A literatura fantástica na escola – por Lino de Albergaria

14 de janeiro, 2020 - Por Victor Thadeu

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Se há alguém muito envolvido em literatura, esse alguém é o Lino de Albergaria. O mineiro, Doutor em Literaturas de Língua Portuguesa, além de escritor é também tradutor. Apesar de autor de algumas narrativas destinadas aos adultos, a maior parte de seus livros são ideias para os jovens leitores. Sua novela Chá das cinco foi aprovada no PNLD Literário 2020 e pode ser parte do material didático de escolas de todo Brasil.

A seguir, confira um artigo escrito pelo autor com exclusividade para o e-docente. Veja o impacto da literatura fantástica em sua escrita e conheça mais sobre o livro aprovado no edital.

Literatura, mistério e magia 

Tzvetan Todorov, para conceituar a literatura fantástica, destaca a presença no texto de ocorrências que se inserem na fronteira entre o concreto e o imaginário. Assim, um fato ocorre, provocando, tanto no personagem – incluindo o narrador –, quanto no leitor, a dúvida se aquilo que lhe foi apresentado é real ou sobrenatural. 

É essa hesitação que cria o efeito fantástico, definidor de uma classe de narrativas que tanto tem atraído os leitores, à procura de sensações em que, atiçados pela curiosidade diante do inesperado, procuram lidar com o medo do desconhecido, do extraordinário ou do inexplicável. 

Jorge Luís Borges, referindo-se aos elementos inverossímeis e imaginários no universo da literatura, reconhece um caráter mágico ligando os acontecimentos nas narrativas fantásticas. A literatura infantil, herdeira dos contos antigos, traz, desde sua origem, as marcas dos mistérios e dessa magia. 

Vindos da tradição oral, os contos de fadas, ao se incorporarem à literatura para jovens, conservaram seu caráter misterioso, ambientado em cenários mágicos e com personagens que transitam entre a fantasia e a verossimilhança, envolvendo e encantando os leitores, assim como antes acontecia com os ouvintes. 

Um percurso alegórico e crivado de símbolos, próximo do sonho e fora dos limites do cotidiano, compõe o conteúdo de diversas histórias posteriores que, como esses contos, apelam à participação do fantástico. Algumas tornaram-se clássicas, como O mágico de Oz, de Frank Baum, Peter Pan, de James Barrie, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, ou Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. 

No contexto do romantismo alemão, Ernst Theodor Amadeus Hoffman, autor dos Contos fantásticos e de homem de areia, criou ambientes insólitos, evocando fantasmas e criaturas sinistras. Esta abordagem peculiar do inconsciente proporciona o confronto com o estranho, sem que se abandone a perspectiva do maravilhamento, embora descrita com cores assustadoras. 

Já Edgar Allan Poe voltou-se para o terror psicológico e o suspense, lado a lado com a exploração do sobrenatural, consolidando a literatura fantástica a partir da incerteza face aos acontecimentos narrados, sempre instaurando a dúvida, como bem percebeu Todorov. O inexplicável desafia a lógica e a lucidez. Suas Histórias extraordinárias, explorando enigmas e finais surpreendentes, estão, ao mesmo tempo, na origem dos contos de terror, que alimentam a já existente literatura gótica, e na gênese do romance policial. 

No discurso fantástico, a normalidade da vida habitual e rotineira tem sua estabilidade interrompida por fenômenos tidos como acontecimentos sobrenaturais e que, muitas vezes, nos parecem terríveis. Esta característica permanece reconhecível ao longo de toda a história do gênero. 

Mesmo Machado de Assis, tradutor do poema O corvo de Poe, confrontou o realismo em seus contos fantásticos, como no perfeito exemplo de “Sem Olhos”: “Sendo assim, como eu vi a mulher sem olhos? Essa foi a pergunta que fiz a mim mesmo. Que a vi, é certo, tão claramente como os estou vendo agora”. 

O terror para jovens tem sido bastante explorado pelo cinema. Além do fascínio pelo medo diante de situações angustiantes, o espectador busca fugir da realidade e tem esse direito. A literatura nasceu para se contrapor a tudo que é ordinário. Por isso criou heróis e recorreu a mitologias, ressaltando façanhas incríveis e sobre-humanas. Histórias costumavam ser contadas à noite, ao pé do fogo, proporcionando uma escuridão difusa e envolvente, propensa à concentração total na voz que narra. O cinema, desde seu início, se exibe numa sala escura, indutora da atenção e do silêncio. 

Os efeitos especiais possibilitaram uma naturalização do maravilhoso. Um grande exemplo são os filmes de Hary Potter que deram uma outra dimensão às histórias de J.K. Rowling. No ambiente visualmente sombrio de Hogwarts, a escola para bruxos, o herói pode enfrentar seu macabro antagonista numa saga de longa duração, ora voando em sua vassoura, ora se tornando invisível ou provocando transformações inesperadas pelo manuseio da varinha mágica. 

Como acontece com os espectadores de novelas ou séries, leitores também gostam de continuações, a fim de reencontrar e reconhecer velhos afetos. Esta tem sido a constante do romance policial, em que nós, consumidores de histórias, somos seduzidos pelas brilhantes deduções de Hercule Poirot ou Sherlock Holmes. 

Clique na capa para conferir a obra na integra.

Leitores infantis costumam pedir a autores uma continuação para livros de que gostaram. Nessa situação, criar uma série para o público infantojuvenil foi, para mim, um desafio. Estava esboçado um quadro básico que precisava explorar: uma oportunidade para cada personagem sair da previsibilidade do dia a dia. E como se caracteriza essa eventualidade, a mais comum entre nossos jovens? O universo escolar, obviamente, local de socialização das crianças e adolescentes. 

Qual, então, o ponto de partida para escapar dele, mas sem abandoná-lo, sem perder o pé da vida concreta e segura? Nada em si é mais excitante do que uma excursão, feita de preferência além das fronteiras da cidade. A própria natureza, outras paisagens, pessoas com uma existência e hábitos diversos, o encontro de todas essas coisas nos deixa entusiasmados, alegres e abertos a novas experiências. 

Dois adultos — a diretora da escola e o motorista do ônibus escolar — juntam-se aos alunos, a princípio doze e logo acrescidos de uma décima terceira, em uma sequência de aventuras que têm como base a amizade, diante de acontecimentos inéditos e variados, em meio ao humor, à imaginação sem freios e a alguns assombramentos, acompanhados de sustos e incontroláveis arrepios ao longo da espinha. 

Parques, casarões de outra época, ruídos incertos, cemitérios, comidas nunca provadas antes, canções de origem popular, objetos de antiquário, animais exóticos — tudo vai envolvendo os alunos de dona Dolores, junto de seu ajudante Gumercindo. Cada aluno tem uma atitude diferente em relação ao que parece sobrenatural, inclusive os muito céticos. Mas a magia que traz a vivência de um espaço diferente, enviando aos poucos seus sinais, vai surpreendendo cada um, todos eles afetados pela aparição da dúvida entre o real e o irreal. 

Dirigida ao público pré-adolescente, a série constitui minha contribuição a esse universo palpitante da literatura fantástica.

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