Menu

O futuro da educação pública global em debate: Insights do Education World Forum 2026, direto de Londres

25 de maio de 2026,
E-docente
EWF 2026

Entre os dias 17 e 20 de maio, Londres sediou o Education World Forum (EWF) 2026, o maior encontro anual de Ministros e Secretários de Educação do mundo. O evento reuniu lideranças globais, universidades, edtechs e organizações internacionais para debater a transformação educacional e mapear as fronteiras da inovação na educação básica pública. 

Para acompanhar de perto cada painel e trazer as principais tendências globais para a realidade da escola pública brasileira, Flávia Bravin, diretora executiva da Saber Educação, e Kamil Giglio, editor sênior, estiveram presentes no fórum. Os insights coletados servem como bússola para os debates pedagógicos e de gestão que promoveremos aqui no blog e-docente

A presença da América Latina e do Brasil no EWF 2026 foi marcante, permitindo a troca de experiências entre realidades de todas as escalas: desde a gigante Bogotá (com suas 2 mil escolas e mais de 1 milhão de alunos) até a pequena Falkirk, na Escócia (com 58 escolas). Independentemente do tamanho do desafio, a lição central do evento foi unânime: a busca por equidade e inovação deve ser a prioridade absoluta

O que é o Education World Forum (EWF)?

Com mais de 20 anos de história, o Education World Forum (EWF) consolidou-se como uma plataforma global de autoridade e confiança para o desenvolvimento dos sistemas de ensino. Hospedado pelo Departamento de Educação do Reino Unido e apoiado por diversos órgãos governamentais britânicos, o fórum é hoje gerido pela Times Higher Education (THE).

O EWF funciona como um espaço seguro e confidencial baseado em sessões fechadas, permitindo que ministros e as suas equipas realizem diagnósticos francos e compartilhem boas práticas. Guiado pelos valores de parceria, inclusão, internacionalismo e independência, o evento conta com um conselho consultivo de peso, composto por especialistas de instituições como OCDE, UNESCO, Banco Mundial e a Fundação Pratham. A sua missão principal é catalisar colaborações que moldem sistemas educacionais inclusivos, sustentáveis e que garantam uma aprendizagem ao longo de toda a vida.

1. Lições do “milagre português”: Currículo exigente e o valor do conhecimento

Uma das grandes riquezas do EWF 2026 acontece nos encontros paralelos. Em um debate matinal dinâmico, gestores e especialistas se reuniram para analisar o profundo processo de reestruturação da educação básica pública de Portugal. O debate contou com a presença de Nuno Crato, matemático e Ministro da Educação e Ciência de Portugal entre 2011 e 2015, reconhecido como o grande maestro das reformas que levaram o país aos melhores resultados de sua história nos exames internacionais PISA e TIMSS.

Leia mais: Políticas de ação afirmativa: refletindo sobre estratégias e instrumentos de transformação social

Durante sua gestão, Crato aumentou a escolaridade obrigatória para 12 anos, estabeleceu metas operacionais claras de aprendizagem, tornou o inglês obrigatório e fortaleceu as avaliações externas com exames nacionais. O modelo defendido por ele baseia-se em um currículo exigente e no conteúdo estruturado, apontando o uso intensivo de bons livros didáticos como um dos fatores mais diretamente relacionados ao sucesso acadêmico dos estudantes.

Além disso, a experiência portuguesa trouxe um importante contraponto ao cenário tecnológico atual ao rebater o mito de que o conhecimento está “a um clique de distância”. A premissa central é que a facilidade de acesso à informação não substitui o aprendizado real, que exige tempo, profundidade e conexões com saberes previamente consolidados. Flávia Bravin destacou a relevância dessa visão para os dias de hoje ao pontuar:

“Educação não é sobre estoque de informação — é sobre dar sentido ao conhecimento, sobre dar um passo além e definir o que fazemos com aquilo que aprendemos.”

2. O catalisador não substitui a pedagogia: Os insights de Damian Bebell

Outro grande destaque do evento foi a contribuição do Prof. Dr. Damian Bebell, docente do Boston College e uma das maiores autoridades globais em Tecnologia Educacional e Avaliação Escolar. Pioneiro nas pesquisas quantitativas sobre o impacto do modelo 1:1 (um dispositivo por aluno), Bebell trouxe uma provocação cirúrgica aos ministros e gestores: comprar dispositivos e manter as mesmas práticas pedagógicas tradicionais é apenas criar uma versão mais cara da sala de aula do passado.

Leia mais: Um breve percurso sobre políticas públicas de educação inclusiva no Brasil: o quanto já avançamos?

“Se quisermos entender o real impacto da tecnologia, precisamos olhar para dentro da sala de aula. Avaliar o sucesso cruzando apenas a presença de computadores com notas de testes padronizados é um erro.” > — Damian Bebell

Para Bebell, a tecnologia na escola pública deve ser medida por sua capacidade de gerar motivação, colaboração, pesquisa autônoma e melhora no clima escolar. Ela é um meio, um catalisador — mas o coração do processo continua sendo a intencionalidade pedagógica e a cultura da instituição. Colocar tablets nas mãos dos alunos sem transformar a experiência de aprendizagem é digitalizar o passado. O sucesso da educação digital mede-se pela qualidade das interações humanas e cognitivas que o conjunto entre metodologia, conteúdo, professores e tecnologia consegue potencializar.

3. Educando para o futuro: A grande virada de paradigma de Andreas Schleicher

Como preparar as próximas gerações para um mundo sem respostas fáceis? Essa foi a pergunta que conduziu a palestra de Andreas Schleicher, Diretor de Educação e Competências da OCDE e criador do PISA. Em uma era onde sistemas de Inteligência Artificial já superam os humanos em tarefas padrão de compreensão de texto e resolução de problemas, Schleicher defendeu que o modelo tradicional de memorização e passividade está obsoleto. Se a IA gerencia o padrão, o papel da escola pública é acender a paixão, a criatividade e o pensamento crítico.

Com base em dados robustos da OCDE, Schleicher desenhou 10 lições fundamentais para a transformação educacional:

  1. A mudança no aprendizado: No passado, aprender era ouvir; hoje, aprender é experiencial e conectado ao mundo real.
  2. O que importa hoje: Menos testes padronizados e julgamentos fixos; mais aliança, empatia e colaboração.
  3. O novo papel dos educadores: Professores deixam de ser figuras de autoridade rígida para se tornarem mentores, coaches e ouvintes atentos.
  4. Conhecimento prático: O valor não está em reter a informação, mas em saber como aplicá-la em situações inéditas e complexas.
  5. A falha do sistema tradicional: Escolas gastaram décadas focando na memorização de conteúdos que hoje estão a um clique de distância.
  6. O verdadeiro impacto da IA: A tecnologia deve libertar os humanos de tarefas repetitivas para que a aprendizagem desperte as nossas capacidades humanas únicas.
  7. Desconstrução do espaço físico: A aprendizagem não está restrita a quatro paredes. O mundo real deve ser a escola.
  8. Educação como escolha: O ambiente escolar deve deixar de ser visto como uma obrigação institucional e passar a ser uma escolha para se conectar a pessoas e ecossistemas.
  9. O novo propósito das instituições: Escolas são muito mais do que notas acadêmicas; são lugares para fortalecer laços sociais e moldar o futuro coletivamente.
  10. O verdadeiro perigo da tecnologia: Não devemos temer que a IA se torne mais humana, mas sim que os seres humanos se tornem robóticos, perdendo a autonomia e o pensamento crítico.

“O maior risco da atualidade não é a tecnologia se humanizar, mas a humanidade se automatizar.”

Além disso, Schleicher trouxe dados do estudo TALIS mostrando que professores que recebem formação em IA são os que mais a utilizam de forma estratégica em sala de aula. Ele também reforçou que o investimento financeiro é necessário, mas não suficiente: a partir de um certo nível de recursos, o diferencial de sucesso entre os sistemas de ensino não é o montante de dinheiro, mas a eficácia das relações humanas e das práticas pedagógicas. Os dados do PISA provam: os alunos aprendem melhor quando há conexão socioemocional e suporte mútuo no ambiente escolar.

4. Malala Yousafzai: A urgência da equidade e do acesso universal

A plenária do EWF 2026 também contou com a força e a voz da ativista e Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai. Relembrando seu célebre discurso na ONU — “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo” —, Malala defendeu o poder do engajamento ativo entre o estudante, o educador e o conteúdo.

Sua fala trouxe um choque de realidade sobre o contexto da educação pública em regiões afetadas por crises, guerras e preconceitos de gênero. Enquanto em muitas escolas discute-se o uso de inteligência artificial, em outras partes do mundo meninas enfrentam barreiras extremas e violência física apenas pelo direito de estudar. Malala compartilhou histórias impactantes de estudantes que desafiaram sistemas opressores e declararam que, mesmo diante de perdas físicas irreparáveis, continuariam lutando pelo direito de aprender.

A mensagem de Malala para os gestores públicos e ministros presentes foi de convocação e coragem: se uma jovem paquistanesa conseguiu chamar a atenção do mundo inteiro para o direito à educação, os governos não podem se paralisar diante da complexidade dos seus desafios regionais.

“A educação não é apenas um direito humano básico; é a base de tudo o que esperamos alcançar. É a chave para o crescimento econômico, para a igualdade de gênero, para comunidades mais saudáveis e para sociedades pacíficas.”Malala Yousafzai

Ela encerrou lembrando que excluir as populações mais marginalizadas e as meninas é sabotar o futuro de toda a sociedade: “Não podemos resolver os maiores problemas do mundo se deixarmos metade da população para trás”.

O olhar da Saber Educação para o futuro da educação pública brasileira

Acompanhar o Education World Forum 2026 através do olhar atento de nossa diretora executiva, Flávia Bravin, nos dá a certeza de que os desafios da educação pública brasileira estão alinhados com o debate global.

Seja na Escócia, na Colômbia, em Portugal ou no Brasil, a tecnologia só fará sentido se estiver a serviço de uma pedagogia transformadora. Como bem pontuado nos debates com Nuno Crato e Andreas Schleicher, o conhecimento real exige profundidade, tempo, reflexão e conteúdos bem estruturados para dar sentido à informação. A inteligência artificial só será útil se libertar nossos professores para exercerem o papel humano de mentores e inspiradores. E, acima de tudo, o desenvolvimento de um país só acontecerá quando garantirmos acesso, permanência e equidade para cada estudante dentro da sala de aula.

Nós, da Saber Educação, voltamos com a bagagem repleta de insights e com a energia renovada para continuar produzindo conteúdos, soluções e materiais didáticos que traduzam essas tendências globais para o dia a dia das redes públicas de ensino de todo o Brasil. Vamos juntos construir esse futuro!

Crie sua conta e desbloqueie materiais exclusivos

Complete o cadastro para receber seu e-book
Já possui uma conta?Acessar conta
ACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINSACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINS

Veja mais

O futuro da educação pública global em debate: Insights do Education World Forum 2026, direto de Londres
25 de maio de 2026

O futuro da educação pública global em debate: Insights do Education World Forum 2026, direto de Londres

Entre os dias 17 e 20 de maio, Londres sediou o Education World Forum (EWF) 2026, o maior encontro anual de Ministros e Secretários de...
Defasagem idade-ano: desafios e caminhos para recuperar aprendizagens e manter os estudantes na escola
18 de maio de 2026

Defasagem idade-ano: desafios e caminhos para recuperar aprendizagens e manter os estudantes na escola

Toda sala de aula conta uma história. Algumas vezes marcada por crianças que chegam ao 4º ou 5º ano sem...
Trilhas formativas para professores dos Anos Iniciais
14 de maio de 2026

Trilhas formativas para professores dos Anos Iniciais

As trilhas formativas para professores dos Anos Iniciais são uma estratégia essencial para fortalecer a prática docente e promover avanços...
BNCC da Computação: guia de implementação para Secretarias de Educação
13 de maio de 2026

BNCC da Computação: guia de implementação para Secretarias de Educação

A tecnologia está cada vez mais presente no dia a dia das pessoas, por isso, é importante ter a capacidade...
Participação política nos Anos Iniciais: a construção de pequenos cidadãos
12 de maio de 2026

Participação política nos Anos Iniciais: a construção de pequenos cidadãos

Enxergar a criança como sujeito político é um passo essencial para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. O mundo...