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Prática pedagógica na primeira infância: um guia para educadores da Educação Infantil

9 de setembro de 2026,
E-docente
Prática Pedagógica na Primeira Infância

Como a prática pedagógica na primeira infância contribui para o desenvolvimento infantil

É de manhã bem cedo. Uma mãe se aproxima trazendo no colo um bebê de quatro meses. Ela parece não querer dar o próximo passo em direção à porta, onde uma professora de sorriso largo e simpático a espera. Aproveita o momento para falar sobre o bebê: seus costumes, cuidados necessários, medicamentos… A professora a ouve com atenção e a tranquiliza, assegurando que o seu filho será bem cuidado.

Para o bebê, aquela será a primeira separação efetiva da mãe. A partir de agora, ele passará a conviver com outros bebês e adultos, construindo, pouco a pouco, novas referências na relação com eles e com o ambiente. Ele chora. A professora o acalenta, conversa com ele e, quando o bebê se acalma, leva-o para o berçário, oferece-lhe a naninha e brinca com ele. O bebê sorri.

Na Educação Infantil, tudo é educativo, desde a acolhida até a despedida. Porém, para que as práticas pedagógicas sejam coerentes com as aprendizagens e o desenvolvimento que se pretende favorecer, é preciso que haja intencionalidade educativa. Nesse contexto, a pratica pedagogica na primeira infancia desempenha papel essencial na promoção do desenvolvimento integral das crianças.

A intencionalidade educativa é o que leva o educador a fazer determinadas escolhas e não outras. Ela se relaciona ao Projeto Político-Pedagógico da escola e à concepção de infância, de educação e de aprendizagem que orienta o trabalho pedagógico. Aparece no planejamento diário, quando o educador considera o que propor, por que propor e quais estratégias utilizar para favorecer certas aprendizagens, articular os diferentes Campos de Experiências e garantir os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento.

Nesse contexto, o educador desempenha um papel fundamental. A ele cabe a missão de cuidar e educar de modo indissociável, organizar ambientes e experiências, observar as crianças, escutá-las e criar situações que lhes permitam crescer, desenvolver-se, experimentar, relacionar-se e participar ativamente do próprio processo de aprendizagem.

Vamos conversar sobre isso?

Leia mais: BNCC na Educação Infantil: O que muda na prática pedagógica?

O acolhimento na Educação Infantil

Voltemos à cena introdutória. Aquele bebê de quatro meses e sua mãe estão vivendo o período de acolhimento, também chamado de inserção ou adaptação. Esse período, assim como as demais práticas pedagógicas, precisa de intencionalidade e planejamento.

Nesse momento, os objetos que vêm de casa cumprem um papel importante: são pontes entre a casa e a escola. Cabe ao educador respeitá-los até que a própria criança deixe de precisar deles.

O choro precisa ser acolhido, e não apressado. Frases como “não chore” pedem à criança que esconda o que sente. O melhor é nomear o sentimento: “Você está com saudade da mamãe. Ela volta depois do lanche.”

A previsibilidade da rotina, a presença de um adulto de referência e a existência de uma sequência de acontecimentos que a criança consiga antecipar ajudam a construir a segurança abalada pela separação.

A despedida no fim do dia também é uma prática pedagógica. Contar à família como foi o dia, o que a criança comeu, do que brincou e o que a fez rir contribui para construir a confiança que sustentará o trabalho ao longo de todo o ano.

O cuidado como prática pedagógica

O modo como cuidamos da criança contribui para a construção de uma autoimagem positiva, para o desenvolvimento da autoestima e da confiança em si mesma.

Educá-la para a autonomia nos momentos de higiene, bem como cuidar de sua aparência antes do retorno para casa, tem uma importante dimensão de aprendizagem. É nesses momentos que ensinamos à criança como cuidar de sua primeira casa: o próprio corpo. A partir daí, sentindo-se bem consigo mesma, ela poderá construir relações mais positivas com tudo o que a rodeia.

O sono é uma necessidade humana importantíssima para o desenvolvimento das funções neurológicas. Na Educação Infantil, as necessidades de sono variam de acordo com a idade e com o perfil de cada criança. Em uma mesma sala, é possível que nem todas durmam no mesmo horário, mas a escola precisa oferecer um ambiente propício e respeitar os sinais de sono e as necessidades de descanso de cada uma. Além disso, é importante ensinar a criança a respeitar o descanso do colega: ela não precisa dormir em um horário específico, mas precisa respeitar quem está dormindo.

O momento da alimentação pode ser rico em aprendizagens: servir-se sozinha, compor o próprio prato, descobrir de quais alimentos gosta e reconhecer a quantidade que consegue consumir. Durante as refeições, é importante respeitar os sinais de fome e saciedade e favorecer a autonomia da criança. Para ajudá-la a experimentar os alimentos antes de rejeitá-los, o educador deve buscar outros percursos de aprendizagem, sem obrigá-la a comer de tudo.

Leia mais: A construção da autonomia na Educação Infantil

Prática pedagógica na primeira infância: experiências que acontecem todos os dias

A pratica pedagogica na primeira infancia se concretiza diariamente por meio das brincadeiras, das interações, das experiências e das diversas oportunidades de aprendizagem proporcionadas às crianças.

Brincar e experimentar

A brincadeira, a experimentação e a interação não são práticas acessórias na Educação Infantil. Constituem eixos estruturantes da rotina porque fazem parte da própria maneira como a criança conhece o mundo, estabelece relações e constrói aprendizagens.

Imagine que o planejamento do dia tenha como tema a metamorfose vivida pelas borboletas. Como você apresentaria isso para sua turma? Que atividades proporia?

Em uma turma, a atividade foi apresentada por meio de uma explicação sobre as fases do desenvolvimento da lagarta até sua metamorfose em borboleta e, ao final, propôs que pintassem uma atividade com desenhos prontos indicando esse processo.

Já em outra turma, fez-se uma opção diferente: começou a atividade com uma história e conversou com as crianças sobre o que sabiam a respeito das lagartas. O passo seguinte foi a observação. Com o uso de lupas, as crianças saíram ao jardim ou à horta para procurar lagartas. Depois de observadas, as lagartas foram deixadas em seu hábitat natural, e a turma passou a acompanhar diariamente o ciclo de vida daqueles pequenos insetos, registrando suas observações.

Uma terceira turma não contava com uma área verde na escola, mas a professora propôs a construção coletiva de um viveiro para acompanhar o desenvolvimento do animal. Usaram uma caixa organizadora revestida com tecido de tule fino, garantindo um ambiente telado, protegido e arejado. Dentro, colocaram um galho bem fixado que chegava até o tule, terra e um vaso com um pé de couve. Na sequência, enviaram um bilhete para as famílias, pedindo que quem encontrasse uma lagarta da couve a coletasse e a enviasse para a escola com folhas da planta em que havia sido encontrada.

Quando as lagartas chegaram, foram colocadas no viveiro junto com as folhas de couve que as alimentavam. A turma manteve o viveiro com folhas frescas até a formação dos casulos.

Atividades que proporcionam experimentação e construção geram envolvimento, concentração e bem-estar. Entretanto, vivenciá-las não elimina a necessidade de garantir momentos de brincadeira de livre escolha ao ar livre, bem como brincadeiras dirigidas e de faz de conta. É especialmente no faz de conta que a criança assume diferentes papéis, recria situações vividas e experimenta formas de relação social.

Conversar em roda

Na Educação Infantil, as rodas de conversa não precisam ser longas, mas devem ser planejadas e considerar que a criança usa todo o corpo para se comunicar. São momentos ricos para ouvir o que as crianças pensam, sabem e sentem, além de exercitar a expressão oral, a escuta do outro, o respeito aos turnos de fala e a construção de argumentos.

Ler em voz alta e contar histórias

A leitura em voz alta e a contação de histórias devem ter espaço reservado na rotina diária e ser planejadas. A leitura em voz alta preserva o vínculo com o texto escrito e demonstra como se realiza a leitura. A criança aprende, pela observação, que ler um texto envolve fluidez, ritmo e ênfase. A contação de histórias se relaciona à oralidade e à dramaticidade. As duas práticas favorecem a formação literária da criança, desenvolvem o gosto pela leitura e aguçam a imaginação.

Ainda sobre livros, histórias e leitura: obras de literatura infantil e outros materiais de leitura que apresentem protagonismo negro são importantes para promover representatividade, autoestima e pertencimento. O mesmo vale para a presença de livros com personagens com síndrome de Down, no espectro autista ou com outras neurodivergências. Além de contribuírem para a construção da empatia e do senso de pertencimento, essas obras ajudam a transformar a diversidade em um valor coletivo, mostrando que as diferentes maneiras de ser, os ritmos e as habilidades de cada pessoa enriquecem a convivência escolar.

A organização do ambiente na Educação Infantil

A organização do ambiente deve favorecer o envolvimento, a exploração e o bem-estar, além de ampliar a capacidade de escolha da criança.

A criação de cantos na sala de aula ou no pátio para atividades de livre escolha, como o canto da leitura, o canto dos brinquedos, o canto das artes e o canto dos jogos matemáticos, assim como a organização de espaços para circuitos psicomotores, oferece ótimas oportunidades para isso. Vale lembrar que, nesses momentos, o educador precisa estar atento aos movimentos da criança, observar e registrar estratégias, comportamentos, decisões, reações aos estímulos, dificuldades e facilidades.

Ferre Laevers (1950-) oferece dois bons referenciais para essa observação: o bem-estar e o envolvimento. Uma criança em bem-estar sente-se à vontade, é espontânea, segura e confiante. Uma criança envolvida permanece concentrada, absorta no que faz e parece não perceber o tempo passar. Quando uma atividade, seja de livre escolha, seja dirigida, não produz sinais de envolvimento e bem-estar, é hora de observar o que está acontecendo e, se necessário, propor outra alternativa.

Diversidade e inclusão nas práticas pedagógicas

As atividades de livre escolha, como qualquer outra na Educação Infantil, devem contemplar todas as crianças, inclusive aquelas que têm alguma deficiência, algum transtorno do desenvolvimento ou altas habilidades/superdotação.

Na Educação Infantil, incluir é garantir que a mesma proposta chegue a cada criança por caminhos diferentes. O ponto de partida é sempre a observação do que a criança já consegue fazer, de seus interesses, possibilidades e formas de participar. Esse percurso pode ser construído em parceria com a família, com o profissional de apoio, quando houver, e com o Atendimento Educacional Especializado (AEE).

Vivências socioculturais e senso de pertencimento

A arte, a música, a dança e as brincadeiras podem trazer para a sala de aula as práticas socioculturais da comunidade em que a escola está inserida, garantindo que a criança se integre, participe e desenvolva o senso de pertencimento, valorizando sua origem e as peculiaridades de sua cultura.

Uma boa prática é convidar avós e outros familiares da comunidade escolar para ensinar cantigas e mostrar como brincavam. A presença da família enriquece a educação e proporciona noções de reconhecimento e pertencimento: as histórias deixam de ser narrativas distantes mostradas em uma tela para se transformarem no momento caloroso em que se compartilha uma memória.

A documentação pedagógica na Educação Infantil

Na Educação Infantil, diferentes momentos do cotidiano podem ser registrados: do planejamento à roda de conversa, passando pelas brincadeiras, pela experimentação, pela leitura e pelas vivências realizadas.

Para a criança, esse registro funciona como uma metalinguagem. Ao produzir um registro sobre a preparação de um bolo ou a construção de uma centopeia com sucata, ela retoma o percurso realizado, pensa sobre ele e avalia as estratégias utilizadas.

A documentação produzida por meio de múltiplas linguagens e suportes é fundamental para a criança e também constitui uma forma de comunicação com as famílias, que passam a ver as narrativas infantis e os relatos dos professores expostos nos murais e nos corredores da escola.

Leia mais: Documentação na Educação Infantil: o aprimoramento da reflexão pelo professor

Considerações finais

As vivências compartilhadas neste texto corroboram a perspectiva da BNCC de que o cuidar e o educar são dimensões indissociáveis na Educação Infantil.

Quando a escola abre suas portas para as histórias trazidas pelos avós e transforma as paredes dos corredores em documentação pedagógica viva, ela faz mais do que registrar processos: ela confere dignidade à infância e constrói uma verdadeira comunidade de aprendizagem, essencial para que a criança se sinta encorajada a explorar o mundo, expresse sua criatividade e construa sua autonomia.

A conversa proposta na introdução não se encerra nestas páginas. Ela continua amanhã cedo, na porta de cada sala de aula, em cada escolha intencional do professor e no direito fundamental de cada criança a brincar, conviver, explorar e participar ativamente do próprio processo de aprender. É nesse contexto que a pratica pedagogica na primeira infancia revela toda a sua importância para promover aprendizagens significativas, desenvolvimento integral e experiências que respeitam as necessidades e potencialidades de cada criança.

Minibio da autora

A trajetória de Inês Calixto na área educacional é marcada por uma sólida carreira que une a prática direta em sala de aula ao desenvolvimento estratégico de alunos e professores. Com graduação em Pedagogia pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduação em Direção Colegiada pela PUC/PR, ela apoia sua prática pedagógica nos pilares da Filosofia, da Teologia e do Aconselhamento, compreendendo o ecossistema educativo como um ambiente de conexão real e propósito. Além disso, consolidou sua presença no cenário literário como coautora dos livros Diário de uma Kombi e Eu IA. 

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 15 ago. 2026.

ITAÚ SOCIAL. As múltiplas formas de aprender das crianças. AVAMEC, 2026. Curso on-line, 10 horas. Disponível em: https://avamec.mec.gov.br/#/instituicao/fundacaoitau/curso/21829/visualizar. Acesso em: 15 ago. 2026.

LAEVERS, Ferre. Fundamentos da educação experiencial: bem-estar e envolvimento na Educação Infantil. Estudos em Avaliação Educacional, São Paulo, v. 25, n. 58, p. 152-185, 2014. DOI: 10.18222/eae255820142794. Disponível em: https://publicacoes.fcc.org.br/eae/article/view/2794. Acesso em: 15 ago. 2026.

RODRIGUES, Letícia Silva; LOPES, Camila Rodrigues; ASSUNÇÃO, Jusmarina Lobo de; CARDOSO, Denise Costa; SANTOS, Diego Cardoso dos. Práticas pedagógicas na Educação Infantil: reflexões a partir da mediação docente e das políticas educacionais. ARACÊ, São José dos Pinhais, v. 8, n. 2, e12112, 2026. DOI: 10.56238/arev8n2-043. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/12112. Acesso em: 15 ago. 2026.

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