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Semântica e o ensino de língua portuguesa: para além da gramática tradicional

13 de janeiro de 2026,
E-docente
semantica e lingua portuguesa

Quando estudamos gramática na Educação Básica, especialmente nos Anos Finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, há alguns conteúdos que historicamente são privilegiados, enquanto outros são tratados de modo mais acelerado ou, muitas vezes, sequer são vistos em sua completude.

O privilégio da morfologia e da sintaxe na educação básica

Dentre as áreas da gramática que costumam ganhar maior peso, podemos destacar a morfologia, que envolve o estudo da estrutura de uma palavra, seus processos de formation e a respectiva organização em classes, ou seja, na morfologia a preocupação é investigar do que é constituída uma palavra, quais são seus elementos básicos e suas regras de combinação.

É nesse momento que o estudante entra em contato com conceitos como raiz, radical, vogal temática, tema, afixos, desinências, vogais e consoantes de ligação. É também em morfologia que são estudados os processos de formação de palavra e toda a extensa nomenclatura em torno deles, como substantivo simples, composto, primitivo, derivado, formação por derivação, composição e por aí vai em um mar taxonômico que parece não ter fim.

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Outra área da gramática que ganha grande destaque, com mais ênfase ainda no Ensino Médio, é a sintaxe. Nessa parte, em vez de observarmos as palavras isoladas, estudamos a relação de sentidos que as palavras estabelecem quando estão organizadas de determinada maneira em um texto, ou seja, as relações estabelecidas pelas palavras dentro de uma oração.

Novamente, temos uma imensa quantidade de termos que buscam dar conta de todas essas relações: sujeito, predicado, objeto direto e indireto, predicativo, adjunto adnominal e adverbial, e a lista segue.

O que é semântica e qual sua importância no planejamento escolar?

Entretanto, se por um lado temos uma profusão de termos e um destaque acentuado em determinados conteúdos, por outro lado, há aqueles saberes igualmente importantes que costumam ocupar um pequeno espaço do planejamento anual, quando não acabam reduzidos a uma rápida apresentação em algum momento do ano letivo, como é o caso da semântica.

A semântica é aquele ramo dos estudos gramaticais que se ocupa de estudar como os significados das palavras são construídos. Tais sentidos, vale lembrar, são estabelecidos pelos interlocutores em situações comunicativas que envolvem diferentes fatores contextuais, como: quem fala e para quem fala, em que tempo o discurso é desenvolvido, em qual lugar, com qual finalidade etc.

Logo, para determinar qual é o sentido de um texto, nós realizamos operações linguísticas de retomada, inferência, antecipação, dentre tantos outros movimentos, com o objetivo de identificar exatamente qual é o significado de determinada informação que recebemos.

Na abordagem mais tradicional, é pela semântica que estudamos a relação de significados aproximados (sinônimos) e opostos (antônimos) entre as palavras, os casos de palavras escritas do mesmo jeito ou de modo parecido, mas com sentidos diferentes (homônimos e parônimos), além das relações entre palavras do mesmo campo semântico com sentido menos ou mais abrangente (hipônimos e hiperônimos).

Todos esses termos são facilmente encontrados em livros didáticos e gramáticas pedagógicas, cabendo, então, pensarmos como esse conhecimento pode ser mediado de maneira consistente para além do mero uso desses conceitos para classificar exemplos prototípicos.

Sinonímia e antonímia: superando definições limitadas

Talvez um primeiro passo para aprofundar o trabalho com a semântica é partir da problematização daqueles termos que são vistos desde muito cedo na escola. A relação de semelhança e oposição entre os significados das palavras costuma aparecer já nos Anos Iniciais, através de definições mais restritas e exemplos protocolares que irão dizer que há palavras com sentidos iguais, os sinônimos, e palavras com sentidos opostos, os antônimos.

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Evidentemente que o tipo de abordagem mais simplificado que os conceitos de antonímia e sinonímia costumam ter nos Anos Iniciais está respeitando a faixa de desenvolvimento dos estudantes, o que é algo esperado. Por outro lado, tal simplificação, se não retomada mais adiante, acaba acompanhando o estudante por toda a trajetória escolar, o que não colabora para o desenvolvimento mais qualificado de suas habilidades de interpretação e produção textual.

O desafio dos sinônimos: por que não existem palavras iguais?

Primeiramente, então, é preciso lembrar aos estudantes que não existem duas palavras com sentidos exatamente iguais, ou seja, os sinônimos tratam de palavras que compartilham uma certa escala semântica a partir de um referencial comum.

Para exemplificar, vamos pegar a palavra cheiro. No dicionário1, a primeira definição que encontramos dessa palavra é “impressão que atinge o olfato em razão das substâncias odoríferas que são liberadas por certos corpos e propagadas pelo ar”. Adiante, lemos que os sinônimos de cheiro podem ser: aroma, perfume, odor, fragrância, indício, dentre outros.

Pode parecer óbvio afirmar que qualquer falante sabe que tais sinônimos não são intercambiáveis em qualquer contexto, que cada um será usado a depender da situação comunicativa, ainda assim, quando definimos sinônimos como “palavras de sentidos iguais” estamos apagando as nuances que essas relações semânticas podem estabelecer.

Atividades práticas: pesquisa de manchetes e contexto

Uma atividade produtiva para provocar reflexões nos estudantes, sejam eles do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio, é, a partir desse mesmo exemplo, solicitar que pesquisem manchetes de notícias ou propagandas em que cada “sinônimo” da palavra cheiro foi usado.

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A intenção aqui é que reconheçam justamente aquela escala de relações e percebam, por exemplo, que nenhuma propaganda alimentícia vai usar a palavra odor para se referir a seus produtos, o mais usual é aroma; vão notar também que uma propaganda de perfume dificilmente falaria em cheiro, mas em fragrância, ao passo que alguma notícia que envolva problemas no esgoto de alguma região usará, muito provavelmente, o termo odor para tratar da “impressão que atinge o olfato”.

Processos de pesquisa, reflexão e uso podem, igualmente, ser usados para trabalhar o conceito de antônimos, complexificando um pouco mais aquela definição básica que dirá que há “palavras com sentidos opostos”, sem considerar que esses sentidos sempre serão contextuais.

Se pegarmos a palavra amigo, um antônimo primário seria inimigo. Mas e em um contexto de competição esportiva? E em uma relação pessoal mais intensa? E até mesmo em um processo seletivo? Palavras como adversário, oponente, rival, antagonista ou concorrente poderiam ser muito mais coerentes do que apenas inimigo em toda situação.

Paronímia, homonímia e o estudo da ortografia

Avançando por outros conceitos populares no estudo da semântica durante a Educação Básica, podemos explorar as relações de paronímia e homonímia em diálogo com outro tópico muito importante de ser reforçado.

Se os parônimos são palavras escritas de modo parecido (como, cavaleiro/cavalheiro; cumprimento/ comprimento; tráfego/tráfico), os homônimos são palavras que apresentam pronúncia semelhante (como acento/assento; concerto/conserto); podendo também ter a mesma escrita, como manga (fruta) /manga (parte da camisa).

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O estudo desses conteúdos é uma ótima oportunidade de exercitar questões de ortografia, explorando conceitos fonológicos que envolvem desde a representação do mesmo fonema por diferentes letras até os diferentes modos de dizer o mesmo vocábulo a depender da variante regional (diatópica) do falante.

Dependendo do segmento da turma, pode-se, inclusive, ser proposto um estudo sobre a etimologia dos vocábulos estudados. Há muitos sites que compilam esse tipo de informação, como o Origem da palavra2, no qual os estudantes podem pesquisar a escrita original de palavras que, atualmente, são parecidas, promovendo o desenvolvimento de um olhar curioso e pesquisador diante do léxico de nossa língua.

Hiperonímia e hiponímia como ferramentas de coesão textual

Por último, uma atividade muito produtiva envolvendo conceitos semânticos, que contribui para as habilidades de produção textual, é o estudo das relações de hiperonímia e hiponímia como forma de estruturar uma redação, evitando redundâncias vocabulares.

Ao iniciar o estudo desses termos, o professor pode chamar a atenção do estudante informando que algumas palavras do mesmo campo semântico podem estabelecer entre si relações de abrangência e de restrição, sendo as de sentido mais amplo, chamadas de hiperônimos, e aquelas de sentido mais específicos, chamadas de hipônimos.

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Por exemplo, o conjunto de palavras manga, maçã, banana, uva e abacaxi são hipônimos da palavra fruta, pois possuem uma definição mais específica em relação a ela, que por sua vez é um hiperônimo daquele conjunto de palavras.

No planejamento da escrita de um texto, o professor pode sinalizar algumas palavras e pedir que a turma encontre hiperônimos ou hipônimos para que o termo não precise ser repetido ao longo do texto.

Se o termo selecionado é o nome de um país, como Brasil, os estudantes devem pensar em hiperônimos que estabeleçam uma relação semântica mais abrangente com ele, como país, Estado, lugar, região, local, lembrando, como já vimos, que a adequação de cada termo dependerá do contexto discursivo em que estão sendo usados.

Essa atividade pode ocorrer de modo igualmente produtivo na correção coletiva de alguma redação, com a turma buscando termos que foram repetidos de modo desnecessário e quais relações de hiponímia/hiperonímia seriam mais adequadas na reescrita de determinado trecho.

Conclusão: a semântica como construção cultural e social

Concluindo essa breve exposição sobre a importância do trabalho com a semântica e como essa prática pode permear o estudo de outros saberes, ratificamos a compreensão do Celso Ferrarezi Jr., para o qual: “[…] uma vez que os sentidos são sempre construídos em função do conjunto de informações culturais do falante e da sua comunidade, a semântica, necessariamente será um estudo que se relaciona com os fatos culturais representados pela língua natural” (Ferrarezi Jr., 2008, p.22).

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Ou seja, estudar semântica é, acima de tudo, estudar o modo como determinado grupo social constrói sentidos discursivos para que a comunicação ocorra da maneira mais satisfatória possível, objetivo esse que deveria ser o principal norteador das práticas de letramento no espaço escolar.

Referência

FERRAREZI JUNIOR, Celso. Semântica para a educação básica. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

  1. Fonte: https://www.dicio.com.br/cheiro/ Acesso em 22/11/2024. ↩︎
  2. Fonte: https://origemdapalavra.com.br/ Acesso em 22/11/2024. ↩︎

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