Como provocar o gosto por aprender? – por Marcia Guerra

09 de setembro, 2019 - Por e-docente

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Material de divulgação das editoras Ática, Saraiva e Scipione.
Não constitui documento oficial a respeito do PNLD.

Diariamente, muitos professores encontram alunos desmotivados e sem vontade de ir para a escola. Mas afinal, é possível provocar a vontade de aprender dos alunos? A Doutora em Educação Marcia Guerra acredita que sim! Convidamos a coautora da coleção de projetos integradores para apresentar algumas formas de incentivar os alunos a aprender.

Antes de prosseguir com a leitura, veja algumas características da coleção Será, Profe?, aprovada no PNLD 2020:

Temáticas contemporâneas: como provocar o gosto por aprender?

Oi, eu sou a Marcia Guerra, historiadora. Ao longo da minha vida venho trabalhando com formação de professores.  Já rodei um bocado de chão desse Brasil, conversando com professores da educação básica sobre sua prática docente. E, se encontrei realidades muito diferentes de Estado para Estado, ou mesmo dentro de municípios de um mesmo Estado, posso afirmar que a grande maioria dos professores desejava a mesma coisa: tornar suas aulas mais interessantes para os seus alunos.

Acho que essa é a nossa grande realização profissional: ver satisfação, ver o prazer estampado nos olhos da nossa classe. Os professores estão sempre pedindo dicas de como tornar o conteúdo A ou o conteúdo B mais atraente para o aluno, ou então em como incluir na sala de aula temas que motivem os estudantes, que se mostram pouco interessados naqueles “tradicionais”. Isto é, aqueles que integram os conteúdos programáticos previstos nos diferentes sistemas de ensino. Como interessar o aluno em temas tão distantes da vida que ele leva?

Já há alguns anos venho respondendo da mesma maneira: o problema não está nos temas. Quase todo tema pode ser interessante. O que vai mobilizar a turma é o processo de aprender.  A forma pela qual aqueles conteúdos escolares selecionados vão adquirir sentido para os jovens resulta, em minha opinião, de uma mistura entre estratégias atraentes e conteúdos compreensíveis. Um tema muitas vezes árido (desculpem o trocadilho!) para a sala de aula, como a composição de solos, apaixona os alunos quando o tornamos concreto, levando a que equipes busquem exemplares na natureza, os tragam para  a classe, os separem e os exponham.

Não há turma que deixe de considerar interessante o estudo dos povos antigos quando estimulada a descobrir os segredos da mumificação ou a reconstruir as estruturas das pirâmides egípcias ou dos sarcófagos. Quando meu filho cursava ainda o Fundamental I, sua turma estudou o processo de preservação do corpo dos faraós e, em grupos, fizeram múmias e as armazenaram em sarcófagos. Foi uma experiência tão envolvente que hoje, mais de 20 anos depois, ele ainda guarda o trabalho.

Escrever mensagens secretas, cartas para autoridades, filmar, preparar tribunais… todas essas estratégias costumam mobilizar nossos estudantes e resultam em classes e professores muito mais satisfeitos. Todas que estamos em sala de aula sabemos bem disso. Quem está distante da escola pode, então, pensar: resolvido o problema da educação, vamos colocar os alunos em movimento! Mas as coisas não são tão simples.

Aproveite para conferir uma conversa com as autoras da coleção Será, Profe? e entender a proposta dos projetos integradores no PNLD:

Um desafio constante: superar a fragmentação do conhecimento pela interdisciplinaridade

Muitas são as angústias que dificultam o uso dos projetos em sala de aula. Talvez a mais forte seja a cultura conservadora de nossas instituições de ensino. Em algumas, até hoje, qualquer coisa diferente de alunos sentados com seus livros e/ou cadernos abertos é considerada um desvio da função principal da escola. Mas, como professores, aprendemos com Piaget, Vigotsky e Montessori que se a concentração é fundamental, existem muitas outras formas do processo de aprendizagem ocorrer. Sabemos, também, que aprendemos nas brincadeiras, ao fazer comida, ao assistir TV ou jogar no celular. Que aprendemos sozinhos e em grupos. Que aprendemos até quando achamos que não aprendemos nada!

O conservadorismo das nossas instituições se mostra de maneira mais intensa na compreensão de que o ensino, para ser eficiente, precisa ser ministrado exclusivamente por disciplinas. A grade curricular de nossas escolas é quase a mesma das escolas do início do século XX. A distribuição dos tempos destinados às disciplinas escolares e os conteúdos selecionados, também. Parodiando um antigo comercial de shampoo – a escola ainda é a mesma, mas o mundo? Como mudou!

Nenhum de nós pode achar que estudar as profundas mudanças vividas pelo meio ambiente nos últimos cinquenta anos seja tarefa restrita à disciplina escolar Geografia, tampouco que para ser capaz de entender o funcionamento básico da economia da região onde mora um aluno tenha que estudá-la nas aulas de matemática. Ele precisa da matemática, da Geografia e de muito mais, com certeza.

Mas na forma que a maioria das escolas compreende o ensino, é muito difícil poder abordar o assunto interdisciplinarmente. Cada disciplina escolar tem uma lista enorme de conteúdos considerados indispensáveis, eles estão distribuídos pelos diferentes anos de uma maneira quase fixa, o planejamento é feito por disciplinas, assim como a avaliação. Tudo isso se torna obstáculo a trabalhos pensados por mais de um componente curricular. Isso sem contar com o tempo: como vamos colocar dois professores em sala? O professor de História está na escola às terças e quintas, o de matemática às segundas e sextas, o de Ciências às quartas?

Precisamos, assim, ter um pouco de ousadia e muita determinação para conseguir alcançar resultados que nos satisfaçam e aos alunos, também. Faz-se necessária uma prática continuada de ir driblando os obstáculos e aproveitando as possibilidades que se oferecem. E assim, entre as táticas e brechas que o cotidiano apresenta, construir “artes de fazer”,comojá dizia o historiador francês Michael de Certeau.

É importante lembrar sempre que, na perspectiva das orientações balizadoras da Educação Básica no Brasil, a interdisciplinaridade é uma meta a ser alcançada, um objetivo. Já constava da LDB em 1996, nas Diretrizes Curriculares e nos PCN’s que lhe seguiram; em 2010, com as novas Diretrizes Curriculares para a Educação, tornou-se obrigatório que 20% da carga horária anual da Educação Básica seja composta por projetos integradores. Amparo legal para negociar condições para implementar práticas que integrem campos diferentes do conhecimento, nós temos. Mas…

Nas mãos dos professores: gerir conteúdos e possibilitar futuros

Como lidar com os conteúdos de cada componente disciplinar? Como usar 4, 6 aulas para produzir junto com os alunos selfies – retratos de si – em máquinas fotográficas construídas pelos próprios estudantes? É possível deixar alguns conteúdos fora das aulas? O quanto isso será vantajoso para o aluno? E se ele vier a precisar de um determinado conhecimento depois?

Cada professora ou professor fica por vezes paralisado por essas questões. Ainda que alguns desvalorizem nosso trabalho, nós sabemos a responsabilidade que temos no futuro de cada um daqueles que se senta à nossa frente. E, por essa razão, ficamos um pouco intimidados na hora de correr riscos. Nesse caso, como em quase tudo na vida, buscar ouvir a experiência e as reflexões de companheiros de profissão, de quem se dedica a estudar o assunto, nos ajuda a ultrapassar essa barreira.

Para onde quer que olhemos, experiências educacionais no Brasil ou no mundo, indicam que efetivamente estamos caminhando de um modelo de escola para outro: o excesso de conteúdos está sendo substituído por conteúdos significativos, trabalhados sem correria, com os alunos protagonizando a construção do conhecimento e o contexto local ganhado visibilidade. O foco é dar sentido à aprendizagem. 

Os estudos sobre a ensino/aprendizagem, sobre o que deve ensinar a escola na contemporaneidade ou sobre a superação da crise da escola – questões que afligem os educadores por todo o Planeta, sublinham a importância de enfatizarmos a capacidade de aprender e fazer uso do conhecimento em diferentes situações. Quase todos destacam a aceleração tecnológica e a superação cotidiana dos patamares de conhecimento como as razões para isso. Eles argumentam de que o que ontem era certeza, deixa de ser.

Como o fato do átomo ter sido considerado a menor partícula a compor o universo, e depois ter sido subdividido em nêutrons, prótons e elétrons.  Subdividido mais uma vez em neutrinos, depois vieram o méson, o quark, o antiquar. Mas agora já sabemos que a menor partícula são os fótons e glúons, nem massa eles têm. Amanhã, quando tivermos uma tecnologia ainda mais sofisticada, poderemos ter novas mudanças. De que me serviu ter decorado o nome de todas as partículas do átomo, como exigiu D. Celeste, minha professora de Ciências?  Naquela época, os nomes e os conceitos já estavam ultrapassados…

Quando a experiência atravessa e reorienta o currículo na direção da aprendizagem significativa

Nossa experiência em sala de aula também ensina muito, quando o assunto são conteúdos e escolhas. Ah, essas experiências que nos atravessam… como elas importam nessa construção crítica-reflexiva.  Ela nos diz mostra a impossibilidade de darmos conta de todo o conteúdo apresentado pelos textos normativos. A não ser que fiquemos falando sozinhas. Como não é para isso que escolhemos nossa profissão, selecionamos entre os conteúdos elencados aqueles que julgamos mais importantes. Os critérios para nossa escolha podem derivar das avaliações externas, das sequências propostas pelos livros didáticos, resultarem das nossas preferências pessoais. Mas são sempre escolhas: incluem temas, deixam outros de lado. 

Para conseguir incluir em nosso planejamento estratégias didáticas que contenham a participação ativa dos estudantes: pesquisando, montando artefatos, filmando, levantando hipóteses e descartando algumas soluções, cruzando informações, lidando com problemas, em resumo, adquirindo conteúdos, habilidades e competências socioemocionais através de estratégias em que eles e elas se tornam protagonistas do processo de aprendizagem, também temos que abrir mão de alguns conteúdos. Mas, escolhemos incluir outros e trabalhar mais profundamente os que integrarão nosso projeto.

Ao construir um blog/livro de receitas culinárias de origem africanas com os alunos do 7º ano, a professora de História estará trabalhando mais com os conteúdos relacionados à lógica mercantil e o domínio europeu dos mares, sobre mecanismos de aquisição e circulação de cultura, sobre os vínculos entre o Brasil e a África. Os alunos irão mergulhar nesses temas e fazer correlações, pesquisas e muito mais. Eu, como professora, iria escolher dedicar menos tempo à formação da monarquia na França e na Inglaterra, por exemplo. Uma decisão balizada nos objetivos de aprendizagem significativa para aquela turma naquele ano. Vale a pena? Colocando os pontos positivos e negativos na mesa, acho que sim.

Assim como os demais livros didáticos, o Será, profe? está totalmente alinhado à BNCC. Baixe o e-book gratuito e confira como os aspectos da Base Nacional Comum Curricular podem estar presentes em sala de aula.

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E você, o que acha? Escreve pra gente nos comentário o que pensa sobre o tema.

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