Menu

Criação de bibliotecas comunitárias: um caminho para a cidadania e a mudança social

13 de fevereiro de 2026,
E-docente
biblioteca comunitária

As bibliotecas são uma das dobradiças simbólicas que unem a cidade e os cidadãos, seu presente e os significados de futuro. (Germán Rey, 2018, p.119) .

Imagine, caro(a) leitor(a), um país em que as bibliotecas públicas e comunitárias funcionassem em prédios bonitos, projetados por arquitetos renomados, preocupados não apenas com a funcionalidade, mas com a estética e com a integração da comunidade naquele espaço de convivência.

Imagine que, nessas bibliotecas, há um acervo de qualidade, bem cuidado, além de sala de computadores e acesso gratuito à internet para os usuários. Há, também, nesse espaço, salas dedicadas à realização de eventos, que vão desde palestras, oficinas, rodas de leitura, até assembleias nas quais os usuários se reúnem para discutir e opinar sobre a programação oferecida ao público.

Outra informação muito importante: nesse país, os bibliotecários integram o grupo de profissionais com os melhores salários. É bem possível que você tenha imaginado que se trata de um país europeu, como a Finlândia, a Suécia ou a Noruega.

Na verdade, estamos falando da Colômbia! A ênfase que dei à revelação do nosso vizinho latino-americano é devida ao fato de que, em um passado não tão distante, as notícias vindas da Colômbia, veiculadas na grande mídia, davam conta, em geral, do cenário de disputas sociais: por território, entre cartéis do narcotráfico, e por poder político, entre o governo colombiano, com intervenções dos Estados Unidos, e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Decorriam desse cenário diversas mazelas sociais, como os altos índices de criminalidade, a insegurança da população, a má distribuição de renda e a ineficiência do Estado no combate ao crime.

Após mais de 50 anos de conflito armado, houve um esforço, complexo e de longo prazo, que culminou na assinatura, em 2016, do Acordo de Paz. Embora ainda enfrentem diversos desafios, os colombianos vêm passando por um período de pacificação e de reconstrução que tem como símbolo, entre outras iniciativas, a implantação de bibliotecas parque em regiões periféricas de Medellín e Bogotá.

Biblioteca como espaço de circulação do conhecimento e de convívio social

Talvez você esteja pensando: de que forma a construção de bibliotecas poderia ter um impacto social tão positivo a ponto de contribuir de maneira significativa para o projeto de paz e de ressocialização da Colômbia? Esse questionamento advém, provavelmente, da forma como concebemos a função social que as bibliotecas desempenharam, convencionalmente, ao longo do tempo.

Leia mais: A sistematicidade da leitura na escola: o que influencia na compreensão?

De acordo com o dicionário Houaiss, o termo biblioteca é definido, etimologicamente, como uma caixa/depósito de livros (do grego biblíon + teke). É entendida como uma coleção de livros e de outros documentos organizados, catalogados e disponibilizados para leitura, consulta, pesquisa ou empréstimo, podendo referir-se ao local, edifício ou estante onde se guardam tais coleções.

A definição reforça a ideia de repositório e se coaduna com o que a nossa experiência, em geral, nos diz sobre essa instituição, mas não dá conta do processo de mudança pelo qual ela vem passando ao longo dos anos. A maioria de nós considera bibliotecas como lugares nos quais, em geral, o tempo passa devagar. Talvez até mesmo tenha parado.

Todavia, segundo Hübner e Pimenta (2020), a instituição biblioteca sempre esteve em constante processo de mudança, sustentado em quatro pilares principais: a laicização, a democratização, a especialização e a socialização.

O princípio da democratização, em favor da educação e do acesso ao conhecimento para todos os segmentos da sociedade, foi o que motivou os ingleses Horace Mann e Henry Barnard a fundarem a primeira biblioteca pública, no início do século XIX. No Brasil, as bibliotecas públicas tiveram início em 1811, na Bahia. Desde então, seguem ocupando o lugar de instrumento cultural mais presente nos municípios brasileiros.

De acordo com um levantamento realizado em 2015 pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, há mais bibliotecas públicas do que cinemas, teatros ou centros culturais no nosso país. Esse dado comprova que, mesmo em tempos de avanço tecnológico e de acesso a mídias digitais, as bibliotecas mantêm sua importância como espaços de preservação do conhecimento e de disseminação de informação e, portanto, atuam como guardiãs da memória e da identidade do nosso povo.

Bibliotecas parque colombianas: uma experiência de revitalização urbana e participação comunitária

É preciso, no entanto, que as bibliotecas sejam vistas não como ambientes sagrados, restritos a uma parcela da população tida como culta, letrada. Bibliotecas precisam ser vistas como um espaço democrático, um lugar de encontro, de interação, de partilha.

A experiência colombiana com as bibliotecas parque vem sendo exitosa, desde a sua fundação, devido a uma conjugação de esforços que vai desde a compreensão acerca da função social desses equipamentos até a mobilização de diversos setores da sociedade. Os principais objetivos associados à criação desses espaços foram:

  • contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, criando condições para o desenvolvimento urbano;
  • promover a convivência cívica;
  • melhorar o acesso à informação e à educação dos cidadãos.

Percebe-se, então, a mobilização de três eixos, o educacional, o cultural e o social. O processo de planejamento urbano parte da compreensão do espaço como extensão das potencialidades, limitações e demandas específicas da população. Os projetos contemplam tanto a população local como a de outros bairros da cidade e até mesmo turistas.

Há, em alguns casos, escadas rolantes e teleféricos para garantir acessibilidade e, em alguns prédios, foram projetadas duas entradas independentes para que moradores de bairros vizinhos, mas com histórico de rivalidade, se sentissem igualmente prestigiados. Os prédios se destacam pela sua imponência e beleza, contrastando com a simplicidade das construções do seu entorno. São verdadeiras joias da arquitetura que causam, na população, um sentimento de orgulho e de pertencimento que contribui não apenas para o desenvolvimento de uma consciência cidadã, mas também estética.

Instaladas em bairros com índices preocupantes de desenvolvimento humano, onde grande parte da população vivia reclusa por medo da violência, sem grandes perspectivas, as bibliotecas passaram a ser espaços seguros de interação e de confraternização entre moradores.

Convidados a participar e a contribuir, não apenas como espectadores, mas como sujeitos ativos, responsáveis por propor, planejar e conduzir atividades, nas quais têm a oportunidade de compartilhar suas vivências e saberes, os moradores dessas localidades ocupam espaço de protagonismo.

Mais do que garantir a conservação e a circulação do conhecimento, as bibliotecas parque têm a função de fortalecer a autoestima e o sentimento de pertencimento e de coletividade da população. Essa transformação é fundamental, pois, segundo Rey (2018, p. 117), a violência contínua confina as pessoas física, social e culturalmente.

Leia mais: Histórias da educação que nos inspiram

O autor destaca que a dimensão fundamental das bibliotecas de Medellín e Bogotá é que “[…] elas não foram desenhadas simplesmente como uma resposta aos índices de leitura, mas como uma contribuição às mudanças na cidade”.

Como podemos contribuir para que as bibliotecas se tornem espaços de interação social?

A essa altura, caro(a) leitor(a), espero que você esteja tão encantado quanto eu com as possibilidades de desenvolvimento educacional, cultural e social promovidas pelas bibliotecas da Colômbia, e também é possível que, como eu, esteja pensando: que bom seria se pudéssemos implantar projetos semelhantes aqui no Brasil.

A boa notícia é que já existem algumas unidades, inspiradas no projeto colombiano, funcionando no Rio de Janeiro, assim como há, no restante do país, bibliotecas públicas, comunitárias, que desempenham um importante papel social, confirmando a importância da circulação do conhecimento e da difusão da cultura na sociedade contemporânea.

Sabemos que, no nosso país, enfrentamos problemas de desenvolvimento humano, assim como na Colômbia, relacionados à má distribuição de renda, à violência, à falta de oportunidades, a falhas e omissões no planejamento urbano e à existência de políticas públicas ineficientes e/ou insuficientes.

É inegável a (ir)responsabilidade do Estado em relação a essa situação, mas nós, como educadores, podemos contribuir, ainda que de forma pontual, para que as bibliotecas de nossas escolas, universidades, ONGs, bairros tenham um alcance social maior e possam associar informação, entretenimento e cidadania para a construção de uma sociedade mais igualitária e inclusiva. Além de oferecerem o serviço primordial de empréstimo de obras e de gestão da informação, é preciso que as bibliotecas sejam vistas como locais de encontro e partilha.

Visando a esse propósito, algumas ações podem ser desenvolvidas, no sentido de ampliar e diversificar a natureza das atividades oferecidas, como, por exemplo:

  • a criação de clubes de leitura, temáticos ou não, nos quais grupos elejam obras a serem lidas e, posteriormente, discutidas coletivamente como uma forma de incentivo à leitura e à socialização;
  • a promoção de atividades de extensão cultural, como apresentações, oficinas, palestras que abordem temas de interesse dos usuários e que possam estar relacionados à cena cultural da cidade em que a biblioteca esteja instalada;
  • a oferta de cursos livres de curta duração que contribuam para a formação acadêmica e/ou profissional da população;
  • a produção de eventos de contação de histórias, que possam ser conduzidos não apenas por profissionais como por integrantes da comunidade. Uma boa oportunidade de proporcionar o diálogo intergeracional é convidar pessoas idosas a constar histórias relativas às memórias de sua infância ou do bairro em que vivem para crianças e adolescentes;
  • a promoção de eventos com autores locais, nos quais, a partir de rodas de conversa, noites de autógrafos, saraus, a produção desses autores possa ser divulgada e enaltecida e jovens possam ser estimulados a também se tornarem escritores;
  • a construção de bibliotecas itinerantes, em que um pequeno acervo seja oferecido em pontos de circulação de pessoas, como praças, pontos de ônibus, estações de metrô, postos de saúde.

A propósito, você sabia que no dia 14/02 é celebrado o Dia Internacional da Doação de Livros, conhecido como International Book Giving Day? Criada no Reino Unido em 2012, a comemoração tem o objetivo de ampliar o acesso aos livros e de estimular o hábito da leitura. Que tal aproveitar a data comemorativa e mobilizar a comunidade escolar para a doação de livros que possam integrar bibliotecas comunitárias ou itinerantes no bairro ou cidade em que está situada a sua escola?

Considerações finais

Essas são algumas das possibilidades, às quais podem se somar outras, que dialoguem com os anseios e as necessidades dos usuários das bibliotecas que fazem parte do seu contexto profissional ou pessoal.

Inspirada pelas atividades que apresentei, quis presentear você, caro(a) leitor(a), com sugestões de leitura que possam enriquecer seu repertório e nutrir sua alma. Desta forma, convidei alguns colegas professores a indicarem um livro que considerem importante, especial, fundamental, como uma forma de participarmos, ainda que virtualmente, neste mês de fevereiro, marcado pela celebração da leitura através da doação de livros, dessa ação de compartilhamento de ideias, sonhos, histórias e projetos. Espero que aproveitem as sugestões e boa leitura!

Sugestões de leitura:

  • Tornar-se Palestina, de Lina Meruane, é um relato autobiográfico que narra a experiência da autora em sua incursão geográfica, memorialística e identitária pelo território palestino. O livro lança luzes sobre aspectos pouco abordados na grande mídia, em relação à diáspora Palestina e os sucessivos ataques que seu povo vem sofrendo ao longo dos anos. Do ponto de vista literário, vale destacar a forma como a autora enfatiza o papel da linguagem em torno do conflito. (Zuíla Couto, professora de Língua Portuguesa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba / IFPB)
  • A obra Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, revela uma experiência metafísica que reinventa a linguagem para explorar a dualidade humana (bem e mal, Deus e o Diabo). Guimarães Rosa transforma o sertão em um cosmos, onde a travessia de Riobaldo se torna a jornada universal de qualquer pessoa em busca de sentido. O sertão assume uma dimensão metafórica na travessia de Riobaldo. Entre batalhas épicas e o amor proibido por Diadorim, Riobaldo tece uma narrativa visceral sobre a existência, o medo e a dúvida. Mergulhe nesta obra com linguagem inovadora e descubra por que, nesta travessia, “viver é muito perigoso”, mas absolutamente fascinante. (Ivanda Martins, professora do curso de graduação em Letras / EAD e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal Rural de Pernambuco / UFRPE)
  • Minha sugestão de leitura é Avalovara, de Osman Lins. A escolha se dá em função de vários fatores combinados: Osman é um autor que constrói, nos moldes consolidados da prosa de ficção, uma narrativa estruturada, com marcas psicológicas fortes e nos convoca à reflexão social pela denúncia. Além disso, Osman foi um dos mais revolucionários escritores da literatura brasileira, e mereceu admiração da vanguarda europeia (no caso do Novo Romance francês) e latino-americana (recebendo elogios de Cortázar). Avalovara é uma amostra de como uma prosa pode refigurar-se e manter, ainda assim, a beleza, a pintura da angústia, a ironia e a frase estilisticamente exemplar. Osman ainda pode ser lido pelo quesito importante da representatividade regional, em que o modernismo fora do eixo Sul-Sudeste se mostra em pleno vigor, e não como sectário de um centro de ideias; sobretudo como núcleo de propostas que contaminam positivamente os caminhos que o país pode percorrer. (Peron Rios, professor de Língua Portuguesa do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco / UFPE)

Referências:

Scarpa, R. Colômbia: a fantástica terra das bibliotecas pública. Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/3409/colombia-a-fantastica-terra-das-bibliotecas-publicas Acesso em: 02 fev. 2026.

HÜBNER, M.L.F. PIMENTA, J.S. Bibliotecas Parque de Medellín: a biblioteca pública se reinventa. Revista Fontes Documentais. Aracaju. v. 03, n. 03, p. 20-32, set./dez., 2020. Disponível em: https://www.academia.edu/44973951/BIBLIOTECAS_PARQUE_DE_MEDELL%C3%8DN_A_BIBLIOTECA_P%C3%9ABLICA_SE_REINVENTA Acesso em: 31 jan. 2026.

REY, G. Mutações simbólicas, redesenhos culturais e educação: a biblioteca, o museu e o laboratório. Revista Observatório Itaú Cultural, n. 24, jun./dez. 2018, p. 115-129. Disponível em: https://issuu.com/itaucultural/docs/obs24_book_issuu_af Acesso em: 31 jan. 2026.


Minibio da autora

Paloma Borba é doutora em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professora adjunta do curso de Letras/ Português EAD da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do curso de Especialização em Estudos da Linguagem e Formação Docente (Linfor/UFRPE). Atua na área de Linguística, com ênfase nos estudos sobre Gêneros Textuais, Multimodalidade, Letramentos e na Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa.

Crie sua conta e desbloqueie materiais exclusivos

Complete o cadastro para receber seu e-book
Já possui uma conta?Acessar conta
ACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINSACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINS

Veja mais

Criação de bibliotecas comunitárias: um caminho para a cidadania e a mudança social
13 de fevereiro de 2026

Criação de bibliotecas comunitárias: um caminho para a cidadania e a mudança social

As bibliotecas são uma das dobradiças simbólicas que unem a cidade e os cidadãos, seu presente e os significados de...
A importância do convívio e da amizade na escola
12 de fevereiro de 2026

A importância do convívio e da amizade na escola

Por que a convivência e a amizade importam tanto na escola, e por que falamos tão pouco sobre isso? Talvez...
Quando quase não há tecnologia: como usar a inteligência artificial de forma simples, ética e acessível na escola pública
11 de fevereiro de 2026

Quando quase não há tecnologia: como usar a inteligência artificial de forma simples, ética e acessível na escola pública

Sem computadores, sem internet estável, com poucos recursos… o que fazer quando o futuro bate à nossa porta, mas a...
Articular práticas escolares e sociais: o desafio didático-pedagógico de formar cidadãos
10 de fevereiro de 2026

Articular práticas escolares e sociais: o desafio didático-pedagógico de formar cidadãos

Em casa, na rua, no parque, no shopping ou na feira, as crianças estão em contato permanente com o mundo...
Mulheres na Ciência: 10 cientistas que os estudantes precisam conhecer
9 de fevereiro de 2026

Mulheres na Ciência: 10 cientistas que os estudantes precisam conhecer

Um jaleco branco, óculos de proteção, cabelos arrepiados, mãos ocupadas com frascos de líquidos brilhantes e potencialmente explosivos, cálculos matemáticos...