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Interseccionalidade e os marcadores sociais da diferença: um “passeio” com os adolescentes pela música brasileira

3 de março de 2026,
E-docente

O período da adolescência, em que os jovens aprimoram o senso crítico e constroem ferramentas para ler o mundo de maneiras diversas, é o momento essencial para abordarmos com maior profundidade as questões das desigualdades sociais. Em uma sociedade em que há tantas disparidades de oportunidades, torna-se difícil pensar na meritocracia como explicação relevante para o “sucesso” ou o “fracasso” individual.

Questões de mérito e esforço pessoal perdem força quando compreendemos que o sistema em que vivemos se estrutura a partir de múltiplas desigualdades. Portanto, investigar as raízes dessas desigualdades e evidenciá-las em sala de aula é uma missão importante para os(as) educadores(as), pois, como nos lembra Paulo Freire (1987, p. 47): “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”.

O que são marcadores sociais da diferença?

Ao investigarmos as raízes das desigualdades, deparamo-nos com conceitos que a Sociologia classifica como marcadores sociais da diferença – como raça, classe e gênero –, que, especialmente no Brasil, incidem de maneira intensa sobre a vida da população, produzindo processos de exclusão e violência.

No plano simbólico e no concreto, milhares de brasileiros e brasileiras enfrentam obstáculos em diversas esferas da vida em razão desses marcadores, precisando superar barreiras na escola, na universidade, no trabalho e em tantos outros espaços.

A música como ferramenta pedagógica no Ensino Fundamental e Médio

Nesse cenário, a música brasileira apresenta-se como uma poderosa ferramenta pedagógica, por seu potencial de engajar os(as) estudantes, provocar reflexões e promover identificação com narrativas que denunciam desigualdades. Ao mesmo tempo, amplia horizontes ao apresentar realidades diversas.

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O objetivo deste artigo é indicar caminhos para que educadores(as) dos Anos Finais do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio utilizem a música como recurso didático na abordagem dos marcadores sociais da diferença e de sua interseccionalidade, de forma crítica e contextualizada.

Mas, afinal, o que é interseccionalidade?

O importante conceito de interseccionalidade foi elaborado no final da década de 1980 pela jurista afro-americana Kimberlé Crenshaw. Em seus estudos, a pesquisadora propõe a articulação entre diferentes sistemas de opressão, em especial o racismo, o sexismo e as desigualdades de classe, sugerindo que não atuam de forma isolada, mas sim entrelaçada, produzindo experiências específicas de vivências para grupos historicamente marginalizados. A interseccionalidade, portanto, é uma ferramenta analítica fundamental para compreender como as desigualdades se reforçam mutuamente e afetam de maneira distinta determinados grupos sociais.

Referências teóricas: Angela Davis e Lélia González

Uma das maiores referências mundiais no debate sobre interseccionalidade é a filósofa e ativista Angela Davis. Em Mulheres, raça e classe (1981), a autora analisa como as vivências das mulheres negras nos Estados Unidos são marcadas pela intersecção entre racismo, sexismo e exploração de classe, ressaltando as raízes dessas opressões na história da escravidão e da segregação racial no país.

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No contexto brasileiro, a intelectual Lélia González já apontava, em seu artigo Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984), como os estereótipos atribuídos às mulheres negras – como a “mulata”, a “doméstica” ou a “mãe preta” – expressam a articulação entre racismo e sexismo na nossa sociedade.

Assim como essas leituras teóricas são essenciais para discutir o tema da interseccionalidade, veremos, a seguir, exemplos da música brasileira que nos permitem questionar estereótipos, ampliar visões de mundo e refletir criticamente sobre as desigualdades estruturais que moldam o mundo à nossa volta.

Plano de Aula: Um passeio pela música brasileira e as questões sociais

Como utilizar a música brasileira para pensar nas intersecções entre raça, classe e gênero?

Para aprofundar o debate sobre interseccionalidade em sala de aula, propõe-se aqui um “passeio” pela música brasileira, entendendo-a como reflexo das transformações sociais e das lutas por direitos, equidade e justiça ao longo do tempo.

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As canções escolhidas, de diferentes artistas e épocas, formam uma linha do tempo musical que vai das vozes do século XX às produções contemporâneas, revelando memórias da escravidão, resistência popular e políticas afirmativas. Esse percurso valoriza a cultura nacional e mostra como a música pode atuar como ferramenta crítica e didática para compreender os marcadores sociais da diferença.

1. Canto das Três Raças – Clara Nunes (1976)

Lançada em 1976 no álbum homônimo da cantora Clara Nunes, Canto das Três Raças é uma composição de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro que se tornou um clássico da música popular brasileira. A canção resgata a memória dos povos formadores do Brasil – indígenas, negros(as) e europeus(as) – e evidencia como o passado de escravidão, colonização e exploração marcou profundamente a estrutura social do país.

Ao mesmo tempo em que exalta a ancestralidade, a letra também denuncia as desigualdades históricas que permanecem vivas. Como proposta didática, após a escuta atenta da música, o(a) educador(a) pode sugerir que os(as) estudantes identifiquem na letra a presença desses três grupos “formadores” da nossa identidade e, em seguida, produzam uma tabela comparativa entre o passado e o presente, destacando as principais lutas e reivindicações de cada grupo que ainda permanecem atuais.

A partir das reflexões levantadas pela turma, pode-se conduzir uma conversa coletiva sobre como a identidade brasileira é interseccional, destacando que o processo histórico de miscigenação dos povos caracteriza as vivências excludentes de grupos vulneráveis até hoje em dia.

2. A Vida é Desafio – Racionais MC’s (1997)

Lançada em 1997 no álbum Sobrevivendo no Inferno, do grupo Racionais MC’s, A Vida é Desafio tornou-se uma espécie de “hino” para a juventude periférica, ao retratar, com força poética, os dilemas enfrentados por moradores(as) das periferias urbanas. Composta por Mano Brown e Ice Blue, a canção aborda a violência cotidiana, a desigualdade social, o racismo estrutural e as dificuldades impostas pela pobreza, mas também reafirma a importância da resistência e da esperança diante da adversidade.

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Proposta didática: A indicação pedagógica é que o(a) educador(a) escute a música com a turma e, depois, que proponha a realização de uma pesquisa sobre um bairro ou comunidade periférica da cidade dos(as) estudantes. A atividade pode incluir o levantamento de dados demográficos e sociais em sites oficiais (como os da prefeitura ou do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE) e a identificação de demandas e carências locais.

Em seguida, a turma pode refletir coletivamente sobre os desafios enfrentados por essas populações, discutindo como a desigualdade de classe atua de maneira marcante nessas realidades e como ela se cruza com outras desigualdades – especialmente a racial, considerando a forte presença de pessoas negras nas periferias brasileiras.

3. A Carne – Elza Soares (2002)

Gravada por Elza Soares no álbum Do Cóccix até o Pescoço (2002), a canção A Carne, composta por Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti, é um dos retratos mais impactantes da desigualdade racial no Brasil contemporâneo. A letra denuncia o racismo estrutural ao tratar da desvalorização da vida negra e da sua exploração histórica na sociedade brasileira.

Como proposta didática, o(a) educador(a) pode iniciar a atividade escrevendo na lousa o verso central da música – “A carne mais barata do mercado é a carne negra” – e pedir que os(as) estudantes levantem hipóteses sobre seu significado, de modo a acessar seus conhecimentos prévios. Em seguida, é sugerido ouvir a canção assistindo ao videoclipe oficial disponível no YouTube (A Carne – Elza Soares (Videoclipe Oficial), recurso que amplia a compreensão dos sentidos da obra ao utilizar imagens simbólicas e muito significativas.

A reflexão pode se aprofundar a partir das frases que aparecem no clipe: “Rico negro no Brasil é branco” e “Pobre branco no Brasil é negro”. Os(as) estudantes podem discutir como essas mensagens evidenciam o conceito de interseccionalidade, mostrando a relação entre raça e classe na produção de desigualdades.

Como atividade de fechamento, pode-se propor a criação de materiais artísticos/visuais – como pôsteres, cartazes, colagens ou desenhos – que expressem reflexões sociológicas inspiradas na canção, de forma a compartilhar o debate também com a comunidade escolar.

4. Cota não é esmola – Bia Ferreira (2018)

Lançada em 2018, Cota não é esmola, da cantora e compositora Bia Ferreira, é uma das canções mais emblemáticas da música brasileira contemporânea ao abordar de forma direta o racismo estrutural e a importância das políticas afirmativas. A música apresenta a trajetória de uma jovem negra e seus desafios cotidianos, confrontando discursos meritocráticos e reivindicando reconhecimento e justiça social.

Proposta didática: o(a) educador(a) pode imprimir a letra da canção e dividi-la em quatro partes, organizando uma atividade de rotação por estações. Cada trecho pode ser colocado em um canto da sala, e a turma dividida em quatro grupos, que circularão entre as estações analisando os fragmentos e respondendo a perguntas norteadoras, como: “Que injustiças sociais aparecem neste trecho e de que forma elas se relacionam com raça, classe e gênero?”. Em cada parada, os(as) estudantes registram suas hipóteses e percepções. Após a rotação, todos escutam a música coletivamente e compartilham as interpretações construídas.

Como sequência, é interessante aprofundar o debate sobre políticas afirmativas, em especial as cotas raciais – tema central da canção. O(a) educador(a) pode propor uma pesquisa em sites de universidades públicas brasileiras sobre o processo de implementação das cotas e promover um debate com base na música.

Além disso, Cota não é esmola permite abordar a intersecção entre raça e gênero, já que Bia Ferreira é uma importante referência do feminismo negro. O(a) educador(a) pode, assim, estabelecer conexões entre a canção e conceitos desenvolvidos por pensadoras como Lélia Gonzalez, discutindo como o racismo e o sexismo incidem de maneira combinada sobre as mulheres negras no Brasil.

Conclusão: Educação, empatia e transformação social

Educadores e educadoras têm nas artes, especialmente na música, um caminho potente para aproximar os(as) adolescentes das discussões sobre os marcadores sociais da diferença. Ao sensibilizar a juventude para exercitar a empatia e compreender as desigualdades que nos cercam, fortalecemos a formação de cidadãos e cidadãs engajados(as) na luta por justiça e transformação social.

Minibio da autora

Beatriz Rodrigues Gomes Vidal é graduada em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como professora na Educação Básica, lecionando disciplinas da área de Humanidades no Ensino Médio. Possui experiência também como professora bilíngue, tendo lecionado inglês para diferentes faixas etárias e obtido certificação de Cambridge. Pesquisadora em Antropologia, realizou pesquisa etnográfica com foco em questões de gênero, desenvolvida em unidades de acolhimento público na cidade de Santos (SP). É também autora de materiais didáticos para o Ensino Fundamental, na área de Ciências Humanas. Seu percurso articula formação acadêmica, pesquisa e prática docente em contextos diversos, sempre voltados à reflexão crítica e ao desenvolvimento integral dos(as) estudantes.

Referências

CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex: a black feminist critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics, University of Chicago Legal Forum: vol. 1989: iss. 1, article 8.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016. (Publicado originalmente em 1981).

ELZA SOARES. A Carne. Direção: Paula Lavigne. Produção: Canal MZA Music. YouTube, 2002. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yktrUMoc1Xw. Acesso em: 2 out. 2025.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GONZÁLEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, p. 223-244, 1984.

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