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Curiosidades do português brasileiro que vão surpreender os estudantes

5 de maio de 2026,
E-docente

Por ser tão intrinsecamente presente em nossa vida, a riqueza do português brasileiro nem sempre recebe o devido reconhecimento. Atravessando nosso cotidiano muito antes de sequer aprendermos a falar, é a partir dela que entramos em contato com o modo pelo qual nossos familiares interagem, organizam o mundo, compartilham conhecimento e atribuem sentido às ações que desempenhamos.

Antes ainda do processo de alfabetização, já estamos totalmente imersos em práticas discursivas que moldam nossa forma de perceber, analisar e, sobretudo, construir a realidade à nossa volta. No entanto, embora tenhamos inúmeras possibilidades de mediar a aprendizagem da nossa língua em sala de aula, chamando a atenção para aspectos curiosos de nossa forma de comunicação, sua constituição histórica, suas transformações ao longo do tempo, as contribuições que incorporamos de outras línguas, bem como as marcas culturais presentes em nosso léxico; muitas vezes, restringimos tal ensino a um conjunto de normas e regras descontextualizadas e até distantes da realidade discursiva dos estudantes.

Sem jamais menosprezar a importância dos conteúdos gramaticais para o domínio da norma formal da língua portuguesa, entendemos, também, que seu ensino não pode se limitar à memorização de classificações ou à aplicação mecânica de regras. Pensando nisso, neste texto, iremos apresentar três curiosidades de nossa língua portuguesa que podem servir de ponto de partida para instigar a reflexão discente sobre seu próprio idioma materno, despertando o interesse pelo estudo da língua e ampliando a compreensão acerca da riqueza histórica, cultural e social que a constitui.

1. Português ou brasileiro? O nome da nossa língua em disputa

Logo de início, uma primeira curiosidade pode ser uma provocação sobre o nome de nossa língua. Nos materiais didáticos, currículos escolares e demais documentos pedagógicos, essa questão é rapidamente respondida, pois sempre chamamos nossa língua de “língua portuguesa”, mas, até que ponto, essa nomeação ainda faz sentido? Falamos realmente a mesma língua usada pelos portugueses? Usamos uma variante? Ou já é possível considerar que falamos outro idioma? E qual seria o seu nome mais adequado? Português brasileiro? Somente “brasileiro”?

Leia mais: Recomposição das aprendizagens em Língua Portuguesa

O nome de uma língua está muito mais vinculado a uma questão política do que meramente linguística. Conforme o professor Marcos Bagno afirma:

“[…] o nome das línguas (tanto quanto a própria noção de língua) são constructos culturais e ideológicos e, desse modo, dependem de particularidades históricas de cada comunidade de falantes (Bagno, 2019 p. 223).

Por um lado, há quem diga que falamos a mesma língua, pois o entendimento dos textos produzidos por portugueses e brasileiros é relativamente amplo, sobretudo na modalidade escrita formal. Por outro lado, há estudiosos que defendem que as distinções acumuladas ao longo de mais de cinco séculos de história no Brasil já configuram um sistema próprio, o que justificaria uma nova denominação.

Atividade Sugerida: O debate sobre a nomeação

Para a sala de aula dos Anos Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, o docente pode levar o vídeo É hora de o “brasileiro” virar uma língua?1, do canal DW Brasil, ou a reportagem “Em algumas décadas, idioma falado no Brasil se chamará brasileiro”2, diz linguista português, do portal BBC News Brasil, que problematizam essa questão da nomeação de nosso idioma. A partir desse material, pode-se sugerir que argumentem sobre o que consideram a melhor forma de nomear nossa língua. Em seguida, pode ser promovido um debate com as opiniões conflitantes, de modo a ampliar a compreensão de que a língua é também um espaço de disputa.

Para incrementar o debate, cabe apresentar capas de dicionários de português brasileiro vendidos em países europeus. Curiosamente, podemos notar que, por exemplo, na Itália, encontramos, pela editora Vallardi A, um dicionário de brasiliano-italiano. Na Alemanha, por sua vez, encontra-se um dicionário de brasilianisch-deutsch, pela editora DK Verlag Dorling Kindersley; do mesmo modo como é possível encontrar na França um dicionário Brésilien, pela Larousse. Ou seja, se ainda discutimos pouco essa questão na Educação Básica, na Europa já é praticamente um consenso que falamos, no mínimo, uma variante bem distinta daquela usada por Portugal.

2. Os dilemas ortográficos: Convenções, reformas e evolução

Guardadas as devidas proporções, ao longo de todo o processo de escolaridade, desde a alfabetização até o Ensino Médio, a ortografia é um tópico que nunca deixa de mobilizar a atenção dos alunos e professores: quais acentos usar e quando usar, os tipos de porquês, as diferentes formas de representar o mesmo fonema, as ocorrências visíveis no campo da escrita, mas totalmente imperceptíveis na oralidade, dentre tantas outras dúvidas, figuram entre as mais recorrentes em sala de aula.

Leia mais: Semântica e o ensino de língua portuguesa: para além da gramática tradicional

Para explorar de modo um pouco mais leve a ortografia de nossa língua, problematizando suas convenções e provocando reflexões nos estudantes, podemos começar afirmando que ela nada mais é do que o resultado de um acordo entre diferentes agentes sociais que combinaram determinados usos e descartaram outros. Logo, achar que a ortografia sempre será pautada pela lógica da oralidade pode gerar frustração. Se tirarmos essa equivocada relação no início dos nossos trabalhos, o percurso pode ser mais tranquilo.

Quantas reformas ortográficas já enfrentamos?

Para ratificar essa afirmativa, vale explorar uma nova curiosidade: por quantas reformas nossa língua passou? De quantas formas oficiais e diferentes tivemos de escrever a mesma palavra nas últimas décadas? Após uma breve contextualização sobre o conceito de reforma ortográfica, o docente pode informar que, em pouco mais de 100 anos, tivemos, nada menos do que quatro reformas ortográficas. Cada uma responsável por modificar nossa escrita, eliminando letras dobradas, retirando acentos, abolindo o trema, incluindo hifens, tudo sempre ao sabor das interpretações de cada período.

A mais recente reforma, elaborada em 1990, passou a vigorar só em 2009, tendo ainda um período de transição que se estendeu até 2016. Foi nesse acordo que, por exemplo, o alfabeto voltou a considerar as letras K, W e Y, que aboliram o uso do trema e a acentuação em vogais dobradas (como voo e leem) e em ditongos abertos (como ideia e joia), além de terem redefinido o uso do hífen. Uma pesquisa sobre as mudanças de cada reforma pode ser muito potente, ainda mais se conduzida a partir da curiosidade dos próprios estudantes, transformando dúvidas em investigação linguística.

Atividade: Transcrevendo a “Certidão de Nascimento” do Brasil

Para aprofundar a exploração sobre a ortografia, o docente pode também entregar um trecho da carta de Pero Vaz de Caminha, considerada a “certidão de nascimento do Brasil”, com a grafia original e propor que os estudantes tentem transcrever o texto para a ortografia atual. Essa atividade desperta a curiosidade, pois os leva a notar como o modo de escrita de nossa língua variou tanto em algumas palavras e, em outras, mesmo após 500 anos, ainda permaneceu intacto, chamando a atenção para a arbitrariedade das convenções ortográficas. Abaixo um trecho com a ortografia original e outro com a atual:

Grafia Original:

de ranlhes aly de comer pam e pescado cozido, confej tos fartees mel e figos pasados nõ quiseram comer daquilo casy nada e alguűa coussa se a prouauam lamçauamna logo fora. trouueranlhes vinho per hűa taça, poseranlhe asy a boca tã malaues e nõ gostarã dele nada nem o quiseram mais3

Grafia Atual:

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, farteis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais.

Desafio: As 8 formas de representar o fonema [s]

Ainda no campo da ortografia, os estudantes podem ser convocados a refletir sobre as diferentes formas de representar o mesmo fonema. O docente questiona sobre quantas maneiras diferentes temos de representar, por exemplo, o fonema [s], aquele encontrado no início da palavra “sala” ou “sino”. Ao final, a resposta pode ser colocada coletivamente no quadro:

  • s (sol)
  • c (céu)
  • x (próximo)
  • ç (aço)
  • ss (osso)
  • sc (desce)
  • xc (exceto)
  • (cresça)

O mesmo movimento pode ser proposto com outros fonemas, motivando-os a ampliar sua atenção durante futuras produções textuais. É muito curioso notar como esse tipo de desafio instiga a investigação sobre a própria língua.

3. A influência africana na língua portuguesa do Brasil

Mais uma curiosidade é encontrada nas influências de outras línguas sobre a nossa. Geralmente, o caminho mais usual é apontar para o vocabulário (cafuné, moleque, quitanda, fubá, caçula ou quilombo). Mas há outras contribuições muito interessantes e mais profundas, que influenciaram o modo como realizamos a concordância e até mesmo a estrutura silábica das palavras na oralidade.

O conceito de “Pretuguês” e a lógica da concordância

Para a antropóloga e intelectual brasileira Lélia González, a falta de concordância em expressões como “os livro novo” não pode ser analisada apenas como “erro”, mas deve ser compreendida à luz da formação histórica e cultural do Brasil. Ao discutir o conceito de pretuguês, a autora chama atenção para as marcas deixadas pelas línguas africanas, especialmente do tronco Bantu.

Segundo a página Pensar Bantu4, uma língua africana como o kimbundu marca o plural por meio de prefixos (dijina singular e majina plural). Ao entrar em contato com o português, os africanos mbundus provavelmente perceberam nos artigos (os, as) algo semelhante aos prefixos do plural em sua língua. Dessa prática, nasceram expressões do chamado “português informal”: as casa, os irmão, os nome, meus amigo, minhas terra. Entendemos que tais usos não surgem de uma suposta “incapacidade”, mas estão vinculados a processos históricos de contato linguístico.

A cadência do Kimbundu na nossa fala

Outra influência está presente nas pronúncias de vocábulos com estruturas silábicas que diferem do padrão consoante-vogal. A estrutura silábica do kimbundu segue frequentemente o padrão CV.CV, cujas palavras nunca terminam com uma consoante (di-ji-na, ma-ji-na). Essa estrutura ajuda a compreender por que, na oralidade brasileira, as consoantes finais muitas vezes se dissolvem:

  • fazer vira fazê
  • cantar vira cantá
  • pegar vira pegá
  • senhor vira sinhô

Vimos, então, que a influência africana ultrapassa o campo do vocabulário e alcança dimensões estruturais. Apresentar tais análises pode transformar significativamente a maneira como os estudantes percebem a própria língua, compreendendo que certos traços da fala brasileira possuem raízes históricas profundas.

Conclusão: Construindo o conhecimento linguístico de forma ativa

A proposta, portanto, de explorar esses saberes de nossa língua é apresentar, além das informações curiosas, caminhos para explorá-las em sala de aula, aproveitando o interesse dos estudantes para promover a investigação, a reflexão crítica e a construção ativa do conhecimento linguístico. Uma escolha que, certamente, contribuirá para tornar as aulas mais instigantes e proveitosas.

Referência

BAGNO, Marcos. Objeto língua. São Paulo: Parábola Editorial, 2019.

  1. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=NXf4oQNZpgs Acesso em 28.02.2026 ↩︎
  2. Fonte: http://bbc.com/portuguese/articles/c4ng84yx826o Acesso em 28.02.2026 ↩︎
  3. Fonte: https://share.google/gCy7Rxakp4nfPMd7T. Acesso em: 28.02.2026. ↩︎
  4. Fonte: https://www.instagram.com/p/DOYz0tQjbAT/ Acesso em 28.02.2026 ↩︎

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