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A Matemática por trás das Redes Sociais: curtidas, algoritmos e influência digital

7 de abril de 2026,
E-docente

Se perguntarmos a um estudante quantas horas ele passa nas redes sociais, dificilmente a resposta será “poucas”. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube fazem parte do cotidiano de milhões de jovens e influenciam a forma como eles se informam, se divertem e se relacionam.

Ao navegar por essas plataformas, os usuários encontram números o tempo todo: curtidas, visualizações, seguidores, comentários e compartilhamentos. À primeira vista, esses números parecem apenas contadores simples. No entanto, eles fazem parte de um sistema muito maior que envolve coleta de dados, análise de padrões e cálculos que ajudam a determinar quais conteúdos aparecem para cada pessoa. Em outras palavras, as redes sociais funcionam com muita matemática por trás.

Apesar disso, esse tema raramente aparece nas aulas de matemática. Muitas vezes a disciplina ainda é apresentada de forma distante da realidade dos estudantes, baseada em exercícios que pouco dialogam com o universo digital que faz parte do cotidiano deles. Trazer exemplos das redes sociais para a sala de aula pode ser uma maneira interessante de aproximar os alunos do conhecimento matemático. Quando percebem que conceitos como porcentagem, estatística e análise de dados estão presentes nas plataformas que utilizam todos os dias, a matemática passa a fazer mais sentido.

Curtidas, seguidores e a matemática do engajamento

Um exemplo dessa aproximação aparece no trabalho Conectando códigos: os números por trás das redes sociais (Fonseca, Wessner e Tenfen, 2025). Nesse projeto, estudantes do Ensino Fundamental investigaram como a matemática aparece no funcionamento das redes sociais. Durante as atividades, os alunos perceberam que muitos conceitos matemáticos estão presentes nas interações digitais. Curtidas, comentários, visualizações e compartilhamentos não são apenas números isolados: eles podem ser analisados para entender o alcance e a circulação de conteúdos.

Um dos indicadores mais utilizados nesse contexto é a taxa de engajamento, que mede o nível de interação que uma publicação recebe em relação ao número de seguidores de um perfil. O cálculo é relativamente simples: basta comparar o número de interações de uma postagem com o número total de seguidores da conta.

Imagine, por exemplo, um perfil com 1.000 seguidores. Se uma publicação recebeu 120 curtidas e 30 comentários, o total de interações é 150. A taxa de engajamento pode ser calculada dividindo o número de interações pelo número de seguidores e multiplicando o resultado por 100. Nesse caso, temos:

150 ÷ 1000 = 0,15
0,15 × 100 = 15%

Isso significa que 15% dos seguidores interagiram com aquela publicação. Ao analisar esse tipo de dado, os estudantes começam a levantar novas questões: uma conta com muitos seguidores necessariamente tem mais engajamento? Um vídeo viral sempre apresenta uma taxa de interação maior? Diferentes tipos de postagem influenciam os resultados? Esse tipo de análise mostra aos alunos que os números das redes sociais não são aleatórios: eles revelam padrões de comportamento e ajudam a compreender como os conteúdos circulam nas plataformas.

O que os alunos realmente usam nas redes sociais?

No mesmo projeto apresentado por Fonseca, Wessner e Tenfen (2025), uma das primeiras atividades realizadas em sala foi um levantamento simples: os estudantes responderam quais redes sociais utilizavam no dia a dia. A partir dessas respostas, os dados foram organizados em tabelas e transformados em porcentagens e gráficos, permitindo visualizar quantos alunos utilizavam cada plataforma e quais aplicativos eram mais populares entre os estudantes.

Essa atividade permitiu trabalhar conceitos matemáticos importantes, como cálculo de porcentagens, organização de dados em tabelas e interpretação de gráficos. Ao mesmo tempo, abriu espaço para discussões sobre hábitos digitais dos próprios alunos.

Os dados da turma também foram comparados com pesquisas mais amplas sobre o uso de redes sociais no Brasil. Um exemplo aparece no relatório Digital 2025 Brazil (Kemp, 2025), que apresenta o tempo médio mensal que os brasileiros passam em diferentes aplicativos de redes sociais.

Figura 1: Aplicativos de mídia social: tempo médio por usuário no Brasil[JP1] 

Fonte: (Kemp, 2025, p.96).

Os números mostram que plataformas como TikTok, WhatsApp, Instagram e YouTube concentram grande parte do tempo de uso dos usuários no país, chegando em alguns casos a mais de 20 horas por mês em um único aplicativo.

Quando esses dados são levados para a sala de aula, surgem reflexões interessantes: o uso da turma é parecido com o uso médio dos brasileiros? Algumas redes aparecem mais entre os estudantes do que nas pesquisas nacionais? Que fatores podem explicar essas diferenças? Esse tipo de comparação mostra que porcentagens, gráficos e médias não são apenas exercícios escolares, mas ferramentas para compreender comportamentos reais da sociedade.

Leia mais em: Inteligência emocional e a resolução de problemas matemáticos: como lidar com os erros

Tecnologias digitais e o ensino de matemática

Essa aproximação entre matemática e tecnologia também aparece em diversas pesquisas da área de Educação Matemática. Em um estudo que analisou trinta anos de publicações da revista BOLEMA, Borba, Almeida e Chiari (2015) investigaram como as tecnologias digitais têm sido utilizadas no ensino de matemática no Brasil.

Os autores mostram que ferramentas digitais ampliam as possibilidades de aprendizagem ao permitir novas formas de explorar conceitos matemáticos. Planilhas, softwares de visualização e ambientes digitais possibilitam que os estudantes manipulem dados, construam representações e testem ideias de maneira mais dinâmica.

No contexto das redes sociais, por exemplo, os alunos podem coletar dados de interações, organizar informações em tabelas, construir gráficos e interpretar padrões de comportamento. Esse tipo de atividade favorece ambientes de aprendizagem mais investigativos, nos quais os estudantes participam ativamente da construção do conhecimento.

Leia mais em: Articular práticas escolares e sociais: o desafio didático-pedagógico de formar cidadãos

Matemática, redes sociais e pensamento crítico

Discutir a matemática presente nas redes sociais também abre espaço para reflexões mais amplas sobre tecnologia e sociedade. Os conteúdos que aparecem no feed de cada usuário não surgem por acaso. Eles são organizados por algoritmos que analisam dados de comportamento e utilizam modelos matemáticos para decidir quais informações terão mais visibilidade.

Quando os estudantes compreendem que existe matemática por trás desses processos, passam a desenvolver um olhar mais crítico sobre o funcionamento das plataformas digitais. Nesse sentido, a matemática contribui não apenas para o desenvolvimento de habilidades técnicas, mas também para a formação de cidadãos capazes de interpretar dados, questionar resultados e compreender melhor o mundo digital em que vivem.

Um ponto de partida para a sala de aula

As discussões apresentadas mostram que as redes sociais podem ser um ponto de partida interessante para explorar conceitos matemáticos em sala de aula. Curtidas, comentários, visualizações e seguidores fazem parte do cotidiano dos estudantes e podem ser utilizados para trabalhar ideias como porcentagem, interpretação de dados e análise de informações.

A seguir, apresentamos uma proposta de atividade em que os estudantes irão analisar dados de interações em redes sociais para calcular e interpretar a taxa de engajamento de diferentes perfis ou publicações. A proposta busca mostrar como conceitos matemáticos podem ajudar a compreender fenômenos presentes na cultura digital.

Plano de Aula

Tema: Taxa de engajamento nas redes sociais
Duração: 1 tempo de aula (50–60 min)
Ano/Série: Ensino Fundamental Anos Finais – 7º ou 8º ano
Conteúdo matemático: Porcentagem; razão; interpretação e comparação de dados numéricos.

Objetivos gerais

Relacionar conceitos matemáticos a situações presentes no cotidiano digital dos estudantes, utilizando dados de redes sociais para desenvolver habilidades de análise e interpretação de informações.

Objetivos específicos

  • Calcular porcentagens a partir de dados reais ou simulados.
  • Interpretar relações entre número de seguidores e interações.
  • Comparar resultados utilizando raciocínio proporcional.
  • Discutir criticamente indicadores utilizados nas redes sociais.
  • Compreender como a matemática pode ajudar a interpretar dados presentes na cultura digital.

Habilidades da BNCC

EF07MA02 – Resolver e elaborar problemas que envolvam porcentagens, como os que lidam com acréscimos e decréscimos simples, utilizando estratégias pessoais, cálculo mental e calculadora, no contexto de educação financeira, entre outros.

EF07MA04 – Resolver e elaborar problemas que envolvam operações com números inteiros.

EF08MA04 – Resolver e elaborar problemas, envolvendo cálculo de porcentagens, incluindo o uso de tecnologias digitais.

Descrição da atividade: Detetives do engajamento

A atividade propõe que os estudantes investiguem como números presentes nas redes sociais podem ser analisados matematicamente. Para isso, o professor apresenta o conceito de taxa de engajamento, indicador frequentemente utilizado para avaliar o desempenho de publicações em plataformas digitais.

Inicialmente, discute-se com a turma o que significam curtidas, comentários e número de seguidores e como esses números podem indicar o alcance de uma publicação. Em seguida, os alunos são organizados em grupos de três ou quatro integrantes e recebem uma tabela com dados simulados de diferentes perfis em redes sociais.

Cada perfil apresenta informações sobre número de seguidores, curtidas e comentários de uma publicação recente. Os estudantes deverão calcular o total de interações e, em seguida, determinar a taxa de engajamento utilizando a relação:

taxa de engajamento = (interações ÷ número de seguidores) × 100

Para a investigação, os grupos analisam dados como os apresentados na tabela abaixo:

PerfilSeguidoresCurtidasComentários
Perfil A1.00012030
Perfil B2.50020040
Perfil C8009025
Perfil D5.00026070

Após realizar os cálculos, os estudantes comparam os resultados e discutem qual perfil apresenta maior engajamento proporcional. A partir dessa análise, ele devem ser incentivados a refletir sobre questões como:

  • Um perfil com muitos seguidores necessariamente possui maior engajamento?
  • O número de curtidas sozinho é suficiente para avaliar o desempenho de uma publicação?

A atividade busca mostrar que indicadores aparentemente simples presentes nas redes sociais podem ser interpretados com o auxílio de conceitos matemáticos.

Organização da aula

TempoEtapaDescrição
10 minIntroduçãoConversa inicial sobre redes sociais: curtidas, seguidores, comentários e vídeos virais. Levantamento das ideias dos estudantes sobre o que significa um post ter “muito engajamento”.
5 minFormação dos gruposOrganização da turma em grupos e apresentação da proposta investigativa. Explicação da fórmula de cálculo da taxa de engajamento.
20 minInvestigaçãoOs grupos analisam os dados dos perfis apresentados, realizam os cálculos de interações e determinam a taxa de engajamento de cada perfil.
15 minSocializaçãoApresentação das conclusões de cada grupo e comparação entre os resultados encontrados. Debate sobre o que os números indicam sobre o desempenho das publicações.
10 minSistematizaçãoRetomada dos conceitos matemáticos trabalhados (porcentagem, razão e interpretação de dados) e reflexão sobre como a matemática pode ajudar a compreender o funcionamento das redes sociais.

Referências

BORBA, M. C.; ALMEIDA, H. R. F. L.; CHIARI, A. S. S. Tecnologias digitais e a relação entre teoria e prática: uma análise da produção em trinta anos de BOLEMA. Bolema, Rio Claro, v. 29, n. 53, p. 1115–1140, 2015.

FONSECA, I. L.; WESSNER, V. I.; TENFEN, M. M. Conectando códigos: os números por trás das redes sociais. 27ª Feira Regional de Matemática, ago. 2025.

KEMP, S. Digital 2025: Brazil. DataReportal, p. 95, 11 fev. 2025. Disponível em: https://datareportal.com/reports/digital-2025-brazil. Acesso em: 7 abr. 2026.

Minibio do autor

Gabriel Domingues é professor de Matemática, com atuação na Educação Básica e experiência no desenvolvimento de projetos que articulam ensino, tecnologia e práticas lúdicas. Atualmente é pós-graduando em Ensino de Matemática pela UFF, com interesse em metodologias ativas, jogos e o uso de recursos digitais na aprendizagem matemática. Desenvolve trabalhos voltados à criação de propostas pedagógicas que aproximam a Matemática da experiência dos estudantes.


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