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Planejar com equidade: o compromisso de professores e coordenadores com uma educação antirracista e inclusiva

20 de janeiro de 2026,
E-docente
Planejar com equidade

Planejar é uma das ações mais importantes da prática docente. É no planejamento que o professor organiza o tempo, define as experiências de aprendizagem e escolhe o que considera essencial que as crianças aprendam.

No entanto, planejar não é apenas uma tarefa técnica: é também um ato político, ético e estético. Em cada escolha — de conteúdos, de textos, de exemplos, de agrupamentos —, o professor e o coordenador pedagógico expressam concepções sobre o que é conhecimento, quem tem direito de acessá-lo e de que forma esse acesso se dará.

Falar de inclusão, equidade e educação antirracista no planejamento é, portanto, reconhecer que o ensino não é neutro e que a escola é um espaço atravessado por desigualdades históricas. As diferenças culturais, sociais, linguísticas e raciais sempre estiveram presentes na escola, mas, durante muito tempo, foram tratadas como um “problema” a ser superado. Hoje, é urgente compreendê-las como ponto de partida para o ensino, e não como obstáculo.

Planejar com equidade significa assegurar o direito de aprender de todos, enfrentando as barreiras que a escola, muitas vezes sem perceber, impõe. Isso inclui o compromisso com uma educação antirracista, que valorize as histórias afro-brasileiras e indígenas, enfrente preconceitos e construa ambientes de respeito e valorização da diversidade.

É necessário “racializar o branco” e desnaturalizar o lugar do universalismo, que historicamente tomou a experiência branca como medida de humanidade (Pinheiro, 2023). Ao explicitar essa racialização, abrimos espaço para múltiplas formas de ser, saber e existir.

A escola como espaço de reconhecimento: equidade não é igualdade

A escola nasceu sob uma lógica de homogeneidade: todos aprendendo o mesmo, ao mesmo tempo e da mesma forma. Essa estrutura, aparentemente justa, esconde um problema, ela parte do aluno “ideal”, que já domina a linguagem valorizada, os códigos escolares e as referências culturais predominantes.

Leia mais: Educação inclusiva e educação especial: um guia estratégico para gestores e professores da rede pública

Esse “aluno universal” é, em grande medida, a figura construída a partir de uma perspectiva branca e eurocêntrica, o que evidencia a necessidade de, como propõe Pinheiro (2023), reconhecer e questionar a branquitude como norma. Ao padronizar o ensino, a escola muitas vezes reproduz desigualdades, pois os que não se encaixam nesse modelo são vistos como “defasados”, “indisciplinados” ou “desinteressados”.

Trabalhar com equidade exige romper com essa lógica. Significa entender que as condições de partida não são iguais e que, portanto, o ensino precisa considerar as diferentes trajetórias e experiências de vida. “O sucesso da inclusão depende da adaptação da escola à criança, e não apenas da adaptação da criança à escola” (Kupfer et al., 2017. p.19). Isso significa deslocar o olhar e reconhecer que a escola precisa se transformar para acolher todos, e não esperar que todos se moldem a uma escola única.

Essa mudança de olhar implica repensar o planejamento e a própria função da escola. Professores e coordenadores precisam se perguntar: quem fala e quem é silenciado em nossas aulas? Que histórias e saberes estão sendo valorizados e quais permanecem invisíveis? O compromisso com a equidade começa quando a escola reconhece que não há aprendizagem significativa sem reconhecimento — do sujeito, da sua história e da sua cultura.

Planejar práticas que reconhecem e valorizam a diversidade

Planejar com equidade é planejar com intencionalidade. É pensar nas condições reais dos estudantes, antecipar barreiras e organizar experiências que favoreçam a participação e o avanço de todos. Nesse processo, o currículo precisa ser plural, refletindo a diversidade do país e rompendo com a ideia de que o conhecimento legítimo é apenas o eurocêntrico, como denuncia Pinheiro (2023, p.35-36):

“Esses profissionais dificilmente pensam em dar uma aula ou preparar uma sequência didática sobre branquitude. […] Não pensamos em práticas pedagógicas que problematizam o privilégio branco no âmbito da educação para as relações étnico-raciais porque pessoas brancas não são racializadas.”

Almeida Costa, Araújo e Ponce (2024. p.128) afirmam que: “[…] a justiça curricular não é apenas um conceito teórico, mas um imperativo ético que deve orientar as práticas educativas em diferentes contextos e níveis de ensino”. Isso significa que planejar com equidade é também planejar com justiça, garantindo que as experiências escolares sejam significativas e representativas para todos os grupos sociais.

O que caracteriza uma escola inclusiva e antirracista:

  • Seleciona obras, autores e temas que expressem diferentes vozes e experiências, de forma transversal e não apenas em datas comemorativas;
  • Evita estereótipos e naturalizações, revisando materiais, linguagens e práticas que reforçam preconceitos de raça, gênero, deficiência ou classe social;
  • Promove o diálogo e a escuta, criando espaços em que as crianças possam narrar, questionar, discordar e se reconhecer nos conteúdos que estudam;
  • Valoriza o território e as culturas locais, reconhecendo os saberes das famílias e das comunidades como parte do conhecimento escolar.

Guimarães (2023, p. 72) oferece exemplos potentes para o planejamento de práticas culturais equitativas a partir da premissa da sala de aula como: “[…] território que pode contribuir para que o processo de construção do imaginário infantil seja amplo e diversificado, favorecendo que crianças negras e indígenas se reconheçam de modo positivo”.

Leia mais: O professor além da sala de aula: conexões que transformam vidas

As indicações concretas presentes no material “Trilhos da Alfabetização: por uma educação antirracista” ajudam a traduzir o princípio da equidade em práticas pedagógicas reais e observáveis.

Para o coordenador pedagógico, isso significa sustentar o olhar coletivo sobre o currículo e o planejamento, ajudando o grupo docente a analisar suas escolhas e a pensar novas possibilidades. Ele pode propor momentos de estudo sobre letramento racial crítico, planejar coletivamente sequências didáticas com representatividade e realizar observações de aula com foco em equidade — não apenas em gestão de tempo ou uso de materiais, mas em quem fala, quem é escutado e quem é visto.

De olho na prática – replanejando com intencionalidade

Em uma sequência de leitura sobre “aventuras”, o professor percebe que todas as obras escolhidas tinham protagonistas homens, brancos e europeus.

Ao discutir o planejamento com o coordenador, decide incluir livros de autoras negras e indígenas, como “Os dengos na moringa de voinha” (de Ana Fátima, com ilustração de Fernanda Rodrigues), “Foi ele que escreveu a ventania” (de Rosana Rios, com ilustração de Mauricio Negro) e “Princesas negras” (de Ariane Celestino Meireles e Edileuza Penha de Souza, com ilustração de Juba Rodrigues), além de convidar as crianças a criarem suas próprias narrativas de aventura a partir de histórias de suas famílias e bairros.

A mudança não se restringe à escolha de livros: altera o olhar sobre o que é “aventura”, amplia repertórios e legitima novas vozes como produtoras de cultura.

Formação e reflexão: professores e coordenadores aprendem com a diferença

Não há práticas inclusivas e antirracistas sem formação contínua e reflexão coletiva. Planejar com equidade requer estudo, tempo e coragem para rever crenças, expectativas e modos de agir. A formação docente precisa incluir o debate sobre o racismo estrutural e as desigualdades históricas, mas também oferecer espaços de escuta e análise da prática.

Leia mais: A importância da rede de apoio para professores: como a ajuda mútua fortalece a educação

O coordenador pedagógico tem papel central nesse processo: ele é o formador que provoca perguntas, organiza momentos de estudo e sustenta o trabalho coletivo. Mais do que buscar receitas, trata-se de construir saberes em diálogo, reconhecendo que o processo é inacabado e exige humildade intelectual.

Em uma escola comprometida com a equidade, o erro e o conflito são vistos como oportunidades de aprender. Quando um professor ouve um comentário preconceituoso em sala de aula, por exemplo, pode escolher silenciar ou transformar aquele episódio em um momento de formação ética e cidadã, ajudando as crianças a compreenderem o impacto das palavras e a construírem novas formas de convivência.

Planejar com equidade é planejar com humanidade

Reconhecer o caráter educativo da escola é compreender que toda prática pedagógica comunica valores e produz sentidos sobre o mundo. Ao planejar com equidade, professores e coordenadores reconhecem que o ensino é sempre um ato político: define quem tem direito de aprender e de ser reconhecido como sujeito de saber.

A educação antirracista e inclusiva não se resume a projetos pontuais nem a conteúdos específicos; ela se constrói nas escolhas cotidianas, no modo como olhamos, escutamos, acolhemos e desafiamos cada estudante. Planejar com equidade é planejar com humanidade, é criar condições para que cada criança, com suas histórias, culturas e ritmos, encontre na escola um lugar de pertencimento, aprendizagem e transformação.

Sustentar uma escola antirracista, inclusiva e democrática exige mais do que boas intenções. Requer uma vigilância epistemológica, ética e pedagógica permanente sobre o que ensinamos, sobre as vozes que legitimamos e as práticas que naturalizamos.

Esta consciência crítica é o que impede que a escola, ainda que bem-intencionada, reproduza, sem perceber, as mesmas estruturas de exclusão que pretende combater. Como lembra Pinheiro (2023, p. 8) é preciso:

“[…] racializar o olhar em torno de nossas práticas pedagógicas, compreendendo que é um caminho sem volta: ao abrirmos os olhos para enxergar as injustiças sociais, como as opressões de raça, não mais retornaremos ao universo da ignorância.”

Referências  

ALMEIDA COSTA, T.; MELO, R.; TRINDADE, D. Planejar e praticar currículo a partir do conceito de justiça curricular: saberes do território como conhecimento a favor da vida digna. Revista Veras, [S. l.], v. 15, n. 1, p. 110–131, 2025. DOI: 10.14212/veras.vol15.n1.ano2025.art340. Disponível em: https://site.veracruz.edu.br/instituto/revistaveras/index.php/veras/article/view/340. Acesso em: 15 jan. 2026. 
 
GUIMARÃES, V. (coord.). Por uma educação antirracista: trilhos da alfabetização (Pará). Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, DGPE, 2023. 

KUPFER, M. C.; PATTO, M. H. S.; VOLTOLINI, R. Práticas II: a inclusão como desafio formativo. São Paulo: USP, 2017. 

PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023. 160 p. 

Minicurrículo da autora 

Giulianny Russo Marinho é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Alfabetização pela Universidad Nacional de La Plata, na Argentina. Pesquisadora da área de alfabetização e integrante da diretoria da Rede Latino-Americana de Alfabetização, atua na formação de professores alfabetizadores e coordena o projeto Reescritas – Estudo, Formação e Pesquisa (@reescritas_formacao).

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