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Povos originários também é assunto de criança!

19 de abril de 2026,
E-docente

Na sociedade em que vivemos, às vezes parece que estamos todos correndo o tempo inteiro: correndo contra o relógio, agarrando oportunidades, conquistando o mundo. Em meio a tanta correria, é fácil se perder do coletivo e focar apenas nas jornadas individuais. Pensamentos meritocráticos e individualistas podem parecer lógicos nesse sistema que cobra performances e resultados diários.

Desde que a criança nasce, adultos já pensam no seu futuro. A escola desenvolve habilidades, mas também prepara para vestibulares e o mercado de trabalho. Tudo se adapta ao sistema. Mas como ficam as pessoas? Como fica o planeta que habitamos?

Combater o individualismo, os desastres ambientais e promover uma convivência mais harmônica entre os seres vivos pode até parecer utópico e distante. Mas os povos originários, há séculos — e ainda hoje —, nos mostram outro jeito de ver o mundo: um olhar atento ao equilíbrio entre humanos, natureza e coletividade.

Esses povos, tão explorados, invisibilizados e atacados ao longo da história, guardam saberes ancestrais que são ferramentas potentes para serem trabalhadas nas salas dos Anos Iniciais, ajudando as crianças a construírem visões mais inclusivas e respeitosas desde cedo, por meio de brincadeiras e narrativas cotidianas.

É nesse contexto, por exemplo, que a Lei nº 11.645/2008 apresenta a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em toda a Educação Básica, promovendo o respeito à diversidade cultural (Brasil, 2008). Ao mesmo tempo, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece competências essenciais a serem desenvolvidas com os(as) estudantes na escola, como o reconhecimento de si e do outro em contextos plurais (Brasil, 2018).

Resgatar esses saberes ancestrais é uma tarefa fundamental para a Educação, pois precisamos nos responsabilizar pela formação de crianças que conheçam a história do Brasil não apenas pelos olhares e narrativas dos colonizadores, mas sim pela perspectiva ancestral dos povos originários, que já habitavam nosso território há milênios, preservando suas tradições, cultura, cosmologias e laços profundos com a terra e a natureza.

Logo, o objetivo deste artigo é apresentar sugestões práticas para trabalhar esses conteúdos de forma contextualizada e significativa nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

Quem são os povos originários? História, território e disputas na formação do Brasil

O termo povos originários designa grupos que possuem uma profunda relação de história e ocupação do território de determinada região ou país. Ser originário significa representar algumas das primeiras sociedades daquele local e, portanto, possuir identificação, tradições e um vasto legado cultural que revela muito sobre o passado e auxilia na compreensão do presente.

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No Brasil, os povos indígenas são originários, mas também temos outras comunidades tradicionais muito importantes para nossa história, como os quilombolas e as comunidades caiçaras, por exemplo. O que todos esses povos têm em comum é a luta por reconhecimento, pertencimento e preservação de seu povo, seu território e sua cultura — todos essenciais para compreendermos como o Brasil se formou e como nossa sociedade é tão diversa e plural.

Na tradição escolar brasileira, o ensino sobre os povos originários, especialmente indígenas, era marcado por visões reducionistas, estereotipadas e preconceituosas, que os retratavam como sociedades “atrasadas” ou “primitivas”, opostas ao suposto progresso civilizatório europeu.

Felizmente, nas últimas décadas, pesquisadores, cientistas e, sobretudo, as próprias vozes das aldeias indígenas — como defende o escritor Daniel Munduruku ao afirmar que os povos indígenas são plenamente contemporâneos, impulsionados pelo passado como fonte de liberdade no presente — transformaram essa narrativa.

Hoje, não cabe mais à escola repetir recortes acríticos: a colonização deixa de ser romantizada para que estudantes analisem os processos de ocupação forçada de territórios, imposições culturais, tentativas de escravização, genocídios de etnias e o apagamento sistemático de culturas. Espera-se, assim, que o ambiente escolar dê espaço a todas essas vozes e perspectivas na contação da história do Brasil.

A importância do resgate ancestral: lições dos povos originários para a escola e a vida

Uma das lições mais poderosas dos povos originários é a concepção de que a terra não nos pertence — somos nós que pertencemos à terra. Essa visão é essencial para trabalhar com as crianças, especialmente hoje, quando debatemos sustentabilidade e preservação ambiental para minimizar os danos causados pela ação humana ao planeta.

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Diferente da nossa perspectiva dominante, que trata recursos naturais como mercadorias, os povos originários sempre defenderam que temos uma compreensão equivocada do nosso papel no mundo: a natureza é o guia e o centro da existência, e nós somos parte dela, não seus donos.

Esta é a primeira lição vital que as crianças podem aprender: preservar o planeta não é só solidariedade ou gentileza individual, mas um compromisso coletivo com a terra que nos recebeu e nos dá o essencial para a vida e o equilíbrio ambiental.

A potência da troca de saberes entre gerações

Outra lição fundamental para a escola é a potência da troca de saberes entre gerações. Atualmente, muitas escolas estudam e incentivam práticas pedagógicas multietárias, visando a uma integração maior entre os(as) estudantes da instituição e a colaboração entre diferentes faixas etárias para a resolução de problemas complexos ou para a ação planejada em prol do coletivo escolar.

Em consonância com essas práticas, os povos originários já nos ensinam há muito tempo como a vida humana não funciona de forma fragmentada entre idades e gerações, mas sim que temos na convivência e colaboração ativa recursos essenciais para a formação dos jovens e a construção de legado dos mais velhos. A troca entre gerações nas aldeias indígenas, por exemplo, é feita com muito respeito pela sabedoria ancestral, introduzindo as crianças ao mundo com exemplos de adultos responsáveis, acolhedores e que se tornam referências de vida.

De certa forma, essa visão também é importante para pensarmos no papel dos(as) educadores(as) na escola, como indivíduos que não detêm todo o conhecimento do mundo, mas sim que são figuras de referência para apoiar o processo de aprendizagem dos pequenos, guiando o caminho, mas dando as ferramentas necessárias para que eles o trilhem de forma autônoma, corajosa e cheia de curiosidade.

A espiral de saberes e a herança cultural no cotidiano

Além disso, os povos originários nos oferecem a perspectiva da espiral de saberes, em que o conhecimento se constrói em ciclos, sendo revisitado e ganhando novos significados ao longo da vida escolar e cotidiana. Isso ajuda a escola a enxergar, ao invés de um currículo engessado e desconectado da realidade, uma possibilidade de construção contínua.

Essa mudança de olhar permite que a aprendizagem aconteça de maneira significativa e respeitosa, em que as crianças têm seu próprio tempo respeitado, vozes ouvidas e opiniões valorizadas. Nos Anos Iniciais, especialmente, quando os estudantes estão se descobrindo enquanto indivíduos, essa visão é crucial para se sentirem acolhidos no ambiente escolar e confortáveis para participar ativamente das propostas.

Ademais, os povos indígenas são essenciais para a preservação da cultura brasileira, cujas marcas estão vivas em nosso cotidiano. No vocabulário, muitas palavras de raízes indígenas como tatu, caju, tucano e tapioca fazem parte do nosso dia a dia.

Na alimentação, ingredientes como mandioca, guaraná, açaí e pratos como tacacá formam a base da culinária nacional. Brincadeiras, canções folclóricas e celebrações como o Boi-Bumbá carregam ritmos e danças ancestrais. Na cosmologia, narrativas originárias como as do Curupira e da Iara orientam nossa relação com a natureza.

Sua luta histórica contra o racismo e a conexão profunda com o território revelam a pluralidade brasileira. Assim, conhecer essas heranças auxilia as crianças dos Anos Iniciais a compreenderem a construção de uma identidade nacional diversa e profundamente enraizada com nossas conexões originárias.

Fomentando a transdisciplinaridade na escola: sugestões práticas

1. Matemática e a contagem do tempo: exercitando saberes originários

Esta proposta tem como objetivo ampliar a compreensão das crianças sobre o tempo, explorando a diferença entre o tempo cronológico, o tempo histórico e o tempo da natureza, com ênfase nos saberes dos povos originários. É interessante iniciar com um levantamento de conhecimentos prévios, investigando como as crianças compreendem a passagem do tempo e se reconhecem diferentes formas de medi-lo.

Na sequência, pode-se problematizar a ideia de que o tempo também se manifesta nos ciclos naturais (dia e noite, fases da lua, estações, chuvas), introduzindo, de forma respeitosa, que muitos povos indígenas organizam sua vida a partir dessa relação com a natureza.

Ao longo do percurso, podem ser propostas investigações mediadas, com apoio de histórias, registros ou outras fontes que apresentem diferentes formas de contagem do tempo em distintas culturas, evitando generalizações. Essa etapa pode ser articulada à observação do entorno, incentivando registros de mudanças no clima, no céu ou no crescimento de plantas, por meio de desenhos, tabelas ou diários coletivos, favorecendo a construção de noções matemáticas como sequência, regularidade e organização de dados.

Como síntese, pode-se propor a produção de diferentes formas de representar o tempo — como calendários, sequências ilustradas ou registros inspirados na natureza — seguida de momentos de socialização. Ao final, é importante retomar as aprendizagens, destacando que existem múltiplas formas de viver e organizar o tempo, valorizando os saberes originários como caminhos que convidam à desaceleração, à observação atenta e ao fortalecimento do respeito ao meio ambiente e à diversidade cultural.

2. Povos originários e o território: diversidade indígena e o mapa do Brasil

Como segunda proposta, podemos pensar em uma prática que busque enfrentar estereótipos ainda muito presentes sobre os povos indígenas, evidenciando sua diversidade cultural e territorial e mobilizando conhecimentos de Geografia, como estados, regiões e biomas brasileiros.

Um bom ponto de partida é explorar as ideias iniciais das crianças sobre o que significa ser indígena, abrindo espaço para que expressem suas percepções e, a partir delas, problematizando possíveis generalizações. Esse movimento permite introduzir a noção de que existem muitos povos indígenas no Brasil, com diferentes línguas, costumes e formas de organização da vida.

Ao longo do trabalho, é recomendável desenvolver pequenas investigações sobre povos localizados em diferentes regiões do país, articulando aspectos culturais com elementos do espaço geográfico, como clima, vegetação e território. Nesse processo, o acesso a fontes confiáveis é fundamental: o portal Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental (https://pib.socioambiental.org/pt/P%C3%A1gina_principal), constitui um recurso potente tanto para o educador quanto para os estudantes. As informações levantadas podem ser organizadas em registros coletivos — como quadros comparativos, fichas ou sínteses visuais — favorecendo a construção de relações entre os povos estudados e seus territórios.

Como produto final da sequência didática, a turma pode se dedicar à elaboração de um mapa temático do Brasil, no qual sejam indicados os povos pesquisados e algumas de suas características. Esse material contribui para tornar visível a diversidade indígena e reforçar a compreensão de que os modos de vida estão profundamente relacionados aos territórios.

Ao revisitar o percurso realizado, abre-se espaço para consolidar a ideia de que não existe um único “ser indígena”, mas múltiplas formas de existir, viver e se relacionar com o espaço, ampliando o olhar das crianças sobre a diversidade cultural brasileira.

3. Oralidade e memória: narrativas indígenas e o museu vivo da turma

Tomando a oralidade como eixo central, esta proposta convida as crianças a conhecer e valorizar narrativas de povos originários, reconhecendo que muitos saberes são transmitidos pela escuta, pela memória e pela palavra falada. O percurso pode começar com a apreciação de histórias indígenas, criando um ambiente de escuta atenta e sensível.

Nesse sentido, é interessante buscar referências em autores como Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Eliane Potiguara e Yaguarê Yamã, que produzem obras acessíveis ao público infantil e juvenil. Ao entrar em contato com essas narrativas, abre-se espaço para perceber como os elementos da natureza, os animais e os modos de viver aparecem de forma integrada, ampliando a compreensão sobre outras formas de interpretar o mundo.

À medida que as crianças se apropriam desse repertório, o trabalho pode se desdobrar em recontos, adaptações e criações coletivas, sempre apoiadas na oralidade. Em vez de priorizar o registro escrito, ganha destaque a construção da narrativa falada: como contar uma história? Que entonação usar? Como envolver quem escuta? Ensaios, rodas de partilha e experimentações com a voz ajudam a fortalecer a expressão oral, ao mesmo tempo em que desenvolvem a escuta e o respeito ao turno de fala.

Uma alternativa interessante para a finalização da proposta seria a construção de um “museu vivo” da turma: as crianças se organizam no espaço como se fossem estátuas e, à medida que visitantes se aproximam, “ganham vida” para narrar as histórias construídas coletivamente. A experiência transforma o corpo em suporte de memória e a palavra em ponte com o outro, criando uma vivência imersiva e significativa. Ao final, a atividade reforça a importância da oralidade como forma legítima de produção e transmissão de conhecimento, ao mesmo tempo em que convida a uma escuta mais atenta e respeitosa.

Conclusão: O futuro é ancestral

Para além de uma temática curricular, o trabalho com os povos originários nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é um compromisso com a formação de sujeitos mais sensíveis, críticos e respeitosos. Ao reconhecer e valorizar esses saberes, a escola contribui para romper estereótipos e ampliar horizontes de compreensão sobre o mundo e sobre a história. Afinal, como nos lembram tantas vozes indígenas, o futuro é ancestral — e a educação nos mostrará os melhores caminhos para alcançá-lo.


Minibio da autora

Beatriz Rodrigues Gomes Vidal é graduada em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como professora na Educação Básica, lecionando disciplinas da área de Humanidades no Ensino Médio. Possui experiência também como professora bilíngue, tendo lecionado inglês para diferentes faixas etárias e obtido certificação de Cambridge. Pesquisadora em Antropologia, realizou pesquisa etnográfica com foco em questões de gênero, desenvolvida em unidades de acolhimento público na cidade de Santos (SP). É também autora de materiais didáticos para o Ensino Fundamental, na área de Ciências Humanas. Seu percurso articula formação acadêmica, pesquisa e prática docente em contextos diversos, sempre voltados à reflexão crítica e ao desenvolvimento integral dos estudantes.


Referências 

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 24 abr. 2026.

BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 mar. 2008.

INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/P%C3%A1gina_principal. Acesso em: 31 mar. 2026.

VIANA, Camile; DUTRA, Mara Vanessa Fonseca; FRANCO, Nanci. Saberes, infâncias e educação indígenas: contribuições para uma prática pedagógica viva com crianças bem pequenas. Sér.-Estud., Campo Grande , v. 30, n. 68, p. 235-259, jan. 2025 . Disponível em http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2318-19822025000100235&lng=pt&nrm=iso. acessos em 22 mar. 2026. Epub 24-Abr-2025. https://doi.org/10.20435/serieestudos.v30i68.2031.

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