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Educar é um verbo coletivo: a escola e as famílias como parte do mesmo projeto

29 de abril de 2026,
E-docente
escola e as familias

Você já escutou a frase “A escola ensina, a família educa”? À primeira vista, ela parece equilibrada. Define fronteiras, delimita responsabilidades. Mas, quando repetida sem reflexão, esconde uma contradição: como poderia haver ensino sem educação? Toda prática de ensino carrega uma visão de mundo, uma ética, uma forma de compreender as relações humanas e o conhecimento.

Na tentativa de evitar conflitos com as famílias, muitas escolas se abrigam nessa divisão, como se pudessem ensinar sem se implicar na formação integral das crianças e como se as famílias, por sua vez, pudessem educar sem participar do processo de aprendizagem. O resultado é o distanciamento entre pais que cobram resultados sem compreender o percurso e professores que se sentem sozinhos em sua missão formativa.

1. O mito da neutralidade: será mesmo possível ensinar sem educar?

Toda ação pedagógica comunica valores, modos de pensar e de se relacionar com o conhecimento e com os outros. Quando Freire (1977) afirma que não há educação neutra, ele se refere exatamente a essa dimensão, a de que em todo ato educativo há concepções implícitas sobre o que é o conhecimento, quem é o sujeito que aprende e qual o propósito de ensiná-lo.

Essas concepções implicam e se expressam na forma como interagimos com os estudantes, na maneira como ensinamos e nas decisões curriculares e cotidianas que tomamos. Os exemplos a seguir ilustram como diferentes mediações comunicam distintas concepções educativas:

De olho na prática: duas situações e muitas mediações possíveis

Situação 1: Uma criança demora para fazer a atividade proposta porque conversa muito com os colegas.

  • Mediação 1: o professor decide puni-la, deixando-a sem brincar no recreio e escreve um bilhete no caderno para os pais dizendo que a criança fica o tempo todo conversando e atrapalhando a aula.
  • Mediação 2: o professor conversa com a criança para compreender o motivo da conversa, se há algo interessante que ela deseja compartilhar, retoma os combinados, relembra as razões deles e pensam juntos sobre como conciliar a vontade dela em falar e a dinâmica da sala de aula.

Situação 2: Dois estudantes entram em conflito com ofensas verbais.

  • Mediação 1: o professor simplesmente separa os alunos e encaminha o caso à direção.
  • Mediação 2: o professor favorece a resolução do conflito, ajudando as crianças a explicitarem o que sentiram, a escutarem o ponto de vista do outro e a buscarem, juntas, uma solução.

Observe que, em todas as formas de mediação, as escolhas do professor comunicam valores e concepções sobre infância, autoridade e formação moral.

2. A escola como espaço de encontro com o mundo e formação ética

É nesse cotidiano aparentemente simples, no modo como a escola acolhe o erro, conduz o diálogo e lida com o conflito, que se expressa o tipo de educação que se deseja construir. Todas as ações “educam”, mas em sentidos distintos. Em umas, a criança aprende que o erro implica punição e perda; em outras, que é possível reparar e assumir responsabilidade pelos próprios atos.

A formação acontece, portanto, em inúmeras situações da vida escolar: na organização dos espaços, na escolha dos conteúdos, nos livros didáticos, nas formas de avaliação, na linguagem usada pelos professores e nas relações que se estabelecem entre adultos e crianças. Mesmo sem intenção explícita, a escola transmite visões de mundo, e é justamente por isso que assumir conscientemente sua função educativa se torna essencial.

Leia mais: O Papel da Família na Trajetória Educacional do Aluno do Ensino Médio

Masschelein e Simons (2014) lembram que a escola é o espaço em que as crianças “deixam a casa” e encontram o mundo. É nesse encontro que o ensino se torna, de fato, educativo: ao colocar o mundo sobre a mesa, a escola convida a olhar para o que é comum, a conviver com a diferença e a construir um sentido coletivo de humanidade. Educar, nesse sentido, não é apenas transmitir valores, mas criar condições para pensar o mundo junto com as crianças. “Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo” (Freire, 1996. p. 16) e talvez seja justamente no exemplo, no gesto e na convivência que o ato de educar mais se manifesta.

3. Entre a casa e a escola: a formação como ato compartilhado

Mas, se educar é formar, e a formação de uma criança ocorre em múltiplos espaços e relações, então essa tarefa acontece na escola, mas não é exclusiva dela. A educação de uma criança se constrói na relação entre os que compartilham a responsabilidade de apresentar o mundo às novas gerações. Nesse sentido, escola e família ocupam papéis complementares.

Educar, como lembra Freire (1996), é um ato de diálogo e, por isso, supõe escuta, reconhecimento e corresponsabilidade. Quando a escola acolhe o olhar das famílias, não “cede autoridade”, mas exerce sua dimensão educativa pela forma como escuta, comunica e se relaciona. O modo como a escola explica suas escolhas, compartilha suas razões e se abre ao diálogo é, em si, educativo, já que ensina o que significa conviver e construir o comum.

O diálogo como ferramenta pedagógica e parceria

Ao compartilhar suas intenções pedagógicas e dialogar sobre o sentido de suas práticas, a escola convida as famílias a retomarem a reflexão sobre o que significa educar, aprender e acompanhar o desenvolvimento de uma criança em parceria com a instituição escolar. Nesse gesto, amplia-se a consciência coletiva sobre a educação e fortalece-se o vínculo entre todos os que compartilham o compromisso de formar e cuidar. Vejamos um exemplo muito frequente:

De olho na prática – As dúvidas como oportunidades de diálogo e parceria Situação: uma família questiona por que o professor não corrige as escritas não convencionais das crianças em processo de alfabetização.

  • Mediação 1: reduzir esse momento a um conflito de perspectivas — “os pais não entendem como a escola ensina” — ou à confiança cega, quando as famílias, por não compreenderem o processo, acabam aceitando sem se corresponsabilizar.
  • Mediação 2: transformar esse momento em uma oportunidade formativa. A escola convida as famílias para conversar e apresenta as hipóteses infantis sobre a escrita, mostra produções em diferentes momentos e explica como essas escritas não convencionais revelam formas de pensar e quais intervenções são feitas, mostrando que a aprendizagem se constrói a partir delas.

Dessa forma, favorece que as famílias compreendam o sentido do aprender e se apropriem, progressivamente, do projeto pedagógico. Nesse movimento, a escola educa as famílias sobre o processo de aprendizagem, e as famílias educam a escola sobre o modo como suas ações são percebidas e interpretadas, um diálogo que forma a todos.

4. Benefícios da cooperação para o desenvolvimento da criança

Educar, portanto, é um ato compartilhado entre escola e família. As famílias ampliam sua compreensão sobre o que é aprender e ensinar; a escola se humaniza, reconhece a importância do diálogo e reforça sua dimensão ética e emancipatória. E é a criança quem mais se beneficia desse encontro: cresce cercada por adultos que dialogam, que compartilham responsabilidades e que, em diferentes campos, aprendem juntos a lhe apresentar o mundo. A educação se realiza nesse movimento recíproco, um encontro de responsabilidades sustentado pela confiança, pela escuta e pela vontade comum de formar sujeitos livres e críticos.

5. Encontros com as famílias: além do repasse de informações

Os encontros entre escola e famílias costumam ser associados ao repasse de informações: comunicados, avisos, desempenho escolar, orientações de rotina. No entanto, quando se restringem a isso, acabam reforçando a separação entre quem ensina e quem cuida, entre o espaço do conhecimento e o da vida. Transformar esses momentos em espaços formativos exige outro modo de pensar a relação, não como prestação de contas, mas como construção de sentido sobre o que é aprender e educar uma criança.

Transformando reuniões em espaços de formação mútua

Cada encontro pode ser uma oportunidade para aproximar as famílias do projeto pedagógico da escola e ajudá-las a compreender o que sustenta as escolhas didáticas. Quando a equipe apresenta, por exemplo, como trabalha a leitura e a escrita ou o que entende por brincadeira e aprendizagem, convida os responsáveis a olhar o cotidiano escolar com outros olhos. Isso diminui as tensões em torno de “resultados” e amplia a confiança nas intenções do trabalho pedagógico.

Leia mais: A importância do diálogo entre família na escola!

Os momentos coletivos, como as reuniões de início de ano, socializações de projetos, apresentações culturais ou feiras, podem ir além da exposição de trabalhos ou da entrega de informes. Podem ser ocasiões de estudo conjunto, em que professores e famílias refletem sobre o percurso das crianças, o que aprenderam, as perguntas que fizeram, as hipóteses que construíram. Essas experiências ajudam os adultos a reconhecer as aprendizagens no processo, não apenas no produto acabado, e fortalecem o vínculo entre escola e comunidade.

6. A comunicação cotidiana como exercício de empatia

Também as reuniões individuais podem se constituir como espaços de formação mútua. Quando há conflitos, dificuldades de aprendizagem ou questões de comportamento, o modo como a escola se comunica é tão importante quanto o conteúdo da conversa. Ao escutar o que a família tem a dizer, buscar compreender o que a preocupa e compartilhar suas observações com respeito e clareza, o professor corporifica o valor da escuta, da empatia e da corresponsabilidade.

Mesmo as situações de reclamação ou desencontro podem se converter em oportunidades formativas. Quando uma família procura a escola para expressar descontentamento, abre-se um canal precioso de diálogo. A escuta atenta, o acolhimento e a disposição para explicar o projeto pedagógico em linguagem acessível para profissionais de outras áreas ajudam a transformar a queixa em reflexão.

É na comunicação cotidiana, nas mensagens enviadas, nas devolutivas de trabalhos, nas conversas rápidas na porta, que a escola mostra o que entende por convivência, respeito e parceria. Reconhecer as famílias como interlocutoras legítimas e parceiras na formação das crianças é parte da função educativa da escola.

Conclusão: a família como parte viva do projeto pedagógico

Reconhecer o caráter educativo da escola é compreender que toda prática pedagógica não apenas transmite conhecimentos, mas comunica valores e produz sentidos sobre o mundo e sobre as relações humanas. Quando a escola assume conscientemente e defende a sua função educativa, compromete-se com uma formação ética, estética e política que ultrapassa a transmissão de conteúdos e se realiza no modo de estar com as crianças e com as famílias.

Ao reconhecer as famílias como parte constitutiva do projeto pedagógico, a escola amplia seu horizonte formativo e reafirma que educar é uma tarefa compartilhada, é um processo que se constrói no diálogo, na escuta e na corresponsabilidade. Nesse encontro entre escola e família, a educação cumpre sua função emancipatória: formar sujeitos críticos, sensíveis e capazes de transformar o mundo que ajudam a construir.

Referências

FREIRE, Paulo. Não há educação neutra. Entrevista concedida a O Jornal (Lisboa), 2 maio 1977. Disponível em: Acervo Paulo Freire. Acesso em: 20 out. 2025.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura).

MASSCHELEIN, Jan; SIMONS, Maarten. Em defesa da escola: uma questão pública. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. (Coleção Experiência e Sentido).

Minibio da autora

Giulianny Russo Marinho é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Alfabetização pela Universidad Nacional de La Plata, na Argentina. Pesquisadora da área de alfabetização e integrante da diretoria da Rede Latino-Americana de Alfabetização, atua na formação de professores alfabetizadores e coordena o projeto Reescritas – Estudo, Formação e Pesquisa (@reescritas_formacao).

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