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Feminismo Negro no Brasil: Discursos de Gênero e Raça

21 de outubro, 2021 - Por e-docente

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A reflexão que desenvolvemos aqui problematiza a necessidade de políticas afirmativas para a mulher negra, a partir de compreensões do feminismo negro. Para tanto, retomamos os argumentos da escritora nigeriana, Chimamanda Ngozi Adichie, no discurso “Sejamos todos feministas”, apresentado no TedxEuston, no qual a autora aponta que o feminismo é estereotipado e, consequentemente, mal compreendido. É a partir dessa falha na compreensão que nos colocamos nesse debate, mais especificamente sob a perspectiva negra.

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Recuperar a reflexão de Adichie significa problematizar visões equivocadas sobre o feminismo pelo menos a partir de duas questões: a primeira classifica mulheres feministas como solitárias e infelizes e a segunda salienta que o feminismo não é um conceito africano. Pelo contrário, trata-se de uma problematização branca e ocidental. Identificar o feminismo no limite dessas questões dificulta situá-lo no campo em que de fato importa que é, em perspectiva negra, possibilitar a construção de uma sociedade voltada para o crescimento coletivo, por oportunidade mais justas e igualitárias entre os diferentes grupos sociais.

Por essa razão, vamos situar o debate com base em dados estatísticos sobre as desigualdades de gênero e raça. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE, essas assimetrias apontam que homens brancos chegam a receber praticamente mais que o dobro que mulheres negras exercendo a mesma função. Uma desigualdade que nem mesmo o acesso ao ensino superior conseguiu desarticular. É nesse contexto que políticas de ações afirmativas, que coloquem o feminismo negro no centro do debate político nacional, se fazem necessárias e urgentes. 

Fonte: IBGE

Desnaturalizando o olhar

No processo de se reconhecer feminista e africana, Chimamanda Adiche atenta para a importância de desnaturalizar o olhar, apontando que, quanto mais formos coletivamente expostos e tivermos mais homens em cargos de chefia, atuando como monitores na escola ou na universidade, mais seremos levados a pensar que esses são lugares naturalmente exclusivos ou mais apropriados para homens. A exposição a situações dessa natureza é tão corriqueira que elas passam a ser imperceptíveis do ponto de vista do não reconhecimento da situação de opressão a que as mulheres estão submetidas

Outro argumento fundamental no discurso de Adichie é a necessidade e a importância da raiva como articuladora de ações que contrariem a ordem posta, de modo a desestabilizar as engrenagens do sistema. Para a escritora, a preocupação das meninas não deve estar em se ocupar com o que os outros pensam delas, mas com aquilo que é de fato importante para a mulher e em um mundo mais justo para mulheres e homens, em que ambos sejam mais autênticos consigo, com seus sentimentos. De acordo com Adichie, a socialização exagera nas diferenças entre homens e mulheres, e isso é um problema a ser combatido em nossas práticas cotidianas. 

Como dissemos antes, estudos apontam que a mulher negra é o grupo social que ingressa mais precocemente no mercado de trabalho e, embora seja o que mais investe em escolarização, é o que tem o menor retorno da qualificação.

Também é o mais afetado pelo desemprego. A professora, Cida Bento, observa como a combinação de gênero e raça incide negativamente contra a mulher negra em todos os indicadores sociais (trabalho, saúde, educação). Nisso reside a necessidade de desnaturalizar o olhar, tendo a educação, problematizadora de discursos sexistas e racistas, potencial de um ato subversivo indispensável. 

A mulher negra: perspectiva crítica e não universal

O fato de ser mulher não iguala as demandas por direitos a todas as mulheres. A dimensão racial imprime outras necessidades para a mulher negra, como melhores condições de trabalho e não pelo direito de trabalhar, já que para ela o trabalho árduo, inclusive, não faltou. Nessa discussão, estão envolvidas questões de ordem anticapitalista, antirracista e antissexista também, como problematiza Davis em “Mulheres, raça e classe”.

No contexto brasileiro, o feminismo entra na pauta das mulheres negras a partir de 1985, segundo a professora Núbia Moreira. Trata-se, então, de um debate muito mais acadêmico, focado em estudar a produção de militantes negras como Lélia Gonzalez, ainda que potencialize e influencie o surgimento de muitos coletivos de mulheres negras, bem como de organizações como o próprio Geledés.

Como herdeira do feminismo negro, a professora Núbia Moreira lembra a luta das mulheres negras no interior do movimento negro já nos anos de 1930, embora ganhe corpo a partir de 1970 e se consolide, ainda que não sob o rótulo de feminismo negro, a parir da segunda metade dos anos 1980.

A socióloga retoma, a partir de Gilberto Freyre, a discussão sobre o corpo hipersexualizado da mulher negra na representação social brasileira: “branca para casar, mulata para fornicar e negra para trabalhar”, mostrando como há nisso uma estrutura cognitiva nacional.

Discursos sobre racismo e sexismo na cultura brasileira

Sobre as imagens da mulher negra na cultura nacional, Lélia Gonzalez também questiona o mito da democracia racial pensando nos efeitos do racismo articulado ao sexismo para as categorias de mulher: a mulata, a doméstica e também a mãe preta, todas representadas como profissões. Opondo-se à lógica da dominação que silencia pessoas negras, Gonzalez toma a palavra e fala desse corpo negro violentado a partir de diferentes perspectivas: “o lixo vai falar, e numa boa”

Em sua reflexão, Gonzalez opõe consciência e memória, trazendo à memória o que a consciência exclui, que é a história negra, mais especificamente, a história da mulher negra. Assim, a estudiosa explicita os engendramentos que fazem do carnaval, por exemplo, apenas um parêntese de exaltação mítica da mulata. Essa imagem juntamente com a da doméstica e da mãe preta derivam da mucama e vão ser compreendidas de um ou outro lugar, a partir do que for mais conveniente à branquitude. Para essa reflexão, retomamos o poema “mulata exportação”, de Elisa Lucinda.

“Mas que nega linda

E de olho verde ainda

Olho de veneno e açúcar!

Vem nega, vem ser minha desculpa

Vem que aqui dentro ainda te cabe

Vem ser meu álibi, minha bela conduta

Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!

(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)

Minha tonteira, minha história contundida

Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?

Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaokê;

Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer

Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.

Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore

Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.

Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”

Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.

Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado…”

E o delegado piscou.

Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena

com cela especial por ser esse branco intelectual…

Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio

nada disso se cura trepando com uma escura!”

Ó minha máxima lei, deixai de asneira

Não vai ser um branco mal resolvido

que vai libertar uma negra:

Esse branco ardido está fadado

porque não é com lábia de pseudo-oprimido

que vai aliviar seu passado.

Olha aqui meu senhor:

Eu me lembro da senzala

e tu te lembras da Casa-Grande

e vamos juntos escrever sinceramente outra história

Digo, repito e não minto:

Vamos passar essa verdade a limpo

porque não é dançando samba

que eu te redimo ou te acredito:

Vê se te afasta, não invista, não insista!

Meu nojo!

Meu engodo cultural!

Minha lavagem de lata!

Porque deixar de ser racista, meu amor,

não é comer uma mulata!

O texto de Elisa Lucinda é contundente, “passa a limpo” a face do racismo que, do ponto de vista cultural, tenta se camuflar e cai em outro efeito perverso que Gonzalez denunciou como articulação entre racismo e sexismo à brasileira, que é a hipersexualização da mulher negra. A mulata para fornicar não é elemento novo, muito menos ação redentora do opressor, de todos os malfeitos, até porque revela outros tantos dramas da negra exportação, a que serve para se relacionar no sigilo. 

Não há lugar para redenção, a não ser se “o lixo” puder seguir falando, ou melhor, denunciando as condições de objetificação, de subalternidade, que construíram outras clausuras para a mulher negra: o corpo bom para o sexo, a beleza carnavalizada na passarela do samba. A escritora Elisa Lucinda traz à memória o que a consciência branca tenta calar pela sexualização do seu corpo (Eu me lembro da senzala/ e tu te lembras da Casa-Grande/ e vamos juntos escrever sinceramente outra história).

Conclusão

Nesses discursos de gênero e raça, podemos perceber como o feminismo negro diz de outras demandas não levantadas pelo feminismo não negro, europeu, já que a mulher negra não entrou nesse debate exigindo o direito de trabalhar, por exemplo, porque o seu corpo foi naturalizado como o mais adequado a tarefas, inclusive pesadas. Ademais, o corpo da negra foi historicamente (dis)posto ao sexo, criando outros modos de representação para esta mulher, como imoral, lasciva.

A mudança de perspectiva nessa área, como vimos, passa por uma reeducação do olhar que, atento às ações cotidianas que favorecem imagens masculinas em detrimento das femininas, ou mesmo por ocultação, problematize, questione o senso comum, trazendo à memória os discursos que aqui foram retomados a partir de Adichie, Bento, Moreira, Gonzalez e Lucinda. Mas não só. 

Sobretudo no contexto brasileiro, precisam ser conhecidas muitas outras vozes, como Beatriz Nascimento, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Rosane Borges… nem sempre sob o rótulo de feministas, já que nem todas reclamam para si esse lugar, mas se reconhecem indissociáveis da luta no movimento de mulheres negras, do qual já faziam parte. Entretanto, se assim for situado, que se possibilite conhecer as especificidades das demandas da mulher negra em nossa sociedade, pois só poderemos agir na construção de outro mundo a partir das mudanças discursivas realizadas em nossas práticas escolares e cotidianas.

Jaciara Gomes 

Doutora em Linguística pela UFPE. Atua como professora adjunta na UPE/ Campus Garanhuns, nos cursos de Graduação em Letras e no Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS/CAPES). Realiza pesquisas sobre práticas de letramentos culturais, bem como sobre o ensino de leitura e de escrita. É líder do grupo de pesquisa em Letramentos e práticas discursivas e culturais (LEPDIC UPE/CNPq). Instagram: @lepdic_upe 

Para saber mais:

BENTO, Cida. A mulher negra no mercado de trabalho – https://www.geledes.org.br/cida-bento-a-mulher-negra-no-mercado-de-trabalho/?gclid=EAIaIQobChMItouV9aKO8wIVCA-RCh1uqQDMEAAYASAAEgL5RvD_BwE

GONZALES, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira – https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4584956/mod_resource/content/1/06%20-%20GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20%281%29.pdf

MOREIRA, Núbia. Retrato das desigualdades de gênero e raçahttps://ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/170306_apresentacao_retrato.pdf

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