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Rios de aprendizagem: transformando a água em um projeto de vida na escola

Uma torneira que não para de pingar no pátio. A rua da escola que sempre alaga em dias de chuva. Um noticiário que anuncia o risco de racionamento de água na cidade. Um estudante que comenta sobre a falta de água em seu bairro. Cenas como essas, tão presentes no cotidiano da comunidade escolar, são o ponto de partida para uma aprendizagem potente e transformadora.

A escola, enquanto espaço central na formação de sujeitos, pode criar condições para que eles compreendam a natureza, desenvolvam suas potencialidades e adotem posturas para uma melhor interação com o meio ambiente e consigo mesmos.

Metodologia e problematização: a água como eixo pedagógico

Trazer essa realidade para o centro do processo pedagógico é o convite da metodologia deste texto. Utilizar a água nesta perspectiva é uma oportunidade de ir além de “dar aulas sobre a água”, mas tomar a problemática local como eixo de um processo de aproximação crítica da própria realidade.

O objetivo é partir de situações problemáticas reais e, a partir delas, buscar o conhecimento científico para refletir e, se possível, agir sobre elas. Essa abordagem, que se afasta do ensino puramente expositivo, tem sido a mais utilizada em pesquisas de intervenção no contexto escolar brasileiro.

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Adotar essa prática ajuda a evitar o que alguns pesquisadores chamam de armadilha paradigmática, na qual as ações de educação ambiental, mesmo bem-intencionadas, ficam limitadas a uma visão ingênua ou a discursos prontos, que não geram uma compreensão aprofundada da complexidade do tema.

O poder da pergunta: despertando o protagonismo estudantil

Para que o trabalho seja de fato significativo, ele precisa ter um conteúdo problematizador, conectado com a vida dos envolvidos. O grande desafio, portanto, é transformar a observação da realidade em um motor para a construção do conhecimento. Isso se inicia com a valorização da ferramenta mais poderosa para mobilizar a curiosidade e o protagonismo estudantil: a pergunta.

O primeiro passo de um projeto investigativo não é a exposição de um conteúdo, mas a construção coletiva de boas perguntas que instiguem os alunos a querer saber mais. É o momento de despertar o que Marin (2008, p. 216) chama de “redescoberta dos modos de viver e de se relacionar com a natureza, o lugar habitado e a coletividade”, pois é a partir daí que se pode ancorar uma postura sensível e uma discursividade autêntica. O processo educativo se desloca da simples transmissão de informações para a valorização dos conhecimentos prévios dos estudantes e para a circulação de uma diversidade de saberes.

O ciclo investigativo: pergunta, exploração, sistematização e ação

Uma questão simples, formulada em uma roda de conversa, como “Para onde vai a água da nossa pia?”, pode se desdobrar em um projeto interdisciplinar que atravessa o ano letivo. Investigar essa pergunta levará os estudantes a estudar o saneamento básico da cidade, a geografia da bacia hidrográfica local, a história da ocupação do bairro, a química do tratamento da água e a biologia dos ecossistemas aquáticos. O conhecimento deixa de ser abstrato e passa a ter uma função social clara: compreender e atuar no mundo.

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O trabalho se organiza, então, em um ciclo investigativo simples e potente, que pode ser adaptado para qualquer idade: pergunta, exploração, sistematização e ação.

Essa abordagem dialógica, que respeita as diferentes visões de mundo, visa à superação de uma visão ingênua da realidade por uma consciência mais crítica e objetiva. Trata-se de um processo que não busca respostas prontas, mas que valoriza a capacidade de análise, síntese e avaliação crítica das informações. Ao seguir esse caminho, a escola utiliza o ensino sobre o ciclo hidrológico para desenvolver competências essenciais à formação de cidadãos, como o pensamento científico, crítico, criativo e o senso de responsabilidade.

A jornada em ação: estratégias para diferentes etapas de ensino

Com o poder da pergunta estabelecido como motor do processo, a jornada investigativa ganha corpo e se adapta à maturidade e ao repertório de cada etapa da Educação Básica. As estratégias a seguir não são receitas prontas, pois buscam ser roteiros flexíveis que partem da curiosidade dos estudantes para a construção de um conhecimento engajado e contextualizado.

1. Educação infantil e ensino fundamental (anos iniciais): a fase dos “porquês”

Nesta fase, a investigação nasce da exploração sensorial e da relação afetiva com o mundo. O foco não está em esgotar um conteúdo, mas em vivenciar o fenômeno, despertar a empatia e construir as primeiras noções de cuidado. Uma pergunta geradora como “De onde vem a chuva que molha nosso parquinho?” ou “As plantas da nossa horta bebem água como a gente?” pode iniciar um rico percurso.

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A exploração pode se dar por meio de atividades lúdicas, como ouvir e recontar histórias sobre rios e chuvas, criar músicas, fazer pinturas usando terra e água e observar atentamente as transformações no jardim da escola após um dia de chuva. A sistematização acontece de forma criativa, através de desenhos, modelagens e da construção de um terrário para observar um “pequeno ciclo da água” em ação. A ação, por sua vez, é concreta e imediata, uma vez que o plantio e o cuidado com uma horta escolar, onde os alunos assumem a responsabilidade diária pela rega, tornam-se compreensão na prática sobre a importância da água para a vida.

2. Ensino fundamental (anos finais) e ensino médio: “Como podemos mudar?”

Aqui, a curiosidade se alia a uma crescente capacidade de abstração e análise crítica. As perguntas se tornam mais complexas e conectam o ambiente a dimensões sociais, políticas e econômicas. Uma pergunta como “Qual é a pegada hídrica da nossa escola?” ou “O acesso à água e ao saneamento é igual para todos no nosso bairro?” abre portas para uma pesquisa-ação robusta.

A etapa de exploração envolve a coleta e análise de dados, pois os estudantes podem tabular o consumo das contas de água da escola, realizar entrevistas com moradores e gestores públicos, usar ferramentas como o Google Earth para mapear nascentes e áreas de desmatamento no entorno e pesquisar a história do saneamento na cidade. A sistematização desse volume de informações pode se dar por meio da produção de um atlas ambiental da comunidade, com mapas, textos e fotos que contem a história da água no local. A ação transcende os muros da escola: os alunos podem elaborar e apresentar um plano de redução de consumo para a direção escolar, criar uma campanha de conscientização para a comunidade ou até mesmo redigir um documento com suas descobertas e sugestões para encaminhar às autoridades locais.

Esse percurso transforma os estudantes em verdadeiros pesquisadores do seu território, desenvolvendo uma prática que une teoria e reflexão crítica, elementos fundamentais para uma educação ambiental emancipatória.

O papel da gestão escolar na educação ambiental

O papel da gestão. Para que a aprendizagem investigativa floresça, é fundamental que a gestão escolar, representada por diretores e coordenadores, assuma um papel de catalisadora. A transição de uma postura de fiscalização para uma de facilitação e curadoria dos projetos é o que garante que a iniciativa não se perca em meio às demandas curriculares.

Muitas vezes, o sistema escolar, com sua estrutura rígida, não permite que as atividades didáticas ultrapassem o nível de práticas isoladas e pontuais, que não levam o aluno à criticidade. Romper com essa lógica é a tarefa central da gestão. Isso se traduz em ações concretas ao articular horários para permitir uma visita de campo, buscar parcerias com a companhia de saneamento local, com universidades ou organizações não governamentais (ONGs), e valorizar e divulgar as produções dos estudantes para toda a comunidade.

O apoio da gestão é crucial para superar os obstáculos encontrados pelos professores, que vão desde a falta de tempo até a carência de formação específica para o trabalho com projetos. Cabe à equipe gestora propor, em encontros pedagógicos, condições de formação e de planejamento que fortaleçam a prática docente e a articulação entre as diferentes áreas do conhecimento. Contudo, a ação mais estruturante que a gestão pode tomar é a inserção da Educação Ambiental no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola.

Quando o PPP é elaborado de forma participativa, envolvendo todos os profissionais do estabelecimento, e assume a questão ambiental como um eixo estratégico, os projetos deixam de ser eventos esporádicos e passam a fazer parte da identidade da escola. A proposta pedagógica, então, ultrapassa a sala de aula e se torna um compromisso de toda a gestão escolar, garantindo a continuidade e a profundidade do trabalho educativo.

Conclusão: da gota de curiosidade ao oceano de conhecimento

Ao garantir o suporte institucional, a gestão escolar permite que a semente da curiosidade, plantada em sala de aula, possa de fato germinar e se transformar em conhecimento. O percurso que se inicia com uma simples gota, uma pergunta sobre uma torneira que pinga, deságua em um oceano de possibilidades. Este oceano não é feito apenas de conteúdos sobre a água, mas de novas formas de ver, de se relacionar com o saber e de atuar no mundo.

O trabalho com um tema gerador, nascido da realidade local, possibilita uma reflexão sobre os elementos básicos inseridos numa perspectiva de construção ativa do conhecimento. A experiência demonstra que, ao final da jornada, além de aprenderem sobre bacias hidrográficas ou saneamento, os estudantes desenvolvem a capacidade de ler criticamente a realidade, de trabalhar em equipe, de buscar soluções para problemas concretos e de se entenderem como agentes de transformação. O sucesso de uma proposta como essa resulta em um planejamento coletivo e no envolvimento da comunidade escolar em questões ambientais.

Sabemos que os desafios são muitos, desde a necessidade de formação continuada para os professores até a superação de uma cultura escolar ainda fragmentada. Contudo, a potência de uma prática pedagógica que une pesquisa e ação, que valoriza o diálogo e que parte da vida para construir o saber, é imensa.

A inserção da Educação Ambiental na escola se revela um processo gradual, mas necessário e contínuo. Ao adotar a pergunta como ponto de partida, a escola reafirma seu papel mais nobre, que é o de não entregar respostas prontas, mas de formar sujeitos capazes de elaborar suas próprias perguntas e de construir, coletivamente, um futuro mais sustentável e justo para todos.

Minibio do autor

Vinicius Cavichioli Rodrigues é mestrando em Gestão Ambiental (IFPE), jornalista (Unoeste) e gestor ambiental (EACH/USP), com especialização em Desenvolvimento Sustentável. Com mais de 12 anos de experiência, atuou como docente no Senac e Unisa, além de ter sido gestor de unidades de conservação no ICMBio. Atualmente, é Analista de Meio Ambiente na JBS (Unidade Suape).

Referências bibliográficas

ARAUJO, M. I. O.; MODESTO, M. A.; SANTOS, T. F. Caminhos e dilemas da educação ambiental no contexto escolar. Pesquisa em Educação Ambiental, [ S. l. ], v. 11, n. 2, p. 129-136, 2016. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18675/2177-580X.vol11.n2.p129-136. Acesso em: 12 set. 2025.

CERQUEIRA, C. L. O.; NASCIMENTO, A. L. B.; SANTOS, G. M. M. Água como tema gerador de uma proposta de educação ambiental na escola pública: possibilidades e potencialidades. In: CHAVES, J. M. et al. (Org.). As múltiplas faces do PROFCIAMB: impactos nas Ciências Ambientais. Feira de Santana: UEFS, 2021. p. 65-89. Disponível em: https://doi.org/10.7476/9786589524946.0004. Acesso em: 15 set. 2025.

COUTO, M. S. D. S.; GUIMARÃES, C. S.; PEREIRA, M. F. Contribuições de uma experiência pedagógica em educação ambiental. Pesquisa em Educação Ambiental, [ S. l. ], v. 12, n. 1, p. 26-41, 2017. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18675/2177-580X.vol12.n1.p26-41. Acesso em: 09 set. 2025.

MARIN, A. A. Pesquisa em educação ambiental e percepção ambiental. Pesquisa em Educação Ambiental, [ S. l. ], v. 3, n. 1, p. 203-222, 2008. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/pea/article/view/29889. Acesso em: 16 set. 2025.

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