisadas a partir de várias propostas combinadas, tais como:

  • Interação coletiva entre os estudantes sobre suas hipóteses em relação a essa estrutura das partes de uma flor, com registro feito pelo docente;
  • Apresentação de um vídeo informativo, com flores diversas em seu habitat natural;
  • Cartaz interativo com partes móveis da flor, para serem encaixadas no seu devido lugar, numa dinâmica como a de um jogo;
  • Observação direta e manipulada, com lupa e em grupos, de uma flor dividida em suas partes, um bom exemplar seria um hibisco;
  • Atuação ativa dos estudantes, como curiosos cientistas, questionando, escrevendo e desenhando para registrar.

Ao invés de uma única ação, uma sequência didática com variação de linguagem amplia a possibilidade de compreensão e de participação dos estudantes.

Leia mais: PEI – Plano Educacional Individualizado: uma Ferramenta para a Inclusão Escolar

Depois, para avaliação da aprendizagem, garantir variadas formas de expressão permite ao estudante apresentar sua compreensão sobre o assunto a partir de suas habilidades. Como exemplos, a avaliação poderia ser elaborada por meio de:

  • Uma produção escrita, num breve texto explicativo;
  • Ou por ilustração, de forma esquemática, como um mapa de ideias;
  • Ou a elaboração de um jogo de perguntas e respostas;
  • Ou por meio de uma apresentação oral.

Essas ações podem mesclar atividades individuais, em duplas ou em pequenos grupos, e não é para todos fazerem tudo, os estudantes podem fazer escolhas a partir de critérios previamente estabelecidos junto ao grupo.

Essa é uma ilustração para pensar sobre como planejar uma aula que alcance toda a turma, o que pode parecer algo muito mais trabalhoso, mas se o objetivo é de que todos os estudantes aprendam, uma proposta com diferenciação pedagógica precisa ser pensada. Pois, em que medida fazer tudo igual ao mesmo tempo promove a aprendizagem de todos os estudantes, e em particular os com diferenças significativas em seu desenvolvimento, como pessoas com deficiência intelectual e transtorno do espectro autista ou com altas habilidades/supertodação?

A relação entre o Desenho Universal para a Aprendizagem e a acessibilidade curricular

A sala de aula em seu dinamismo se compõe por vários estilos de aprendizagem, por conhecimentos múltiplos e vivências variadas e traz algo inerentemente humano: a diversidade. E pensar em um currículo para a diversidade se traduz em propor um ensino para todos e para cada um.

Fazer diferente não se traduz necessariamente em fator de exclusão, e a diferenciação pedagógica pressupõe a promoção de equidade e tem como base o currículo escolar, de modo que todos tenham acesso àquilo que a escola se propõe a ensinar, na promoção de situações didáticas favoráveis à condição de cada estudante.

A intenção aqui é trazer reflexões sobre a relação entre Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e acessibilidade curricular, numa perspectiva de diálogo com o cotidiano escolar.

Leia mais: O que é PEI? Desafios e realidades na implementação do Plano Educacional Individualizado

A partir das políticas de inclusão e do direito à diversidade, as escolas têm buscado respostas educativas às diferenças existentes nos contextos das salas de aula, o que leva a pensar sobre o currículo de modo acessível.

O currículo escolar está a serviço de docentes e estudantes para a efetivação de aprendizagens significativas. É cada vez mais urgente criar caminhos que possam ser percorridos de modos variados e que deem alternativas de acesso ao conhecimento para toda pessoa que está na escola. Há questões básicas que permeiam o processo de ativação de um currículo: quem é o estudante? Como ele aprende? O que e como ensinar?

Conhecer a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) possibilita pensar sobre o planejamento didático a partir da acessibilidade, que é o ponto principal da concepção do DUA. Acessibilidade definida, a partir da Lei Brasileira de Inclusão (2015), como a possibilidade de alcance e utilização de espaços, equipamentos, transportes, informação e comunicação com segurança e autonomia.

DUA: Origem e relação com o currículo

Na década de 1990, o Centro de Tecnologia Especial Aplicada (CAST) (https://www.cast.org/), uma organização norte-americana, que desenvolve pesquisas educacionais, criou e reorganiza até hoje, a estrutura do DUA, conceituando-o como uma perspectiva educacional que se inspirou em princípios ligados à arquitetura, envolve a concepção de produtos, ambientes, programs e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico, ou seja, conceber algo que poderá ser usufruído por pessoas que apresentem diferentes condições.

O currículo que se organiza seguindo a referência do DUA é planejado desde o princípio para atender todos os estudantes, fazendo com que mudanças posteriores sejam dispensáveis. A ideia é elaborar propostas flexíveis desde o início, com apresentação de opções que permitam a participação e o desenvolvimento de todos os estudantes a partir de onde eles estão.

Leia mais: Por salas de aula mais seguras e inclusivas: o papel do professor na prevenção do bullying e da exclusão

Podemos destacar alguns pressupostos do DUA para garantir a acessibilidade curricular:

  • Responder às necessidades decorrentes da diversidade humana presente das salas de aula;
  • Remover barreiras à aprendizagem;
  • Flexibilizar os processos de ensino;
  • Permitir aos estudantes formas alternativas de acesso ao conhecimento, assim como para garantir seu envolvimento e expressar seus aprendizados;
  • Reduzir ao máximo a necessidade de ajustes individuais, contribuindo assim para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas.

Um dos princípios fundamentais dessa perspectiva é reconhecer que todos podem aprender, inclusive os estudantes que apresentam alguma deficiência ou diferença significativa em seu desenvolvimento. Conforme aponta Sebastián-Heredero (2020, p.735-736):

O DUA considera a variabilidade/diversidade dos estudantes ao sugerir flexibilidade de objetivos, métodos, materiais e avaliações, permitindo aos educadores satisfazer carências diversas. O currículo que se cria seguindo a referência do DUA é planejado desde o princípio para atender às necessidades de todos os alunos, fazendo com que mudanças posteriores, assim como o esforço e o tempo vinculados a elas, sejam dispensáveis. A referência do DUA estimula a criação de propostas flexíveis desde o início, apresentando opções personalizáveis que permitem a todos os estudantes progredir a partir de onde eles estão, e não de onde nós imaginamos que estejam. As opções para atingi-los são variadas e suficientemente fortes para proporcionar uma educação efetiva para todos os estudantes.

Os três princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem baseados na Neurociência

Com base nos estudos das Neurociências contemporâneas, há três princípios anunciados pelo DUA que ajudam a criar ambientes de aprendizagem desafiantes e envolventes para todos os alunos, sendo importante considerar esses princípios no planejamento das aulas:

  1. Representação – a rede de conhecimento – vários meios de representação – o que se está aprendendo.
  2. Envolvimento – a rede afetiva – vários meios de envolvimento e engajamento – por que se está aprendendo.
  3. Expressão – a rede estratégica – vários meios de expressão – como se está aprendendo.

Nos meios de representação (o quê), um assunto pode ser apresentado usando modos alternativos como informação visual, auditiva, escrita, por manipulação, com diferentes níveis de complexidade, em partes, por exemplo.

Para ilustrar, vamos pensar em aulas sobre a Revolução Francesa. Poderia se apresentar trechos de um filme para contextualizar a época, as pessoas, os costumes; usar legenda para o vídeo; disponibilizar também um texto escrito com os fatos principais a serem conhecidos; analisar uma pintura que retrate um episódio importante; além do livro didático com apresentação oral do docente.

Para os meios de envolvimento (por quê), necessário é conhecer os interesses e gostos dos estudantes; reconhecer como compreendem melhor; saber de suas possibilidades e de seus limites, para que não desanimem com algo “difícil demais” ou “fácil demais”. O engajamento é a motivação, o interesse, por isso é preciso planejar atividades que desafiem e que conduzam à busca de respostas.

Para exemplificar, vamos continuar com a Revolução Francesa: propor atividades em duplas, trios ou em grupo; realizar leitura compartilhada; jogar um jogo, como uma trilha, com fatos da História, pode ser virtual ou em papel mesmo; elaborar resumo ou mapa de ideias para síntese e estudo; abrir uma seção de tira-dúvidas, colocando perguntas numa caixa para a interação docente; pensar em variadas estratégias didáticas que gerem envolvimento e considerar as individualidades.

Para os meios de expressão (como), que envolvem muito os processos de avaliação e verificação das aprendizagens, segue-se o mesmo princípio de diversificação e variação de recursos e estratégias, para que cada estudante possa mostrar como foi o seu aprendizado.

Seguindo com o exemplo da Revolução Francesa, pode-se permitir que o estudante se expresse numa apresentação em grupo por meio de teatro; elaborar, em dupla, um jogo com perguntas para a turma participar; criar um esquema visual com uma linha de tempo dos fatos históricos relacionados ao tema; responder um questionário por escrito, usando seu próprio resumo para consulta.

O que é importante destacar que, ao se oferecer variadas formas de apresentação, elas devem ser disponibilizadas para todos, cada um vai aproveitar melhor de acordo com suas próprias qualidades. Para garantir seu envolvimento, deve haver opções de participação, nem todos farão tudo, há possibilidades de escolha, de acordo com os interesses e possibilidades. Do mesmo modo, para a expressão de suas aprendizagens, o estudante terá alternativas, não é para todos realizarem tudo. DUA não traz receitas prontas, mas possibilita criar acesso por vários ângulos a um mesmo conteúdo.

Desafios práticos na implementação do Desenho Universal para a Aprendizagem

O DUA está centrado na dimensão pedagógica, o mediador do processo é o docente, que incentiva, questiona, promove o envolvimento. É um processo interativo, que procura reduzir as barreiras que poderão dificultar o processo de ensino e de aprendizagem; busca assegurar o acesso, a participação e o sucesso de todos os estudantes, com ou sem deficiência.

A estrutura dessa concepção promove a colaboração entre docentes do ensino comum e da educação especial de modo a disponibilizarem respostas educativas que aumentam as oportunidades de aprendizagem para todos os estudantes. No entanto, não há a ingenuidade de achar que essa concepção é simples de ser operacionalizada, não é, nem é resposta para tudo. Da forma como a escola brasileira se organiza, com uma rigidez curricular, com grades de horários fechadas, com salas de aula repletas, com espaços físicos limitados, há muito o que se fazer para colocar em prática um currículo com base no DUA.

É preciso promover e investir na formação docente e na aplicação de propostas diferenciadas, que produzam novos conhecimentos científicos sobre os processos de ensino aprendizagem. Para o planejamento há necessidade de trabalho colaborativo, tempo, espaço físico, recursos materiais. Não deixamos de considerar que a realidade mostra que nem sempre as escolas oferecem tais condições, mas reconhecemos que há tentativas e iniciativas que colocam escolas em movimento, o que pode evidenciar mais ainda carências e problemas, mas também apontam para possibilidades e promovem bons exemplos alinhados ao Desenho Universal para a Aprendizagem.

Referências

NUNES, C., MADUREIRA, I. Desenho Universal para a Aprendizagem: construindo práticas pedagógicas inclusivas. Da Investigação às Práticas, 5(2), p. 126 – 143, 2015. Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.21/5211. Acesso realizado em 22 jan. 2025.

SEBASTIÁN-HEREDERO, E. Diretrizes para o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA). Revista Brasileira de Educação Especial, v. 26, n. 4, p. 733–768, out. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbee/a/F5g6rWB3wTZwyBN4LpLgv5C/. Acesso realizado em 22 jan. 2025.

Márcia Marin

  • Professora Titular do Colégio Pedro II, instituição de ensino público federal.
  • Doutora e mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
  • Graduada em Pedagogia, com habilitação em Educação Especial (UERJ).
  • Pesquisadora do grupo Inclusão e aprendizagem de alunos com necessidades educacionais especiais: práticas pedagógicas, cultura escolar e aspectos psicossociais (Programa de Pós-graduação em Educação da UERJ).
  • Experiência em educação especial e inclusão escolar. Áreas de interesse: formação docente; processos de escolarização de pessoas com Deficiência Intelectual; práticas pedagógicas diferenciadas; ensino colaborativo.

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