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A história do Carnaval e a diversidade brasileira: cultura, resistência e educação

17 de fevereiro de 2026,
E-docente
História do carnaval do Brasil

O Brasil é, sem dúvida, um país muito rico culturalmente. Podemos passar pela culinária típica das regiões que compõem nosso país, pela música, pela literatura, pelas festas populares, pelas artes visuais e por tantas outras representações dos saberes e das tradições do nosso povo.

Ainda assim, poucas manifestações culturais representam tanto o Brasil como o Carnaval, expressão que articula não só uma celebração festiva, como também histórias de resistência e enaltecimento de identidades. É sobre esse evento cultural que falaremos nesse texto, buscando promover também possíveis diálogos com as práticas de sala de aula.

1. Origens históricas: O Entrudo e a influência europeia

Antes de entrarmos nas múltiplas representações do Carnaval pelo país e como cada uma guarda um grande valor na manutenção cultural de diferentes povos, cabe uma breve apresentação sobre a história dessa festividade.

Os professores de História já estão familiarizados com esse tópico, pois é tema comum, já no Ensino Fundamental, comentar sobre o Entrudo, prática de origem europeia trazida pelos portugueses ao Brasil no período colonial. O nome, originário da palavra latina introĭtus, faz referência aos dias que antecedem a Quaresma, ou seja, à “entrada” desse período.

Caracterizado por brincadeiras nas ruas, uso de farinha, água, tinta e outros líquidos, o Entrudo era apreciado por todas as camadas sociais. A elite econômica, no entanto, restringia tal atividade aos ambientes domésticos e controlados, enquanto a classe popular, composta em grande parte por trabalhadores e pessoas escravizadas, se reunia nas ruas, aproveitando um momento de celebração com música, dança e brincadeiras variadas.

A representação do Carnaval na arte: O olhar de Debret

Um famoso quadro, muito representativo dessa manifestação cultural, foi pintado pelo francês Jean-Baptiste Debret. A obra, de 1835, intitula-se Scène de carnaval1, e nela podemos ver pessoas negras brincando de passar farinha no rosto, arremessar limões de cheiro e água umas nas outras, em uma cena que reúne crianças e adultos.

Leia mais: O ano começou! Carnaval no Brasil em sala de aula e suas abordagens

Chama atenção, inclusive, a personagem em destaque carregando uma cesta de frutas enquanto participa da brincadeira, o que sugere a sobreposição entre trabalho e festa no cotidiano da população. A imagem evidencia como o Entrudo funcionava como um momento de sociabilidade e lazer para sujeitos historicamente marginalizados.

2. Disputas sociais e a transição para o Carnaval moderno

O Entrudo, que com o tempo passou a reconhecido como Carnaval, começou a ser visto, sobretudo pelas elites, como uma manifestação desordeira e excessiva, o que levou, ao longo do século XIX, a tentativas de repressão e substituição por modelos considerados mais “civilizados”:

Apesar do sucesso do entrudo, foram muitas as tentativas de proibir a festa. No período republicano, a repressão se intensificou. Na década de 1890, choveram proibições legais e ações policiais, ecoando a forte campanha negativa empreendida pela imprensa e por uma elite que tentava se desvincular das manifestações populares e implementar as práticas higienistas.2

Formas de resistência e a criação das escolas de samba

Tal como ocorreu, e ainda ocorre, com diversas expressões culturais populares, como a capoeira, o samba, o funk, dentre outros, a tentativa de proibição não foi capaz de eliminar a festa. Pelo contrário, essas práticas encontraram formas de resistência e adaptação, reorganizando-se em novos formatos e espaços.

Leia mais: Carnaval em sala de aula: confetes, serpentinas e criatividade

A repressão contribuiu, portanto, para a transformação do Carnaval em manifestações mais estruturadas, como os cordões, ranchos e, posteriormente, as escolas de samba. Todo esse processo evidencia que o Carnaval brasileiro se construiu a partir de constantes disputas sociais, nas quais grupos populares reinventaram a festa como espaço de afirmação cultural.

3. O mosaico cultural: As expressões do Carnaval nas cinco regiões

Com tudo o que vimos até aqui, poderia se pensar que as festas de Carnaval pelo país se mantiveram e se fortaleceram a partir de uma unidade na identidade, ou seja, a partir de uma certa homogeneidade nas práticas festivas, mas não é bem assim. Por todo o território nacional, o Carnaval assumiu características próprias, moldadas pelas histórias locais, pelas referências culturais predominantes e pelas condições sociais de cada região.

Carnaval nas regiões Sudeste e Nordeste

Na região Sudeste, por exemplo, é famoso o modelo dos desfiles das escolas de samba, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, marcados por enredos, alegorias, fantasias e forte organização coletiva. Para se ter uma ideia da grandiosidade dessa festa, há uma expectativa de que o Carnaval do Rio de Janeiro atraia, neste ano, 8 milhões de pessoas, movimentando mais de 5 bilhões de reais, segundo a Riotur, Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro3. Se tais números já não fossem impressionantes, vale destacar também que, em 2026, o Rio terá 462 blocos, em uma programação de cinco dias, espalhados por todas as regiões da cidade.

Na região Nordeste, a força do Carnaval não fica para trás e se manifesta de maneira igualmente intensa. Em Pernambuco, o frevo, o maracatu e os blocos ocupam as ruas, transformando cidades como Recife e Olinda em grandes palcos a céu aberto. O número do turismo aqui também é alto, espera-se, para 2026, 2,5 milhões de turistas e um movimento econômico de 3,5 bilhões de reais4. É nesse estado, aliás, que está o maior bloco de Carnaval do mundo, O Galo da Madrugada. Fundado em 1978, no Recife, esse bloco costuma reunir mais de 1 milhão de pessoas no sábado de Carnaval.

Ainda no Nordeste, indo para a Bahia, temos como destaque os trios elétricos e os blocos afro, destacando uma celebração marcada pela valorização da cultura negra, pela ocupação do espaço urbano e pela participação massiva do público. Tal festividade ultrapassa o caráter meramente recreativo e assume também dimensões políticas e identitárias, sobretudo por meio da atuação dos blocos afro, que articulam música, dança, estética e discurso na valorização da herança africana.

Particularidades das regiões Norte, Centro-Oeste e Sul

Indo para outras regiões do país, podemos destacar, na região Norte, a valorização da rica cultura amazônica, incorporando elementos indígenas e regionais, com destaque para o Carnaval de Manaus, que conta com 26 escolas de samba ativas que desfilam no sambódromo, além das festas de rua com ritmos como carimbó e siriá, no Pará.

No Centro-Oeste, o Carnaval traz a energia dos blocos de rua, com destaque para a capital federal e cidades do interior, destacando o Carnaval em Corumbá (MS), o maior da região, famoso por desfiles de escolas de samba.

Já na região Sul, em capitais como Porto Alegre e Florianópolis, os desfiles seguem modelos semelhantes aos do Sudeste, enquanto, em outras cidades, predominam blocos de rua e festas comunitárias, muitas vezes em menor escala, mas com forte vínculo local.

No final das contas, o que se observa é um verdadeiro mosaico de expressões carnavalescas, com uma riqueza cultural difícil de mensurar. Por mais que algumas regiões ganhem mais destaque, nenhuma delas passa indiferente diante dessas festividades, adaptando os gostos locais aos diversos modos de se expressar e reafirmar as particularidades de suas identidades culturais.

4. Guia Pedagógico: Carnaval na sala de aula e a BNCC

A exploração do tema Carnaval, muitas vezes, pode ficar restrita às aulas de Arte, através da confecção de estandartes, fantasias, enfeites para o espaço escolar e demais produções vinculadas a esse momento festivo do início de ano. No entanto, como vimos ao longo do texto, o Carnaval é permeado de outros temas que permitem a abordagem de diversos aspectos da história brasileira, da construção da identidade regional, dos costumes e valores locais, bem como dos conflitos e transformações sociais que ocorreram em diferentes épocas.

Iremos sugerir, então, uma proposta de atividade que pode ser realizada já com alunos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e até mesmo com alunos dos Anos Finais e do Ensino Médio. Dessa forma, possibilitamos que estudantes com diferentes níveis de desenvolvimento de aprendizagem tenham contato com o Carnaval de maneira significativa e contextualizada com as práticas escolares.

Atividade Sugerida: O Mapa Brasileiro do Carnaval

A proposta envolve a elaboração coletiva de um Mapa Brasileiro do Carnaval e pode ser realizada por professores de diferentes disciplinas, de acordo com as escolhas de enfoque em cada etapa. Em um primeiro momento, o docente pode organizar uma roda de conversa para diagnosticar o repertório da turma, questionando quais as principais ideias veem à cabeça deles quando dizemos a palavra Carnaval. Esse pode ser um momento de sistematizar alguns conhecimentos, reforçar convenções ortográficas, através da escrita das palavras-chave ditas no quadro, bem como ampliar o vocabulário dos estudantes a partir das contribuições do grupo.

Em seguida, o professor pode apresentar imagens, vídeos e músicas de manifestações carnavalescas brasileiras, incentivando a observação atenta e o diálogo sobre semelhanças e diferenças entre elas. É importante que nessa seleção sejam apresentadas imagens que fogem das representações mais convencionais para evitar uma visão homogênea do Carnaval brasileiro, destacando a pluralidade cultural brasileira. Dependendo da etapa de escolaridade da turma, o docente pode acrescentar fotografias e pinturas que representam o Carnaval de outras épocas e outros países, o que, além de propor um diálogo com os saberes de História, também permite refletir sobre permanências e transformações ao longo do tempo, bem como sobre as trocas culturais entre diferentes povos.

Após esse momento inicial de troca, a turma pode ser dividida, através de sorteio, em cinco grupos, cada um representando uma região do Brasil. O objetivo deles será realizar uma pesquisa mais aprofundada das particularidades do Carnaval da região selecionada. A pesquisa pode ser orientada por questões simples, como: a história de origem, as principais características, os elementos visuais e sonoros, os personagens envolvidos e o contexto cultural em que a manifestação acontece. Acompanhando essa pesquisa, pode-se indicar que tragam ou produzam ilustrações representativas da região.

Adaptações por níveis de ensino

Vale lembrar que o nível de exigência vai variar de acordo com o nível da turma. Para alunos mais novos, o docente pode limitar as perguntas motivadoras, convocar a participação dos familiares para a pesquisa ou sugerir que a pesquisa seja expandida, de modo interdisciplinar, para aulas de outros professores. Para alunos mais avançados, é possível aprofundar as investigações, incluindo a análise de letras de músicas, reportagens, registros históricos e outras fontes, além da discussão de temas como identidade cultural, desigualdades sociais, processos de resistência e transformações ao longo do tempo.

Uma sugestão de letra de música que pode ser muito bem explorada e debatida no ensino médio é o samba-enredo da escola de samba Mangueira (RJ), intitulado Histórias para ninar gente grande5. Nele encontramos versos como “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento / Tem sangue retinto pisado / Atrás do herói emoldurado / Mulheres, tamoios, mulatos / Eu quero um país que não está no retrato”. Só esse segmento já pode promover um debate muito potente envolvendo diferentes disciplinas sobre a história pouco contada do Brasil, o que amplia o repertório sociocultural dos estudantes, principalmente se pensarmos naqueles que já estão atentos ao vestibular, mas também contribui para a formação de um olhar crítico e questionador sobre as narrativas históricas tradicionais.

Socialização e exposição escolar

Concluída a etapa de pesquisa, cada grupo pode socializar suas descobertas com a turma, apresentando as características do Carnaval da região estudada e as ilustrações produzidas. Em seguida, o material elaborado deve ser incorporado ao Mapa Brasileiro do Carnaval, que passa a reunir as diferentes expressões carnavalescas do país. Tal mapa pode ficar exposto em alguma área comum de destaque da escola, favorecendo a troca de conhecimentos não só entre os grupos da mesma turma, mas entre a turma que desenvolveu o trabalho e o restante do corpo escolar.

Conclusão: Prática pedagógica e competências da BNCC

Todo esse percurso, cabe afirmar, está amparado pelas orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que logo em seu início, afirma serem competências gerais da Educação Básica “valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural” (BRASIL, 2018, p. 8)6.

Ou seja, tal proposta não se situa apenas como uma atividade lúdica para aqueles primeiros dias letivos do ano, mas como uma prática pedagógica consistente, que articula diferentes áreas do conhecimento e contribui para a formação integral dos estudantes. Vemos, portanto, que, ao valorizar expressões culturais diversas tendo o Carnaval como ponto de partida, podemos estimular a pesquisa, o diálogo e a produção coletiva, atividades essas que promovem aprendizagens significativas, alinhadas às diretrizes curriculares e aos objetivos mais fundamentais da Educação Básica de qualidade que todos queremos.


Minibio do autor Diego Domingues detém uma trajetória acadêmica de excelência, com doutorado em Linguística Aplicada e graduação em Letras, ambos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de mestrado em Educação pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – Faculdade de Formação de Professores (UERJ/FFP). No presente, exerce a docência no Departamento de Português e Literaturas de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II.

Referências BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

  1. Fonte: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/18750/scene-de-carnaval-paveurs-marchande-d-atacaca Acesso em 05.02.2026 ↩︎
  2. Fonte: http://riomemorias.com.br/memoria/entrudo/ Acesso em 05.02.2026 ↩︎
  3. Fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2026/noticia/2026/01/15/carnaval-no-rio-deve-atrair-milhoes-de-pessoas-estima-riotur.ghtml Acesso em 05.02.2026 ↩︎
  4. Fonte: https://www.cbnrecife.com/blogdoelielson/2026/02/04/governo-de-pernambuco-espera-atrair-25-milhoes-de-turistas-no-carnaval-2026/ Acesso em 05.02.2026 ↩︎
  5. Fonte: https://www.letras.mus.br/mangueira-rj/samba-enredo-2019-historias-para-ninar-gente-grande/ Acesso em 07.02.2026 ↩︎
  6. Fonte: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/ Acesso em 07.02.2026 ↩︎

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