A vida por trás da obra – por Ivan Jaf

08 de janeiro, 2020 - Por Victor Thadeu

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Autor de inúmeros livros, o fluminense Ivan Jaf é atualmente um dos maiores escritores brasileiros. Não apenas por seus prêmios: quem lê, se encanta com o dinamismo de suas palavras. Nos anos 90, o escritor passou a produzir obras focadas no público jovem, crianças e adolescentes, como é o caso da obra aqui por ele relatada.

Confira, neste artigo, como as fábulas e a vida pessoal estão inseridas em sua obra Um anarquista no sótão, aprovada no PNLD Literário 2020.

Um anarquista no sótão

Tadeu sou eu.

Tadeu é o menino de nove anos, protagonista do meu livro Um anarquista no sótão, escrito em 2009 e publicado no ano seguinte pela Editora Saraiva.

Os avós maternos de Tadeu têm uma pensão barata no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, como os meus tiveram. Também eram imigrantes portugueses. Também alugaram um casarão de três andares, bem maltratado, e sublocaram os inúmeros quartos.

1966. Eu também tinha nove anos. O Brasil sofrera um golpe militar que começava a mostrar suas garras. Como o pai de Tadeu, o meu era advogado e contra a ditadura, e me levava para tomar sorvete e caminhar na praia da Urca.

Também tive um tio querido, dono de sapataria e de uma fábrica clandestina de tamancos, no porão da pensão.

E cresci, como Tadeu, naquelas décadas de 1960/70, tendo como ídolos desde Roberto Carlos a Che Guevara, um cachorro chamado Rin-Tin-Tin, indo de fanático pela Jovem Guarda a hippie, tocando Calhambeque no violão, surtando de alegria na Copa de 70, chegando em casa de madrugada voltando do Festival Internacional da Canção no Maracanazinho (para desespero da minha mãe), tentando entender o que era o Ato Institucional número 5 e fascinado pelas minissaias.

Clique na capa para conferir a obra na integra.

Alguns dos meus livros surgem assim, baseados em minhas próprias experiências. Mas evito a autobiografia. Sirvo apenas de alicerce. A ideia é erguer uma construção nova, fiel ao meu método de escrever sem saber no que vai dar, para que a história e os personagens tenham liberdade para fugir do meu controle.

Se em outras narrativas me baseio em pesquisas, para Um anarquista no sótão parti de minhas memórias e afetos, porém sem tentar me recriar. Tadeu ficou livre de mim.

Logo nas primeiras páginas, ao descrever os avós imigrantes, me surpreendi com o surgimento de uma fábula real, que só tornei explícita no último capítulo: minha avó era a formiga e meu avô a cigarra.

A partir disso, não sei explicar como, meu avô original se dividiu em dois: o bon-vivant Joaquim, gente boa, adorado pelos inquilinos e pelo neto; e Donato, o anarquista, veterano da Guerra Civil Espanhola, sem uma perna, que morava no sótão e se tornou o mestre de Tadeu, passando seus ensinamentos sobre a vida através de fábulas.

E viva o inconsciente.

Quando escrevi não entendi, mas hoje consigo analisar: meus primeiros dois mestres, meu avô materno e meu pai, tinham um lado anarquista, e nos meus anos de formação ocuparam um quartinho no sótão da minha consciência. Estão lá até hoje. De vez em quando os visito. Muitas vezes em sonhos.

A “realidade”, a ignorância, a estupidez, as ditaduras, o obscurantismo, o fanatismo religioso, os interesses econômicos… amputaram a perna desse anarquista e prenderam seu corpo lá no sótão, mas seu espírito continuou livre e contagiante.

É um livro de “formação”. A narrativa acompanha o menino Tadeu dos nove aos dezenove anos.

Fiz uma grande pesquisa sobre fábulas. Arquivei quase duas centenas delas, de várias épocas e procedências. Concordo com Ítalo Calvino: “Não mergulhamos no mar das fábulas pelo prazer de nadar, mas para salvar algo que do contrário iria para o fundo.”

Fábulas sugerem soluções para os nossos problemas interiores, oferecendo uma representação simbólica deles. A linguagem simbólica tem a faculdade de iluminar áreas escuras do inconsciente, que  de outra forma “iriam para o fundo”.  Existe representação mais simbólica dos prejuízos da ansiedade do que matar uma galinha que nos dá ovos de ouro, só porque ela põe apenas um por dia?

O inconsciente se estrutura através de símbolos. Ninguém sonha com um tratado freudiano sobre o narcisismo, e sim que está voando. O inconsciente lida mais fácil com um lobo mau do que com um pai autoritário.

Donato, o mestre de Tadeu, usa as fábulas para “formá-lo”. Quando mais Tadeu compreende o significado de uma fábula, mais conteúdos inconscientes se integram à sua consciência, mais fácil se torna resolver seus conflitos. Fábulas terapêuticas.

Necessidade da busca de individuação e autoconhecimento? “Velho, o menino e o burro”.

Dificuldade em aceitar os fracassos, as perdas, os desejos contrariados? “A raposa e as uvas.”

Espero que Um anarquista no sótão também sirva como fábula.

E ninguém precisa ficar preso ao La Fontaine.

Eu tive um avô-cigarra e uma avó-formiga,  mas a moral da minha história é diferente: um completou o outro.

Como disse a avó de Tadeu: “Sempre haverá formigas e cigarras no mundo, e a gente vai se ajeitando como pode.”

Aproveite para ler outro artigo escrito por Ivan Jaf: Escrita e pesquisa: o processo do escritor de literatura.

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