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Dificuldade de concentração no mundo digital

25 de novembro, 2021 - Por e-docente

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Este artigo está desenvolvido de acordo com os seguintes eixos:

  • O mundo digital trouxe mais informações para os leitores;
  • há uma sensação constante de incompletude quanto à aquisição de informações;
  • textos se tornam cada vez mais fragmentados;
  • múltiplas tarefas acabam gerando menor concentração;
  • a aceleração do mundo vem sendo refletida em diversas mídias;
  • o mundo virtual acaba sendo a “casa” das pessoas, mais do que o mundo “real”.

Vocês já repararam nessa estratégia que diversos sites jornalísticos vêm adotando? Já pressupondo que o(a) leitor(a) não terá tempo ou interesse em ler todo o texto, o editor traz, no início das matérias, os principais tópicos de que trata. Sim, trazer resumos ou títulos sumarizando o texto não chega a ser uma novidade, mas, neste caso das matérias jornalísticas, acaba refletindo a aceleração e a “manchetização” cada vez maior de nossas vidas. 

Seguindo a linha das nossas últimas discussões, conversaremos sobre o impacto que as novas tecnologias vêm trazendo para as nossas vidas, sempre com foco na prática em sala de aula, destacando pontos teóricos sobre o assunto. 

Como está o nosso foco e atenção?

Hoje, quando você está com seu filho ou sua filha; seu companheiro, sua companheira; num encontro com seus pais, você consegue olhar em seus olhos? Consegue manter uma conversação longa, sem interrupções e sem mudança de foco? Quando sai para comer algo fora, consegue curtir o momento? Ou, em todas essas ocasiões, o maior foco de seus olhos é a tela fria, brilhante e robótica do celular? 

Os momentos “dentro da tela” já ocupam mais tempo do seu dia do que a vida fora da virtualidade? Acho importante termos essa reflexão que, apesar de dura, é a realidade de muitos de nós. Eu me incluo nela e estou longe de ser um juiz do que é certo ou errado. Compartilho com vocês, meus/minhas leitores(as), uma de minhas aflições do dia a dia, para mostrar que, muitas vezes, o que sentimos e achamos ser tão particular também permeia outras pessoas.

Leia também: Como avaliar e retomar a aprendizagem na volta às aulas?

Um ponto positivo é que, se você chegou até aqui, sem desistir e mantendo o foco, já estou feliz! Apesar de também estar imerso no mundo digital, você ainda consegue manter a concentração necessária para se aprofundar um pouco mais no texto. E nossos(as) estudantes, nativos digitais, será que conseguem?

Como fica a nossa concentração para a leitura?

Trago novamente o livro de Maryanne Wolf, O cérebro no mundo digital, de 2019 (eu adoro esse livro, por isso já foi citado em outros textos meus). Conversando com o leitor, ela inicia o trecho a seguir:

Basta você olhar para si próprio. Provavelmente, você já percebeu como a qualidade de atenção mudou à medida que lê mais e mais em telas e recursos digitais. Provavelmente, você sentiu uma sensação aflitiva de que alguma coisa sutil está faltando ao tentar mergulhar num livro de que já gostou. Como um membro fantasma, você se lembra de quem era enquanto leitor, mas não consegue convocar aquele “fantasma atento” com a mesma alegria que sentia outrora, ao ser transportado de um lugar fora de você para um espaço íntimo. (WOLF, 2019, p. 10)

Hoje, acredito que poucos de nós não se identificam com o que diz a autora. Para mim, e acho que para muitos de vocês, que têm o hábito de sempre ler, parece impossível encontrar tempo no meio de dias tão corridos para fazer uma leitura extensa e concentrada. Falta tempo e espaço isolado. Em meio a tantas informações, tantas opções multimidiáticas (celular, canais de streaming, etc), parece que a leitura recreativa fica como última prioridade. Ou estou falando besteira? Vamos conversar sobre isso nos comentários deste texto?

Agora, imaginemos o seguinte: se nossos cérebros vêm sofrendo essas mudanças, o que vem acontecendo com os mais jovens? Como professor, já ouvi, muitas e muitas vezes, ao entregar um texto com apenas uma página para os(as) estudantes lerem: “O que é isso, professor, um livro?”. Vejamos o que diz Wolf (2019, p.10):

As crianças têm ainda mais dificuldade, porque sua atenção é continuamente distraída e inundada por estímulos que não chegarão nunca a consolidar-se em seus repositórios de conhecimentos. Isso significa que o próprio fundamento de sua capacidade para derivar analogias e inferências durante a leitura será cada vez menos desenvolvido. Os jovens cérebros leitores estão mudando sem que a maioria das pessoas se incomode, muito embora mais e mais dos nossos jovens leiam apenas aquilo que lhes é exigido, e muitas vezes nem mesmo isso: “MC; NL” (muito comprido; não li). 

Além de falar sobre essa leitura obrigatória que os jovens vêm fazendo, o trecho traz um alerta, mostrando que cada vez mais difíceis serão as abstrações e analogias se os estímulos não se consolidam. Vocês concordam com isso? Não seria uma resistência nossa a admitir a plasticidade de nossos cérebros e sua capacidade de se adaptar às novas realidades que vivemos, de fragmentação e multimodalidade textual? Como crescemos com outro tipo de exigências de concentração e de suportes textuais, tendemos a acreditar que há perdas hoje em dia. Mas será? 

Tudo ao mesmo tempo! Ou seria “nada”?

Antigamente (nem tão antigamente assim), quando queríamos ler um livro, pegávamos um livro; para ler um jornal, manuseávamos suas folhas; para tirar uma foto, tínhamos de carregar para cima e para baixo uma máquina fotográfica; para ouvir uma música, o “avançadíssimo” walkman; para assistir a um filme após sua exibição no cinema, esperávamos ele ser exibido em algum canal aberto de televisão e, quando muito ansiosos, íamos até uma locadora para alugar o vídeo e ter o acesso pelo videocassete.

Ou seja, para cada uma dessas ações, precisávamos manusear um aparelho ou suporte específico. Hoje, todos esses recursos estão amontoados, reunidos, disponíveis na palma de nossas mãos. Ok, leitores(as), este parágrafo ficou bem nostálgico e eu acabei entregando a minha idade… Mas achei importante, mesmo assim, fazer essa reflexão.

Essa interseção de mídias em apenas um aparelho pode ser uma das causas para a fragmentação de nossa atenção. Até mesmo a facilidade de acesso a dados, livros, filmes, programas de TV pode fazer com que não nos empenhamos tanto em dar total atenção àquilo que nos é exposto em determinado momento. Não há mais perdas, já que podemos recuperar qualquer uma dessas mídias a qualquer tempo, em qualquer lugar. 

Outro exemplo é o que acontece nas nossas viagens de transporte público, em que nos perdíamos olhando a paisagem, ou apenas ouvindo uma música, ou lendo um livro. Geralmente, a atenção era única. No máximo, compartilhada entre dois focos.

Hoje, cada vez mais, estamos nos transformando em pessoas multimídia, pois, ao mesmo tempo em que ouvimos uma música lemos uma notícia (geralmente curta), ouvimos áudios acelerados no Whatsapp (ou no Telegram quando o Whatsapp cai), assistimos a vídeos em velocidade duplicada no YouTube, anotamos tarefas no bloco de notas, fazemos compras on-line, etc.

Tudo sem vírgula e misturado, mesmo, para que fique clara a sobreposição de nossas ações. Fazemos tudo, menos apreciar a paisagem, perceber as pessoas que nos rodeiam, as dificuldades por que passam. As flores que saem na primavera, a criança que brinca na rua, o cãozinho abandonado que pede atenção são ignorados por muitos de nós.

Com a nossa concentração, parece que a empatia também está se esvaindo. Seríamos, ainda, pessoas ou já teríamos nos tornado híbridos, quase ciborgues, frios, mas menos brilhantes que as telas dos celulares?

Então é o fim?

Leitores, longe de mim ser um profeta do apocalipse digital! Quem já leu outros textos meus sabe do meu entusiasmo com o uso das diversas tecnologias, antigas e novas, na educação. Há muita coisa boa! Os principais tópicos deste texto, por exemplo, eu comecei a rascunhar no bloco de notas do celular, enquanto estava na academia, entre um aparelho e outro (mais um exemplo da plasticidade cerebral para a divisão da concentração em múltiplas tarefas…).

Mas não podemos deixar de estar atentos aos perigos que a “digitalização de tudo” pode trazer às nossas vidas. Um vídeo de 2016, intitulado “Are you lost in the world like me? (Você está perdido no mundo como eu?”), retrata, de forma bastante pessimista, as consequências da prisão à tela:

https://www.youtube.com/watch?v=VASywEuqFd8.

O que fazer, então? É possível traçarmos estratégias que permitam frear as mudanças cerebrais e nos fazer retomar a concentração de outrora ou estamos em um caminho sem volta? Será que há respostas? 

Sei que posso parecer contraditório, já que sempre falo das vantagens do uso das diversas tecnologias na educação. Porém, dentro desse “diversas”, há as digitais e as analógicas. Após tantas reflexões neste texto, acho que fica clara a necessidade de, em alguns momentos, desacelerarmos e vivermos um pouco o bom e velho mundo desconectado, por mais difícil que isso possa parecer.

Se tratarmos da educação, vejo que esse momento após o término da pandemia será importantíssimo para nos guiarmos num melhor caminho, já que ficamos imersos em tanta virtualidade (sem nos esquecermos, é claro, daqueles que nem essa chance tiveram, os excluídos digitais). De todo modo, a meu ver, desenhar uma escola que caminhe entre o analógico e o digital é essencial a partir daqui. 

Leia também: Compreendendo as competências socioemocionais

Trago, então, alguns passos que podem ser dados para uma tentativa de sensibilização de nossos(as) estudantes, buscando a quebra da desumanização que vem acontecendo, como relatamos, e tentando resgatar a nossa capacidade de concentração:

Mas, olhem que interessante: que tal usar as tecnologias digitais para reunir trabalhos como esses e desenvolver apresentações que possam ser disponibilizadas on-line, para uma maior divulgação dessas ideias? Ou, ainda, colocar em contato diferentes escolas, com diferentes realidades, para a troca de tais experiências por meio de encontros virtuais? 

Tento mostrar, humildemente, que é, sim, possível uma integração entre o analógico e o digital; os olhos e a tela; o real e o virtual, tornando, assim, tudo real. Não precisamos viver num mundo dicotômico, caminhando apenas por este ou aquele caminho, já que não estamos em uma guerra entre máquinas e humanos, como em diversos filmes de ficção científica. Com ou sem as máquinas, concentremo-nos sempre naquilo que nós, humanos, temos de melhor: a nossa humanidade. Afinal, como diria Gilberto Gil, “cérebro eletrônico nenhum me dá socorro com seus botões de ferro e seus olhos de vidro”.

Referências

MOBY & The Void Pacific Choir. Are you lost in the world like me? Youtube, 18 out. 2016. Acesso em: 17 out. 2021. 

WOLF, Maryanne. O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era. Tradução de Rodolfo Ilari, Mayumi Ilari. São Paulo: Contexto, 2019. 256 p.

Tiago da Silva Ribeiro 

Professor do Magistério Superior no Instituto Nacional de Educação de Surdos nas disciplinas de Língua Portuguesa e Tecnologias da informação e comunicação. Tem experiência em turmas do Ensino Fundamental e Médio, além de já ter atuado na modalidade on-line como mediador, orientador de trabalhos finais de curso, desenhista educacional, professor-autor e coordenador de curso. Seu Doutorado em Letras é pela PUC-Rio e teve como tema de trabalho o Internetês. 

Recentemente, organizou, junto à professora Tania Chalhub, o livro “Reflexões de um mundo em pandemia: educação, comunicação e acessibilidade”, disponível gratuitamente no site da Editora Ayvu.

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