Escola como cenário na literatura – por Mirna Pinsky

13 de janeiro, 2020 - Por Victor Thadeu

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Possuidora de dois Prêmios Jabuti, a multitalentosa Mirna Pinsky assina diversos livros, principalmente da linha infantojuvenil. Mestre em Teoria Literária pela USP, Mirna escreve narrativas envolventes e engajadas em fatos sociais, logo, obras muito aplicáveis ao contexto de sala de aula.

Convidamos a escritora para falar sobre seu livro De cabeça baixa, integrante da lista de obras literárias aprovadas no PNLD 2020.

Pra não andar de cabeça baixa

Escrevo histórias para crianças e jovens há mais de quarenta anos. Ao selecionar o tema e destinatário, tomo automaticamente algumas precauções. Uma delas é sintonizar nas nuances do que capto e aprendo sobre infância e adolescência, todos os dias, sempre. Tenho o privilégio de estar continuamente cercada de crianças e adolescentes. Aguço o olhar, abro os braços, sou toda ouvidos.  

O tema me vem já determinando a idade do destinatário. Em seguida escolho o narrador. O pulo do gato é calibrar esse narrador. Ou seja, definir a natureza de quem contará a história, o vocabulário e a sintaxe que usará, o nível/complexidade das informações. Dependendo do assunto, leituras e pesquisas serão necessárias. Ao contrário de alguns colegas, eu acredito sim que tanto o vocabulário quanto a forma de expor e conduzir o enredo depende do destinatário. A literatura infantil, ou pelo menos a minha literatura infantil, dialoga com determinadas faixas. É grande o leque de assuntos válidos. O segredo é nunca abrir mão do humor e da poesia do texto, seu compromisso com a Literatura.  

Clique na capa para ver a obra na integra.

Esses preceitos estiveram presentes na escrita de De cabeça baixa e se juntaram às particularidades que o assunto merecia. O termo americano – bullying – nos últimos anos acordou a sociedade para uma ocorrência que esteve presente em todas as épocas. Trata-se da marginalização, a molestação de crianças e jovens por seus pares ou grupinhos que se formam na escola, ou em outras situações sociais como vizinhança, clubes, etc.  

Recuperando experiências pessoais e entrevistando variadas pessoas na faixa dos 30 anos, fui levantando situações ricas em constrangimentos, corriqueiramente patrocinadas por líderes com características bem semelhantes. A dinâmica dessas situações derivava de atitudes recorrentes.  

Fiz um arquivo de anotações em que alinhavei ideias – muito útil para textos mais longos. Já ia avançado meu levantamento de dados, quando assisti um documentário americano lancinante, sobre  molestações em escolas americanas. E me chamou a atenção, nesse filme, a falta de atitude tanto da família quanto das escolas. 

Com esses elementos na cabeça, e começando a delinear uma ficção, lembrei de um conto da Clarice, escritora de quem sou fã de carteirinha: Felicidade clandestina. Na história, esse jogo de submissão/humilhação entre colegas de classe é contado com aflição e delicadeza. 

O tema do meu livro exigia um olhar adulto, apto a destrinchar cabeças adolescentes, explicar motivações, desenhar a dinâmica dos relacionamentos deles. O narrador em terceira e onisciente teria de ser claramente um adulto. Precisava também de um personagem maduro e forte que pudesse apoiar a protagonista na sua “revanche”. A escolha da avó Renata também compensaria, de certa forma, a família ausente.  

Elegi a escola como cenário principal, porque é o espaço em que se desenrola grande parte da vida social do adolescente. E nessa fase ele tende a substituir a influência e autoridade da família pela chancela de seus iguais.  

O uso da internet para acirrar os maltratos não podia deixar de estar bem presente num texto realista. Hoje em dia ela é responsável por situações exponencialmente cruéis e perigosas. 

A escola, palco dos conflitos, a família, às vezes envolvida em problemas circunstanciais, não precisam e não devem permanecer alheias a esse problema tão frequente e que pode causar danos irreversíveis. Ao abordar o bullying, eu tinha a expectativa de que ele pudesse ser ventilado em classe, enfrentando o desafio de levantar discussões e destrinchar ocorrências. Há no texto sugestões para a construção da autoestima e para a desconstrução da crueldade e violência física e emocional. 

bullying tem resultado, por vezes, em danos irreversíveis. A depressão e a ansiedade decorrentes dele não têm bons prognósticos. Essas questões encaro mais de frente  em um texto mais recente: Travessia

Mas isso é uma outra história, que fica para uma outra vez… 

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