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O papel da biblioteca de sala no processo de alfabetização

biblioteca de sala

Quando se pensa em alfabetização, os livros são um dos primeiros objetos culturais que vêm à mente. Afinal, uma das representações mais difundidas das habilidades de leitura e escrita é a cena de um sujeito com um livro em mãos, lendo e fazendo anotações.

Nesse sentido, a escola, instituição socialmente incumbida de alfabetizar os cidadãos, deve também ser um lugar onde os livros tenham espaço, utilidade e valorização. Esse processo de contato intenso com os livros precisa começar desde cedo, afinal, é um direito das crianças, seja qual for sua idade, conviver com as culturas do escrito.

É preciso também considerar o fato de que, em muitos contextos, a criança não terá outra oportunidade, além da escola, de conviver com os livros. Por isso, não basta que a instituição ofereça o acesso a eles: é importante que também promova momentos de discussão e partilha das leituras realizadas.

Considerando-se esse cenário, pode-se inferir a importância da biblioteca de sala para o processo de alfabetização. Em que pese a relevância da biblioteca escolar, é preciso que as crianças tenham acesso também, dentro de sua sala de aula, a um espaço voltado à organização, à exploração e ao manuseio de livros. Neste texto, serão exploradas possibilidades de trabalho com a biblioteca de sala nos contextos de alfabetização.

A importância da biblioteca de sala para o ciclo de alfabetização

Diferentes configurações e nomenclaturas do acervo

A biblioteca de sala, aqui chamada dessa forma, recebe diferentes nomenclaturas, a depender da região ou da escola onde se situe. Em algumas regiões, é chamada de biblioteca de sala ou biblioteca de classe. Em outras, é nomeada como acervo da sala, simbolizando o conjunto de livros à disposição dos estudantes de cada turma. Em muitas escolas, também, é denominada como cantinho da leitura, e tem até placa de identificação com esse nome.

Organização física e formatos de exposição

Assim como a nomenclatura, também a organização física da biblioteca de sala pode assumir diferentes formatos: em algumas turmas, os livros ficam em uma caixa, sobre a mesa do(a) professor(a) ou outro espaço acessível, e são retirados no momento da escolha, podendo ser vistos pelos estudantes também enquanto estão na própria caixa.

Leia mais: Como trabalhar a alfabetização emocional na educação infantil

Em outras, expositores próprios para livros são pendurados na parede, sejam eles tecidos com bolsos transparentes, para a exibição das capas dos livros, sejam uma estante onde os livros ficam dispostos. Há, ainda, os casos em que móveis tradicionais da sala de aula, como armários, mesas ou estantes são transformados em suportes para o acervo.

Propostas de uso: do empréstimo ao espaço de leitura

Já com relação à proposta de uso, em alguns casos, a biblioteca de sala possui apenas o acervo de livros e a leitura propriamente dita ocorre em casa – os estudantes acessam a biblioteca apenas para fazerem sua escolha e realizarem o empréstimo das obras.

Em outros casos, a biblioteca oferece, além do acervo, também um espaço para que a leitura ocorra na própria sala de aula: um cantinho com almofadas, tecidos para acomodar as crianças e os livros e até objetos decorativos costumam servir ao propósito de se criar um espaço agradável e convidativo à leitura.

Leia mais: O trabalho com nomes próprios na alfabetização inicial

Seja qual for a configuração, é importante lembrar que, como afirma Barbato (2022, p. 221):

Na sala de aula, como espaço referendado no que diz respeito à constância de práticas e intervenções, dedicar um espaço para chamar de biblioteca e constituí-lo como tal é um riquíssimo recurso para a utilização dos professores em diversas propostas e objetivos.

Entre essas propostas, estão as atividades relacionadas à alfabetização, como as apresentadas a seguir.

Possibilidades pedagógicas oferecidas para a alfabetização

Compreender a riqueza oferecida pela biblioteca de sala enquanto recurso para utilização dos professores é fundamental, especialmente no que concerne ao desenvolvimento das proficiências leitora e escritora. Parte desse desenvolvimento está atrelado à alfabetização inicial e a biblioteca também pode agregar oportunidades nesse sentido.

A biblioteca de sala contribui para a alfabetização, em primeiro lugar, pelo fato de exercer um papel fundamental na formação do leitor literário. Quando a criança tem a oportunidade de conviver com literatura de qualidade, ela é mobilizada pelos textos, sendo atravessada por sensações e sentimentos que vão constituindo-a enquanto leitora (Vidal, 2019).

Por essa razão, a biblioteca proporciona um sentido para a alfabetização: saber ler torna-se importante porque é a habilidade que permite o pleno acesso ao acervo (que, por estar sempre ao alcance da criança, dentro da sala de aula, torna-se objeto de admiração e desejo).

Para além da formação do leitor literário, porém, a biblioteca de sala permite alguns usos específicos, que contribuem para o processo de aquisição da leitura e da escrita.

O acervo como fonte de consulta e “palavras estáveis”

Uma contribuição potente para a alfabetização reside no fato de os livros serem considerados fontes seguras de informação. Assim, quando a criança tem contato com eles – seja por meio da leitura por si mesmo ou da leitura pelo(a) professor(a) –, ela passa a conhecer seus títulos, nomes de autores, ilustradores, editoras etc.

Leia mais: Como funciona o PNLD? Entenda o ciclo de escolha e distribuição dos livros didáticos

Essas palavras conhecidas podem passar à categoria de “palavras estáveis”, ou seja, aquelas cuja escrita já se conhece e podem ser usadas para consultas quando se deseja escrever algo que ainda não se sabe. Assim, uma criança que deseje escrever “ralo”, por exemplo, e não saiba por onde começar, pode lembrar que, na biblioteca, tem o livro do “ratinho” e do “rabanete”, e buscar esse material para verificar quais letras utilizar.

É muito comum que a lista de nomes da turma seja usada para este fim (de consulta às letras utilizadas para cada escrita), porém, quando há uma biblioteca de sala, esse acervo disponível para consulta aumenta exponencialmente. Para que este uso seja incorporado à rotina, no entanto, é essencial que o(a) professor(a) o incentive, questionando as crianças, sempre que identificar situações de reflexão sobre a escrita, sobre quais livros ela poderia usar como fonte de informação para escrever o que deseja.

Procedimentos cotidianos e sistema de escrita

Outro uso relevante que se pode fazer da biblioteca de sala nos contextos relacionados à alfabetização está nos procedimentos cotidianos de leitura e escrita. Escrever seu nome na lista de espera pelo empréstimo de um livro, ler o nome dos colegas que estão à sua frente nessa espera, registrar o título de uma obra em sua ficha pessoal, anotando os livros já lidos, por exemplo, são procedimentos cotidianos de uma biblioteca e que, para crianças em fase de alfabetização, constituem ótimas oportunidades de pensar sobre o sistema de escrita.

Propor que as crianças vivenciem esses desafios de leitura e escrita relacionados à biblioteca é uma forma de fazê-las avançarem em suas conceitualizações sobre a escrita.

Alfabetização e práticas de linguagem: o potencial do acervo em sala

Quando se propõe um trabalho com a alfabetização de forma contextualizada e reflexiva, o objeto de ensino se modifica: passa-se a ensinar não a língua em si, mas as práticas de linguagem. Propor vivências de leitura e escrita articuladas aos seus usos sociais torna-se fundamental. É justamente neste contexto que reside o potencial da biblioteca de sala para a alfabetização: ela permite que os estudantes sejam convidados a ler e escrever mesmo antes de saberem ler convencionalmente, e sempre com uma finalidade explícita, ou seja, há um propósito comunicativo que os mobiliza a ler e escrever dentro de suas possibilidades.

É evidente que a biblioteca escolar também pode cumprir essa função, bem como outras que lhe são características. Entretanto, a possibilidade de acompanhar de perto a leitura e a escrita de cada estudante, a proposição de desafios adequados às possibilidades de cada um, o contato mais estreito com o acervo são prerrogativas do(a) professor(a) de cada turma, que podem ser exercidas quando se tem uma biblioteca de sala.

Uma biblioteca escolar à qual as crianças vão de vez em quando (uma vez por semana, no melhor dos casos) não é o mesmo que uma biblioteca de sala à qual a educadora pode recorrer diariamente (várias vezes por dia, no melhor dos casos) para procurar informação, para selecionar um livro que será lido em voz alta, para organizar e comparar os livros, para organizar o empréstimo a domicílio… (Ferreiro, 2013, pp. 440-441)

Assim, se a biblioteca de sala é recomendável em qualquer turma, ela adquire ainda maior relevância naquelas dedicadas ao processo de alfabetização inicial. Não se trata, evidentemente, de abrir mão da formação do leitor literário em detrimento de uma visão utilitária da biblioteca, voltada apenas à reflexão sobre a escrita. Ao contrário, trata-se da oportunidade de aliar, ao seu importante papel de formação de leitores, as múltiplas oportunidades de vivência e contato com a linguagem escrita em sua função social, o que tende a ser uma contribuição relevante para o processo de aquisição da linguagem escrita.

Minibio da autora

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista/SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e em Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FEUSP. É autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014), Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação.

Referências

BARBATO, J. Biblioteca escolar e biblioteca de sala: qual papel está lhe sendo designado no trabalho didático? In: Revista Veras, São Paulo, v. 12 n. 2/julho-dezembro de 2022, p. 219-241.

FERREIRO, E. O ingresso na escrita e nas culturas do escrito: seleção de textos de pesquisa. Tradução de Rosana Malerba. São Paulo: Cortez, 2013.

VIDAL, E. Literatura e crianças: um encontro necessário. Santos: Pluralidade Singular, 2019.

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