O corpo, a educação e a Educação Física na escola – por Luiz Gustavo Bonatto

19 de dezembro, 2019 - Por Victor Thadeu

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Se existe um profissional que tem muito a nos acrescentar, esse é o professor. Chamamos o professor de Educação Física Luiz Gustavo Bonatto Rufino para compartilhar sua experiencia como finalista do Prêmio Educador Nota 10 de 2019.

A seguir, leia o relato da professor. Você pode conferir mais detalhes sobre o projeto premiado clicando aqui.

Antes de tudo, o corpo…

Se você pudesse mudar alguma coisa em você, o que você mudaria? Você gosta do seu corpo? Sente ou já sentiu vergonha de si mesmo ou de sua forma física, cor, tipo de cabelo ou jeito de ser? Essas perguntas podem parecer estranhas, mas elas são reveladoras e acabam nos instigando a repensar sobre nós mesmos… E foi justamente a partir dessa atitude reflexiva e questionadora sobre o corpo na escola que iniciei o projeto Ressignificando as visões sobre o Corpo, vencedor do Prêmio Educador Nota 10 – 2019. Assim, convido você, leitor, a viajar sobre esse projeto e repensar não apenas sobre o seu próprio corpo, mas sobre o processo educativo como um todo tendo como norte uma educação transformadora, rica em experiências significativas e que propicie um desenvolvimento de nossas potencialidades e formas de ver o mundo.

Rubem Alves, grande educador e pensador sobre as práticas educativas, dizia que o corpo era o lugar fantástico onde morava adormecido todo o universo, o qual seria acordado por meio da palavra. O que é então essa “palavra” se não aquilo que chamamos de educação, não é mesmo? É por meio do processo educativo que vamos paulatinamente descobrindo esse corpo e, através dele, nos relacionando com o mundo.

É de se estranhar então por que esse mesmo corpo, tão crucial para o processo educativo, foi paulatinamente sendo desvalorizado a ponto de componentes curriculares como a Educação Física, que tem no corpo justamente sua ação norteadora, acabaram sendo desvalorizados e considerados como disciplinas de menor importância em comparação às demais. Ledo engano que tem se tornado uma das principais máculas que ainda reveste o processo educativo contemporâneo brasileiro! Esquecer o corpo ou renega-lo dentro da escola foi um dos principais problemas que temos observado na estrutura educacional brasileira. Felizmente, vivemos um momento de transformação dessas visões a própria implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e das metodologias ativas cada vez mais presentes são demonstrações de que é chegada a hora de se repensar o corpo no paradigma educacional nacional.

O “eu” da história e o contexto de intervenção

Atuo como professor de Educação Física há alguns anos e tenho essa como a minha profissão! Uma das principais causas que advogo é pela valorização da Educação Física na escola e, para isso, tenho buscado articular a prática pedagógica cotidiana em sala de aula com o conhecimento científico do campo acadêmico advindo de estudos e pesquisas que realizo sobre essa temática. No momento, trabalho em duas redes de ensino públicas municipais diferentes, nas cidades de Paulínia – SP e de Campinas – SP. Essa diversidade de campos de atuação me permite compreender as características e especificidades de cada escola, pois cada unidade educacional é única e representa contextos particulares fundamentais.

Com relação ao projeto Ressignificando as visões sobre o corpo, cabe salientar que apesar de desenvolvê-lo em diferentes escolas, especificamente esse recorte foi realizado em Paulínia na Escola Municipal Professora Odete Emídio de Souza, localizada no bairro São José, uma das regiões mais distantes do centro da cidade e que atende uma demanda crescente de crianças do ensino fundamental 1 (anos iniciais) a partir do crescimento demográfico apresentado nos últimos anos.

Apesar de eu atuar com diferentes níveis de ensino, esse projeto foi desenvolvido com alunos dos terceiros anos do ensino fundamental (com idades entre 7 e 9 anos). Tratam-se de turmas bastante diversas (foram aproximadamente 75 alunos divididos em 3 turmas diferentes) entre meninos e meninas advindos de realidades e contextos bastante diversos (e adversos!) e que trazem em seus próprios corpos as marcas de suas histórias, sonhos e esperanças. Em duas aulas de Educação Física por semana garantidas no município eu precisava dar conta de um amplo espectro de práticas apresentadas pelo currículo oficial do município, bem como articular com novas orientações curriculares, a exemplo da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Grandes eram os desafios apresentados pelo contexto no qual eu estava inserido. Por se tratarem de turmas heterogêneas e de um contexto bastante adverso, havia alunos no que atualmente denominados de expostos a “vulnerabilidade social”, nome genérico para se agregar uma diversidade de problemas sociais tais como pobreza, carência de recursos, exclusão social, desestruturação familiar e assim por diante. Evidentemente, esse contexto apresenta-se como de grande importância pois de certa forma restringia e até mesmo condicionava parte das perspectivas e das visões de mundo desses alunos. Por outro lado, havia alunos em realidades mais estruturadas e menos expostos a esses problemas sociais. Nesse conjunto, a atuação profissional precisava compreender esses contextos para poder agir de modo mais significativo com esses alunos e alunas.

Outro elemento chave do processo foi que justamente por se tratar de turmas heterogêneas e com características fortemente vinculadas ao contexto da região na qual a escola está inserida sempre segui um princípio fundamental: a inclusão de todos os alunos e alunas. E quando falamos do princípio da inclusão estamos valorizando a inclusão de todos mesmos, seja de crianças com ou sem deficiência, com ou sem envolvimento com a Educação Física e assim por diante. Cada qual com seu corpo, cada qual com suas particularidades a aula era para todos e todos tinham direito à aprendizagem e à prática integralizada desse componente. E o modo de colocar isso em prática foi justamente pensando, refletindo e agindo sobre o corpo!

Pensar o corpo é repensar os modos de se compreender o processo de ensino e aprendizagem dentro da escola

 Dentro do âmbito escolar, a partir das inúmeras experiências que fui construindo ao longo da história pude compreender que trazer o corpo para o centro do debate e da reflexão crítica era, na verdade, uma forma de se repensar (e ressignificar) os modos de aprender e o processo de ensino e aprendizagem como um todo. Isso porque, como problematizado, esse corpo na escola, por vezes, é esquecido ou então dicotomizado (o corpo sentado na sala de aula e o corpo em movimento na quadra, por exemplo), como se não fosse o mesmo corpo e a mesma pessoa. Essa dicotomia traz visões nocivas à educação e enseja no corpo formas de controle e poder. É claro que dentro da especificidade de minha prática eu apresentava limitações para agir dentro da esfera na qual eu estava inserido. No entanto, por outro lado, essa problematização me impulsionou para a ação, para trazer à tona um projeto de se repensar o corpo na escola.

Em termos específicos vinculados à minha prática pedagógica propriamente dita, iniciei minha intervenção dentro dessa perspectiva com uma análise do currículo oficial do município. Nesse documento, entre inúmeros outros conteúdos assegurados, havia um denominado de bloco de conteúdo “conhecimentos sobre o corpo”. De forma geral, é ensinado os aspectos biológicos, fisiológicos, anatômicos e até mesmo as partes do corpo (a exemplo das famosas atividades de “cabeça, ombro, joelho e pé”, por exemplo). No entanto, eu queria ir além, e almejava que os alunos pudessem refletir de forma mais ampliada sobre seus próprios corpos a partir das problematizações que trazia comigo e de minhas pesquisas e leituras. Foi aí que perguntei a eles justamente o que era o corpo deles e se eles gostavam de si mesmos ou não.

Esse mapeamento que realizei sobre a visão dos alunos acerca de seus próprios corpos a partir do relato escrito deles me trouxe dados um tanto quanto assustadores! Vergonha da própria cor, relatos de práticas de racismo já vivenciadas por essas crianças tão pequenas, vergonha do formato ou composição corporal (alguns que se sentiam muito acima do peso, outros que não gostavam de ser muito magros), problemas com suas alturas (ou muito baixos, ou muito altos), cor de cabelo, olho, deficiências físicas… Enfim, a lista de críticas sobre si mesmo foi grande e era preciso fazer alguma coisa! Foi aí que resolvi agir integrando diferentes competências socioemocionais articuladas com um processo de reflexão crítica sobre o corpo e suas potencialidades e limitações.

A minha proposta foi então relacionar os diferentes conteúdos apresentados pelo currículo oficial com a exploração de vivências e reflexões vinculadas ao corpo dos próprios alunos. A reflexão sobre o corpo adentrou em minha prática inicialmente como uma questão transversal ao currículo e foi assumindo o protagonismo à media que ela instigou visões interdisciplinares de grande importância e pertinência.

Especial atenção foi dada às potencialidades e limitações e a alteridade da vivência crítica das possibilidades concretas que o corpo humano se apresenta afinal, como Eduardo Galeano nos instiga a pensar: “o corpo é uma festa!”. Para isso, a compreensão de algumas das competências gerais da BNCC foi de grande valia, com especial atenção à competência 8, denominada “Autoconhecimento e Autocuidado”, com a valorização da autoconsciência, autoestima, autoconfiança, equilíbrio emocional, cuidados com a saúde e desenvolvimento físico-corporal, atenção plena e capacidade de reflexão, e assim por diante.

Dessa mesma forma, a competência 6 específica da Educação Física também ajudou a nortear o meu trabalho uma vez que ela preconiza justamente interpretar e recriar os valores, sentidos e significados atribuídos tanto às diferentes práticas corporais, como as quem delas participam. Foi nesse bojo de representações que o projeto foi sendo construído e sedimentado, tomando forma e representatividade.

A organização do projeto: dando vida ao corpo nas aulas de Educação Física na escola

Para a concretização das ações, busquei desenvolver o projeto a partir de três eixos de trabalho diferentes. O primeiro foi intitulado “Eu meu corpo e minha história”. Nele, buscamos compreender qual era a relação dos alunos com seus próprios corpos. Para isso, desenvolvemos uma série de ações vinculadas à algumas práticas corporais apresentadas no currículo a exemplo das corridas rasas no atletismo e alguns movimentos da ginástica e também uma outra prática que inclui em minhas aulas: o circo, mais especificamente o malabarismo. A ideia era vivenciar diferentes formas de se compreender o corpo em movimento e alguns dos desafios apresentados por esse corpo para os próprios alunos e alunas. Fundamental foi vincular tais ações com reflexões em sala, leituras, análise de imagens e escritas das histórias de vida deles.

O segundo eixo foi denominado “O outro e seu corpo” e procuramos compreender qual a relação dos alunos com os colegas em termos de compreensões sobre o corpo e como a identidade corporal é construída na relação com os demais. Para isso, realizamos reflexões e vivências de silhuetas dos corpos em duplas, vivências com perna de pau no qual um colega precisava auxiliar o outro nesse desafio e também desenhos e representações sobre os corpos dos alunos e as práticas corporais da Educação Física. Foi justamente por valorizar a relação entre os alunos e a compreensão das diferentes – com foco na equidade – que conseguimos alguns dos resultados mais expressivos no que tangenciava o respeito e a relação entre os alunos.

Finalmente, o terceiro eixo foi intitulado “O corpo e suas potencialidades e limitações”. A ideia foi trazer a alteridade para o centro da quadra e procurarmos vivenciar e explorar novas formas de se-movimentar a partir de algumas restrições sensório-motoras tais como as atividades vendados ou com limitações nos movimentos das pernas. Nesse eixo também fizemos algumas atividades de parkour explorando outros ambientes da escola e permitindo que os alunos percebessem que existem muitas potencialidades dentro das possíveis limitações. Permeados por todas as vivências, desenvolvemos uma série de reflexões críticas e de registros integrando diferentes linguagens (desenhos, análise de imagens e de vídeos, produções literárias e assim por diante), ampliando as possibilidades de ação do projeto.

O corpo, as práticas corporais e a importância dos registros e da avaliação: repensando o que foi realizado e a ampliação do projeto frente ao porvir

De modo geral podemos considerar que outras práticas corporais poderiam ter sido introduzidas ou modificadas dentro do processo. Dessa maneira salientamos que o mais importante foi justamente trazer o corpo para o centro do debate e da vivência significativa. Isso poderia acontecer com a ginástica, o atletismo ou o circo (como foi feito), ou com outras práticas como as danças, as lutas e os esportes, por exemplo (dentre inúmeras outras). A mudança de concepção está justamente na proposta de se repensar o corpo no currículo de forma transversal e articulada com proposições concretas de intervenção. Nesse sentido, os registros e os acompanhamentos avaliativos foram uma condição fundamental em nossa empreitada pedagógica sobre o corpo.

Em todas as ações foi muito importante que os alunos refletissem sobre as atividades desenvolvidas. Houve uma explícita articulação entre as vivências práticas com as atividades escritas, desenhos, representações e reflexões que compuseram um portfólio avaliativo individual no qual é possível compreender o desenvolvimento dos alunos ao longo do processo de 13 aulas no que se referiu às ressignificações de suas visões sobre o corpo.

Adotamos uma série de estratégias inclusivas que nos permitiu incluir a todos os alunos, tal como a adaptação das atividades em diferentes níveis de desafios de forma que os alunos poderiam experimentar, refletir, vivenciar e fruir as práticas corporais de diferentes formas e também as estratégias de atividades em pares (peer insctruction), fundamental para essa relação e troca de vivências na esfera da inclusão. Além disso, criamos um ambiente diverso que não se restringiu apenas a sala de aula ou a quadra, mas esteve articulado em toda a escola. Finalmente, utilizamos materiais adaptados e possíveis de serem implementados em outras realidades do país ilustrando que a ressignificação das visões de corpo é um aspecto fundamental a ser pensado não apenas nas aulas de Educação Física, mas para a escola como um todo.

Por fim, consideramos que ao término do processo, podemos concluir que houve um explícito desenvolvimento de novas formas de compreensão sobre o corpo e sobre a relação mais cooperativa e respeitosa dos alunos consigo mesmos e com os demais colegas e com os professores. Além disso, ampliou-se o repertório de vivências corporais arroladas à cultura corporal de movimento o que permitiu com que o projeto galgasse novos ares e começasse a ser propagado em outros contextos e regiões.

Muitos são os desafios da prática pedagógica e esse é apenas um pequeno projeto que começou pontual em uma dada região e contexto, mas que foi sendo desenvolvido e passou a apontar para novas formas de se compreender o corpo na escola, isto é, ampliou-se as visões de mundo no que tangencia a temática do corpo. A educação deve ser compreendida de corpo inteiro e a escola não deve compreender apenas que a educação passa pelo corpo, mas que a educação é o corpo!

Como sua escola incluiu o socioemocional na prática pedagógica? Compartilha com a gente nos comentários!

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