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Por uma ciência feminina: conhecendo sociólogas brasileiras e suas principais proposições

26 de fevereiro de 2026,
E-docente
sociólogas brasileiras

Por muitos anos na história da humanidade, a produção científica foi majoritariamente dominada por pessoas do gênero masculino. Os cientistas, autores e inventores ocuparam, historicamente, o posto de maiores detentores do saber. No entanto, o papel das sociólogas brasileiras e de intelectuais de todo o mundo tem sido fundamental para romper com essa lógica patriarcal que, por muito tempo, apagou o nome de mulheres que lutavam para ser reconhecidas e respeitadas em suas áreas de atuação.

A invisibilidade feminina na história da Sociologia

A Sociologia, ciência que estuda as relações humanas e a vida em sociedade, nasceu no continente europeu, no século XIX, impulsionada pelas transformações provocadas pelas Revoluções Industriais e Francesa. Os grandes sociólogos da época são estudados com profundidade e reconhecimento de seus trabalhos. No entanto, cabe a nós perguntarmos: se a Sociologia contribui para a compreensão das relações sociais, como podemos não estudar sociólogas mulheres?

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Temas tão caros a essa área, como os marcadores sociais da diferença e as desigualdades, perpassam relações de gênero e revelam que o silenciamento das mulheres na produção sociológica não é mero acaso ou desinteresse, mas, sim, um reflexo direto das hierarquias sociais que regem nosso mundo.

A importância das sociólogas brasileiras na transformação social

Por isso, revisitar a história da Sociologia implica reconhecer a importância de diversas intelectuais que, mesmo precisando enfrentar barreiras institucionais, sociais, políticas e simbólicas, produziram reflexões profundas sobre temas que nos ajudam a compreender melhor as relações humanas, como, por exemplo: trabalho, cuidado, família, raça, gênero, classe, entre outros aspectos.

No contexto brasileiro, essa valorização torna-se ainda mais essencial, uma vez que o país é historicamente marcado por profundas desigualdades sociais e de gênero, atravessadas por heranças coloniais, racistas e patriarcais. As sociólogas brasileiras desempenham um papel crucial na denúncia desse passado – que foi especialmente violento com mulheres negras e periféricas –, contribuindo para as discussões e proposições contemporâneas dos estudos de gênero para a transformação social e a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Virgínia Leone Bicudo e os estudos raciais no Brasil

Virgínia Leone Bicudo foi uma socióloga e psicanalista brasileira pioneira nos estudos sobre o racismo no país. Nos anos de 1941 a 1944, pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, desenvolveu sua tese de mestrado1 sobre as atitudes raciais de pretos e “mulatos” na cidade de São Paulo, visando compreender como o racismo opera nas relações cotidianas e como raça e classe social se articulam na experiência da população negra brasileira.

Métodos e inovação na pesquisa de Virgínia Bicudo

Inspirada pela Escola Sociológica de Chicago, Bicudo utilizou métodos qualitativos baseados na observação direta, entrevistas em profundidade e análise de documentos, priorizando o contato efetivo com os sujeitos pesquisados. O caráter inovador de sua pesquisa deriva, especialmente, da articulação das análises sociológicas com contribuições da Psicanálise, valorizando a dimensão psicoafetiva das relações raciais e a interação entre pesquisadora e interlocutores como elemento central da produção do conhecimento.

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Os resultados desse estudo foram essenciais para evidenciar a intersecção entre raça e classe na sociedade brasileira, contestando visões de que uma desigualdade se sobrepõe à outra, afirmando que elas se relacionam e atuam sobre os(as) sujeitos(as) de diferentes maneiras.

Mesmo dentro de classes sociais distintas, a pesquisadora demonstrou como as questões raciais permaneciam como um fator estruturante das desigualdades: entre negros das camadas populares, observou-se a introjeção (incorporação inconsciente de elementos externos, tornando-os parte do “eu”) de sentimentos de inferioridade e a rejeição entre pares; já entre os negros e “mulatos” das classes médias, a ascensão social não eliminava barreiras relacionadas à raça, mas intensificava a consciência de cor e as tensões raciais.

O legado para a compreensão do racismo estrutural

As proposições de Virgínia Leone Bicudo nos ajudam a compreender com maior profundidade as implicações do racismo na sociedade brasileira, herança de um passado escravista e colonial que segue influenciando a vida da população na produção de desigualdades e na perpetuação de violências, atravessando, também, as subjetividades e as dimensões psíquica e afetiva dos grupos envolvidos.

A trajetória da autora expressa toda a sua coragem e ousadia ao enfrentar uma academia majoritariamente branca e masculina, afirmando-se como mulher negra e pesquisadora crítica das relações raciais nas áreas da Sociologia e da Psicanálise.

Heleieth Saffioti: a mulher na sociedade de classes

Heleieth Iara Bongiovani Saffioti (1934-2010) foi uma socióloga marxista e militante feminista nascida no interior de São Paulo, com formação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e tese de livre-docência orientada por Florestan Fernandes, outro autor extremamente relevante no cenário da sociologia nacional.

Como uma das pioneiras nos estudos de gênero no Brasil, tem entre suas principais obras A mulher na sociedade de classes: mito e realidade, publicada em 1969, junto com livros como Profissionalização feminina (1969), Emprego doméstico e capitalismo (1978) e Gênero, patriarcado, violência (2004). Um dos objetos de análise fundamentais desses títulos é a divisão sexual do trabalho, ou seja, a forma como as tarefas produtivas e reprodutivas são socialmente distribuídas entre mulheres e homens.

Capitalismo e a exploração do trabalho feminino

Saffioti demonstrou que a inserção das mulheres na sociedade de classes capitalista não se dá de maneira igualitária aos homens, mas, pelo contrário: a autora evidenciou que a participação feminina no mercado de trabalho não leva automaticamente à equiparação de gênero, pois o sistema capitalista cria novas e profundas formas de exploração e desigualdade para as mulheres trabalhadoras. Essa percepção desmascarou a ideia de que o avanço econômico dentro desse sistema significaria automaticamente um avanço nas relações de gênero.

Ao analisar o desenvolvimento do capitalismo, Saffioti identificou que as desigualdades de gênero se expressam de múltiplas formas no mundo do trabalho, como a persistência da renda desigual entre homens e mulheres e a concentração feminina em cargos considerados secundários ou de menor prestígio social. Mesmo quando inseridas em atividades remuneradas, as mulheres trabalhadoras seguem sendo socialmente associadas à esfera doméstica e do cuidado, como se essas responsabilidades fossem naturais ao feminino.

Além disso, muitas mulheres continuam desempenhando, simultaneamente, o trabalho assalariado na esfera pública e as funções domésticas no âmbito privado, configurando as chamadas duplas jornadas de trabalho, nas quais se acumulam exigências produtivas e reprodutivas sem o devido reconhecimento social ou econômico.

A autora argumenta que o capitalismo não é o inventor do machismo, do patriarcado e da divisão sexual do trabalho, mas que se apropria dessas estruturas como mecanismos de exploração. Estudar suas análises é, portanto, fundamental para compreendermos, especialmente, a intersecção entre marcadores de gênero e classe social.

Elisabeth Souza-Lobo: trabalho, dominação e resistência

Da mesma forma que Saffioti explorou as relações entre gênero e classe, a socióloga Elisabeth Souza‑Lobo ampliou essa análise ao afirmar que a classe operária não pode ser compreendida como um bloco homogêneo, pois sua condição material e suas formas de exploração variam segundo marcadores sociais.

Nascida em 1943, em Porto Alegre, Elisabeth Souza‑Lobo formou‑se em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e, após doutorado na Universidade de Paris VIII, atuou como professora e pesquisadora em importantes programas de Ciências Sociais no Brasil. Entre suas principais obras, encontra-se, especialmente, o título A classe operária tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência (1991), uma coletânea de artigos que são referência para os estudos da sociologia do trabalho e gênero no país.

Nessa e em outras obras, a autora problematiza a tentativa de equivalência entre as categorias operário e operária, mostrando que as mulheres vivenciam experiências sociais distintas de exploração no sistema capitalista. Ela destaca a importância de olhar para as questões de linguagem e cultura na análise do trabalho, evidenciando como normas sociais e representações simbólicas reforçam desigualdades entre homens e mulheres tanto no chão de fábrica quanto nas lutas sindicais e políticas. Ao mesmo tempo, enfatiza o papel fundamental dos movimentos sociais, especialmente do movimento feminista, na contestação das desigualdades de gênero e na construção de formas de resistência coletiva.

A relevância das sociólogas brasileiras na educação

Estudar as sociólogas brasileiras com estudantes do Ensino Médio é uma estratégia potente para conscientizar os(as) adolescentes sobre a importância de escutar e valorizar vozes femininas na luta contra as desigualdades que nos cercam. Virgínia Bicudo, Heleieth Saffioti e Elisabeth Lobo são pesquisadoras e autoras fundamentais para as discussões sobre raça, gênero e classe na sociedade brasileira, que evidenciam a intersecção entre esses marcadores e seus efeitos práticos em nosso cotidiano.

Confira, a seguir, uma sugestão de como implementar essas sociólogas e suas discussões em sala de aula.


Plano de aula

Tema: Introdução às sociólogas brasileiras e às categorias de gênero, raça e classe no Ensino Médio

Tempo estimado: 50-60 minutos

Objetivos:  fazer um levantamento da compreensão dos(as) estudantes sobre os marcadores sociais da diferença (raça, classe e gênero); identificar esses marcadores nas poesias de slam do programa Manos e Minas; introduzir o trabalho das sociólogas brasileiras Virgínia Leone Bicudo, Heleieth Saffioti e Elisabeth Souza-Lobo, destacando suas trajetórias e contribuições.

Materiais necessários: Lousa e canetas/giz; computador ou projetor para exibição dos vídeos de poesias de slam; seleção de poesias de slam do programa Manos e Minas abordando gênero, raça e classe (Sugestões – Poesia 1: Poeta: Mel Duarte; Poesia 2 – Poeta: Thata Alves; Poesia 3: Eu sou preta, favelada e vou calando a boca de quem quer me ver calada…); caderno para registro de tabelas comparativas.

Passo a passo – atividades:

  1. Conversa coletiva sobre conceitos de gênero, raça e classe (10-12 minutos)
  • Retomar com os estudantes o que já compreendem sobre esses conceitos e como eles se relacionam.
  • Utilizar a lousa como apoio visual para registrar as contribuições dos/as estudantes.
  • Agrupar ideias de forma clara, destacando conexões e intersecções entre gênero, raça e classe.

2. Exibição das poesias de slam (10-12 minutos)

  • Assistir aos vídeos selecionados pelo(a) professor(a) com temas de gênero, raça e classe.
  • Repetir os vídeos, para que todos tenham tempo de captar trechos essenciais e apreciar as poesias.

3. Produção individual – tabela comparativa (10-12 minutos)

    • Orientar os(as) estudantes para, cada um, organizar, no caderno,  uma tabela comparativa entre as poesias, identificando elementos de gênero, raça e classe presentes em cada uma.
    • Estimular que registrem exemplos de desigualdades, discriminações, resistências e representações simbólicas.
    1. Socialização e debate coletivo (10-12 minutos)
    • Orientar os(as) estudantes para que, cada um, compartilhe suas observações.
    • Mediar a discussão, destacando semelhanças e diferenças nas interpretações.
    • Incentivar a reflexão sobre como arte e sociologia se complementam na análise e no combate às desigualdades sociais.
    1. Introdução teórica às sociólogas brasileiras (10-12 minutos)
    • Apresentar as trajetórias de vida e contextualizar as principais obras de Virgínia Leone Bicudo, Heleieth Saffioti e Elisabeth Souza-Lobo.
    • Reforçar para a turma a importância de estudar sociólogas mulheres, destacando como elas trouxeram novas perspectivas sobre raça, gênero, classe e exploração social para o contexto brasileiro.
    • Informar os(as) estudantes de que, nas próximas aulas, as obras dessas autoras serão estudadas com maior profundidade, por meio de leituras em grupo, debates coletivos e análise de textos, fortalecendo a compreensão crítica sobre a intersecção entre os marcadores sociais da diferença.

      Como nos disse Marie Curie, uma das grandes vozes femininas na produção científica:

      “Você não pode esperar construir um mundo melhor sem melhorar os indivíduos. Para esse fim, cada um de nós deve trabalhar para o seu próprio aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, compartilhar uma responsabilidade geral por toda a humanidade.”

      Ao estudar o trabalho de Virgínia Leone Bicudo, Heleieth Saffioti e Elisabeth Souza‑Lobo, reconhecemos a importância das mulheres nas Ciências Sociais e na produção de conhecimento. Suas pesquisas não apenas ampliam nossa compreensão sobre raça, gênero e classe, mas também nos inspiram a refletir e agir para transformar a realidade em busca de maior justiça social.

      Minibio

      Beatriz Rodrigues Gomes Vidal é graduada em Ciências Sociais pela USP. Atua como professora na Educação Básica e possui experiência como professora bilíngue. Pesquisadora em Antropologia com foco em gênero e autora de materiais didáticos para o Ensino Fundamental.

      Referências

      • BICUDO, Virgínia Leone. Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Escola Livre de Sociologia e Política, 1945.
      • SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2013.
      • SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado e violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
      • SOUZA‑LOBO, Elisabeth. A classe operária tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência. São Paulo: Brasiliense/Expressão Popular, 1991.
      1. Conforme nomenclatura da época, embora atualmente se considere dissertação de mestrado e tese de doutorado como trabalhos de conclusão de pesquisa dos respectivos níveis de formação. ↩︎

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