Round 6: O perigo da falta de filtro para as crianças | e-docente Round 6: O perigo da falta de filtro para as crianças | e-docente

Round 6: o perigo da falta de filtro

01 de dezembro, 2021 - Por e-docente

Compartilhar

Por mais absorto, ocupado ou isolado que alguém possa ter estado nos últimos meses, dificilmente passou incólume a série-fenômeno sul-coreana intitulada Squid Games (traduzida, em português, como Round 6).

Mesmo que ignorante a respeito dos méritos que a tornaram sucesso de público e crítica em todo o mundo, sendo a produção mais assistida da Netflix de todos os tempos (mais de 100 milhões de assinantes em 111 milhões de lares), aos menos as polêmicas devem ter chegado aos ouvidos do mais distraído leitor.

E não foram poucas, como a mais recente suspeita de plágio depois que alguns espectadores notaram semelhanças com o filme japonês As the Gods Will (2014). 

A grande discussão a respeito da série, entretanto, não é esta. O fato é que muitos dos seus primeiros espectadores, desde a estreia no dia 17 de setembro deste ano, não foram aqueles a quem é destinada.

Com classificação etária de 16 anos, a trama foi vista por muitas crianças e pré-adolescentes – com seus smartphones sempre à mão, constantes radares das últimas tendências e novidades do audiovisual – atraídos pelo roteiro baseado em clássicas brincadeiras infantis, a partir das quais os desafios mortais eram encarados pelos participantes.

As impactantes cenas, contudo, nada tinham de lúdico, contendo, sim, torturas psicológicas, violência explícita, suicídio, sexo e tráfico de órgãos, por exemplo.

Os efeitos da série para as crianças

A classificação indicativa não deixa dúvidas a respeito do público-alvo. O próprio diretor, Hwang Dong-hyuk, surpreendeu-se ao saber do grande quantitativo de menores cientes de detalhes da trama e afirmou nunca ter imaginado que ela fosse ser assistida por eles. Mas, o problema vai além da mera contemplação por parte desta plateia inesperada.

Uma escola na região da Valônia, Bélgica, emitiu um alerta aos pais depois que os professores perceberam estudantes imitando uma das brincadeiras de Round 6. Na ficção, os perdedores do primeiro jogo de estátua (que no Brasil foi traduzida como Batatinha Frita 1, 2,3) eram mortos, aos montes, a tiros. No colégio, as crianças que não conseguiam ficar paradas levavam socos como punição.

A tentativa de replicar o roteiro da série não se limitou à Bélgica ou a outros países da Europa. Casos semelhantes aconteceram também no Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, crianças foram vistas em desafios enquanto instituições de ensino de vários estados emitiram comunicados de alerta aos pais. 

Se a necessidade de reproduzir a dinâmica da série preocupa pais e professores, os impactos psicológicos não externalizados também devem ser motivo de atenção. O fato de as cenas mais violentas acontecerem em meio ao imaginário lúdico infantil traz a possibilidade de ressignificá-lo, visto que este cenário passa a ser associado a assassinato, sangue e corpos estirados ao chão. E isso não pode ser minimizado.  

De acordo com Jadilene Quintino de Sousa, psicóloga clínica – especializada em intervenções nas áreas de psicologia social, comunitária e psicopedagogia – as crianças, por viverem sua subjetividade por meio da fantasia, muitas vezes podem confundir a ficção com a realidade, devido ao conteúdo visto nas séries, filmes, etc. “A partir daí, passarem a desencadear ansiedade, pesadelos, medo de ficar sozinhas.

Precisamos lembrar que o cérebro das crianças funciona como uma esponja e as mesmas ainda não têm experiência e maturidade para julgar o mundo a partir de um raciocínio totalmente embasado em questões éticas e morais, o que vão aprendendo ao longo da educação familiar e escolar”, explica.

Com os adolescentes de primeira fase (11-14 anos), podem ocorrer outros impactos além dos que ecoam nas crianças. “Embora os mesmos já consigam diferenciar realidade de ficção, as questões ético-morais que regem a nossa relação em sociedade ainda estão em construção. Outra questão muito interessante é o fato de essas séries se tornarem febre entre eles. O fato, portanto, de alguns deles não terem assistido pode levar a uma pressão social da parte de seus colegas ao ponto de os mesmos se sentirem deslocados, sofrerem algum tipo de bullying ou exclusão”, analisa. 

De quem é a “culpa” e o que fazer?

Diante de tantas repercussões e impactos que podem atingir o psicológico e a interação social de crianças e adolescentes, é fato indiscutível a necessidade de pais e responsáveis estarem atentos quanto à classificação indicativa dos produtos consumidos pelos seus filhos. Jadilene informa que isso implica estar atento à condição de pessoa em desenvolvimento destes.

“Não oferecemos brinquedos com partes pequenas e destacáveis para bebês sabendo que correm o risco de se engasgarem e virem a morrer. Isso porque, até os dois anos de idade, eles têm como um dos dispositivos de reconhecimento do mundo ao redor os órgãos dos sentidos e, com um papel importante, a boca. Assim também ocorre com os conteúdos subjetivos.

Não expomos crianças a conteúdos violentos e sexuais por não terem maturidade em seu aparato psíquico para separarem o que é ficção da realidade. Então, fica compreendido que não supervisionar os filhos em relação ao que eles consomem, é assumir a responsabilidade dos impactos negativos decorrentes de tal ação”, ressalta.

Idealmente, portanto, seria interessante não pular etapas pelo fato de faltarem poucos anos para que a criança ou o adolescente atinja a idade permitida para aquele consumo, pois expor estas pessoas a cenas proibidas para sua faixa etária pode causar danos à sua saúde mental.

“Apesar disso, vemos os pais levarem crianças e adolescentes de 10 anos aos cinemas para assistirem filmes de classificação indicativa de 18 anos, como é o caso das sagas de heróis e anti-heróis etc. Nestes casos, mais uma vez, o diálogo se faz imprescindível. Antes da sessão, deve-se conversar sobre o conteúdo do filme, oferecer também a possibilidade de escolher outro conteúdo dos quais eles gostem e também limitar o acesso, em alguns casos”, sugere.

Monitorar em tempo integral é impossível, então como agir?

Outra realidade incontestável é a dificuldade de se monitorar, integralmente, tudo que os(as) filhos(as) assistem não só pelas plataformas de streaming, mas também pelas redes sociais, prioritariamente. Foi por lá, inclusive, que muitos conheceram a história de Round 6.

O que fazer nesses casos: proibir a utilização das redes, limitar ao uso de determinados canais, estabelecer tempo regrado de utilização ou fazer supervisão a cada clique?

Jadilene concorda que, dentro da realidade em que vivemos, a supervisão de cada clique torna-se uma utopia. Afinal, muitas vezes os cuidados com os(as) filhos(as) são mais terceirizados do que em outros tempos. E esta terceirização nem sempre é dada a outra pessoa, mas aos próprios dispositivos como TVs, celulares e computadores.

“Com isso, a prevenção pode e deve ser feita. Para isso, é importante construir uma relação de confiança com os(as) filhos(as) e não necessariamente a proibição. Caso a caso, pode-se limitar o tempo de exposição, bloqueio de conteúdos e o diálogo, pois o perigo está em todo o lugar deste universo chamado internet”, reafirma.

Outra iniciativa essencial é ter um canal de comunicação entre pais e filhos, com conversas sobre o que é saudável em cada faixa etária. “Dar opções de escolha para as crianças dentro daquilo que eles gostam é um bom começo, estabelecer limites do que podem ou não assistir é imprescindível”, opina. 

E quando a classificação indicativa permite, mas o conteúdo não é adequado?

Como tudo no universo online, “velocidade” é a palavra até quando o assunto é “polêmica”. Depois de Round 6, Um Conto Sombrio dos Grimm, que estreou no dia 8 de outubro, também na Netflix, virou o alvo da vez. Com classificação indicativa para crianças de 10 anos, a série animada apresenta cenas de decapitação de crianças, canibalismo – com mãe comendo o filho -, ida ao inferno, feitiçaria e violência, embora sem exibição de sangue.  

Recentemente, a jornalista Renata Alves, apresentadora do programa Hoje em Dia, da TV Record, postou um vídeo alertando para cenas que considerou extremamente contraindicadas para as crianças menores e pedindo providências quanto à reavaliação da classificação indicativa. Ela ecoou uma grande quantidade de áudios de várias mães, em todo o Brasil, relatando reações desagradáveis dos filhos como medo e perguntas inéditas sobre temas controversos e sensíveis. 

A série conta a história de João e Maria de uma forma diferente da mais conhecida pelas crianças (embora esta versão “infantilizada” não seja propriamente lúdica ou isenta de elementos de crueldade).  Em cada um dos dez episódios, são incorporados novos personagens de outras aventuras escritas pelos Irmãos Grimm. 

Como agir, então, quando uma história com essas características é destinada (ou permitida) aos menores pelos seus criadores? “Me parece mesmo uma questão de bom senso, sabe?! Se proibimos as crianças de assistirem cenas de violência com classificação indicativa maior do que 10 anos, o que impede de bloquear ou limitar o acesso a um conteúdo com violência inserida nesta classificação indicativa, tendo em vista os impactos negativos das histórias de terror sobre o imaginário dos mesmos?”, questiona a psicóloga Jadilene.

O importante é sempre dialogar com as crianças antes de qualquer bloqueio. “Assistir com eles, ou antes deles, um episódio e conversar sobre o que sentiram, por exemplo. A violência, seja sofrida ou vista pelas crianças e /ou adolescentes, os afetam por estarem em desenvolvimento e esse afetar pode ser em maior ou menor proporção prejudicial às suas emoções”, afirma Jadilene.

Como abordar estas temáticas nas escolas?

Se, no ambiente familiar o diálogo é fundamental, como deve ser a atuação das instituições de ensino? Como a escola deve agir ao perceber que estudantes tentam reproduzir cenas de violência (ainda que adaptadas) como as da série Round 6, por exemplo? Casos semelhantes já aconteceram em escolas de todo o mundo. Qual a melhor abordagem? Palestras, restrições, conversas, debates? 

De acordo com Jadilene, abrir um canal de discussão sobre o assunto em pauta pode ajudar as crianças e os adolescentes a perceberem os riscos que estão correndo ao consumir estes conteúdos. “Trazer pais ou responsáveis para esta discussão dentro do ambiente escolar também é muito relevante, seja por meio de palestras, cines-debates, oficinas etc.”, pontua.

Anair Mello, psicóloga, pedagoga, doutora em psicologia aplicada e chefe de Unidade do Projeto Escola Legal da Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco, lembra que nunca se pode deixar de ter em mente que estamos sempre em uma relação dual com nossos próximos. “Nossos pais nos trazem ao mundo, nos apresentam o universo, nomeiam os objetos, assim como colaboram na construção de uma identidade. A importância da escola, bem como da família e da comunidade é estar atenta. Criança não é batata-doce que a gente simplesmente espera ramar pelo chão.

Toda e qualquer criança ou adolescente precisa de figuras referenciais para que perceba o que está sendo ofertado no universo e desenvolva a capacidade crítica de consumir ou não aquilo que está ali, apresentado. Quando se fala em consumo, tudo o que está posto deve ter data, ano e determinação de por quem deve ser consumido.

Quando não está, há órgãos competentes para buscar esta resposta e garantir, sobretudo, este direito. Então, a escola, família e comunidade sociedade precisam estar atentas a isto”, afirma. Ela lembra, entretanto, que não é preciso esperar por leis para dizer o que os filhos devem ou não fazer.

“Precisamos, de uma forma acolhedora, cuidadosa e amorosa, ir apresentando o que deve ou não ser consumido. Primeiro a família, depois, em diálogo, a escola e a sociedade no seu entorno”, explica.

Sobre o perfil e o papel da escola nesta iniciativa, Anair acredita que a instituição de ensino precisa, primeiro, ser de acolhimento, sempre com o olhar atento às relações estabelecidas. “Quanto mais éticas forem as relações, mais saudável será a sociedade.

Não acredito que só restringir a criança ou adolescente o leve a não fazer isso ou aquilo, mas sim sempre conversar, dialogar, levando-o a ser protagonistas das ações, dos temas que circulam na sociedade. Se penso no desenvolvimento pleno, penso na possibilidade de esta criança ou adolescente estar em constante diálogo e ter possibilidade de abertura para ele.

Na escola, deve ser convidado para ser protagonista e ver condutas acertadas, que levam à construção de uma sociedade mais justa, digna, igualitária, que gera uma visão equânime do mundo. De forma que ele perceba que é também um sujeito responsável pelo resultado final das relações.

Vendo-se neste contexto como corresponsável da ação, acredito que teremos uma sociedade diferente daqui a alguns anos, se assim de fato fizermos”, conclui Anair.

A realidade dos contos de fada originais

Quem diz que gostaria de viver em um conto de fadas ou ter uma vida digna do mesmo, talvez não tenha refletido bem sobre o que fala. Vejamos, enfim, como a descrição de certos momentos de contos famosos (considerando-se as versões que permaneceram como tradição oral e escrita junto às crianças ao longo do século) se assemelham a manchetes de programas policiais: rainha pede que capataz mate e remova o coração de mocinha (Branca de Neve); pais abandonam os filhos na mata, sozinhos, por não conseguir alimentá-los (João e Maria); menina inocente é vítima de escravidão por parte da madrasta e de suas filhas (Cinderela), entre outros. 

No caso dos Irmãos Grimm, é interessante saber que a coleção de histórias infantis mais famosa do mundo não surgiu com o objetivo de entreter ou ensinar as crianças. Ela começou como um estudo acadêmico para adultos, quando Jacob e Wilhelm Grimm coletaram o folclore alemão nos anos 1800, uma antologia para estudiosos da cultura alemã.

No prefácio do seu livro de historinhas, contam que João e Maria, por exemplo, não eram uma peça de ficção. Tratava-se de uma história baseada na realidade, de tão comuns que eram os abandonos de crianças na floresta no século 19. Ainda nesta história, depois de serem deixadas na floresta escura pelos próprios pais, as crianças vagam até encontrar a casa de uma bruxa que pretende devorá-las. 

Até mesmo essa bruxa que comia crianças não era uma licença poética. Nos séculos e milênios anteriores, em tempos de fome extrema, muitos recorreram ao canibalismo como forma de sobrevivência.

Arqueólogos já encontraram ossos humanos com marcas de dentes, em padrões muito semelhantes aos achados em ossos de animais, além de vestígios de sangue humano tanto em panelas pré-históricas quanto em fezes fossilizadas de nossos ancestrais. Hábitos que ainda não estavam extintos na época da criação destes contos. 

Patrícia Monteiro de Santana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

Compartilhar


Deixe seu comentário