Qual o objetivo do ensino de Geografia – por Eustáquio de Sene

12 de setembro, 2019 - Por e-docente

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Material de divulgação das editoras Ática, Saraiva e Scipione.
Não constitui documento oficial a respeito do PNLD.

A Geografia é um componente curricular que há bastante tempo integra as disciplinas do Ensino Básico. Convidamos o autor Eustáquio de Sene para falar sobre a aplicabilidade da Geografia hoje em dia.

O autor da coleção Geografia Geral e do Brasil é Doutor em Geografia Humana e foi professor de escola pública por muitos anos.

Confira alguns detalhes da coleção Geografia Geral e do Brasil, e aprovada no PNLD 2020:

A importância do ensino de Geografia: para que serve esta disciplina hoje?

Embora o objeto de estudo da Geografia – o espaço geográfico produzido pelo ser humano, com suas maravilhas e contradições – seja muito interessante, por que o ensino desta disciplina por muito tempo não encantou os estudantes?

Apesar das mudanças advindas da renovação crítica a partir dos anos 1980, para muitas pessoas professor(a) de Geografia ainda é sinônimo de repositório de informações desconexas a serem decoradas pelos alunos. É fato que, desde suas origens, o ensino de Geografia se ancorou muito mais na memorização do que na compreensão, muito mais na aprendizagem mecânica do que na aprendizagem significativa. Mas isso tem explicação e já mudou faz tempo.

A ênfase no ensino mnemônico de Geografia é muito antiga, vem desde os primórdios desta disciplina nos nascentes sistemas escolares implantados ao longo do século XIX, pioneiramente na Alemanha, seguida por outros países da Europa e, posteriormente, de outros continentes. Na Alemanha, a Geografia entrou no currículo escolar no início daquele século e a primeira cátedra da disciplina foi criada na Universidade de Berlim, em 1820, sob a responsabilidade de Karl Ritter. No Brasil, a Geografia entrou no currículo escolar com a fundação do Colégio Pedro II, em 2 de dezembro de 1837, no Rio de Janeiro. Porém, só em 1934 começou a funcionar o primeiro curso superior da disciplina, com a criação da Universidade de São Paulo (essa primeira cátedra de Geografia ficou a cargo do professor francês Pierre Deffonteines).

Aproveite para conferir uma conversa com o autor da coleção Geografia Geral e do Brasil:

Só muito tempo depois o geógrafo Yves Lacoste desvendou o aspecto ideológico da Geografia dos professores em seu livro A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, lançado em 1976, na França. Segundo ele, o ensino de Geografia era marcado pela despolitização das relações sociais no território, fato que explica essa fixação por decorar informações desconexas e descontextualizadas.

No entanto, os problemas de aprendizagem da Geografia escolar não residem tanto nela mesma, na disciplina, isto é, na seleção dos conteúdos a serem ensinados, e muito mais na pedagogia, mais precisamente na didática. O problema não está tanto no “que aprender”, mas sim no “como aprender”, no método mecânico de ensino-aprendizado. Pode-se aprender os países e suas capitais, mas de forma significativa, dentro de um contexto espaço-temporal determinado e não apenas como uma lista de nomes estranhos a serem guardados na memória. Da mesma forma, pode-se aprender os nomes dos rios da Amazônia, do Brasil ou do continente americano, mas inseridos num contexto de estudo das características e dos usos das respectivas bacias hidrográficas.

Historicamente o problema do aprendizado da Geografia escolar residiu na preocupação quase que exclusiva com a memorização de informações descontextualizadas, literais e arbitrárias, que não despertam o interesse dos estudantes e, portanto, não contribuem para uma aprendizagem significativa. É verdade que essa obsessão pela memorização, nunca foi exclusividade da Geografia, nem tampouco da escola básica, como se depreende da afirmação de David Ausubel:

Infelizmente, a influência das teorias da aprendizagem por memorização não se limita às concepções teóricas, ou às abordagens experimentais, da aprendizagem escolar. […] Esses métodos continuam a dominar grande parte da prática educacional contemporânea, particularmente na escola secundária e na universidade.

Porém, esse “método” de ensino-aprendizado provavelmente deixou marcas mais profundas em nossa disciplina, pois “como qualquer um sabe, ‘em Geografia nada há para entender, mas é preciso ter memória’.” Essa ainda é a percepção comum em diversas sociedades nas quais essa disciplina está no currículo da escola básica.

Então, para que (ou para quem) serve a Geografia? Como vimos, essa indagação já foi respondida por Yves Lacoste em A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Nesse livro, bombástico para a época e ainda bastante atual, ele afirma que há duas Geografias: a Geografia dos Estados-Maiores, que é tão antiga quanto o poder organizado sobre o território, e a Geografia dos professores, que nasceu ao longo do século XIX com a sistematização desta disciplina escolar e acadêmica. Enquanto a primeira tem objetivos práticos, é útil para o controle do território e, consequentemente, serve aos interesses do poder político – o Estado – e do poder econômico – as grandes empresas –, a segunda tem interesses teóricos – o saber pelo saber, supostamente desinteressado. Porém, como denuncia Lacoste, no fim das contas diante de sua aparente inutilidade a Geografia dos professores tem servido para criar uma cortina de fumaça mascarando o valor estratégico da Geografia dos Estados-Maiores, a serviço do poder.

Após superar recentemente essas visões extremadas entre a Geografia dos professores, de um lado, que aparentemente não serve para nada, e a Geografia dos Estados-maiores, de outro, que serve tão somente aos interesses do Estado, afinal, para que serve a Geografia hoje? Por que ela permanece no currículo na escola básica? Qual é o papel desta disciplina num momento em que grande parte da sociedade brasileira se esforça para se desenvolver, preservar o meio ambiente ameaçado e consolidar a democracia e o Estado de Direito? Qual é contribuição num cenário instável em que surgem novas demandas aos estudantes e trabalhadores como resultado da revolução técnico-científica? Enfim, para que serve a Geografia no século XXI, na era informacional?

A Geografia, com sua fundamentação teórico-metodológica, suas categorias de análise – como espaço e tempo –, seus conceitos-chave – como espaço geográfico, natureza, paisagem, lugar, território e região – tem muito a contribuir para a compreensão do complexo mundo atual. Um mundo marcado pela globalização da economia, apesar das crescentes resistências a este processo, e por crescentes impactos ambientais, que pela primeira vez na história ameaça a própria sobrevivência da espécie humana a longo prazo, além de, mais imediatamente, a sobrevivência de milhares de espécies animais e vegetais.

A Geografia, por transitar pela economia internacional e pela geopolítica, está apta a compreender como processo de globalização integrou o mundo desde o início da terceira revolução industrial ou revolução técnico-científica. Diversas tecnologias foram gestadas ou aperfeiçoadas no contexto desta revolução tecnológica e moldaram um meio geográfico globalizado, que o geógrafo Milton Santos chamou de meio técnico-científico-informacional, a cara da globalização, segundo ele.

Pelo fato de ser técnico-científico-informacional, o meio geográfico tende a ser universal. Mesmo onde se manifesta pontualmente, ele assegura o funcionamento dos processos encadeados a que se está chamando de globalização.

Esse meio geográfico foi construído para facilitar os fluxos da globalização e a integração de diversos lugares nos territórios de países dos cinco continentes. É importante perceber que as redes da globalização não atingem o espaço geográfico mundial por igual. Todos os países em maior ou menor grau estão integrados nos fluxos da globalização. No entanto, há lugares mais integrados e outros menos. O grau de integração tem a ver, como diz Milton Santos, com a densidade e a qualidade dos objetos técnicos disponíveis no território. Ou, para usar palavras mais corriqueiras, tem a ver com a quantidade e a qualidade da infraestrutura de transportes e telecomunicações, assim como com a oferta de bens e serviços, a pesquisa e o desenvolvimento e a qualificação da mão de obra.

Diversos países se beneficiaram com a globalização tanto entre os desenvolvidos, com destaque para os Estados Unidos, como entre os emergentes, com destaque para a China. Desde o final dos anos 1970, início da atual expansão do capitalismo, a China cresceu em média 10% ao ano e tornou-se a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Milhões de pessoas deixaram a condição de pobreza em que viviam e muitas delas se tornaram operários nas fábricas que pipocaram pelo território chinês. Segundo relatórios da UNIDO, agência da ONU para o desenvolvimento industrial, em 2005 a China era responsável por 9,8% do valor da transformação industrial mundial e os Estados Unidos, por 25,6%. Em outras palavras, naquele ano, de cada 100 produtos industrializados, cerca de 25 eram produzidos nos Estados Unidos, a maior potência industrial do mundo, e 10 na China. Dez anos depois, em 2015, a participação da China na produção industrial global saltou para 23,5%, transformando-se na maior potência fabril do planeta, e a dos Estados Unidos caiu para 16,3%. Nesse processo, milhões de pessoas romperam a linha de pobreza e tornaram-se classe média na China, o país que mais contribuiu para reduzir o número de pobres no mundo, mas ao mesmo tempo fez com que muitos trabalhadores industriais perdessem seus empregos em diversas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos.

Nem todos se beneficiaram da globalização, mesmo no interior de países que de forma geral foram bastante beneficiados. Os Estados Unidos, por exemplo, ao mesmo tempo em que criaram muitos empregos bem qualificados e remunerados em empresas de alta tecnologia no Vale do Silício (Califórnia) e em outros tecnopolos não tão vistosos espalhados pelo país, produziu muito desemprego. Isso ocorreu principalmente entre trabalhadores predominantemente homens e brancos de antigas fábricas de automóveis e de autopeças, de antigas siderúrgicas e metalúrgicas, entre outros setores, localizadas no antigo Manufacturing Belt (estados do nordeste do país).  Muitas fábricas fecharam as portas porque não conseguiram concorrer com os asiáticos (não só chineses, mas também coreanos, japoneses…) ou se deslocaram para outros lugares onde a produtividade era mais elevada. Com isso muitos trabalhadores de classe média baixa ficaram sem emprego e tiveram uma piora na qualidade de vida.

Foi em grande parte essa classe média decadente que votou em Donald Trump, acreditando em seu slogan “Make America great again” (Torne a América grande novamente) e “America first” (América em primeiro). Esses discursos são marcas de um governo nacionalista, isolacionista e protecionista que tem dificultado a imigração, questionado acordos de livre comércio e imposto barreiras protecionistas a diversos países, sobretudo à China, com quem está em guerra comercial. O Brexit, no Reino Unido, foi aprovado pela mesma conjunção de fatores e coloca em xeque o processo de integração no âmbito da União Europeia, reforçando a onda nacionalista e isolacionista. Esses processos vêm se contrapondo à globalização e à integração econômica e cabe à Geografia compreendê-los.

Por ser uma disciplina ponte entre as Ciências Humanas e as Ciências Naturais a Geografia também tem muito a contribuir na compreensão da questão socioambiental. Não é possível compreender os desequilíbrios ambientais provocados pelas atividades humanas sem antes conhecer como funciona a natureza, como funcionam os processos naturais: climáticos, pedológicos, geomorfológicos e biogeográficos. Em seguida, é necessário compreender como as sociedades se apropriam da natureza em seu processo de desenvolvimento econômico e quais as consequências disto nos diversos ecossistemas que compõem o planeta.

Por exemplo, para compreender os impactos das queimadas e do corte de árvores na floresta Amazônica é importante antes entender as características dessa formação vegetal em sua associação com os climas e solos da região. Depois é importante conhecer sobre a circulação atmosférica para entender os impactos climáticos provocados pelas atividades antrópicas na região da floresta, como a queimada e o uso do solo para pastagens e agricultura. Se a floresta fosse totalmente retirada haveria mudanças muito significativas nos climas da América do Sul com consequências para todo o planeta. Então, é importante conhecer quais são as possibilidades de exploração sustentável da floresta garantindo sua conservação e ao mesmo tempo emprego e renda para as pessoas que nela vivem. Se a devastação continuar no ritmo atual essa formação vegetal corre o risco de ser totalmente destruída. A floresta Amazônica tem uma enorme capacidade de regeneração, mas a partir de certo ponto de rompimento do equilíbrio natural, ela pode não conseguir se recuperar e ser perdida para sempre, com impactos catastróficos na circulação atmosférica e na distribuição de umidade no subcontinente. Por exemplo, boa parte da água utilizada pelo competitivo agronegócio desenvolvido no Centro-Oeste brasileiro depende de um regime de chuvas que é influenciado pela evapotranspiração da floresta Amazônica, os chamados “rios voadores”. Sem água suficiente essa atividade econômica torna-se pouco competitiva ou mesmo se inviabiliza.

O fato é que só pessoas muito míopes e/ou orientadas por ideologias obscurantistas não percebem que a floresta é um patrimônio da humanidade e é muito mais valiosa em pé, preservada. O fato de a Amazônia ser um patrimônio da humanidade não se confunde com a soberania sobre o território onde está a floresta, que é exercida pelo Estado brasileiro, mas que precisa de apoio técnico e financeiro de outros países para conservá-la. É possível a exploração racional e sustentável de diversos tipos de madeira, além de castanha do Pará, açaí, borracha natural, entre outros produtos de extrativismo. Além disso, há milhares de compostos vegetais com grande potencial químico-farmacêutico que ainda nem foram estudados e se perderão para sempre se a floresta for destruída. A Geografia é uma disciplina preparada do ponto de visto teórico-metodológico para compreender esses processos em sua dimensão natural, econômica e geopolítica, assim como suas interrelações.

Esses dois exemplos ilustram que a Geografia serve para a melhor compreensão dos complexos problemas que afligem os seres humanos no Brasil e no mundo neste século XXI. Portanto, contribui para formação de trabalhadores mais bem preparados para o exigente mercado laboral de hoje em dia, assim como de cidadãos e consumidores conscientes de seus direitos e deveres.

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Referências:
AUSUBEL, David P. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano, 2003, p. 30.
LACOSTE, Yves. A geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas, SP: Papirus, 1988, p. 21.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 191.

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