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Sondagens de escrita: como realizar e diagnosticar as hipóteses de escrita dos estudantes?

1 de outubro de 2026,
E-docente
Sondagem de escrita

O que são as sondagens de escrita e como surgiram?

Ao desenvolver sua investigação, que deu origem à compreensão da psicogênese da língua escrita, Ferreiro e Teberosky (1999) usaram o chamado “método clínico”, ou seja, entrevistavam individualmente as crianças participantes da pesquisa e analisavam os dados obtidos em cada uma dessas sessões. O principal instrumento de coleta de dados era o pedido de escrita de palavras cuja grafia as crianças ainda não conhecessem, no formato de uma lista com características específicas.

Após a escrita, as crianças realizavam a leitura do que haviam escrito e o conjunto desses dados (a grafia que produziram, a leitura que realizaram, as hesitações, decisões e dúvidas etc.) era analisado pelas pesquisadoras. A partir disso, categorizaram os resultados obtidos e descreveram as conhecidas hipóteses sobre a escrita: escrita pré-silábica ou pré-fonetizante; hipótese silábica sem e com pertinência sonora; hipótese silábico-alfabética; e escrita alfabética.

No Brasil, a divulgação dos resultados da pesquisa da psicogênese da língua escrita acarretou uma consequência prática: com o objetivo de identificar as hipóteses de escrita de seus estudantes, alfabetizadores de todo o país passaram a usar o mesmo instrumento de coleta de dados das pesquisadoras. Surgiu então a obrigatoriedade de ditar às crianças a lista de palavras de um mesmo campo semântico, denominada sondagem de escrita.

É importante dizer que esse é um “aplicacionismo” que, embora traga alguns benefícios, também traz prejuízos à prática pedagógica. Afinal, essa sondagem foi pensada como um instrumento de coleta de dados de uma pesquisa acadêmica, e não como um dispositivo didático. Muitas escolas e redes de ensino, porém, institucionalizaram a sondagem como instrumento avaliativo, o que obriga os professores a saberem realizá-la.

Por que as sondagens de escrita são utilizadas na alfabetização?

O objetivo primordial da sondagem é aferir o nível de conceitualização sobre a escrita com o qual o estudante opera naquele momento. Para atingir esse objetivo, alguns cuidados são necessários. No quadro a seguir, elencamos esses cuidados, justificando o porquê de cada um deles:

Característica da sondagem

Razão pela qual é necessária

A sondagem deve ser ou ter…

Uma lista de palavras do mesmo campo semântico.

Ao eleger um mesmo campo semântico, o conjunto de palavras torna-se uma lista, um texto real (lista de brinquedos, lista de compras, lista de objetos etc.), trazendo um contexto que permite antecipações e inferências, o que é diferente de ditar palavras soltas.

Palavras familiares ao universo dos estudantes, mas cuja grafia ainda não tenha sido ensinada.

A familiaridade com aquelas palavras e o que elas representam permite que os estudantes mobilizem seus conhecimentos prévios, antecipando, selecionando e inferindo o modo de escrevê-las. Como o objetivo da sondagem é aferir a hipótese de escrita do estudante, o ideal é que essa escrita seja espontânea, fruto da sua reflexão, e não uma reprodução do que foi ensinado anteriormente.

Uma ordem decrescente na extensão das palavras, iniciando-se pelas polissílabas e encerrando-se com os monossílabos.

O controle quantitativo é um eixo importante do processo de construção da escrita. Inicialmente, o sujeito atrela esse controle quantitativo à representação gráfica do objeto, e não à sua representação sonora (objetos grandes tendem, nessa fase, a ser representados por palavras grandes, com muitas letras, por exemplo). O início da fonetização marca um controle quantitativo entre unidades gráficas e sonoras, o que faz com que as palavras tendam a ser grafadas com uma letra por sílaba. Paulatinamente, mais letras vão sendo acrescidas. Assim sendo, são as palavras maiores que permitem aferir com maior precisão o controle quantitativo e que menos conflito geram os escritores iniciantes, por isso estão no início da lista.

Uma frase final, que utilize uma das palavras ditadas anteriormente.

A presença de uma frase final avalia a estabilidade da escrita (ou seja, se a palavra é escrita do mesmo modo quando inserida na lista e na frase) e também evidencia como a hipótese de escrita se manifesta em uma unidade maior do texto.

Como realizar corretamente as sondagens de escrita?

Além das características descritas no quadro, é fundamental que o professor peça ao estudante para ler cada palavra, logo após tê-la escrito. Essa leitura deve ser feita em voz alta e acompanhada da indicação de cada parte da palavra (o professor geralmente pede que o estudante aponte, com o dedo, cada pedaço que for sendo enunciado).

A leitura posterior é fundamental, pois permite evidenciar os casos de escrita pré-fonetizante, por exemplo, quando o sujeito não consegue atrelar cada parte do sonoro a uma parte gráfica, realizando a chamada “leitura global” (casos em que a palavra é lida globalmente, sem que o estudante consiga explicitar cada pedaço dela). Evidencia também aqueles casos em que, apesar da escrita ainda ser pré-fonetizante, sem um controle quantitativo de letras, a fonetização começa a se anunciar e, no momento da leitura, o estudante já faz a correspondência de uma letra por sílaba (em alguns casos, eles até pedem para retirar as letras que percebem que colocaram a mais). Mostra, ainda, aqueles casos em que há pertinência sonora das letras utilizadas, mesmo que não sejam as letras convencionais (por exemplo, quando o estudante usa a letra I para simbolizar uma sílaba escrita com E). É a leitura também que, em alguns casos, cria conflitos para o sujeito, que percebe, no momento de ler, que sobram ou faltam letras, ou que as escolhas das letras feitas no momento da escrita poderiam ser substituídas por outras.

Leia mais: Abordagens de alfabetização no Brasil contemporâneo

Sondagens de escrita na rotina pedagógica

Para que a aplicação da sondagem seja bem-sucedida, algumas ações são fundamentais antes, durante e após ela acontecer.

Antes da aplicação da sondagem

É importante que o professor ofereça aos estudantes uma atividade que eles sejam capazes de realizar de forma autônoma. Assim, o docente pode ir chamando cada um individualmente, enquanto os outros se entretêm com a atividade. É essencial também planejar quantos estudantes farão a sondagem a cada dia, para que a turma não fique por tempo demasiado envolvida na outra atividade, o que pode gerar desinteresse e baixo engajamento.

Durante a aplicação da sondagem

No caso de sondagens feitas com crianças, elas podem ser apresentadas como uma “brincadeira de escrever”. No caso de adultos, deve-se explicitar que não é uma avaliação no sentido formal, mas um recurso para otimizar o ensino. O objetivo é criar um ambiente confortável, que não gere ansiedade ou receios sobre o próprio desempenho.

O acordo com o estudante deve ser no sentido de deixá-lo à vontade para escrever do jeito que conseguir, mas explicando que deve ser com o maior engajamento possível, ou seja, produzindo a melhor escrita que consiga naquele momento, e não “de qualquer jeito”.

Ao ditar as palavras, o professor deve pronunciá-las normalmente, e não de maneira silabada. A cada palavra escrita, pede-se ao estudante que leia, indicando com o dedo ou o lápis, cada pedaço que escreveu. Os registros quanto à forma como a leitura foi feita podem ser feitos depois, para que o estudante não os veja como uma “correção”.

Após a aplicação da sondagem

Embora muitas redes de ensino exijam um registro classificatório da sondagem, pedindo que os professores atribuam a cada estudante a hipótese de escrita em que se encontram, isso não é o mais importante. O fundamental é que o professor utilize os dados da sondagem para compreender o que seu aluno já sabe, como ele compreende a escrita e como a representa.

A partir disso, pode-se pensar em agrupamentos, situações didáticas, desafios e intervenções que façam sentido para o momento de cada um. A sondagem não é uma avaliação da aprendizagem da escrita, mas uma avaliação para a aprendizagem da escrita.

A sondagem de escrita é sempre necessária?

Definitivamente, não. Como dissemos no início deste texto, essa estratégia de pedir às crianças para escreverem quatro palavras (uma polissílaba, uma trissílaba, uma dissílaba e uma monossílaba, nessa ordem) e uma frase foi um instrumento de coleta de dados de uma pesquisa acadêmica. Sua transformação em dispositivo didático foi um fenômeno que ocorreu somente no Brasil e decorre dessa necessidade de transpor para a sala de aula, sem levar o contexto em consideração, os princípios do fazer científico.

Conhecer o que os estudantes pensam sobre a escrita e avaliar o modo como a utilizam é, sem dúvida, uma obrigação de todo professor alfabetizador. Esse conhecimento pode ser obtido, porém, de muitas outras formas. O incentivo à escrita espontânea nas atividades cotidianas em sala de aula; a utilização das quatro situações didáticas fundamentais da alfabetização; a criação de propostas de escrita individuais e coletivas; a observação das discussões que se dão entre os estudantes quando precisam escrever algo juntos, entre outros fatores que permitem ao professor obter muitas informações sobre as hipóteses de escrita e com muito mais propriedade do que apenas realizando uma sondagem.

Leia mais: A leitura pelo estudante e os textos da vida cotidiana na alfabetização inicial

O papel das sondagens de escrita no ambiente alfabetizador

Quando a sala de aula é transformada em um verdadeiro ambiente alfabetizador, com múltiplas oportunidades de leitura e escrita; e quando os estudantes têm a possibilidade de atuarem como leitores e escritores mesmo antes de saberem ler e escrever convencionalmente, o professor alfabetizador terá todas as informações de que necessita, sem precisar ditar quatro palavras e uma frase.

Ainda assim, as sondagens de escrita podem ser um recurso relevante quando utilizadas de forma criteriosa, compreendendo seus objetivos, limites e potencial para auxiliar o professor na identificação das hipóteses de escrita dos estudantes.

Minibio da autora

Elaine Cristina R. G. Vidal

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista/SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e em Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FEUSP.

É autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014), Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação.

Referências bibliográficas

FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.

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