Menu

Quando a escola se transforma em uma verdadeira comunidade de leitores

22 de abril de 2026,
E-docente

[…] se a escola não alfabetiza para a vida e para o trabalho… para que e para quem alfabetiza? (Ferreiro, 2002, p. 17).

Vivemos atualmente em uma sociedade grafocêntrica, ou seja, em que a importância da linguagem escrita é central e notória. O processo pelo qual a escola se transforma em um ambiente letrado passa por entender que, desde os usos mais simples, como pegar um ônibus, comprar um pão, escrever um bilhete, deixar uma mensagem no WhatsApp, até os mais complexos, as culturas do escrito permeiam nosso cotidiano e se impõem em nossa rotina.

As crianças, desde pequenas, vivem imersas nestas culturas do escrito. Nem sempre, porém, têm a oportunidade de refletir acerca delas, e é frequente que recebam pouco auxílio para enfrentar as tarefas que se lhes tornam difíceis devido ao fato de ainda não estarem alfabetizadas, ou estarem em processo de alfabetização.

Os adolescentes, por outro lado, vivem em uma realidade imediatista, rodeados pelo mundo digital e por um sem-número de atrativos que tendem a distanciá-los, sobretudo, das práticas de leitura. A falta de acesso a livros, o pouco incentivo à leitura de modo geral e o esforço cognitivo envolvidos no ato de ler também colaboram para que essa atividade seja pouco valorizada na adolescência, e mesmo na vida adulta.

O senso comum reconhece a escola como instituição responsável pela formação de leitores. Seria, portanto, uma das responsáveis por tentar reverter esse quadro. Para além do senso comum, porém, sabemos a dificuldade dessa empreitada. É preciso um trabalho pedagógico consistente, encampado por toda a comunidade escolar – e não apenas por alguns professores –, para que a escola possa, de fato, se constituir em uma verdadeira comunidade de leitores, tal como preconizado pela educadora argentina Delia Lerner (2002).

Neste artigo, propomos a realização de um projeto, a ser implementado pela equipe gestora da escola, cujo objetivo central é transformar a escola em uma verdadeira comunidade de leitores. Isso significa inserir os estudantes nas diversas culturas do escrito, com especial ênfase na leitura literária, propondo na escola situações de leitura e escrita significativas, articuladas às práticas sociais.

Premissas para que a escola se transforma em comunidade de leitores

Para pensar em um projeto como este, não basta promover ações que impulsionem a alfabetização dos estudantes (embora elas também sejam essenciais). É preciso “inundar” a escola das múltiplas culturas do escrito. Nas palavras de Colello (2007, p. 273 e 274):

Que fique bem clara a diferença qualitativa entre as alternativas para lidar com o analfabetismo e o baixo letramento: ou implementamos técnicas para a rápida aprendizagem de uma escrita mecânica feita pela simples associação de letras e sons ou assumimos definitivamente o fato de que o processo de alfabetização merece ser inserido em uma política de democratização do saber, favorecendo o desenvolvimento do espírito crítico e a efetiva inserção do sujeito no mundo letrado.

É importante salientar que um projeto focado nas culturas do escrito precisa utilizar textos reais, de acordo com a função para a qual foram escritos. Pautado na concepção de Curto et al. (2000), o projeto aqui sugerido proporá que textos literários sejam lidos com fins de fruição, buscando proporcionar aos estudantes a experiência estética que só a literatura pode promover; textos expositivos orientarão estudos de temas diversos; textos informativos servirão à localização e seleção de informações; textos prescritivos nortearão ações concretas, enquanto textos enumerativos propiciarão registros e organização de ações diversas.

O envolvimento de professores e agentes escolares

Pensar em um projeto como este, porém, envolve não apenas pensar nas crianças e nos adolescentes. É preciso abarcar também os adultos da escola, em especial os professores, para que se coloquem como agentes ativos do projeto. Cabe à equipe gestora fazer isso desde o início, afinal, como afirma Nogueira (2007, p. 37):

Para que os professores possam agir como profissionais no espaço da formação, temos de reconhecer o seu lugar e aquilo que é de sua responsabilidade profissional, ainda que eles não tenham, no momento, todas as condições de exercê-la.

O projeto visa, desta maneira, incluir todos os agentes do cotidiano escolar: estudantes, professores e funcionários. Em algumas etapas, também os familiares serão afetados pelas ações propostas. O intuito é criar, através da realização de todas as etapas do projeto, aquilo que Lerner (2002, p. 79) chama de “[…] a escola como microssociedade de leitores e escritores”.

Passo a passo de um projeto: Fases e etapas de implementação

Sugerimos que o projeto seja composto por quatro fases. A primeira, de sensibilização e preparação da comunidade escolar. A segunda e a terceira, de execução, podem ocorrer simultaneamente, e destinam-se à inserção de crianças, adolescentes e adultos nas culturas do escrito dentro da escola. A quarta e última fase seria a de propagação do projeto.

Leia mais: A sistematicidade da leitura na escola: o que influencia na compreensão?

A proposta é que cada fase seja subdividida em etapas, conforme esquema a seguir:

Fase I – Sensibilização e preparação

  1. Questionário feito com adultos e crianças acerca de suas práticas de leitura e escrita cotidianas.
  2. Divulgação do projeto na comunidade e campanha para a arrecadação de material escrito (livros, revistas, gibis etc.)
  3. Arrumação e organização da biblioteca escolar, com participação direta de todos os envolvidos (ou criação de bibliotecas de sala, no caso de inexistência da biblioteca escolar).

Fase II – Práticas de leitura e escrita para as crianças e os adolescentes

  1. Realização de leitura diária para as crianças e os adolescentes, realizada pelos professores, no início da aula.
  2. Estabelecimento do “tempo diário da leitura”, válido para todos.
  3. Ida semanal com os estudantes à biblioteca da escola, para a escolha dos livros a serem levados para casa (ou a escolha a partir do acervo das bibliotecas de sala).
  4. Escrita de placas e textos informativos a serem espalhados na escola, por parte dos estudantes.
  5. Colocação de gibis e palavras cruzadas em pontos estratégicos de acesso dos estudantes (pátio, banheiros, salas ambientes, laboratórios etc.), para leitura de entretenimento.
  6. Criação de um “painel de indicação literária” em espaço coletivo da escola, onde as crianças e os adolescentes possam registrar (de forma individual ou coletiva) suas indicações literárias acerca daquilo que têm lido.
  7. Realização de dois eventos na escola, em datas diferentes, com o objetivo de apresentar o resultado das leituras realizadas no semestre: o “sarau literário” e a “mostra de estudos”.

Fase III – Práticas de leitura e escrita para os adultos

  1. Estabelecimento do “tempo diário da leitura”, válido para todos.
  2. Organização e gerenciamento coletivo da “biblioteca adulta” da escola.
  3. Momento da indicação literária e cultural, no início dos Horários de Trabalho Pedagógicos Coletivos (HTPC).
  4. Colocação de revistas e palavras cruzadas em pontos estratégicos da escola (secretaria, sala dos professores, almoxarifado, banheiros, cozinha, refeitório etc.).
  5. Criação de um “ponto de leitura” em um espaço público da escola.
  6. Criação de um painel de indicação literária adulto, a ser colocado na biblioteca ou em outro espaço de livre escolha.

Leia mais: Leitura pelo professor e formação do leitor literário na escola

Fase IV – Propagação

  1. Apresentação dos resultados do projeto à comunidade.
  2. Incentivo à ampliação da biblioteca adulta, com possibilidade de uso por parte dos pais e familiares das crianças.
  3. Inscrição do projeto em eventos da área, para a divulgação de seus resultados.

Entendendo o passo a passo: Orientações detalhadas por fase

Ficou com dúvidas em como realizar cada fase do projeto? Então veja essas orientações:

Fase I

  • O questionário a ser aplicado entre os adultos e as crianças, na primeira etapa da fase I, tem por objetivo mapear suas práticas leitoras e escritoras, fazendo um levantamento dos hábitos de leitura e escrita difundidos entre os sujeitos. Elabore questões de múltipla escolha, a fim de poderem ser mais facilmente tabuladas, e compartilhe o seu resultado com toda a equipe.
  • A campanha de divulgação do projeto pode ser realizada por meio de cartazes, bilhetes informativos, divulgação em sites e redes sociais.
  • A arrumação da biblioteca infantil e adulta (ou das bibliotecas de sala) pode ser realizada em um sábado letivo, e todos, professores, funcionários, estudantes e familiares, podem ser convidados a colaborar.

Fase II

  1. Convide os professores a incluírem em seu planejamento, no início de cada aula, a realização de uma leitura diária para os estudantes da turma, onde eles estiverem naquele dia, independente da faixa etária. O objetivo deste momento é propor a leitura de fruição, e nenhuma ação será realizada a partir da leitura, apenas se abrirá um tempo para comentários, conforme a disposição dos estudantes em conversar sobre o texto ou não. A seleção do material a ser lido deve ser feita por cada professor, a partir de seu repertório pessoal. A coordenação da escola pode dar sugestões, contemplando sempre uma diversidade de gêneros textuais o mais ampla possível.
  2. Em um horário a ser combinado entre a equipe gestora e os professores, pode ser instituído, na escola, o “tempo da leitura para todos”. Trata-se de 10 a 15 minutos (a critério da equipe) diários em que, a partir de um sinal sonoro, todos os presentes na escola (adultos e crianças) poderão interromper seus afazeres, para realizar uma leitura de fruição. O material a ser lido pode ser o disponibilizado na escola ou trazido de casa. Conforme o funcionamento da escola, pode-se estabelecer um “tempo de leitura para todos” em cada período.
  3. A ida semanal à biblioteca da escola pode be realizada pelos professores, que também coordenarão o empréstimo e a devolução dos volumes (caso não haja um bibliotecário responsável por essa ação). A coordenação pedagógica da escola será responsável por estruturar os horários de ida à biblioteca e o gerenciamento destas visitas, realizando convites a contadores de histórias e dinamizadores de leitura que possam envolver os estudantes nestes momentos. Essa dinâmica pode ser feita nas próprias salas de aula, no caso de a escola não dispor de uma biblioteca.
  4. As turmas da escola podem ser divididas, discutindo-se, com cada turma, uma temática social relevante. Pode-se abordar a proibição dos celulares nas escolas, a necessidade de uso consciente dos recursos naturais, a arrecadação de material de leitura para o projeto, a valorização da arte e cultura locais, entre outras possibilidades. A partir dessa discussão, cada turma pode ser convidada a produzir material escrito a ser exposto nas paredes e nos espaços coletivos da escola.
  5. Diferentes locais estratégicos da escola (banheiros, pátios, refeitórios etc.) receberão gibis, palavras cruzadas e outros portadores de leitura rápida, a fim de que os estudantes possam realizar leituras livres nos momentos que estiverem nestes ambientes.
  6. O “painel de indicação literária” pode ser criado pelos professores e afixado em um espaço coletivo dos estudantes (pátio, biblioteca ou outro). A seu critério próprio, cada estudante poderá preencher o painel com um título lido recentemente, assinalando sua opinião sobre ele. Cada vez que o painel for preenchido, deve ser providenciada sua substituição. Os professores podem estimular os estudantes a consultar o painel, utilizando as indicações ali registradas como um dos critérios de escolha dos títulos.
  7. A cada semestre letivo, a escola pode realizar um evento de apresentação dos resultados do projeto. No primeiro semestre, sugerimos o “sarau literário”, em que cada turma escolhe, democraticamente, uma obra literária a ser apresentada às demais classes, de forma artística. No segundo semestre, pode ser a vez da “mostra de estudos”, em que cada classe será convidada a estudar um tema de curiosidade dos estudantes. Os professores podem estimular os estudantes a utilizarem textos informativos e expositivos para seu estudo e, no evento, serão apresentados os resultados e os conhecimentos adquiridos. Em ambos os eventos, a critério da equipe, os pais poderão ou não ser convidados para o evento.

Fase III

  1. A biblioteca adulta da escola deve contar, prioritariamente, com livros literários, que poderão ser solicitados, por empréstimo, por todos os professores e funcionários. À coordenação pedagógica caberá a dinamização da biblioteca e o estímulo a seu funcionamento efetivo.
  2. Sugere-se que todos os HTPC sejam iniciados por uma leitura de fruição e momento de “indicação cultural”. A cada encontro, um dos participantes será incumbido de realizar uma leitura em voz alta para os colegas e dar uma dica de passeio cultural.
  3. Além dos materiais de leitura espalhados em pontos estratégicos da escola, para leitura livre, pode ser criado, em um espaço aberto à população (por exemplo, no portão de entrada), um “ponto de leitura”. Neste local, todos os que por ali passarem poderão deixar um livro para doação e retirar, para sua leitura, um daqueles que ali estiverem.

Fase IV

Além das etapas já descritas, outras poderão surgir, sempre com o intuito de visibilizar o projeto, expandindo-o para além dos muros da escola. O sucesso desta jornada é visível quando percebemos que, por meio de práticas coletivas e significativas, a escola se transforma definitivamente em uma microssociedade de leitores e escritores.

Minibio

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista/SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FEUSP. É autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014), Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação.

Referências

COLELLO, S. A escola que (não) ensina a escrever. São Paulo: Summus, 2007.

CURTO, L. M. et al. Escrever e ler. v. 1 e 2. Porto Alegre: Penso, 2000.

FERREIRO, E. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo, Cortez, 1991.

FERREIRO, E Passado e presente dos verbos ler e escrever. São Paulo: Cortez, 2002.

LERNER, D. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário.Porto Alegre: Artmed, 2002. NOGUEIRA, N. Assumir a palavra no espaço público, como profissional. In: CARDOSO, B. et al.Ensinar: tarefa para profissionais. São Paulo: Record, 2007.

Crie sua conta e desbloqueie materiais exclusivos

Complete o cadastro para receber seu e-book
Já possui uma conta?Acessar conta
ACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINSACREALAGOASAMAPÁAMAZONASBAHIACEARÁDISTRITO FEDERALESPÍRITO SANTOGOIÁSMARANHÃOMATO GROSSOMATO GROSSO DO SULMINAS GERAISPARÁPARAÍBAPARANÁPERNAMBUCOPIAUÍRIO DE JANEIRORIO GRANDE DO NORTERIO GRANDE DO SULRONDÔNIARORAIMASANTA CATARINASÃO PAULOSERGIPETOCANTINS

Veja mais

Gestão escolar 4.0: Ferramentas digitais que otimizam o trabalho da secretaria 
24 de abril de 2026

Gestão escolar 4.0: Ferramentas digitais que otimizam o trabalho da secretaria 

A rotina da escola mudou muito nos últimos anos, e a secretaria sente isso todos os dias. Se antes grande...
Matemática e Inteligência Artificial: como algoritmos aprendem com dados através de média, mediana e moda
23 de abril de 2026

Matemática e Inteligência Artificial: como algoritmos aprendem com dados através de média, mediana e moda

A Inteligência Artificial (IA) já faz parte do nosso dia a dia, muitas vezes sem que a gente perceba. Quando...
Quando a escola se transforma em uma verdadeira comunidade de leitores
22 de abril de 2026

Quando a escola se transforma em uma verdadeira comunidade de leitores

[…] se a escola não alfabetiza para a vida e para o trabalho… para que e para quem alfabetiza? (Ferreiro,...
Políticas de ação afirmativa: refletindo sobre estratégias e instrumentos de transformação social
21 de abril de 2026

Políticas de ação afirmativa: refletindo sobre estratégias e instrumentos de transformação social

Em 2010, foi instituído o Estatuto da Igualdade Racial no Brasil, através da Lei nº 12.288, visando, além do combate...
Povos originários também é assunto de criança!
19 de abril de 2026

Povos originários também é assunto de criança!

Na sociedade em que vivemos, às vezes parece que estamos todos correndo o tempo inteiro: correndo contra o relógio, agarrando...