Projetos de Vida no 9º Ano do Fundamental: preparando o aluno para a transição ao Ensino Médio

O 9º ano se apresenta como uma etapa ímpar que separa o ensino fundamental do tão aguardado ensino médio, para nós, professores e equipe escolar, uma oportunidade de levar nossos estudantes a reflexões mais estruturadas e complexas sobre a vida.
Pensar em projeto de vida pode, à primeira vista, parecer um teste vocacional em que se discute carreira e objetivos acadêmicos, mas devemos ir além! A Base Nacional Comum Curricular trata o projeto de vida de forma mais ampla, como reflexão sobre planejamento de ações e possibilidades de desenvolvimento pessoal e social.
Os estudantes do 9º ano devem enxergar o ensino médio como uma oportunidade de novos aprendizados, então essa etapa escolar deve ser compreendida não como um ponto de chegada, mas como um momento de preparação e projeção para novas responsabilidades. Além da consolidação da autonomia, o experienciar uma maior liberdade de escolha e lidar com os desafios emocionais e sociais que antecedem o ensino médio.
Dessa forma, pensar em projeto de vida nesta etapa significa também acolher dúvidas, fortalecer a autoestima e estimular o protagonismo, fomentando condições para que cada estudante enxergue a si mesmo como sujeito ativo no desenvolvimento de seu futuro.
Estejam atentos, pois ao longo desse texto vamos nos aprofundar em como podemos propor um espaço de reciprocidade e quais ferramentas podemos utilizar.
Projeto de Vida: para ir além da escolha de profissões
O projeto de vida não deve se limitar à escolha da profissão do estudante, quando isso acontece corremos o risco de apagar dimensões igualmente importantes que vão além do aspecto profissional e acadêmico do estudante, como os sonhos pessoais, os objetivos e metas sociais e até os planos materiais dos estudantes.
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Desse modo, nesse primeiro passo, o que se propõe é que os estudantes sejam estimulados a ir além do campo das profissões e tragam suas questões de vida, como dúvidas e anseios, para que assim possa existir um campo de reflexão aprofundada. Faça um mapa mental ou uma roda de diálogos para realizar essa etapa e sistematize usando ferramentas como o CANVA.
Interdisciplinaridade: Conectando Língua Portuguesa e Artes ao Projeto de Vida
Para a seguinte etapa, uma boa estratégia é conectar uma área do conhecimento, aqui traremos a área de linguagens, especialmente no componente curricular Língua Portuguesa. Como ponto de partida, usaremos o tópico: gêneros textuais, podemos propor inicialmente que o estudante crie uma reportagem sobre o seu “eu do futuro”, imaginando conquistas, aprendizados e relevância em determinado campo de atuação. Essa prática se conecta com a habilidade da BNCC (EF89LP08), que orienta a construção por meio de planejar reportagem impressa e em outras mídias (rádio ou TV/vídeo, sites), tendo em vista as condições de produção do texto.
Para o terceiro momento, já conectando a área de Artes, traga uma música, um trecho de um livro ou um poema. A música “Coragem”, da cantora e compositora Manda, pode ser uma ótima ferramenta para refletir sobre si, autoconfiança e superação. Do mesmo modo, o clássico Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, nos lembra que as pessoas estão sempre em movimento de transformação: “o mais importante e bonito do mundo é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.”
Com esse aprofundamento na área de Artes, os estudantes serão convidados a incluir elementos visuais na reportagem já feita. Proponha oficinas e momentos formativos de diferentes formas de expressão artística. Traga estudantes do ensino médio para atuarem como facilitadores ou mediadores das oficinas e proponha um diálogo maior entre ensino médio e o 9º ano. Essa prática se conecta com a habilidade da BNCC EF69AR06, em que se destaca a construção de desenvolvimento de processos de criação em artes visuais.
Acompanhamento contínuo e o uso do Livro Cartonero
A jornada do projeto de vida pode ganhar ganhar capítulos contínuos ao longo do ano letivo, como em um livro estilo bullet journal autobiográfico, com elementos de colagem e reflexões, sendo sugerido que haja um capítulo sobre a transição para o ensino médio junto aos anseios, dúvidas questões e incertezas.
Será preciso que os estudantes estejam cientes dessa frequência de escrita e que haja um acordo, sendo indicado quinzenalmente, com atualizações de metas, objetivos, questionamentos e caminhos a seguir.
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Podem ser explorados diversos gêneros textuais, e áreas diferentes como ciências da natureza e ciências humanas.
Para a confecção do livro, pode-se usar o estilo de livro cartonero, uma quiz que além de ser uma excelente ferramenta, apresenta baixo custo no que se refere aos materiais utilizados e a construção artesanal valoriza ainda mais a construção autobiografia e a expressão através da arte.
Para saber mais sobre livros cartoneiros: https://www.eca.usp.br/en/node/4275
Conexão Ensino Médio: acolhendo dúvidas e ansiedades
Com o processo de transição para o ensino médio chegando é certo que as dúvidas e ansiedades vão surgir e o projeto de vida pode ajudar nesse percurso também. Afinal de contas, aqui estamos tratando de um projeto de vida integralizador que incorpora aspectos sociais e emocionais.
Leia mais: O desafio e a arte de ser professor no século XXI
Já destacamos que um capítulo na produção do livro cartonero seja dedicado a esse tema com dúvidas, ansiedades e expectativas sobre o ensino médio, mas para além disso, proponha leituras coletivas desse capítulo estimulando a reciprocidade, empatia e auto estima dos estudantes. Lembre-se a BNCC traz o exercício da empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação como competências essenciais para a educação básica.
Oportunize que professores do ensino médio tenham momentos de diálogo e conexão com o nono ano, através de oficinas pedagógicas por exemplo, faça o mesmo através de projetos de mentoria compartilhada com os estudantes do ensino médio e os estudantes do nono ano. O objetivo aqui é desmistificar o ensino médio trazendo os próprios atores que o fazem como facilitadores desse processo.
Ampliando o horizonte de repertórios e referências pedagógicas
A leitura, pesquisa e estudo faz parte da vida do professor, sabendo disso aqui temos uma curadoria de projetos robustos que deram certo e que podem ser inspiradores para você nessa jornada.
Este documento apresenta uma oficina que conta como ponto de partida o documento “Projeto de Vida – Anos Finais do Ensino Fundamental: Desenvolvendo Habilidades para a Vida”, elaborado pelas Coordenadoria de Formação dos Profissionais da Educação, Coordenadoria de Políticas para o Ensino Fundamental, Coordenadoria de Psicologia Educacional, Superintendência de Políticas Educacionais, e colaboradores, da Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso do Sul.
Você vai encontrar fundamentação teórica, dicas práticas e orientações completas para o participante para o facilitador:
Clique para ler o documento completo : Oficina ANOS FINAIS: “Desenvolvendo habilidades para a vida” acesse e saiba mais https://www.gov.br/mec/pt-br/proec/imagens/proposta-anos-finais-periodo-defes o.pdf
Conclusão: Várias possibilidades, uma certeza
Oportunizar momentos de reflexão, diálogo e estimular a empatia e a reciprocidade são atitudes essenciais ao longo do processo educativo. Essa missão deve ser compartilhada por cada professor, que constrói, no dia a dia, junto a seus estudantes, experiências significativas de aprendizagem formal e de formação para a vida.
Nesse sentido, o projeto de vida se configura como uma ferramenta robusta, capaz de aprofundar as questões aqui destacadas, especialmente no 9º ano, etapa decisiva de transição para o ensino médio.
Referências:
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http:https://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 15 set. 2025.
MANDA. Coragem. YouTube, 2023. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=1fW1i-bG95A&list=RD1fW1i-bG95A&start_ radio=1>. Acesso em: 12 set. 2025.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Minibio da autora
Klyvia Leuthier é mestra em Ensino (UFPE) e possui dupla licenciatura em Pedagogia e Ciências Biológicas (UFRPE). Com sólida trajetória acadêmica e administrativa, atua como Professora Colaboradora e integra a gestão do curso de Pedagogia na UFRPE. Complementa a sua atuação no setor educacional como Gestora de Pesquisa e Projetos no Colégio Avance.
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