O trabalho com o livro literário – por Ana Maria Machado

07 de janeiro, 2020 - Por Victor Thadeu

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É raro encontrar alguém que não teve contato com as obras de Ana Maria Machado na escola. Isso não é uma coincidência, visto que seus livros, além de aclamados pelos especialistas em literatura, são muito bem recebidos nas instituições educativas. A versatilidade de sua escrita, bem como sua linguagem atemporal, faz com que os iniciados aos livros se encantem pela prática.

Convidamos a escritora para nos falar sobre suas duas obras aprovadas no PNLD Literário 2020 em um texto especial para os educadores. Confira!

Aprendendo com quem ensina

Clique na capa e confira a obra na integra.

Hoje em dia, com a idade e a saúde precária, não visito mais colégios. Mas no decorrer dos meus cinquenta anos de carreira de escritora, com cerca de cem obras voltadas para o público infantil e juvenil, fui muito a escolas por todo canto deste Brasil. E aprendi muitíssimo com nossos professores, sua criatividade, seu entusiasmo. Em diferentes ocasiões, a partir da leitura de meus livros, descobriram e me revelaram um monte de coisas com que eu nem tinha sonhado ao escrever. Só que muitas vezes eles mesmos não têm noção de como sua experiência pode ser útil a outros, se multiplicando por outras salas de aula. Por isso agora acho que tenho de compartilhar com outros docentes esta minha experiência de autora e quero fazer essa ponte, ajudando a tecer uma rede entre vocês.

Clique na capa e confira a obra na integra.

Meus livros selecionados para o PNLD 2020 foram O Mistério da Ilha e Mensagem Para Você. Eles me dão o pretexto para começar esta conversa. Ambos contam situações em que adolescentes têm de decifrar mistérios e se metem em aventuras inesperadas. Mas os professores me mostraram que ambos podem ir muito além disso, partindo da leitura de uma história divertida ou empolgante para desembocar em trabalhos pedagógicos de alta qualidade, como pude ver em diferentes escolas desta nossa terra. São obras diferentes no ambiente e nas situações que apresentam, nos desafios que propõem, no tipo de reflexão a que levam. Mas, partindo de cada um deles, vi alunos desenvolverem trabalhos bem diversos entre si, profundos, com possibilidades quase infinitas.

Personagens

Podemos começar pelos personagens.

O Mistério da Ilha se estrutura em torno de dois personagens, em sua primeira metade. Aliás, essa é uma boa observação que recebi dos leitores e não tinha percebido ao escrever o livro: ele tem duas partes nítidas. A primeira é bem realista, em um ambiente cotidiano. A segunda se desenvolve em um clima misto, de fantasia e de História, com aspectos claramente na órbita do imaginário (impossíveis de acontecer) e outros reais (calcados na História do Brasil , com referências à escravidão e à cultura africana). Em uma escola que visitei, os alunos partiram dessa constatação para procurar em sua própria vida elementos que seriam da realidade atual, de todo dia, ou reflexos de vivências coletivas e culturais herdadas — e fizeram descobertas que ficarão para sempre com eles.

A primeira parte é dominada por dois personagens adolescentes, dois meninos de classes sociais diferentes. Saem para um passeio de barco e são envolvidos por uma neblina misteriosa. Na segunda parte, vão dar numa ilha e então entra em cena uma menina que vai ter um papel marcante, ao atraí-los para uma experiência transformadora. Parte dessa experiência se dá graças ao encontro com um personagem mais velho, que encarna a sabedoria ancestral. Partir dos personagens pode levar a diversas linhas de trabalho do docente com sua turma: um olhar sobre classes sociais, sobre vida urbana e rural, sobre a busca das raizes familiares, a discussão das diferenças de papeis sociais quanto ao gênero, etc.

Já é bem maior o elenco de Mensagem Para Você — aliás, um livro mais extenso, com mais páginas, para estudantes com um pouco mais de fôlego leitor. Ele se concentra numa turma de alunos de uma escola, com diferentes personagens. Mas também se abre para incorporar mais gente e outros ambientes. Por exemplo, o amigo que estuda em outra escola, mora numa comunidade e trabalha numa radio comunitária. Ou as irmãs de uma das meninas e o escritório de advocacia onde uma delas faz estágio. Ou os passageiros de um ônibus que confraternizam durante a viagem… Mas vai muito além disso, pois o enredo gira em torno de um mistério que atravessa o tempo e traz gente da Antiguidade, da Idade Média, do Renascimento, do século XIX… Gente com atividades e profissões bem diferentes, permitindo ao docente uma linha de exploração riquíssima, como tenho visto em diferentes escolas, de forma tão variada que nem dá para citar. Dá para trabalhar sobre alguns dos temas já mencionados em relação ao outro livro, e muito mais.

Além disso, a própria patota dos “heróis” do livro é muito variada. Já vi turmas que trabalharam sobre isso: os primeiros amores, a ética e a utilidade (ou não) de fazer trabalhos escolares em grupo, os jogos dos mais variados tipos como forma de divertimento ou de aprendizado, a vaidade e a futilidade de se preocupar com a aparência, as relações com irmãos mais velhos ou mais moços, os preconceitos de gênero (tipo achar que menina ou menino não tem vocação para certos saberes ou atividades), os riscos da interação com estranhos na internet, e muito mais.

Tema

Cada um desses livros aborda um grande tema geral, mesmo não parecendo. O Mistério da Ilha gira em torno da economia. Mensagem Para Você tem a escrita e a leitura como fio condutor.

A partir daí, pode-se analisar das mais variadas formas, em O Mistério da Ilha, o tema específico do trabalho, da remuneração, da relação patrão/empregado, da distinção entre matéria-prima, produto, mão de obra, custo… Adequando-se à maturidade dos alunos, o assunto pode ser apenas esboçado em linhas gerais ou aprofundado.

Já vi incontáveis maneiras pelas quais professores trabalharam sobre sesse tema. Por exemplo: qual o valor (e como calculá-lo?) daquilo que é acrescentado pelo trabalho a tudo o que está no mundo e a sociedade usa — desde as coisas mais simples como a água e os frutos colhidos. Passando para outras perguntas: é possível ter acesso sozinho a esses produtos da civilização? Qual o papel coletivo do esforço conjunto para a sobrevivência? De que modo a paz contribui para isso ou as guerras se explicam por um contexto que inclui a disputa por isso? Quais os direitos de quem trabalha? Alguns docentes partem diretamente para examinar a escravidão e sua história, bem como a contribuição das culturas africana e indígena que ajudaram a nos formar. Já vi uma turma cujo professor partiu da leitura do livro para um olhar muito fecundo sobre o que é natureza e o que é cultura. Ou seja: o que é dado a todos os seres humanos biologicamente e o que eles constroem pelo seu trabalho e pela transmissão aos outros, ensinando o que aprendem.

Em todos esses casos, constatei sempre que a atitude docente mais fecunda não é a que tenta impor uma resposta ou induzir os alunos a uma única explicação para essas questões levantadas, mas a que procura despertar neles uma sensibilidade no olhar, para que sejam capazes de ver e refletir sobre si mesmos, na vida de todo dia e na sociedade em que estamos todos imersos e que apresenta uma gama variadíssima de relações sociais e interpessoais.

Quanto a Mensagem Para Você, talvez seja um dos meus livro juvenis mais ricos em estímulos para trabalhos em sala de aula. Se houver possibilidade de uma abertura interdisciplinar, ele se presta a uma exploração conjunta com aulas de História e de Geografia (ao abordar épocas e países muito diferentes) ou de Arte, por exemplo. Ou de Química e Física, por causa do mago alquimista. Já vi uma turma que discutia leis e direito, a partir de uma reflexão sobre a importância de haver uma legislação escrita, que não mude ao sabor da força de quem julga. Pode-se examinar como se fazem as leis de um país , discutir a constituição e o sistema judiciário. Ou fazer um concurso de rap ou de slam, como os personagens. Ou debater a importância de oportunidades iguais na educação , examinando dificuldades e preconceitos de gênero, etnia ou de classes sociais — um assunto que o livro acompanha de perto.

Ao ser publicado na Irlanda, Mensagem Para Você serviu de ponto de partida para uma grande gincana nacional nas escolas, promovida pela Biblioteca Nacional local. Como me chamaram para ir lá acompanhar a culminância, conversei com turmas diferentes, de uma ponta a outra do país. Fiquei impressionada com tanta coisa que eles foram capazes de desentranhar da leitura. Sobretudo, a valorização da própria capacidade de leitura e da escrita — que, afinal, é o tema central do enredo — como ponto de partida para cada um se construir pela vida afora. E fizeram reflexões instigantes sobre o poder da educação e da palavra escrita para o progresso da humanidade.

Na verdade, quando um autor escreve um livro não pensa nisso tudo. De minha parte, pelo menos, vou inventando uma história a partir de uma situação que serve de ponto de partida, e dos personagens que crio. Mas esses personagens vão ganhando uma vida autônoma em minha imaginação e se construindo de modo um tanto independente. Tenho de reconhecer, porém, que eles encarnam ideias e atitudes que vivem em mim e refletem o que penso e sinto ou com as quais não estou de acordo e quero ajudar a combater.

Quando tudo isso se arruma numa história, com as palavras que escolhi, e vai virando um livro, começa uma grande viagem — da autora aos leitores. O que era uma criação individual vira patrimônio coletivo. É emocionante acompanhar essa passagem e a forma como as contribuições alheias vão se incorporando e se somando. Daí que estou aproveitando a idade de trazer um pouco para vocês o que já me trouxeram em leituras variadas. Agora é com vocês.

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