Projetos: fazer ou não fazer? Eis a questão! – por Arabelle Calciolari

19 de dezembro, 2019 - Por Victor Thadeu

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Para falar um pouco sobre sua trajetória até a final do Prêmio Educador Nota 10, convidamos a professora de Língua Inglesa Arabelle Calciolari. Seu projeto premiado teve a música (e toda a história por trás dela) como uma facilitadora da aprendizagem de um idioma estrangeiro em uma escola de periferia.

A seguir, leia o relato da professora e se encante por suas motivações beatlemaníacas. Você pode conferir mais detalhes sobre o projeto premiado clicando aqui.

Antes de tudo…

Algumas pessoas me perguntam por que e como criei um projeto sobre os Beatles, e minha resposta não pode ser nada breve. Primeiramente, preciso te contar porque eu comecei a criar esses projetos, já que tenho outros que desenvolvo na escola onde trabalho.

Minha jornada com eles é meio longa, eu sempre gostei de desenvolvê-los porque eu mesma achava muito chato só ficar presa ao tradicional, mas eu sempre os criei pensando apenas na Língua Inglesa, o que, por certo período, satisfez minha alma inquieta. 

Shakespeare salvou minha vida!

Preciso confessar que tive alguns anos de muita tristeza e sofrimento com relação à minha profissão. Me perguntava, constantemente, qual era a relevância da minha disciplina na vida de meus alunos, que em sua maioria são alunos de periferia. Eu já estava desistindo de tudo e quase exonerei!

Mas, nesse mesmo ano de muita dor, nosso Projeto Político Pedagógico (PPP) tinha como objetivo desenvolver projetos de leitura. Nesse momento me lembrei de minha irmã, que estudou em escola particular e leu muitas obras literárias clássicas, contudo, eu que estudei em escola pública não tive contato com nenhuma! Isso mesmo! Eu não tive professores que liam para mim, não tive leituras obrigatórias e passei toda essa fase sem conhecer essas obras tão importantes que devem ser lidas quando ainda somos crianças.

Foi nesse momento que me lembrei de Shakespeare: como eu poderia deixar meus alunos irem para outra escola sem conhecer esse grande clássico!? Esse projeto foi e ainda é um grande momento de felicidade na minha vida, pois meus alunos se apaixonam por ele e acabam me pedindo várias obras desse grande dramaturgo. Por causa dele eu criei uma biblioteca de língua inglesa, como consequência, meus alunos leem várias obras importantes da literatura mundial. Por conta dessa história, costumo brincar que Shakespeare salvou minha vida, pois essa paixão de meus alunos por ele, me fez ver que meu papel está muito além do ensino apenas da língua inglesa.

Assim, à minha reivindicação de ler literatura (o que, evidentemente, inclui os clássicos), porque é nosso direito, vem se somar uma determinação de ler porque é uma forma de resistência. Esse patrimônio está sendo acumulado há milênios, está à minha disposição, uma parte é minha e ninguém tasca. […] Direito e resistência são duas boas razões para a gente chegar perto dos clássicos. Mas há mais. Talvez a principal seja o prazer que essa leitura nos dá.

Ana Maria Machado, em Como e por que ler os clássicos universais desde cedo

Português na aula de Inglês, pode?

Você já parou para pensar que não existe nada mais burguês do que falar uma língua estrangeira? E já pensou que toda essa literatura, história e cultura está sendo absorvida por alunos de escolas particulares? E os nossos? Em sua grande maioria aprendem apenas o verbo to be e vocabulário sem contextualização!

Confesso, que em alguns momentos, me incomodava o fato de falar muito português nesse projeto, mas em uma conversa com minha Coordenadora de Língua Estrangeira, pudemos constatar que o ensino de tudo o que envolve a cultura de uma língua é muito importante para o aluno. Assim, podemos ampliar o repertório cultural deles para que possam ter acesso à tudo que os alunos da escola particular também tem. Isso mesmo, é para isso que a língua inglesa está na escola! Toda vez que entramos em uma sala estamos dando a oportunidade para que aquelas crianças e adolescentes possam ter acesso à bens culturais e isso é direito de todos!

Por conta desse pensamento, fui criando outras maneiras de dar aula, outros projetos e sequências didáticas.

Viver é fácil com os olhos fechados! (John Lennon)

Durante uma capacitação sobre música, me lembrei de um livro infantil que eu tinha sobre os Beatles e chegando em casa fui revisitá-lo. Vi ali a oportunidade de mostrar não só uma banda que lutou por seus ideais, como também, todo o contexto social e histórico da época, pois trabalhei com temas como a segregação e luta de gêneros usando as músicas e trajetória deles. Além disso, meus alunos iriam escutar uma música com a qual nunca tiveram contato, olha aí a expansão cultural novamente!

Pensei em começar com a música “Hello, Goodbye”, passaria o vídeo clip, faríamos uma série de atividades com a letra e só depois eles veriam a história de vida dos membros da banda. Quando fui escrever meu projeto estava cheia de medos e inseguranças, e se meus alunos não gostassem da música? E se eles achassem o vídeo clip desinteressante? Foram muitos e se…? Afinal de contas eu já tinha uma série de atividades de sucesso com eles e não queria decepcioná-los, nem mesmo me decepcionar.

Mas tudo correu muito bem, já fiz esse projeto em três anos diferentes e seis turmas passaram por ele, é lógico que todo ano o “e se..?” me atormenta, porém, como os próprios Beatles falam, tudo o que precisamos é amor, acredito que esse meu sentimento é totalmente transmitido para eles e assim o aprendizado acontece.

Desta forma professora/professor, quando vocês forem escolher um tema para um projeto escolham com o coração! Pensem nas necessidades dos alunos, culturais e sociais, o que eles precisam saber antes que esse ano com você acabe, como você pode ampliar a visão de mundo deles! Talvez os seus alunos, assim como os meus, transitem apenas em seus bairros, por isso, sua pergunta constante deve ser “Como posso mostrar à eles que existe um mundão lá fora?”

Na escola é lugar de conhecerem outras realidades, outras formas de estudo, outros livros, outros filmes, outras danças e outras músicas. Tanta gente lutou para que esses conhecimentos estivessem na escola, muitos foram julgados, presos e até mortos para que nós tivéssemos acesso à tudo! Por isso professora/professor não desperdice o curto tempo que seus alunos tem com você, mostre à eles o máximo que puder, desenvolva tudo o que estiver ao seu alcance e lembre-se que não devemos viver de olhos fechados!

Quer assistir um vídeo clip incrível que fez meus alunos se emocionarem?! Essa música foi muito cantada por eles, na primeira vez que assistiram vários estavam com olhinhos marejados ao seu final! Click aqui!!

E você? O que te motiva a buscar formas inovadoras de ensinar? Conta pra gente nos comentários!

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