Competência de Argumentação no Ensino Médio: uma proposta pedagógica baseada no Tratado de Versalhes

Em um mundo tão conectado, onde a informação circula rapidamente, as notícias falsas — fake news — se proliferam e os debates se tornam mais acalorados entre opiniões divergentes, faz-se necessário direcionar nosso olhar para o modo como temos trabalhado as habilidades de argumentar e nos posicionar perante os mais variados temas.
Especialmente no contexto do Ensino Médio — momento da formação escolar em que nossos adolescentes exercitam com maior complexidade a construção do senso crítico, o estranhamento do olhar, a desnaturalização de preconceitos e a capacidade de dialogar com o outro —, saber argumentar torna-se essencial para a construção de indivíduos conscientes, solidários e participativos na sociedade.
A Argumentação na BNCC e nas Ciências Humanas
De acordo com a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (Brasil, 2018), a competência de argumentação no Ensino Médio tem caráter transdisciplinar, uma vez que é mobilizada em diferentes áreas do conhecimento. Segundo Carli e Moraes (2020), as Ciências Humanas têm papel fundamental na efetivação da competência argumentativa. Rompendo com uma visão ultrapassada de validade da ciência apenas por metodologias e evidências que contemplam fenômenos das Ciências Naturais, os autores, ao analisar especialmente o ensino de Geografia na escola, apontam para a necessidade de compreensão da argumentação como habilidade central na disciplina, uma vez que a intenção dos(as) educadores não deve se concentrar apenas no esforço para que os(as) estudantes saibam os fatos geográficos, mas sim que consigam usá-los para construir, defender e criticar argumentos.
Desta forma, será apresentada, a seguir, uma proposta pedagógica que visa trabalhar as habilidades argumentativas dos estudantes em conexão com as áreas das Ciências Humanas e Sociais.
Utilizando a simulação de um tratado internacional enquanto recurso didático, a atividade articula conhecimentos históricos, geográficos e culturais às habilidades de cooperação em equipe, negociação e resolução de problemas e defesa de diferentes pontos de vista.
Ao final, espera-se sensibilizar a turma para colocar-se no lugar do outro e para compreender como a comunicação revela muito mais do que podemos imaginar sobre controle, poder e autoridade na construção da(s) história(s). Vamos lá?
O Tratado de Versalhes – uma simulação “secreta” em sala de aula
As duas grandes Guerras Mundiais são assuntos que, geralmente, despertam o interesse, a curiosidade e o engajamento dos estudantes ao longo da formação escolar. Apesar de o interesse por eventos das potências europeias pressupor um processo de ensino que ainda valoriza as narrativas do Norte Global, nesta proposta utilizaremos um desdobramento da Primeira Guerra Mundial para criar uma dinâmica envolvente e contextualizada.
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O Tratado de Versalhes, assinado no dia 28 de junho de 1919, na França, marcou oficialmente o fim da Primeira Guerra Mundial e estabeleceu importantes medidas e consequências às nações envolvidas no conflito. Os países da Tríplice Entente, especialmente o Reino Unido, a França e os Estados Unidos, discutiram e acordaram uma série de reparações financeiras, devoluções e novas delimitações territoriais e restrições militares aos países “perdedores”. Além disso, a Alemanha foi considerada a única responsável e principal culpada pela guerra, sofrendo as mais graves sanções do lado “vencedor”.
Atualmente, muitos historiadores consideram que o tratado foi excessivamente punitivo e que contribuiu diretamente para a instabilidade que levou à Segunda Guerra Mundial. Logo, trazer essa análise crítica para dentro da sala de aula nos permite incentivar uma compreensão da história com maior profundidade e sentido, estimulando o pensamento crítico, a capacidade de argumentação e a percepção de como decisões políticas do passado impactam o presente e o futuro.
Para esta proposta, o(a) educador(a) utilizará recursos de simulação de negociações internacionais e representações diplomáticas de diversos países. Essa estratégia é respaldada por estudos como os de Magill e Shanks (2020), que mostram que simulações críticas em História permitem aos estudantes vivenciarem relações de poder, formular argumentos e confrontar visões divergentes de forma construtiva, desde que concebidas com intencionalidade pedagógica e com atenção para não reproduzir discursos hegemônicos sem problematizá-los.
Confira, a seguir, o passo a passo para realizar a atividade.
Simulando o Tratado de Versalhes no Ensino Médio – como fazer?
A primeira ação do(a) educador(a) responsável pela proposta é dividir previamente a turma em quatro grupos. Essa divisão prévia é importante para que os(as) estudantes sejam distribuídos de forma equilibrada, considerando suas habilidades, de modo que todos se sintam confortáveis para contribuir, valorizando qualidades individuais e fortalecendo o coletivo por meio das competências de cada colega.
Além disso, é necessário preparar alguns materiais prévios que serão utilizados durante a dinâmica. O primeiro deles é uma carta de contextualização do “mundo pós-guerra”. A proposta de manter a dinâmica “secreta” tem o objetivo de evitar que os estudantes formulem julgamentos prévios sobre os países ou as posições que terão que defender.
A carta inicial deve trazer apenas uma contextualização geral: o mundo acabou de passar por uma grande guerra (sem mencionar qual), marcada por muitas mortes, separação de famílias, esgotamento de recursos e perda de humanidade. A ideia é criar uma ambientação, proporcionando o clima adequado para a atividade.
Essa carta deve ser lida coletivamente no início da simulação, depois que os grupos já estiverem formados. Ao final dela, é importante mencionar que, naquele momento, as nações envolvidas no conflito estão reunidas para definir caminhos e soluções para o pós-guerra.
Após a leitura, cada grupo recebe uma ficha com orientações específicas sobre sua própria nação, contendo:
- um breve histórico de posicionamento;
- ações e consequências que sofreu e realizou durante a guerra;
- sinalização de possíveis aliados e inimigos;
- indicações ou sugestões de propostas a serem levadas ao debate.
Vale lembrar que a simulação é secreta: os estudantes não sabem que se trata do contexto pós-Primeira Guerra Mundial. Por isso, cada nação recebe um nome fictício:
- Nação Z (representará secretamente o Reino Unido)
- Nação B (representará secretamente a França)
- Nação X (representará secretamente a Alemanha)
- Nação Y (representará secretamente a Itália)
Sugestão de construção das fichas
| Nação | Contexto Histórico e situação | Percepção sobre a guerra | Propostas para o tratado de paz |
| Nação X | Vocês foram perdedores na guerra. A Nação X está profundamente abalada: perderam territórios e seu povo sofre com fome e desemprego. Historicamente, sempre foram uma nação potente, mas o atual cenário é desfavorável. | As nações Z e B acusam vocês de serem os principais culpados pela guerra. No entanto, as perdas e mortes são consequências de todos os envolvidos. Vocês se sentem injustiçados e, junto aos aliados, não toleram a hipocrisia dos inimigos. | Proposta principal: solicitar auxílio financeiro para se recompor após a guerra, já que as outras nações têm maior poder econômico. |
| Nação Z | Vocês foram vitoriosos na guerra e estão entre as maiores potências mundiais, com muito poder econômico, social e político. | Consideram que a Nação X é a grande culpada pela guerra, responsável por mais de 9 milhões de mortes. | Propostas principais: 1) A Nação X deve devolver todos os territórios conquistados durante a guerra; 2) A Nação X e seus aliados devem pagar indenizações às Nações Z e B, no mínimo 20 bilhões de dólares, garantindo vantagens econômicas para a Nação Z. |
| Nação B | Vocês foram vitoriosos e possuem grande influência cultural no mundo. Historicamente, a Nação X incomodou bastante, conquistando alguns territórios de vocês. | Sentimento de desprezo e desejo de vingança contra a Nação X, que foi considerada responsável por mais de 9 milhões de mortes. | Propostas principais: 1) Limitar a Nação X a 100 mil soldados; 2) Destruir grande parte do armamento da Nação X (rifles, aviões, metralhadoras) para evitar uma nova guerra. |
| Nação Y | Vocês consideram a guerra uma grande bagunça e querem priorizar os interesses próprios da nação. | Inicialmente, irão concordar com o que a Nação X disser, mantendo relações amigáveis. | Estratégia: apoiar a Nação X frente a ataques das nações Z e B, mas lembrar que os interesses da Nação Y são prioritários; alianças podem mudar futuramente conforme novas informações surgirem. |
Dinâmica da simulação e rodadas de negociação
Após a entrega e a leitura das fichas, a simulação se desenvolve em três rodadas principais:
Rodada 1 – Pronunciamentos iniciais Cada nação vai à frente da sala e apresenta sua posição pós-guerra, indicando propostas iniciais de resolução. Todas as propostas devem ser registradas na lousa pelo(a) educador(a).
Rodada 2 – Alinhamentos e propostas finais Encerrada a primeira rodada, os grupos recebem 5 minutos para conversar com possíveis aliados e alinhar estratégias. Nesse momento, tendem a surgir dois blocos claros: Z e B, de um lado, defendendo duras sanções; e X e Y, do outro, resistindo às imposições.
No entanto, nesse momento da atividade, o(a) educador(a) entrega discretamente, à Nação Y, um bilhete secreto, previamente elaborado, assinado em nome das Nações Z e B. Nele, é oferecida a possibilidade de conquistar territórios em troca de apoio às propostas desses dois grupos. Paralelamente, o(a) educador(a) informa às Nações Z e B que a oferta foi feita, destacando que, caso a Nação Y aceite, poderão conquistar um novo aliado.
A única nação que não deve perceber essa movimentação é a Nação X, garantindo o efeito de surpresa. Essa estratégia remete ao contexto histórico da Itália, que após a Primeira Guerra buscava expandir seu território, colocando seus próprios interesses acima das alianças firmadas anteriormente.
Com esse novo cenário, as nações apresentam suas propostas finais de resolução, já influenciadas pelas alianças e pelos interesses estratégicos em jogo.
Rodada 3 – Votação e desfecho As nações votam nas resoluções, sendo necessária maioria simples (3 votos). A grande virada acontece quando a Nação Y rompe o alinhamento com a Nação X, apoiando Z e B em troca de territórios. O voto da Nação Y, dado por último, acentua o choque e a sensação de “traição”. Esse momento de tensão é esperado e essencial para a etapa de reflexão.
Refletindo sobre a simulação: o que podemos aprender com a proposta?
O objetivo central da atividade é exercitar a argumentação, mesmo que os(as) estudantes não concordem pessoalmente com a posição que precisaram defender. Aprender a argumentar envolve também a capacidade de ser flexível, ouvir diferentes perspectivas e construir raciocínios sólidos diante de opiniões divergentes.
Além disso, a dinâmica foi pensada para mobilizar sentimentos como revolta, traição e pertencimento a alianças. Esse jogo com as emoções promove maior engajamento e aproxima os(as) estudantes da complexidade dos temas históricos trabalhados.
No momento de reflexão coletiva, é fundamental que o(a) educador(a):
- valide os sentimentos que surgiram durante a simulação, especialmente daqueles(as) que representaram a Nação X e foram responsabilizados pela guerra;
- revele a inspiração histórica da atividade, mostrando que a dinâmica foi baseada no Tratado de Versalhes; e
- estimule os(as) estudantes a levantar hipóteses (“provavelmente representamos a França” ou “a Nação X era a Alemanha”), conduzindo as descobertas e realizando pequenas correções históricas:
- Alemanha e Itália não participaram diretamente do tratado, mas foram inseridas na atividade como recurso pedagógico;
- A inclusão da Alemanha buscou mobilizar reflexões sobre como a sociedade alemã pode ter se sentido após as sanções impostas;
- A Itália foi representada como “traidora” porque, na realidade, também mudou de lado durante a guerra em busca de interesses próprios.
Por fim, é interessante conduzir o grupo a refletir sobre o impacto de um tratado punitivo na ascensão de governos totalitários e como ele contribuiu para o início de uma nova — e ainda mais violenta — guerra mundial.
Conclusão
Simulações como esta, em sala de aula, demonstram o potencial das Ciências Humanas para ir além da simples transmissão de conteúdos: elas criam espaços de questionamento, investigação e sensibilização.
Ao vivenciar papéis, defender pontos de vista e lidar com emoções como revolta ou traição, os(as) estudantes não apenas aprendem sobre fatos históricos, mas desenvolvem competências fundamentais para a vida em sociedade.
Iniciativas desse tipo são convites para que educadores(as) explorem metodologias ativas e criativas, nas quais a argumentação, o diálogo e a empatia ocupam lugar central.
Apostar em simulações é investir na formação de jovens que saibam escutar, negociar e defender suas ideias com responsabilidade e respeito, tornando-se protagonistas de suas aprendizagens e de seu papel no mundo.
Minicurrículo da autora
Beatriz Rodrigues Gomes Vidal é graduada em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como professora na Educação Básica, lecionando disciplinas da área de Humanidades no Ensino Médio. Possui experiência também como professora bilíngue, tendo lecionado inglês para diferentes faixas etárias e obtido certificação de Cambridge. Pesquisadora em Antropologia, realizou pesquisa etnográfica com foco em questões de gênero, desenvolvida em unidades de acolhimento público na cidade de Santos (SP). É também autora de materiais didáticos para o Ensino Fundamental, na área de Ciências Humanas. Seu percurso articula formação acadêmica, pesquisa e prática docente em contextos diversos, sempre voltados à reflexão crítica e ao desenvolvimento integral dos estudantes.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
CARLI, Eden Correia; MORAES, Jerusa Vilhena de. ARGUMENTAR CIENTIFICAMENTE: perspectivas e investigações para a Geografia escolar. Revista Brasileira de Educação em Geografia, [S. l.], v. 10, n. 20, p. 520–540, 2020. DOI: 10.46789/edugeo.v10i20.822. Disponível em: https://revistaedugeo.com.br/revistaedugeo/article/view/822. Acesso em: 5 jan. 2026.
MAGILL, Kevin Russel; SHANKS, Neil. Exploring new teachers conceptualizations of critical simulations in world history, American history, and economics learning experiences. Citizenship, Social and Economics Education, [s. l.], v. 19, n. 3, p. 153-174, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1177/2047173420948392. Acesso em: 5 jan. 2026.
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