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Por uma escola humanizada e empática: reflexões sobre acolhimento, cuidado e resiliência no ambiente escolar 

14 de janeiro de 2026,
E-docente

O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção. (Rubens Alves)

A importância da escuta e o conceito de cuidado

As belas palavras de Rubem Alves dão início à nossa reflexão: falamos muito e escutamos pouco. Aconselhamos muito, julgamos muito e acolhemos pouco. Mas, quando estamos sensíveis emocionalmente, o que queremos é um colo aconchegante que acolha nossa dor, e não, necessariamente, alguém que tente resolver. Mesmo porque há dores que não têm solução, mas que podem ser acolhidas e cuidadas.

De acordo com Louro (2022), o cuidado é a busca de um espaço que se possa exercer a responsabilização por si e pelo outro, com processos de compartilhamento. Para Boff (2017, p. 25) o cuidado: “[…] abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, de preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”.

Conexão social e evolução humana

A maneira como o ser humano se conectou em grupo foi essencial para nossa sobrevivência ao longo do tempo. Afinal, juntos temos mais chances de enfrentar os desafios da vida. Por isso, a interação social virou peça-chave na evolução humana (Harari, 2011). Essa necessidade de contar com alguém não é importante só na infância, mas nos acompanha por toda a vida.

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Santos (2020, p. 18) comenta que: “[…] nos humanos, as emoções são fundamentalmente sociais, ou seja, surgem de uma atenção compartilhada”. Em resumo, nossas relações socioafetivas são essenciais, tanto para nosso bem-estar quanto para aprendermos mais e melhor.

O papel da neurociência e o ambiente de aprendizado

O cérebro humano cresce e se molda através das experiências compartilhadas. Quando essas trocas são saudáveis, emocionantes e motivadoras, elas ajudam na adaptação e no aprendizado. Santos (2020, p. 18) ainda afirma que o ambiente de aprendizado: “[…] é também o espaço para se falar do papel do educador, enquanto objeto com sensibilidade empática para intuir potencialidades e diagnosticar competências, facilitando a aprendizagem e o desenvolvimento”. Ou seja, nesse vínculo entre quem acolhe e quem é acolhido, podem acontecer: “[…] modificações neurais, metabólicas, afetivas, corporais. […] Um simples olhar pode ajudar a provocar a resiliência” (Condorelli, 2010, p. 4).

O que é acolhimento: aceitação e subjetividade

É nesse lugar da resiliência que o acolhimento torna-se fonte de cuidado. Cuidar, nada mais é do que ter um olhar amoroso, e não julgador, ao outro, tentando dar espaço para que o outro possa existir em sua subjetividade. Nem todos gostam de estudar os mesmos conteúdos na escola; nem todos tiram notas “boas” nas disciplinas; nem todos gostam de socializar; nem todos querem ser populares ou famosos nesse mundo; nem todos já sabem na adolescência a profissão que querem cursar e tantos outros exemplos, e está tudo bem. Ou seja, acolher é simplesmente entender que as pessoas são diferentes e está tudo bem em ser quem se é.

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Escuta empática e a teoria humanista de Carl Rogers

Acolhimento não é terapia. Isso precisa ficar muito claro. A proposta de acolher nossos estudantes se baseia na escuta empática, que permite uma relação de confiança, pautada no vínculo afetivo, servindo para a constituição e manutenção do apoio e proteção (Rodrigues, 2020). A escuta empática é baseada nas propostas da teoria humanista de Carl Rogers e pode ser empregada por quaisquer pessoas, não necessitando formação em Psicologia.

A teoria humanista enfatiza as relações interpessoais na construção da personalidade do indivíduo e no ensino centrado no aluno (Lima et al., 2018). A proposta de um acolhimento baseado em uma escuta empática também dialoga com o conceito de tutoria de resiliência, que se baseia na ideia de que um indivíduo comum — mas visto pela pessoa acolhida como uma figura de confiança (professor, amigo, líder religioso etc.) — pode servir como referência para que a pessoa lide com suas questões emocionais de forma mais equilibrada, contribuindo para o desenvolvimento de sua resiliência (Puig, 2015).

A escola como espaço protetivo e tutor de resiliência

O ambiente de aprendizagem é um dos mais importantes espaços sociais promotores de resiliência, pois agrupa uma ampla diversidade de pessoas, histórias e realidades e pode articular o professor ao aluno, dentro de uma perspectiva de desenvolvimento humano e de proteção (Sales; Chaves, 2021, p. 73).

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A escola pode funcionar como um ambiente protetivo e poderá fortalecer a resiliência de seus alunos se, dentre outras coisas, os professores entenderem a importância de trabalhar estratégias capazes de fortalecer a capacidade de os alunos lidarem com suas dificuldades diárias. Sendo assim, o acolhimento tem o objetivo de abrir um espaço para a pessoa expressar suas angústias e com isso, conseguir se organizar melhor em relação à condução de seus problemas (Louro; Pereira, 2024).

Reflexões críticas sobre o preparo docente e a violência escolar

Agora surgem as questões: a escola sabe cuidar? Nós, professores, somos preparados, humanamente e tecnicamente, para cuidar e acolher nossos estudantes? Sabemos escutar além das palavras ditas pelos estudantes em nossa sala de aula? Sabemos ponderar nossas exigências pedagógicas diante das demandas pessoais dos estudantes? Sabemos lidar com o gerenciamento de conflitos em sala de aula sem sermos agressivos e julgadores? Qual é o limite entre a compreensão e o acolhimento e a intrusão e a falta de ética diante das questões individuais e emocionais dos estudantes?

Temos visto uma crescente violência nas escolas: desrespeito aos professores e ao patrimônio escolar, autolesão (crianças cada vez mais novas se cortando) e massacres. A escola está sabendo lidar com isso? Será que estamos cuidando emocionalmente de nossos estudantes? Essas são questões que permeiam essa temática e que precisam ser discutidas na escola se quisermos um ambiente mais humanizado, empático e menos violento.

Conclusão: a função social e humanizada da escola

Enfim, cuidar, acolher, escutar, promover resiliência, mesmo que não pareça num primeiro momento, também é função da escola. Somos seres sociais, dependemos profundamente uns dos outros, sendo assim, se quisermos uma sociedade menos violenta e mais resiliente, isso precisa ser ensinado pelas famílias e pela escola. Ainda mais pela escola, uma vez que sabemos que não são todas as famílias que têm condições socioemocionais adequadas para educar e, em nossa sala de aula, recebemos diariamente crianças e jovens disfuncionais e sem competência emocional nenhuma para lidar com as adversidades da vida.

Se a escola não for acolhedora, cuidadosa, humanizada, empática e promotora de resiliência para essas crianças, quem será?

Minicurrículo da autora

Profa. Dra. Viviane Louro é pianista, educadora musical e neurocientista. Atua como docente do Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde, além de lecionar, coordena os seguintes projetos: Programa para Saúde Mental dos Estudantes de Música (Probem) do Centro de Artes e Comunicação (CAC); Liga Acadêmica de Neurociências Aplicada (Liana); Especialização em Neurociências, Música e Inclusão; e Comissão de Humanização e Saúde Mental da UFPE. É autora de 8 livros na área de Educação Musical Inclusiva e palestrante sobre as áreas de Neurociências da Música, Psicomotricidade e Música e Educação Musical Inclusiva. Atualmente, está se especializando em Criminal Profile e Psicologia Investigativa. 

Referências 

ALVES, R. O Amor que Acende a Lua. Campinas: Papirus, 2001. 

BOFF, L. Saber Cuidar: ética do humano-compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 2017. 

CONDORELLI, A. et al. O papel do educador como tutor de resiliência à luz das ideias de Boris Cyrulnik. InRevista Polyphonía, v. 21, n. 1, p. 3–20, jan./jun. 2010. 

HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Tradução de Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L&PM, 2011. 

LIMA, L. et al. Teoria humanista: Carl Rogers e a educação. Ciências Humanas e Sociais, Santa Maria, v. 4, n. 3, p. 161-171, maio 2018. 

LOURO, F. Caminhos para o Reencantamento da Vida: entre demandas e práticas de cuidado e acolhimento em espaços acadêmicos da UFPE. Recife, 2022. 

LOURO, V; PEREIRA, M. Sofrer para Aprender?: fundamentos e ações de um programa universitário em bem-estar e saúde mental. Recife: Portal de Educação Emocional, 2024. 

PUIG, J. Tutores de Resiliência. Barcelona: Gedsa, 2015. 

RODRIGUES, P. Inacreditável: uma análise fílmica acerca da escuta empática em casos de violência sexual. 2020. Trabalho de conclusão de curso (Graduação em Psicologia) – Centro Universitário Fametro, Fortaleza, 2020. 

SALES, M. M. L.; CHAVES, A. L. G. L. Importância do professor tutor de resiliência no espaço escolar em turmas do projeto Se Liga e 9° ano. Com a Palavra o Professor, Vitória da Conquista, v. 6, n. 14, jan./abr. 2021. 

SANTOS, M. J. O cérebro como órgão social. In: SOUSA, J. et al. (org.). Emoções, arte e intervenções. [S.l.]: Escola Superior de Educação e Ciências Sociais; Politécnico de Leiria, 2020. 

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