Menu

Como lidarmos com a saúde mental dos estudantes frente às demandas de exames e avaliações em larga escala?

Como lidarmos com a saúde mental dos estudantes frente às demandas de exames

O cenário da ansiedade pré-vestibular e Enem

Para os/as estudantes concluintes do 3º ano do Ensino Médio e seus familiares, os meses de janeiro e fevereiro trazem consigo uma grande atmosfera de ansiedade pela tão esperada nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e por demais exames para ingresso em universidades. Essa ansiedade é, até certo ponto, natural e esperada, diante do grande investimento que estudantes, familiares e a comunidade escolar como um todo fazem para que o sucesso no Enem ocorra e a tão sonhada vaga nas universidades seja conquistada.

Quando as notas do Enem são disponibilizadas e, posteriormente, o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é aberto, instala-se um clima de verdadeira “caça” às vagas, na tentativa de equalizar os desejos pela formação profissional com a necessidade de morar em outra cidade, em muitos casos. Muitos conseguem as vagas e se tornam destaque em outdoors espalhados pelas cidades ou em posts nas redes sociais, celebrando suas conquistas e reforçando a qualidade das instituições de ensino no cenário local. Outros, infelizmente, não conseguem e se entregam a certa tristeza diante da sensação de “fracasso” que se instala.

Os dois cenários, sejam de conquista ou de frustração, revelam uma trajetória de luta e investimento nos estudos, mas também envolvem questões emocionais que acabam transformando a experiência da adolescência em um período de grande angústia, diante da pressão imposta pelo sistema educacional.

Panorama das avaliações de larga escala na educação básica

O Enem é apenas a culminância de uma trajetória de avaliações em larga escala que ocorre na Educação Básica. Desde o Ensino Fundamental, estudantes são submetidos a provas e exames que avaliam a qualidade do ensino em cada etapa da escolarização e, de certa forma, enfrentam desde cedo a pressão acadêmica. Essas notas influenciam os rankings nacionais das instituições de ensino, projetando-as como melhores ou piores no contexto local, estadual ou nacional.

Leia mais: Políticas públicas de saúde mental nas escolas

Isso tudo, a que custo emocional? Como o sistema vem lidando com a saúde mental das crianças e dos adolescentes diante dessas avaliações de larga escala e das expectativas de sucesso? Como a possibilidade de fracasso e o adiamento de expectativas vêm sendo trabalhados? Existe algum suporte às famílias dos/as estudantes para que possam oferecer apoio dentro de casa? Este texto é um convite à reflexão sobre como essas questões vêm sendo encaminhadas e de que forma podemos iniciar um movimento de maior acolhimento e construção de repertório emocional, para que estudantes e famílias possam lidar melhor com toda a pressão que essa caminhada impõe sobre os(as) alunos(as).

Relembrando as avaliações

Com o objetivo de avaliar o desempenho dos/as estudantes e a qualidade do ensino em nível municipal, estadual e nacional, atualmente, a Educação Básica brasileira conta com diversas avaliações, sendo elas:

Avaliações nacionais:

  • Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb): avalia estudantes do 5º e 9º ano do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio em Língua Portuguesa e Matemática. Os resultados são usados para calcular o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
  • Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): avaliação de estudantes do 3º ano do Ensino Médio e egressos que desejam ingressar no Ensino Superior. Mede habilidades em Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Matemática, Linguagens e Redação.

Avaliações estaduais e municipais

Muitos estados e municípios aplicam avaliações próprias para monitorar o aprendizado dos(as) estudantes e subsidiar políticas educacionais. Algumas das principais avaliações estaduais são:

Essas avaliações geralmente ocorrem no Ensino Fundamental (5º e 9º anos) e no Ensino Médio (3º ano), com foco principal, na maioria dos casos, em disciplinas como Língua Portuguesa e Matemática. Além dessas provas, algumas redes municipais aplicam exames próprios para avaliar o desempenho de suas escolas e estudantes.

Adicionalmente, certas universidades estaduais ainda possuem Sistemas Seriados de Avaliação, oferecendo aos(às) estudantes, desde o 1º ano do Ensino Médio, a oportunidade de realizar provas seriadas em cada ano desse segmento. Dessa forma, ao final dos três anos, as notas podem ser utilizadas para pleitear uma vaga no Ensino Superior. Um exemplo desse tipo de avaliação pode ser observado na Universidade de Pernambuco (UPE).

A pressão escolar e o impacto nos rankings educacionais

É óbvio que todas essas avaliações, mesmo diante dos desafios inerentes ao campo da avaliação, revelam indicadores de qualidade cruciais para o mapeamento e consequente delineamento de políticas públicas educacionais adequadas a cada realidade.

Leia mais: A importância da educação socioemocional: como o professor pode integrar competências de saúde mental ao currículo

No entanto, sabemos que as escolas exercem uma pressão gigantesca sobre os(as) estudantes para que a realização dessas provas ocorra com o melhor desempenho possível, uma vez que o direcionamento de verbas e a maior atenção a determinados espaços de educação estão relacionados aos rankings que os colégios atingem em cada avaliação.

Principais rebatimentos na saúde mental dos estudantes

É comum identificarmos estudantes com a aparência de cansaço, apatia e desânimo, especialmente na última série do Ensino Médio. A rotina exaustiva de estudos e autocobrança faz com que alunos e alunas se sintam sobrecarregados(as) e apresentem sintomas preocupantes que revelam a necessidade de um olhar cuidadoso da escola e das famílias. É frequente observarmos problemas que envolvem:

  • Ansiedade: a preocupação excessiva com o desempenho pode causar sintomas físicos (taquicardia, sudorese, insônia) e emocionais (medo intenso, irritabilidade). A ansiedade de desempenho é comum e pode levar a bloqueios cognitivos durante as provas.
  • Depressão: a sobrecarga acadêmica, combinada com expectativas externas (dos familiares, professores(as) e sociedade), pode gerar desânimo, baixa autoestima e até mesmo sintomas depressivos persistentes. Sentimentos de fracasso podem ser potencializados quando os resultados não correspondem às expectativas.
  • Síndrome de Burnout: caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e redução do senso de realização, surge devido a longas jornadas de estudo, à privação de sono e à crença de que todo o futuro depende de um único exame.
  • Transtornos alimentares: a pressão e o estresse podem levar a alterações nos hábitos alimentares, como compulsão alimentar, anorexia ou bulimia. A cultura de se alimentar de forma rápida e não saudável ganha força e, muitas vezes, é legitimada pela própria família.
  • Distúrbios do sono: a privação do sono por longos períodos de estudo compromete o aprendizado, a memória e a regulação emocional, gerando insônia e sonolência excessivas.
  • Baixa autoestima e síndrome do impostor: muitos(as) estudantes duvidam da própria capacidade, mesmo quando têm um bom desempenho. As comparações constantes com colegas e rankings podem intensificar essa insegurança.
  • Fobia escolar: alguns alunos(as) desenvolvem aversão a provas e até evitam ir à escola por medo de fracassar.
  • Uso de substâncias para a melhora de rendimento: o uso de estimulantes como cafeína em excesso e, em casos extremos, medicamentos sem prescrição (como ansiolíticos e estimulantes) pode ser um reflexo da necessidade de melhorar a concentração e reduzir a ansiedade.

Estratégias práticas: o papel da psicologia escolar e da família

O contexto das avaliações externas demanda, de forma imprescindível, que a melhoria da saúde mental dos(as) estudantes seja tratada de forma integrada e multidisciplinar. Profissionais da Psicologia Escolar podem atuar oferecendo suporte emocional e desenvolvendo estratégias de enfrentamento, como técnicas de relaxamento e gestão do estresse. Intervenções psicoeducativas e rodas de conversa auxiliam os(as) alunos(as) a identificar e compreender suas emoções e a lidar melhor com a pressão dos exames. Essa abordagem contribui para a promoção de um ambiente escolar mais saudável, em que o bem-estar do estudante se torna prioridade.

Leia mais: Saúde mental no trabalho da docência: em busca do equilíbrio

Professores(as) e demais profissionais da equipe pedagógica têm um papel crucial na adaptação do ambiente de ensino para reduzir a ansiedade associada às avaliações. Por meio de práticas de ensino diversificadas e avaliações formativas, que valorizam o processo de aprendizagem ao invés do resultado final, é possível criar espaços que incentivem a confiança e a resiliência dos/as alunos/as. A capacitação desses profissionais para identificar sinais de sofrimento psicológico e para colaborar com a equipe de Psicologia da escola potencializa a construção de estratégias que atendam às necessidades individuais dos(as) estudantes.

A colaboração com a família é fundamental para reforçar os esforços realizados no ambiente escolar. Familiares, informados e orientados sobre os desafios enfrentados pelos(as) jovens, podem proporcionar suporte emocional e criar uma rotina que inclua momentos de lazer e descanso, essenciais para a manutenção da saúde mental. Esse trabalho conjunto entre escola, profissionais especializados e família forma uma rede de apoio que permite identificar precocemente os sinais de estresse e adotar medidas preventivas.

Conclusão: por uma educação mais humanizada e sustentável

A reflexão sobre o impacto das avaliações externas evidencia que, embora as provas representem uma importante ferramenta para medir o desempenho dos(as) estudantes e subsidiar políticas públicas, elas também impõem uma pressão significativa que afeta diretamente a saúde mental dos jovens. A ansiedade, a depressão, a síndrome de burnout e outros transtornos emocionais ressaltam a necessidade de uma abordagem que vá além do desempenho acadêmico, priorizando o bem-estar integral dos(as) estudantes.

Assim, torna-se imperativo reconhecer que o sucesso educacional não pode ser medido apenas por números e rankings, mas também pela capacidade de lidar com os desafios emocionais do processo de aprendizagem. Nesse sentido, a construção de um ambiente de apoio e acolhimento deve envolver a colaboração estreita entre profissionais da Psicologia, Pedagogia, professores(as) e familiares. Esta atuação integrada pode ajudar a mitigar os efeitos nocivos da pressão das avaliações e promover o desenvolvimento de habilidades socioemocionais essenciais para a vida. Ao fomentar uma rede de apoio que valorize tanto o desempenho acadêmico quanto o equilíbrio emocional, estamos investindo em uma educação mais humanizada e sustentável.

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Caminhos para uma política de Saúde Mental Infantojuvenil. Brasília, DF, 2005.
  • BRASIL. INEP. Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Brasília, 2025.
  • BRASIL. INEP. Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Brasília, 2025.
  • CASSINS, M. et al. Manual de Psicologia escolar-educacional. Curitiba, 2007.
  • LESSA, P. V.; FACCI, M. G. A atuação do psicólogo no ensino público do Estado do Paraná. Revista Semestral da ABRAPEE, 2011.
  • LINS, S. R. A. Saúde mental infantojuvenil e inclusão escolar. Tese (Doutorado), UFSCar, 2018.
  • PATTO, M. H. S. A produção do fracasso escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
  • RODRIGUES, M. C. et al. Prevenção e promoção de saúde na escola. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, 2008.
  • TEIXEIRA, M. R. et al. Atenção psicossocial e promoção de saúde mental nas escolas. In: Saúde mental de crianças e adolescentes e atenção psicossocial. Manole, 2021.

Minibio do Autor

Danilo Carvalho é professor e pesquisador da UFPE, com Mestrado e Doutorado em Biologia Animal (UFPE) e pós-doutorado pela Texas A&M University. Atua no Colégio de Aplicação da UFPE e possui vasta experiência em formação de professores e consultoria educacional.

Crie sua conta e desbloqueie materiais exclusivos

Complete o cadastro para receber seu e-book
Já possui uma conta?Acessar conta
ACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINSACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINS

Veja mais

Um breve percurso sobre políticas públicas de educação inclusiva no Brasil: o quanto já avançamos?
13 de março de 2026

Um breve percurso sobre políticas públicas de educação inclusiva no Brasil: o quanto já avançamos?

São mais de 30 anos desde a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais, ocorrida na Espanha, com a difusão das...
O desenvolvimento da escrita nos anos iniciais: desafios e práticas
12 de março de 2026

O desenvolvimento da escrita nos anos iniciais: desafios e práticas

Embora o ensino da leitura e da escrita seja uma das atividades básicas da instituição escolar em todos os seus...
Direito ao lazer: uma proposta para explorar o tema em aula
11 de março de 2026

Direito ao lazer: uma proposta para explorar o tema em aula

Em meio a rotinas frenéticas, a dias agitados e a uma vida acelerada, os momentos de lazer tornam-se cada vez...
Curadoria digital para professores: onde encontrar recursos educacionais abertos (REA) de qualidade e gratuitos
10 de março de 2026

Curadoria digital para professores: onde encontrar recursos educacionais abertos (REA) de qualidade e gratuitos

A internet traz grande facilidade na pesquisa de materiais pedagógicos. Além de uma ampla opção de conteúdos, é simples fazer...
O PPP da escola sob a perspectiva da triangulação didática
9 de março de 2026

O PPP da escola sob a perspectiva da triangulação didática

Um dos documentos mais importantes de toda escola, que reúne as metas a serem atingidas, os sonhos a serem alcançados...