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O papel da coordenação pedagógica na escola pública

13 de agosto de 2026,
E-docente
O papel da coordenação pedagógica na escola pública

A equipe gestora de uma escola de Educação Básica, em geral, é – ou deveria ser – formada por diferentes atores, que cumprem papéis distintos. À direção escolar (composta por diretor(a), vice-diretor(a), assistente de direção ou cargos afins) cabe articular os aspectos administrativos e pedagógicos que regem a instituição. À orientação educacional (também chamada de atendimento educacional, orientação escolar ou nomes correlatos) cabe o cuidado com os estudantes, a observação de suas necessidades dentro e fora da escola – sobretudo aquelas que impactam seu processo de aprendizagem – e o contato permanente com as famílias. À coordenação pedagógica, por sua vez, cabe o cuidado específico com os processos de ensino e de aprendizagem, com atuação especial no acompanhamento e na formação continuada dos professores da instituição.

Nem sempre essa divisão acontece, seja por falta de pessoal, por excesso de demandas ou por desorganização do que cabe a cada um. Neste artigo, abordaremos especificamente o papel do(a) coordenador(a) pedagógico(a), elencando os principais desafios encontrados nessa função e algumas estratégias que podem potencializar esse trabalho, promovendo cada vez mais a aprendizagem dos estudantes.

O papel e a importância da coordenação pedagógica

Devido à sobrecarga de trabalho, às demandas diversas que aparecem em uma escola, à necessidade de dividir as tarefas de forma equilibrada entre a equipe gestora e aos diferentes níveis de urgência dos acontecimentos da rotina, o papel do(a) coordenador(a) pedagógico(a) se perde no dia a dia. Com isso, ele(a) acaba atuando como um(a) “bombeiro(a)”, cuja função é apagar os diversos focos de incêndio que possam surgir a qualquer momento.

É preciso lembrar, porém, que o papel principal da coordenação pedagógica é apoiar os processos de ensino e de aprendizagem na escola. Dentro desse escopo, situam-se incumbências essenciais, como:

  • A elaboração do plano de ensino da instituição;
  • A mediação do currículo escolar;
  • O acompanhamento, a criação e o replanejamento das estratégias didático-metodológicas usadas pelos professores;
  • A promoção da formação continuada;
  • A criação e o acompanhamento de projetos diversos;
  • O apoio ao planejamento de aulas e a observação de como elas ocorrem; entre outras tarefas afins.

Todo esse conjunto tem o objetivo de garantir a função primeira da instituição escolar: promover a aprendizagem dos estudantes com a maior qualidade possible.

Segundo Cruz e Pimentel (2022), o(a) coordenador(a) pedagógico(a) – também chamado(a) de supervisor(a) escolar ou pedagógico(a), pedagogo(a), professor(a) coordenador(a), analista pedagógico, orientador(a) pedagógico(a) ou coordenador(a) educacional – é o(a) responsável pela qualidade do ensino e da aprendizagem nas instituições e, por isso, cabe a ele(a) lidar com todos os afazeres e processos que contribuem para esse objetivo.

Sendo a aprendizagem a atividade-fim de toda escola, não é difícil perceber que o profissional responsável por garanti-la constitui, de certa forma, a espinha dorsal da instituição.

O(a) coordenador(a) pedagógico(a) é, antes de tudo, um(a) professor(a). Sua função principal na escola é estabelecer parceria com os colegas docentes, de modo que, juntos, possam obter melhores resultados na aprendizagem dos estudantes. Tal como os agrupamentos produtivos propostos em sala de aula promovem maior aprendizagem para os discentes, também o trabalho conjunto entre coordenadores e professores tende a resultar em melhores processos de ensino, garantindo maior potencial de aprendizagem para todos.

Leia mais: Manejo de Sala de Aula nos Anos Iniciais: orientações práticas para um ambiente produtivo 

Desafios da coordenação pedagógica no cotidiano escolar

Muitos desafios que atrapalham ou impedem esse profissional de cumprir sua função estão relacionados à falta de tempo disponível e à organização do trabalho da equipe gestora. Tarefas como acompanhar entrada e saída dos estudantes; apartar conflitos; preencher registros e plataformas; cuidar de aspectos físicos da construção da escola; elaborar e revisar documentos; entre outras, fazem com que a atenção destinada aos aspectos pedagógicos seja diluída no cotidiano.

Portanto, o primeiro passo para superar esse desafio é organizar e articular as funções que cabem a cada membro da equipe gestora. Além de definir as tarefas essenciais a serem cumpridas por cada membro da gestão, é preciso pensar nas urgências que costumam surgir na comunidade escolar, antecipando quem poderá cuidar melhor de cada uma delas. Evidentemente, essa divisão não pode ser rígida e, no calor dos acontecimentos, as pessoas podem – e devem – se apoiar mutuamente, eventualmente abrindo mão de suas funções momentaneamente para apoiar os colegas. Esses casos, porém, precisam constituir a exceção, e não a regra.

Na cultura individualista em que vivemos, mesmo ambientes como a escola ficam vinculados a ideias de produtividade, meritocracia e competitividade. Portanto, outro desafio da coordenação pedagógica está relacionado ao fato de os docentes enxergarem seu trabalho como solitário e resistirem a uma atuação conjunta – sobretudo quando proposta por alguém que ocupa uma posição hierarquicamente superior.

O(a) coordenador(a) pedagógico(a) precisa ter em mente que essa resistência não é pessoal, não está dirigida a ele(a) especificamente. Ao contrário, o que muitas vezes a sustenta é o temor do(a) professor(a) de que, ao evidenciar suas fragilidades, seja visto(a) como um(a) mau/má profissional.

Nesse contexto, o trabalho da coordenação precisa ser anterior: é preciso transformar a cultura da escola, de forma que os profissionais que ali atuam compreendam os benefícios da coletividade e do trabalho em parceria e, assim, percam o receio de mostrar suas vulnerabilidades, sabendo que, ao assumi-las, terão maiores possibilidades de superá-las.

Pode-se elencar um terceiro desafio relacionado à própria formação desse(a) coordenador(a): nos cursos de Pedagogia e nas licenciaturas, o foco, geralmente, recai sobre a docência propriamente dita, e não sobre o trabalho da equipe gestora. As faculdades têm como objetivo primordial a formação de professores, e não de coordenadores.

Ao assumir a coordenação pedagógica da escola, esse(a) profissional precisa transformar sua própria atuação, recriando sua rotina, remodelando estratégias e desenvolvendo novas aprendizagens. Nem todo(a) coordenador(a) pedagógico(a) possui experiência como formador(a) de professores, por exemplo, mas cabe a ele(a) essa incumbência. É preciso, então, desenvolver essa capacidade na própria prática, promovendo a formação continuada a partir das necessidades observadas.

Estratégias para o trabalho da coordenação pedagógica

Além dos encaminhamentos para superação dos desafios apresentados no tópico anterior, algumas estratégias podem potencializar o trabalho do(a) coordenador(a) pedagógico(a).

A primeira delas está no senso de coletividade: manter diálogos permanentes com a equipe docente, ouvir sugestões e pareceres, expor intencionalidades e planejar conjuntamente os atos de ensino fortalecem o grupo e otimizam a atuação do(a) coordenador(a), que passa a ser visto(a) como um(a) parceiro(a), favorecendo essa aceitação.

A segunda estratégia diz respeito ao aprofundamento dos vínculos de confiança. Quando o(a) professor(a) compreende que o(a) coordenador(a) está ali para ajudá-lo(a) – sem a intenção de julgar ou prejudicar –, a tendência é que ele(a) se mostre mais aberto(a) e passe, com o tempo, a solicitar seu apoio. Para isso, é preciso que a coordenação mantenha firme sua posição de parceria. Ao observar uma aula, por exemplo, deve dar devolutivas que respeitem o profissional docente, produzindo reflexões e não julgamentos.

Deve também oferecer leituras produtivas a partir das necessidades identificadas (para isso, o(a) próprio(a) coordenador(a) precisa ampliar seu repertório). Além disso, assim como se espera que os professores façam com as crianças, o(a) coordenador(a) deve levar em consideração os saberes prévios dos professores de sua equipe, partindo daquilo que já sabem e apostando em seus avanços – compreendendo eventuais erros no percurso como etapas do processo de construção do conhecimento.

Por fim, deve ser ético(a), respeitando cada profissional em seu momento de desenvolvimento e zelando pelo aprimoramento de todos.

Como terceira estratégia, podemos citar a proposição de diferentes modelos de formação continuada dentro da própria escola: situações de dupla conceitualização e/ou de tematização da prática são estratégias potentes para se manter um programa de formação continuada como um serviço eficiente e eficaz, no cotidiano da escola.

Leia mais: Formação de professores e tematização da prática: quando a escola se torna comunidade de aprendizagem 

Finalmente, é preciso que o(a) coordenador(a) pedagógico, ao respeitar os saberes profissionais dos professores, lance mão desses conhecimentos, a fim de promover avanços coletivos. Para isso, é recomendável criar situações nas quais os professores possam falar sobre sua atuação profissional, o que os coloca em outra condição de desenvolvimento (Cardoso, 2007): podem ser seminários internos, exposições dialogadas durante a reunião pedagógica ou apresentações de sequências e projetos didáticos uns para os outros, por exemplo.

Outra possibilidade para a valorização desses conhecimentos está no estabelecimento, pelo(a) coordenador(a) pedagógico(a), de uma rotina de “visitas” às aulas entre os próprios professores. Ao identificar a necessidade de aprimoramento de um dado conhecimento didático, por exemplo, o(a) coordenador(a) pode sugerir que cada professor(a) visite a aula de um colega que tenha algo a exemplificar sobre aquele ponto.

É importante que essas “visitas” sejam em formato de rodízio, ora recebendo colegas em sua sala, para mostrar como desenvolvem determinado assunto, ora visitando a sala de outros, para vislumbrar novas possibilidades. Assim, os professores aprendem em parceria, e todos avançam juntos.

Por onde começar o fortalecimento da coordenação pedagógica?

A depender da realidade da escola, algumas sugestões presentes neste texto podem parecer utópicas. Seguindo o conceito descrito pelo poeta uruguaio Eduardo Galeano (1994), segundo o qual a utopia é o que nos faz caminhar, é importante que o(a) professor(a), ao se ver como coordenador(a) pedagógico(a) de uma escola, persiga insistentemente os objetivos propostos para essa função, a despeito dos desafios e obstáculos que surgirão.

A tarefa não é fácil, mas é possível. Colocar a aprendizagem no centro do processo, buscar espaços na rotina para a formação continuada dos professores e colocar-se lado a lado com toda a equipe na busca pelo aprimoramento profissional constante são, certamente, bons passos para iniciar a caminhada e estruturar a coordenação pedagógica.

Minibio da autora

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e na pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista-SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e em Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FEUSP. É autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014), Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação.

Referências

CARDOSO, B. (org.). Ensinar: tarefa para profissionais. Rio de Janeiro: Record, 2007. 

CRUZ, J. W. F.; PIMENTEL, G. S. R. A identidade profissional da coordenação pedagógica: tensões e perspectivas. Revista Brasileira de Política e Administração da Educação [online]. 2022, vol.38, n.1. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2447-41932022000100112&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 5 ago. 2026. 

GALEANO, Eduardo. As palavras andantes. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 1994. 

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