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O PPP da escola sob a perspectiva da triangulação didática

9 de março de 2026,
E-docente
O PPP da escola sob a perspectiva da triangulação didática

Um dos documentos mais importantes de toda escola, que reúne as metas a serem atingidas, os sonhos a serem alcançados e confere identidade à instituição é o Projeto Político-Pedagógico, mais conhecido entre os educadores por sua sigla, PPP.

Neste texto, falaremos sobre a construção do PPP sob a ótica da triangulação didática (Chevallard, 1991).

O que é o PPP e qual a sua importância na gestão escolar?

Ao refletir sobre o PPP, nem todo educador pensa sobre o que significa cada parte deste nome. Este documento é, antes de mais nada, um projeto, porque estabelece projeções, o futuro que se deseja alcançar, a partir do presente que se tem.

Assim, ele traz dados que indicam a realidade atual da escola, as marcas que identificam aquela instituição, e estabelece objetivos a serem atingidos, sonhos a serem alcançados coletivamente, indicando os caminhos para se fazer isso. Ou seja, como em todo projeto educativo (Vidal, 2014), há um objetivo coletivo a ser alcançado, a constatação da realidade presente e a indicação dos recursos que podem articular esses elementos.

O projeto estabelecido pelo PPP é político, na acepção mais ampla da palavra. Etimologicamente, política vem da politeia grega, que eram os procedimentos relativos à pólis (as famosas cidades-estados gregas). A politeia dizia respeito aos papéis dos cidadãos da Grécia Antiga na sociedade em que viviam. Analogamente, pode-se afirmar que o PPP é político porque estabelece também os papéis de cada membro daquela comunidade na escola, além de preparar os estudantes para uma atuação cidadã mais ampla na sociedade.

Além de ser um projeto político, o PPP é eminentemente pedagógico, já que estabelece premissas para os processos de ensino e de aprendizagem que se desenvolvem na instituição, além de organizar os princípios e práticas pedagógicas de modo geral.

Os três pilares fundamentais para escrever um PPP

Escrever um PPP significa, portanto:

  • Reconhecer a realidade da escola, identificá-la e traçar metas a serem atingidas a curto, médio e longo prazo.
  • Estabelecer os papéis de cada membro da comunidade escolar e propor vivências que permitam aos estudantes exercerem sua cidadania plena.
  • Organizar as atividades e os projetos educativos necessários para se garantir a aprendizagem de todos e de cada um.

Entenda o conceito de Triangulação Didática de Chevallard

A triangulação didática consiste em uma representação esquemática do sistema didático como um todo e foi proposta por Chevallard (1991). Para o autor francês, o sistema didático pode ser representado de forma triangular, já que há uma relação intrínseca entre os três vértices desse sistema: o saber (S), ou seja, o objeto de ensino; o professor (P) e seu conhecimento didático; e o aluno (A) e seus processos de aprendizagem.

Fonte: Chevallard, 1991, p. 23.

É válido ressaltar que a figura representa, de maneira simples e esquemática, uma relação que é, em sua essência, altamente complexa. Afinal, as relações presentes nesse triângulo são dialéticas e podem ser analisadas em mais de uma direção.

Os vértices do sistema: professor, aluno e saber

Para Chevallard (1991), o professor é o agente do sistema didático, aquele a quem cabe criar as situações didáticas, já que faz parte de seu ofício a intencionalidade de promover a aprendizagem do estudante. No outro vértice da triangulação didática está o aluno, aquele que, segundo o mesmo autor, é o sujeito cujo sistema de conhecimentos o professor pretende alterar, por meio da situação didática. Finalmente, o terceiro agente é o saber, que, no ato da transposição didática, passa da condição de “saber sabido” à de “saber ensinado”.

Leia mais: Manejo de Sala de Aula nos Anos Iniciais: orientações práticas para um ambiente produtivo

A abordagem desses vértices da triangulação didática não deve ser algo estanque. Afinal, a triangulação didática se explica não apenas pela definição dos três vértices, mas também pela relação que se estabelece entre eles. Entre o aluno e o saber, espera-se que haja, para o sucesso da situação didática, uma apropriação ativa e significativa, constituída a partir da interação com seus pares.

Já entre o professor e o saber está o mecanismo de transposição didática, que Lerner (2002, p. 51), pautada em Chevallard (1991), define como “[…] a passagem dos saberes cientificamente produzidos ou das práticas socialmente realizadas para os objetos ou práticas a ensinar”. Finalmente, o que articula esse espaço de relações entre o professor e o aluno é o contrato didático, definido como:

[…] um conjunto de comportamentos (específicos) do professor que são esperados pelos alunos e um conjunto de comportamentos do aluno que são esperados pelo professor, que regulam o funcionamento da aula e as relações professor-aluno-saber, definindo assim os papéis de cada um e a repartição das tarefas: quem pode fazer o quê? Quem deve fazer o quê? Quais são as finalidades e os objetivos? (Brousseau, 2011, p. 38)

Apesar de o autor relacionar o conceito de contrato didático aos três pontos da triangulação didática, sua própria natureza vincula o contrato didático, em particular, aos alunos e ao professor, já que sua existência regula e determina os papéis a serem exercidos por cada um e os comportamentos esperados deles nas situações didáticas.

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Como construir o PPP sob a ótica da triangulação didática

O PPP, por ser, em sua essência, um projeto que é político e é pedagógico, guarda estreita relação com a triangulação didática. Para se pensar nele sob essa ótica, é preciso seguir alguns princípios:

  • Identificar a realidade da escola a partir do ponto de vista do professor, do estudante e do objeto de ensino: Para isso, é preciso pensar em questões como: quem são nossos professores e estudantes? Quais são suas maiores possibilidades? E os maiores desafios? O que ensinamos aqui, e como ensinamos? As metas a serem traçadas também devem prever os três vértices da triangulação, prevendo o que se almeja para estudantes e professores e que objetos de ensino exigem maior investimento e dedicação.
  • Analisar as arestas da triangulação didática, de modo a contemplá-las no PPP: Que tipo de apropriação esperamos que o estudante faça, dos objetos de ensino? Como elegemos o que ensinar, e de que modo essa seleção impacta a formação integral de nossos estudantes? Quais são nossos contratos didáticos, e como eles contribuem para uma definição objetiva dos papéis sociais de cada membro da comunidade escolar? A formação em serviço, que papel ocupa em nossa escola?
  • Proporcionar situações de aprendizagem que privilegiem diferentes modos de ensinar e de aprender: Garantindo a professores e estudantes diferentes níveis de apropriação e relação com os objetos de ensino.

Conclusão: Eficiência e direito à aprendizagem

Pensar no PPP a partir da ótica da triangulação didática é um modo de otimizá-lo e garantir que diferentes eixos e frentes de trabalho sejam contemplados. Em uma instituição multifacetada como a escolar, esse pode ser um bom caminho para conferir maior objetividade e eficiência ao documento. Além disso, contemplar os diferentes vértices e arestas da triangulação didática é, também, um modo de se garantir o direito à aprendizagem a todos e a cada um.

Sobre a autora

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na Faculdade de Educação da USP (FEUSP), onde também obteve seu mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação. Com sólida formação em Letras e Pedagogia, possui vasta experiência como gestora na Educação Básica e no Ensino Superior. É autora de obras fundamentais sobre alfabetização e educação infantil, tendo atuado também como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo da Saber Educação.

Referências

BROUSSEAU, G. Introdução ao estudo das situações didáticas: conteúdos e métodos de ensino. Tradução: Camila Bogéa. São Paulo: Ática, 2011.

CHEVALLARD, Y. La transposición didáctica: del saber sabio al saber enseñado. Buenos Aires: Aique, 1991.

LERNER, D. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artmed, 2002.

LIBÂNEO, J. Didática. São Paulo: Cortez, 1992.

VIDAL, E. Projetos didáticos em salas de alfabetização. Curitiba: Appris, 2014.

VIDAL, E. A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil. Santos: Pluralidade Singular, 2023.

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