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O que a educação pública precisa ensinar na era da inteligência artificial? 

Este artigo faz parte da série especial inspirada no Saber Think for Gov e no livro “Educação Pública: uma questão para o mundo”, lançado pela Saber Educação em parceria com a Cogna Educação, o Instituto Somos e o Instituto Singularidades. 

A inteligência artificial está mudando a forma como trabalhamos, nos comunicamos e acessamos conhecimento. Em poucos segundos, diferentes ferramentas conseguem produzir textos, responder perguntas, organizar informações e apoiar tarefas que antes exigiam muito mais tempo. 

Diante dessa transformação, uma pergunta se torna inevitável: se as máquinas conseguem fornecer respostas, o que a escola deve ensinar? Essa foi uma das principais reflexões apresentadas por Charles Fadel durante o Saber Think for Gov. 

Um debate que deu origem a um livro sobre educação pública

As reflexões de Fadel integram o livro “Educação Pública: uma questão para o mundo”, lançado durante o evento. A publicação reúne oito ensaios sobre propósito da educação, ambientes de aprendizagem, resiliência climática, saúde mental docente, matemática para a paz, alfabetização, multiletramentos e formação humana.

O livro foi construído como um convite ao diálogo. Em vez de apresentar respostas fechadas, aproxima pesquisas, experiências e desafios concretos da educação pública brasileira para pensar como garantir aprendizagem, equidade e desenvolvimento humano em um mundo de mudanças aceleradas. 

Fadel abre a obra com o ensaio “O propósito da educação, a reinvenção da escola e a relação com a IA”. A pergunta que orienta o texto é decisiva: que tipo de pessoa a educação precisa formar quando sistemas inteligentes passam a mediar o acesso ao conhecimento e a resolução de problemas? 

Os desafios da educação na era da IA

Não estamos vivendo apenas uma revolução tecnológica

A humanidade já passou por transformações provocadas pela imprensa, pelo rádio, pela televisão, pelos computadores e pela internet. A inteligência artificial, porém, acrescenta uma mudança importante: tecnologias agora executam tarefas cognitivas antes associadas diretamente às pessoas. 

Leia mais: Matemática e Inteligência Artificial: como algoritmos aprendem com dados através de média, mediana e moda

Produção de conteúdo, análise de dados, organização de informação e resolução de determinados problemas podem ser compartilhadas com sistemas inteligentes. Isso coloca em revisão parte dos pressupostos que organizaram a educação ao longo do último século. 

O problema não é apenas a inteligência artificial 

Para Fadel, o risco não está somente na capacidade da tecnologia. Ele também está na possibilidade de as pessoas delegarem à IA etapas importantes do raciocínio, da investigação e da tomada de decisão. 

Quando uma ferramenta oferece uma resposta pronta, o estudante pode aceitá-la sem questionamento. Por isso, a escola não deve apenas ensinar a operar sistemas de IA, mas criar situações em que os alunos precisem analisar, comparar, argumentar e justificar suas escolhas. 

O pensamento crítico se torna ainda mais importante 

Durante décadas, a escola foi organizada para transmitir informações. Hoje, localizar uma informação é apenas o começo do processo de aprendizagem. 

O diferencial passa a ser avaliar a confiabilidade de uma resposta, reconhecer seus limites, relacioná-la a conhecimentos anteriores e utilizá-la de forma ética. Sem esse repertório, a abundância de respostas pode aumentar a dependência, em vez de ampliar a autonomia. 

Assista ao Saber Think for Gov 1ª Edição

Para acompanhar na íntegra os debates e reflexões sobre o futuro da educação pública e o impacto da inteligência artificial, assista ao evento completo no vídeo abaixo:

Conhecimento continua sendo fundamental 

A facilidade de acessar informações não elimina a necessidade de aprender. Sem conhecimento prévio, o estudante encontra mais dificuldade para identificar erros, perceber vieses e avaliar se uma resposta produzida por IA faz sentido. 

Leia mais: Quando quase não há tecnologia: como usar a inteligência artificial de forma simples, ética e acessível na escola pública

O conhecimento continua sendo a base sobre a qual habilidades, caráter e reflexão se desenvolvem. O que muda é a expectativa de que o estudante não apenas memorize, mas compreenda, mobilize e transfira o que aprendeu para novos contextos. 

Caminhos e transformações para a escola

Estamos ensinando muitas coisas e aprofundando pouco

Fadel também questiona a sobrecarga curricular. Com o passar do tempo, novos conteúdos são acrescentados, enquanto poucos temas deixam de ser ensinados. O resultado é um currículo extenso, fragmentado e difícil de aprofundar. 

A discussão não deve se limitar ao que precisa entrar no currículo. Também é necessário perguntar o que pode ser reorganizado ou retirado para abrir espaço a aprendizagens mais significativas. Essa revisão exige critérios claros e decisões educacionais corajosas. 

A escola precisa trabalhar com problemas reais 

Fadel defende experiências de aprendizagem conectadas a desafios concretos. Em vez de estudar disciplinas de forma completamente isolada, os estudantes podem mobilizar matemática, ciências, linguagem e tecnologia para pesquisar problemas e construir soluções. 

Questões ambientais, saúde, mobilidade, consumo e desenvolvimento tecnológico podem se tornar pontos de partida para projetos. Nesse modelo, o conteúdo não perde importância: passa a ter propósito e aplicação. 

Aprender sobre, com e por meio da IA 

Uma forma útil de organizar essa discussão é diferenciar três níveis. O primeiro é aprender sobre a IA, compreendendo seu funcionamento básico, suas possibilidades e seus limites. 

O segundo é aprender com a IA, utilizando-a como apoio sem entregar todo o processo cognitivo. O terceiro é aprender por meio da IA, quando sistemas personalizados apoiam trajetórias específicas, sempre combinados à intencionalidade pedagógica e à mediação do professor. 

A educação precisa formar estudantes adaptáveis 

Profissões e atividades continuarão sendo transformadas. Por isso, especializar-se cedo demais pode não ser suficiente para um futuro incerto. A formação precisa combinar fundamentos sólidos com versatilidade e aprendizagem contínua. 

Leia mais: Inteligência Artificial na Educação: Uma conversa sobre o tema na Live da Saber

Aprender, desaprender e reaprender passam a ser capacidades essenciais. O estudante precisa construir repertório amplo, experimentar projetos e desenvolver autonomia para fazer escolhas à medida que novos contextos surgem. 

O futuro da educação pública

O Brasil tem mais potencial do que imagina

Ao final do evento, Fadel ressaltou que o Brasil reúne desafios profundos e, ao mesmo tempo, experiências, profissionais e organizações de alto nível. Para ele, o país precisa reconhecer melhor suas capacidades. 

A diversidade brasileira torna impossível uma receita única, mas também abre espaço para inovação contextualizada. Soluções construídas em diferentes territórios podem transformar o Brasil em fonte de aprendizagem para outros sistemas educacionais. 

Mais importante do que ensinar respostas é ensinar perguntas 

A inteligência artificial não reduz a importância da educação. Ela torna o papel da escola mais complexo e necessário. Quanto mais respostas estiverem disponíveis, maior será a importância de formular boas perguntas. 

A educação pública precisa formar pessoas capazes de pensar, criar, colaborar, exercer julgamento e assumir responsabilidade por suas decisões. O objetivo não é competir com máquinas, mas utilizar a tecnologia sem perder direção, autonomia e propósito. 

Para continuar a reflexão 

Conheça o livro “Educação Pública: uma questão para o mundo” e aprofunde as reflexões sobre inteligência artificial, currículo, aprendizagem e formação humana apresentadas no Saber Think for Gov.

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