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Por que valorizar a língua materna?

18 de fevereiro de 2026,
E-docente
Lingua materna

A pergunta-título deste texto pode parecer meramente retórica, daquele tipo que de tão simples de ser respondida nem careceria de grandes elaborações. De todos os saberes que, futuramente, serão aperfeiçoados na educação formal, o ensino da língua materna é o primeiro com o qual todos entramos em contato desde muito cedo, ainda no ambiente familiar.

Já nos primeiros minutos de vida, somos bombardeados por sons, entonações, ritmos e palavras que, pouco a pouco, passam a organizar nossa percepção do mundo e a mediar nossas primeiras formas de interação social. E assim continuará sendo por toda a nossa existência, em uma contínua exposição a estímulos verbais de todo o tipo, todos os dias.

Se é tão óbvio que a língua materna é um elemento central no modo como nos relacionamos com o mundo à nossa volta, por que, então, seria necessário defender sua valorização no espaço escolar? O modo como essa pergunta aparentemente redundante é respondida pode conduzir as práticas pedagógicas por caminhos proveitosos e outros nem tanto. É sobre esse dilema e alguns outros que refletiremos mais adiante.

O ensino da língua materna e a leitura de mundo

Quando falamos de ensino de língua materna e valorização desse conhecimento, não estamos direcionando nossa atenção apenas para os primeiros anos da alfabetização, no início do Ensino Fundamental. Tal ensino, embora de modo mais lúdico, já está presente muito antes, desde o primeiro instante em que a criança entra em contato com o ambiente escolar.

Leia mais: Semântica e o ensino de língua portuguesa: para além da gramática tradicional

Na Educação Infantil, através da leitura de contos de fadas, das cantigas, parlendas e demais brincadeiras com a linguagem, a criança já começa a perceber, intuitivamente, que a mesma língua que é ferramenta de comunicação entre familiares, é responsável por organizar experiências, produzir sentidos e permitir diferentes formas de expressão em outros espaços.

Aos poucos, esse conhecimento vai sendo aprofundado, o processo de alfabetização e letramento vão sendo sistematizados, as regras de uso do código linguístico vão se tornando mais frequentes na rotina escolar, bem como o contato com diversas práticas comunicativas que serão exigidas de acordo com as etapas do desenvolvimento cognitivo.

Muitas vezes, no entanto, é nesse processo escolarizado de apresentação de um modelo de organização linguística que alguns estudantes acabam não se reconhecendo na própria língua que a escola ensina. Dizendo de outro modo, às vezes parece que quanto mais o aluno aprende sobre a língua materna mais ela parece se distanciar daquela língua viva com a qual ele estava familiarizado.

A distância entre a gramática normativa e a “língua viva”

Se, nos primeiros anos, a língua materna era por onde narrativas fantásticas, brincadeiras e descobertas eram apresentadas; com o passar dos anos, essa língua vira veículo para a prescrição de regras gramaticais obtusas e produção textual pouco interessante e, muitas vezes, desvinculada de situações comunicativas reais. Nas palavras de Irandé Antunes, é como se a língua materna fosse exercitada “ao contrário”:

Parece incrível, mas é na escola que as pessoas “exercitam” a linguagem ao contrário, ou seja, a linguagem que não diz nada. Nessa linguagem vazia, o que se diz é reduzido a uma sequência de frases desligadas uma das outras, sem qualquer perspectiva de ordem ou de progressão e sem responder a qualquer tipo particular de contexto social. (Antunes, 2003, p. 26)

Antes de chegar a esse ponto de ruptura e desinteresse discente, em que o estudante passa a não reconhecer mais a língua materna como sua, mas tão somente como artefato escolar, cabe então retomar alguns pontos importantes que devem ser considerados em qualquer prática que envolva o ensino da nossa língua.

Primeiramente, como antecipa o título dessa seção, a língua materna é por onde todos nós lemos o nosso mundo. O modo como essa língua é usada, com todas as particularidades de cada contexto social, cultural e histórico, influencia diretamente a forma como interpretamos a realidade e nos posicionamos diante dela, motivo pelo qual o repertório linguístico do aluno precisa sempre ser reconhecido e valorizado. Sob essa perspectiva, na mediação dos saberes escolares, é pertinente recordar o que Freire, há décadas, já indicou:

[…] pensar certo coloca ao professor ou, mais amplamente, à escola, o dever de não só respeitar os saberes com que os educandos, sobretudo os das classes populares, chegam a ela, mas também, discutir com os alunos a razão de ser de alguns desses saberes em relação com o ensino dos conteúdos (Freire, 2011).

Desse modo, valorizar a língua materna implicaria compreender o ensino de língua como uma prática situada, e não como mera transmissão de um conjunto de normas descontextualizadas. Antes até mesmo de pensarmos em uma valorização da língua materna em nível curricular ou, ainda mais, uma valorização geopolítica diante dos estrangeirismos cada vez mais populares, é necessário valorizar a língua materna no nível do sujeito.

Trata-se de reconhecer, antes de tudo, o falante como legítimo usuário da língua, portador de saberes linguísticos construídos em sua história de vida, seja qual for a idade desse falante. Sem esse reconhecimento, qualquer proposta de valorização corre o risco de se tornar apenas um discurso abstrato e até mesmo incoerente.

Variações linguísticas: diversidade e preconceito no ensino

Se estamos estabelecendo que valorizar a língua materna tem como ponto de partida a valorização das realizações dessa língua pelos nossos alunos, em seus diferentes contextos de uso, torna-se indispensável considerar a diversidade de formas pelas quais essa língua se manifesta.

Chegamos, então, a um outro ponto recorrente quando falamos de valorização da língua materna: a atenção que precisamos ter no trabalho com as variações linguísticas em sala de aula.

As variações linguísticas são as mudanças que uma língua pode apresentar, de acordo com as condições sociais, culturais, regionais e históricas em que é utilizada. Tais variações são inerentes a qualquer língua humana, o que ocorre, no entanto, é que, quando as realizações ocorrem nas camadas mais populares da sociedade, a tendência é sua desvalorização, acarretando a estigmatização do falante e, por consequência, o preconceito linguístico.

Diferentemente dos alunos oriundos das classes mais abastadas, cuja variedade de língua é também a variante de prestígio, e também a que é ensinada na escola, a maioria dos alunos das classes menos favorecidas além de ter que, praticamente, aprender uma nova língua, não têm sua variedade de língua valorizada e muito menos colocada como objeto de estudo na sala de aula (Bortoni Ricardo, 2015).

Salientamos que valorizar a variante linguística do aluno jamais pode ser entendido como limitar o discurso desse sujeito apenas ao familiar. Ao contrário, trata-se de ampliar suas possibilidades de atuação linguística, oferecendo condições para que ele possa transitar entre diferentes registros de acordo com as demandas comunicativas que cada situação impõe.

É pertinente, no entanto, chamar a atenção para esse aspecto, pois, invariavelmente, falar em valorização da língua materna pode levar o argumento para o lugar comum de valorizar uma língua abstrata, idealizada e desvinculada dos sujeitos que efetivamente a utilizam no cotidiano. Quando isso ocorre, corre-se o risco de esvaziar o próprio sentido da valorização.

Valorizar a língua materna, portanto, é valorizar a multiplicidade cultural dos falantes, seus repertórios e vivências, sem, com isso, deixar de assegurar o acesso aos usos linguísticos mais monitorados e socialmente valorizados.

Práticas pedagógicas para valorizar a língua em sala de aula

A valorização da língua materna em sala de aula pode ocorrer de muitas formas. Desde o reconhecimento cotidiano, conforme já foi dito, do repertório linguístico do aluno e de suas realizações discursivas até a mediação de propostas pedagógicas mais sistematizadas, em torno de algum projeto ou de aulas mais direcionadas para esse tema.

Dentre tantos possíveis caminhos, iremos sugerir algumas atividades que percorrem diferentes variações linguísticas em um movimento pedagógico que busca chamar a atenção do aluno para diferentes formas de realização da língua e sua respectiva valorização de acordo com cada contexto comunicativo.

Atividades sobre variações regionais (Diatópicas)

Sobre a variação regional (diatópica), geralmente a mais popular em livros didáticos, o docente pode começar sugerindo uma pesquisa para que a turma investigue nomes de alimentos que mudam de acordo com as regiões do país, como, aipim, tangerina, abóbora, e montar uma lista com os termos encontrados.

Essa pesquisa, a depender da etapa de desenvolvimento da turma, pode ser aprofundada a partir da criação de um mapa, no qual as variantes ficarão dispostas de acordo com as respectivas regiões geográficas do país. Um exemplo desse tipo de organização, pode ser observada em postagem do perfil Brasil em Mapas1, em que encontramos a organização das variantes usadas para se referir à palavra pão. Tal atividade, de modo bem simples, já começa a chamar a atenção do aluno para a riqueza linguística do seu país a partir de elementos bem corriqueiros.

Ainda na pesquisa sobre a variação regional, o docente pode expandir o campo de investigação e sugerir que os alunos verifiquem as diferenças entre a variante europeia e brasileira do português. Dessa vez, além das diferenças no léxico, também podem ser encontradas mudanças no nível gramatical da língua.

Complementando essa pesquisa, o vídeo Portugal vs Brasil – Diferenças de Gramática2 pode ser exibido, com posterior exposição pelos alunos do que mais chamou a atenção deles no que foi identificado de diferentes entre as variantes.

Interdisciplinaridade: História e Língua Portuguesa

Docentes de História e Língua portuguesa podem, inclusive, realizar uma atividade interdisciplinar que articule essas diferenças linguísticas aos processos históricos de colonização, independência e formação cultural do Brasil. A partir desse diálogo, os alunos podem compreender que as divergências entre a variante europeia e a brasileira não são desvios ou “erros”, mas resultados de trajetórias históricas, contatos linguísticos e contextos sociais distintos.

Para alunos do Ensino Médio, através do trabalho com a produção de textos argumentativos, pode ser bastante produtivo propor um debate sobre a própria forma de nomear nosso idioma. Afinal, é possível dizer que ainda falamos uma língua portuguesa ou já seria mais coerente falar em língua brasileira? Há diversos livros, vídeos, entrevistas e reportagens abordando o tema, como, por exemplo, a reportagem Em algumas décadas, idioma falado no Brasil se chamará brasileiro, diz linguista português3, do portal BBC News Brasil.

A música como ferramenta de análise linguística

Avançando nas pesquisas sobre a valorização da múltiplas realizações da nossa língua materna, o trabalho com letras de música pode ser também muito produtivo. A canção ABC do Sertão, de Luiz Gonzaga, trata justamente da variante regional no modo com as letras do alfabeto são pronunciadas, enquanto que a canção Língua, de Caetano Veloso, propõe uma reflexão metalinguística sobre a própria constituição do idioma.

A partir dessas músicas, o professor pode promover escutas orientadas, análise das letras e discussões coletivas, incentivando os alunos a identificar marcas de oralidade, regionalismos, escolhas lexicais, construções poéticas e efeitos de sentido produzidos pelas diferentes formas de uso da língua.

O uso de letras de músicas mais atuais igualmente devem ter espaço na sala de aula. O trabalho com as variantes usadas em letras de rap, samba e funk, com a devida mediação, pode contribuir significativamente para a discussão sobre variação social (diastrática) e preconceito linguístico, em um novo movimento de convocação do repertório cultural dos alunos.

Conclusão: Uma educação linguística plural e dinâmica

Em síntese, as sugestões aqui apresentadas evidenciam que a valorização da língua materna em sala de aula passa, necessariamente, pelo reconhecimento de sua diversidade e de seus usos concretos nas práticas sociais.

Seja através da pesquisa sobre expressões populares de cada região, pelo processo histórico de constituição da nossa língua, pelo debate sobre o peso político da forma como nomeamos um idioma ou na análise de letras de música de diferentes gêneros e períodos, o que se busca é promover uma educação linguística que ultrapasse a perspectiva puramente normativa, reconhecendo nossa língua materna como um fenômeno plural, complexo, dinâmico e, por conta disso tudo, de uma riqueza imensurável.

Minibio do autor

Diego Domingues detém uma trajetória acadêmica de excelência, com doutorado em Linguística Aplicada e graduação em Letras, ambos pela UFRJ, além de mestrado em Educação pela UERJ/FFP. No presente, exerce a docência no Departamento de Português e Literaturas de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II.

Referências

ANTUNES, Irandé. Aulas de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

BORTONI RICARDO, Stella Maris. Contribuições da sociolinguística educacional para o processo ensino e aprendizagem da linguagem. Disponível em: Link. Acesso em: 11 fev. 2026.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa. 35ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011. Edição do Kindle.

  1. Fonte: https://www.instagram.com/p/ChX-XAYpjOF/?img_index=1 Acesso em 11.02.2026 ↩︎
  2. Fonte: http://youtube.com/watch?v=EidEsFSl_So Acesso em 11.02.2026 ↩︎
  3. ↩︎

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