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Trabalhando com projetos: desenvolvendo habilidades do século XXI nos estudantes

25 de fevereiro de 2026,
E-docente
Trabalhando com projetos

Inicio este artigo com algumas perguntas pessoais. O que te move no dia a dia para se manter empenhado no trabalho, mesmo com tantas dificuldades? Muitas vezes, é aquele plano de viagem, aquela geladeira nova, aquele carro novo que você deseja comprar. Então, naqueles dias em que você acorda mais desanimado, mentaliza a sua meta, lava o rosto e vai. Ou seja, existe um projeto, uma meta que te move. É nesse cenário que percebemos a importância de estarmos, cada vez mais, trabalhando com projetos que tragam sentido ao cotidiano escolar.

O desafio de motivar a geração imediatista na escola

E, para os nossos alunos, que já são de uma geração mais imediatista que a nossa, será que a formação acadêmica, que é um investimento a longo prazo, é capaz de movê-los no dia a dia?

Outro ponto: em muitas escolas, a sala de aula parece estar muito distante do que acontece fora dela, no mundo real. Enquanto o cotidiano dos nossos alunos é cheio de desafios, novas tecnologias, colaboração on-line e tomada rápida de decisões, muitas vezes ainda insistimos em pedir que eles apenas copiem, decorem e repitam. É aqui que podemos trazer a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP): uma metodologia que conecta a escola ao mundo real e, de quebra, desenvolve justamente as habilidades que estão ligadas às competências do século XXI – aquelas que muitos professores sabem que são necessárias, mas que raramente cabem nas discussões das aulas e nas avaliações internas e externas (cada vez mais frequentes em nossas instituições).

As competências do século XXI e os chamados “4 Cs”

Falamos aqui dos chamados quatro Cs: pensamento crítico, criatividade, colaboração e comunicação. As duas primeiras competências, principalmente, dão um trabalho para administrarmos… Mas sabemos que vale muito a pena desenvolvê-las. Recomendo o artigo Competências e habilidades do século XXI: o que educadores precisam saber, disponível aqui no blog E-docente, para que possamos dialogar com as ideias que aqui serão desenvolvidas.

Leia mais: Projetos de Vida no 9º Ano do Fundamental: preparando o aluno para a transição ao Ensino Médio

Em meio ao TikTok, ao Instagram e a tantas outras redes sociais e novas tecnologias, precisamos entender que a escola precisa se atualizar. Não falo aqui de nos rendermos ao conteúdo muitas vezes rasos das redes, mas de tornarmos as escolas mais atrativas, tanto para alunos quanto para professores. Percebemos claramente, ao lermos a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que formar o estudante hoje é muito mais do que transmitir conteúdos: trata-se de criar condições para que ele seja crítico, criativo, colaborativo e capaz de se comunicar em diferentes linguagens.

A proposta de desenvolver atividades conectadas entre si e com a realidade do mundo, que tenham uma razão de existir, acabam nos levando ao trabalho por projetos, já que ele oferece um caminho para que o aluno deixe de ser mero receptor e se torne protagonista no processo de aprendizagem, interferindo diretamente no processo de aprendizagem e no contexto de que faz parte.

O que significa trabalhar com projetos na prática?

Quando você ouve falar em projetos na escola, pensa em quê? Muitas vezes, pode parecer trabalhoso demais se tentamos desenvolver tudo individualmente. Porém, podemos definir em grupo metas a serem alcançadas ao final do processo, sempre buscando levar sentido às tarefas que são desenvolvidas em sala de aula. Sabendo que muitos de vocês que me leem querem algo prático, direto, seguem alguns elementos essenciais do trabalho com projetos:

  • Uma pergunta geradora, que precisa ser instigante e ter relação com a vida real. Exemplo: “Como reduzir o desperdício de água na nossa escola?” ou “Como criar acessibilidade a todos no espaço escolar?”.
  • Planejamento coletivo, onde os alunos dividem papéis e responsabilidades. Assim, temos o protagonismo no discente, que não recebe ordens, mas decide como seguir no projeto (sempre com o acompanhamento do par mais experiente, claro).
  • Investigação e pesquisa, com momentos de levantamento de informações e discussão. Neste momento, podemos aproveitar para mostrar como as novas tecnologias podem ser aliadas na pesquisa, orientando sobre fontes confiáveis de informações e bases para pesquisa.
  • Produção de um produto final, que pode ser uma feira, um site, uma campanha. Todo o conhecimento alcançado ao longo do processo será materializado em algum produto, que poderá ser compartilhado. Ou seja, as tarefas realizadas passam a ter um sentido, uma aplicabilidade na vida dos alunos.
  • Apresentação pública, porque compartilhar com a comunidade dá sentido à aprendizagem. Além de integrar os atores do processo educacional, conseguimos proporcionar uma troca de experiências, de conhecimentos, mostrando diversos pontos de vista sobre as produções, fugindo de polarizações e ideias de “certo ou errado”.
  • Avaliação formativa, que valoriza o processo tanto quanto o resultado. Em vez de apenas um momento quase que “sagrado” em que se avalia o que o aluno aprendeu, temos uma visão de diversos aspectos que englobam construção, trocas, comunicação, criatividade… Ou seja, as competências e habilidades de que falamos e que são tão importantes na atualidade.

Exemplos de projetos e o impacto da metodologia ABP (PBL)

Elaborar um jogo, digital ou analógico, por exemplo, que represente perfeitamente a comunidade onde a escola está inserida, pode ser um grande projeto e tem potencial para trabalhar diversos itens do nosso planejamento.

Leia mais: Projetos interdisciplinares no ensino fundamental anos finais: conectando conteúdo à realidade dos alunos

Um estudo de Oliveira et al. (2020) mostra que, em escolas de Ensino Médio no Brasil, a ABP (também conhecida como PBL, pela grafia em inglês Project-Based Learning) foi responsável por aumentar a motivação dos estudantes e criar maior vínculo entre conteúdos e situações reais. Ou seja, não estamos falando apenas em realizar uma dinâmica de grupo, mas seguir uma metodologia de aprendizagem ativa, com possibilidade de impacto em toda a comunidade escolar.

Como a ABP desenvolve habilidades essenciais para o futuro

O que você considera ser inteligente? Alguém que decora rapidamente uma tabuada? Alguém que consegue conjugar a segunda pessoa do plural do verbo ser no pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo? Alguém que conheça todas as capitais dos países da América Central? Geralmente, em programas de TV que exaltam crianças superdotadas, são esses os conhecimentos que importam. Mas, será que somente esse acúmulo enciclopédico de saberes é o suficiente para a formação completa de uma pessoa?

Retomando o que vimos falando anteriormente, as chamadas habilidades do século XXI envolvem competências como pensamento crítico, criatividade, colaboração, comunicação, literacia digital e cidadania global. As etapas de um bom projeto precisam explorar habilidades dentro desse escopo. Vamos a alguns exemplos:

  • Trabalho em equipe – colaboração e resolução de conflitos. Em tempos de cancelamento digital, em que qualquer discordância nos traz um afastamento do outro, precisamos pensar em negociações (de preferência presenciais), em trabalhos em que um respeita o espaço do outro, sua opinião, buscando um meio termo que contemple as maiores aspirações dos integrantes do grupo como um todo.
  • Pesquisa e análise de dados – pensamento crítico e letramento científico. Perceber qual tipo de dado é confiável, como buscá-lo, como levantar dados que não sejam enganosos, criar pesquisas que reflitam verdadeiramente o que pensam determinados grupos: são habilidades indispensáveis na era das fake news e do questionamento da ciência como um todo.
  • Produção e apresentação de resultados – comunicação oral e escrita. Não adianta desenvolver as habilidades anteriores se você não consegue expor os resultados, as conquistas. Também é essencial perceber características próprias de cada público-alvo, adaptando a linguagem de seu discurso a este.
  • Criação de soluções inovadoras – criatividade. Sair da “mesmice” que tanto entedia todos, ainda mais em um momento de tamanha dispersão e falta de concentração por parte dos jovens. Inovar vem como quase sinônimo de “surpreender”, “chamar a atenção”. Essas habilidades acabam engajando muito mais o grupo e ajudando no desenvolvimento das demais competências.
  • Uso de ferramentas digitais – literacia digital. Em um mundo em que a cada dia surgem novas tecnologias, precisamos estar atentos a como utilizá-las da melhor maneira possível, buscando ampliar tanto o alcance dos projetos quanto a potencialidade de resolução de problemas.

O impacto socioemocional e o senso de pertencimento

Percebam que todos esses itens acabam se integrando, cada um afetando o outro. Silva (2021), ao analisar projetos sociais com jovens, mostrou como o envolvimento em projetos reais fortaleceu o senso de pertencimento e a capacidade de mobilização coletiva.

Consideramos que a APS é uma importante referência metodológica para a educação em valores e para a cidadania, pois não se limita à problematização e à proposição de soluções para problemas sociais, mas desafia os educandos a intervirem sobre problemas reais e complexos que expressam conflitos de caráter moral, suscitando a mobilização e a construção de valores (p. 1076).

Em outras palavras: além das habilidades cognitivas, trabalhar com projetos toca em dimensões socioemocionais fundamentais.

Passo a passo para planejar projetos escolares (Guia Prático)

Por trabalhar na docência já há vinte anos (sim, estou ficando velho…), sei que o dia a dia em sala de aula é cruel e acaba muitas vezes nos impedindo de agir para pormos em prática excelentes ideias que temos quando lemos novos estudos. Mas calma. Não é preciso começarmos com um megaprojeto de vários meses. Você pode começar a desenvolver projetos curtos, de duas a quatro semanas, sempre engajando alunos e outros professores e membros da equipe diretiva que queiram trabalhar com você. A tão falada “interdisciplinaridade” pode ser posta finalmente em prática. Eis um passo a passo prático (a ser adaptado, claro, diante de cada contexto):

  1. Escolha o tema e alinhe à BNCC. Você conhece bem a Base Nacional Comum Curricular? É um importante guia na criação de projetos. Não precisamos segui-la totalmente, ainda mais porque nossas escolas têm características próprias que nem sempre estão presentes no documento, mas ele pode servir como um guia para o desenvolvimento de nossas atividades. Exemplo: em Ciências, em vez de apenas falar sobre reciclagem, você pode propor “Como podemos reduzir o lixo da cantina da escola?”.
  2. Formule a pergunta geradora. Ela deve ser clara e instigante. É importante analisar cada turma e pensar em algo que vá mobilizá-la.
  3. Organize equipes e papéis. Cada aluno pode assumir um papel – pesquisador, comunicador, organizador… Explore o que cada um tem de melhor. Mas deixe claro que eles podem trocar esses papéis em projetos futuros.
  4. Planeje entregas curtas. Em vez de esperar o trabalho final, peça evidências semanais: uma foto, um vídeo, um minirrelatório. Você, professor, sabe como é: se não acompanharmos o trabalho, deixarão para fazer tudo correndo na última hora…
  5. Envolva a comunidade. Famílias, gestores, até comerciantes locais podem participar. Isso dá sentido ao projeto e mostra o impacto das atividades no entorno da escola. Assim, eles perceberão que esse pode ser um primeiro passo para desenvolver projetos maiores, que alcancem mais pessoas futuramente.
  6. Finalize com apresentação pública. Pode ser uma feira, uma exposição ou até uma live nas redes sociais da escola, mostrando que o empenho de toda a comunidade deu resultado.

Superando obstáculos: tempo, recursos e resistência

Pesquisas como a de Pascon e Peres (2025) indicam que o trabalho com projetos gera percepção positiva dos alunos quanto à relevância do conteúdo, principalmente por remeterem a situações reais da vida.

Não quero aqui dizer que tudo ocorrerá de forma perfeita, às mil maravilhas. Sempre tem aquele “colega” de profissão que não colabora, que, além de não se mexer para ajudar, ainda faz de tudo para atrapalhar. Alguns outros obstáculos também são recorrentes: falta de tempo, escassez de recursos, desânimo de alguns alunos. Precavido que sou, para cada um desses obstáculos, trago caminhos possíveis:

  • Tempo: aposte em microprojetos de 2 a 3 semanas, que não sobrecarregam.
  • Recursos: use ferramentas gratuitas (Google Docs, Canva, blogs, vídeos curtos no celular). Caso não tenha muita familiaridade com essas ferramentas, peça a colaboração dos alunos. Muitos deles são craques nesse manuseio.
  • Resistência: comece pequeno, mostre resultados e compartilhe com colegas e gestores.

Naturalmente, a resistência inicial tende a diminuir quando a comunidade escolar percebe os ganhos de aprendizagem e de engajamento, por isso é essencial que todos os atores do processo educacional sejam convidados a participar. E essa participação não deve ser passiva, coadjuvante, mas com poder de decisão, de encaminhar passos dentro do projeto, com cada um atuando de maneira que possa explorar da melhor forma possível o seu potencial.

Conclusão: a investigação como motor da aprendizagem

Trabalhar com projetos é, antes de tudo, um convite ao professor: mudar o foco da transmissão para a investigação. O aluno sai de receptor para produtor e percebe claramente os porquês de estar aprendendo determinados conteúdos, além de perceber que a realidade em que vive não está sendo ignorada dentro de uma “bolha escolar”.

Pode parecer ousado no início, mas os ganhos são claros – para os estudantes, que aprendem de forma significativa; para nós, educadores, que voltamos a ver brilho nos olhos das turmas; para a comunidade escolar como um todo, que se vê contemplada no dia a dia da escola.

Então, retomando aquela reflexão sobre a motivação, lá do início do texto, que nos move no dia a dia para nos levantarmos da cama, pensemos aqui em uma provocação: qual problema da sua escola merece virar projeto amanhã? Pode ser pequeno, pode ser simples. Começa na escola, depois no entorno, depois no bairro, na cidade… O importante é começar. Afinal, como já dizia Paulo Freire, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam em comunhão, mediados pelo mundo” (1979, p. 39). E uma das coisas que melhor representa essa ideia é aprender resolvendo juntos os problemas do mundo real.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

OLIVEIRA, Sebastião Luís de; SIQUEIRA, Adriano Francisco; ROMÃO, Estaner Claro. Aprendizagem Baseada em Projetos no Ensino Médio: estudo comparativo entre métodos de ensino, Bolema, v. 34, n. 67, 2020. Disponível em https://www.scielo.br/j/bolema/a/wySf37fqxQDVHGPdPcCGhHq/?format=pdf&lang=pt.

PASCON, D. M.; PERES, H. H. C. Aprendizagem Baseada em Projetos: perspectivas pedagógicas para cursos superiores de saúde. Revista de Educação em Saúde, 2025. Disponível em: https://encurtador.com.br/C0QvW.

SILVA, Marco Antônio Morgado da; ARAÚJO, Ulisses. Aprendizagem por projetos sociais: integração de conteúdos morais à representação de si de jovens. Educação Temática Digital, 2021. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/etd/article/view/8659662/27547. Acesso em: 22 set. 2025.

Minicurrículo

Tiago da Silva Ribeiro é professor do Magistério Superior no Instituto Nacional de Educação de Surdos nas disciplinas de Língua Portuguesa e Tecnologias da Informação e Comunicação. Tem experiência em turmas do Ensino Fundamental e Médio, além de já ter atuado na modalidade on-line como mediador, orientador de trabalhos finais de curso, desenhista educacional, professor-autor e coordenador de curso. Seu Doutorado em Letras é pela PUC-Rio e teve como tema de trabalho o Internetês. Transita entre o lúdico e a seriedade, já que ambas são necessárias tanto no momento de lazer quanto no de trabalho.

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