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Como despertar nas crianças o hábito da leitura?

08 de novembro, 2021 - Por e-docente

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Seu filho(a), sobrinho(a), neto(a) ou estudante pode não conhecer mais os grandes galãs ou mocinhas da TV, como acontecia entre os mais jovens há alguns anos. Certamente, entretanto, sabe, sem pestanejar, os nomes dos youtubers mais influentes e descolados. O que isso quer dizer, além das mudanças relativas aos meios de comunicação da atualidade?

Que se, no passado, as crianças e adolescentes esperavam por um determinado horário para assistir aos seus programas e ídolos preferidos, agora o acesso a eles é full time. Mais uma vez, o que isto significa? Mais tempo no celular e menos em outras atividades. A leitura estaria dentre elas?

Qual é o índice de leitura no Brasil?

De 2015 para 2019, segundo dados da 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró Livro em parceria com o Itaú Cultural, o país perdeu mais de 4,6 milhões de leitores. Um percentual que caiu de 56% para 52%. Já os brasileiros com mais de 5 anos que não leram sequer partes de algum livro somavam 48% da população (aproximadamente 93 milhões de brasileiros).

A pesquisa apurou, ainda, que se lê no Brasil, em média, cinco livros por ano, sendo aproximadamente 2,4 lidos apenas em parte e 2,5 inteiros. Dentre estas publicações, a Bíblia lidera o ranking.

A concorrência dos livros com o universo digital

Zoara Failla, coordenadora da pesquisa, creditou à internet e às redes sociais as razões para a queda no percentual de leitores, sobretudo entre as camadas com mais acesso ao universo online, dotadas de maior instrução e letramento digital. A argumentação é que as atividades mais realizadas entre os entrevistados (leitores ou não) no seu tempo livre são a utilização de internet, notadamente o WhatsApp. Em 2015, 47% dos entrevistados disseram usar a internet durante sua folga. Quatro anos depois, este percentual aumentou para 66%. O acréscimo do uso do WhatsApp, por sua vez, passou de 43% para 62%. As redes sociais seriam, então, um grande desafio para o estímulo da leitura?

Essa análise corresponde à opinião da jornalista e contadora de histórias, Verônica Pragana. “Quando a gente vê, passa meia hora rapidinho e a pessoa ali, procurando algo, querendo saber da vida de alguém, quem viajou ou não, assistindo a um vídeo interessante ou até fazendo pesquisa. O que acho mais sério é que estas redes sociais são pensadas justamente para que a gente passe o máximo de tempo possível nelas. São coisas colocadas à nossa disposição (por meio do nosso perfil) para que a gente possa, cada vez mais, estar naquela frequência para que o tempo de uso seja revertido em recursos para estas redes. Então, acho que é uma concorrência muito desleal”, afirma.

O professor e Doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Álisson da Hora, entretanto, enxerga a questão de outra forma. Para ele, a própria internet formou essa nova geração de leituras/leitores, construída a partir de uma interação muito sólida dentro do universo virtual como um todo, que as redes sociais trataram de incrementar. 

“De booktubers ou blogueiros que escreviam e continuam escrevendo acerca de suas impressões de leitura de maneira independente, até aqueles que passaram a fazer parceria com editoras que perceberam o nicho e passaram a explorá-lo. Isso foi algo que surgiu de maneira muito natural e é a forma virtual do velho ‘boca a boca’, que ganhou certo requinte com os chamados influenciadores, mesmo os independentes, e têm uma dimensão ainda maior com aqueles que passaram a trabalhar em parceria com livrarias ou editoras”, analisa Álisson.

O hábito da leitura aumentará durante e após a pandemia?

O estudo da Retratos da Leitura foi realizado antes da pandemia da Covid-19. Será, então, que o isolamento social provocou mudanças nestes dados? Quais os impactos do isolamento social nos índices de leitura do país?

De acordo com o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Marcos da Veiga Pereira, o resultado foi positivo. O aumento das vendas começou em julho de 2020 e continua em expansão. No primeiro trimestre deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado, houve acréscimo de 25% em exemplares vendidos (cerca de 12 milhões de livros contra 9,6 milhões no acumulado de janeiro a março de 2020). 

e-books, e-readers e as novas formas de ler

No momento em que as livrarias estavam com as portas fechadas, alternativas como e-commerce, e-book e audiolivro cresceram consideravelmente. A pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial, feita pela Nielsen para a Câmara Brasileira do Livro e para o Snel, mostrou que o número de conteúdos digitais vendidos em 2020 foi 81% maior do que em 2019 – o primeiro ano do levantamento: 8,7 milhões de e-books e audiolivros no ano passado contra 4,7 milhões em 2019. Os e-books representaram 92% das unidades vendidas e os audiobooks 8%. 

Para o professor Álisson, os audiobooks estimulam, e muito, a leitura do livro físico ou digital. “É algo extremamente prático para alguém que está fazendo alguma atividade. Há, entretanto, esta nossa noção de afetividade com o exemplar físico. Por isso, em algum momento aquela pessoa poderá pensar em adquiri-lo”, acredita. Verônica lembra, inclusive, do exemplo do sucesso editorial em que se transformou a obra A Parte que Falta, de Shel Silverstein, depois que foi lida pela youtuber Julia Tolezano, do canal Jout Jout Prazer, em 2018. “Foi um sucesso com as vendas pipocadas em todo o país. Então, acho que depende muito também de onde a gente escuta ou vê estas leituras”, afirma. 

Quanto aos podcasts, da Hora já elenca uma quantidade maior de requisitos para que atuem como estímulo à leitura. “Depende da abordagem, do grau de conhecimento dos organizadores/apresentadores, não somente sobre os livros, mas se tiverem uma formação que dialogue direta ou indiretamente com leitura/literatura. Se houver, além disso, uma linguagem acessível e uma boa dinâmica, podem estimular, sim”, acredita.

Os jovens não gostam de ler: será que é verdade?

Na época da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2019, o resultado das entrevistas mostrou que a única faixa etária que ampliou o total de leitores foi a de crianças entre 5 e 10 anos de idade: de 67% para 71%, em quatro anos. Todas as demais leram menos em relação à pesquisa anterior. A que mais lê no país, entretanto, é a dos pré-adolescentes de 11 a 13 anos de idade (81%, em 2019). Desde o início da pandemia, essa tendência persiste. Ainda de acordo com o presidente do Snel, Marcos da Veiga, há um ressurgimento forte da publicação e do interesse por livros juvenis, destinados a essa faixa etária.

Verônica Pragana corrobora o argumento de Marcos e acredita que há, realmente, uma boa oferta de livros com qualidade, bem ilustrados. “Há muitos autores e trabalhos sendo lançados. Não apenas publicações nacionais, mas também internacionais que chegam ao nosso mercado. Há também a questão do incentivo à leitura por parte das escolas, dos mediadores de leitura, enfim. A família também tem papel importante nessa criação do hábito. Não só de estimular, mas de colocar livros à disposição e de serem exemplo”, afirma.

Álisson também salienta que determinadas faixas etárias continuam lendo muito, mas fora do formato “livro”. “Ainda há professoras e professores em geral, e os de Português/Literatura em específico, que imaginam que seus estudantes leem pouco, quando, na verdade, lêem bastante e diferentes gêneros, em diversas plataformas que não as suportadas pelo livro.

Talvez por isso alguns enxerguem essa concorrência. Até porque temos uma ideia mais ou menos precisa acerca de como o tempo é despendido nas redes sociais: com outros tipos de visualização de conteúdo, imagina-se que seja gasto com trivialidades. Contudo, fala-se muito de livros dentro de uma bolha muito grande: ainda há uma ideia muito fetichista acerca do hábito de leitura e a quantidade de livros na estante, do ponto de vista de demonstração de erudição, que às vezes afasta-se da fruição pura e simples, e isso chama muito a atenção dos jovens. Isso não aconteceria se não fossem as redes sociais amplificando a ideia”, analisa. 

O professor destaca, ainda, outra questão: o quanto as pessoas falam sobre livro e leitura neste tempo livre, que geralmente enxergamos como desperdiçado? “Há muito em jogo no que diz respeito a indicações, compartilhamentos de impressões de leitura, links com oportunidades de aquisição em promoções, lançamentos, edições mais apuradas, novas traduções, comentários sobre sorteios de exemplares. Dentro da pesquisa específica, se fizermos outra mais específica ainda, talvez enxerguemos como esse fenômeno funciona”, sugere.

Qual o papel da escola no incentivo à leitura?

Não era necessário o estudo da Retratos da Leitura para sabermos desta informação, mas ela também salienta o fato de que uma das maiores formas de estímulo à leitura é o incentivo de outras pessoas. Um a cada três entrevistados (34%) afirmou que começou a gostar de ler após ser influenciado por outra pessoa. Neste ranking de estimuladores, os(as) professores(as) aparecem em primeiro lugar (11%).  Os docentes são seguidos por mãe ou responsável do sexo feminino (8%) e pai ou responsável do sexo masculino/algum outro parente (4%). 

Constatado, portanto, via estudo sistematizado, algo que muitos já sabiam: o quanto o(a) professor(a) pode influenciar neste processo. Álisson da Hora costuma, inclusive, evitar o termo hábito ao se referir a esta prática. “Como diz Rildo Cosson e outros autores que lidam com Letramento Literário, reduz a leitura a algo como escovar os dentes ou comer berinjela no almoço e pressuporia a presença de um ‘vício’ de leitura, o que me parece um tanto estranho e contraproducente. A prática de leitura, como termo, abrange de maneira mais completa todo o processo de seleção e fruição das obras, bem como o compartilhamento das experiências dos leitores”, afirma.

Desta forma, ele acredita que o estímulo aumenta a partir do momento em que pais e professores(a) apresentam às crianças e aos adolescentes o maior número possível de obras, mas desde que em determinado momento deixem-nos entregues ao prazer da leitura pura e simples. “Dentro do ambiente escolar isso ainda é bastante controverso, muito embora existam professores(as) que apliquem as metodologias sugeridas pelo Letramento Literário e consigam fazer um processo de avaliação de leituras, abrindo espaço para que tais faixas etárias possam ler despreocupadamente e desenvolver de maneira mais efetiva essa prática, que vai se tornando cada vez mais permanente”, informa.

Estímulos menos ortodoxos

Não é apenas propriamente na sala de aula ou dentro de casa que uma criança ou adolescente pode aprender a gostar de ler. A contação de histórias pode ser um destes estímulos. Que o diga Verônica, que passou a ser contadora à frente do projeto Histórias Violetas, justamente devido à pandemia, a partir de maio de 2020. “Com todo mundo enclausurado, senti que precisava fazer algo que me desse ânimo porque estava entristecendo. Uma pessoa me sugeriu mandar uma história para seu filho, residente em São Paulo.

Achei legal porque cabia nas minhas possibilidades, não precisava ser em vídeo, fazer produção etc. Comecei a gravar, mandar para ele e, a partir daí, para os filhos dos amigos mais próximos. Comecei, então, a querer levar essas histórias para cada vez mais pessoas. Mando sempre aos domingos de manhã, cedinho, e recebo relatos de gente que as escutam tomando café com a família.

Comecei a desenvolver relações inclusive com quem nem conheço, mas que recebe, retorna, grava histórias e me manda, mesmo que nunca tenhamos nos visto. Este afeto foi me alimentando, me nutrindo, como as histórias nutrem a minha alma”, relata.

Sobre a contação como estímulo ao hábito de ler, ela acredita que é algo benéfico não apenas para crianças e adolescentes, mas também para adultos. “Gosto muito quando estou contando, narrando a história e dizendo que a encontrei em tal livro. Procuro trazer sempre essa referência”, conta, acrescentando que outra forma de estimular a leitura é ter livros em vários espaços da casa.

“Deixá-los em lugares acessíveis onde se possa vê-los, folheá-los, é uma coisa boba, mas faz toda a diferença. Se você tem um livro em uma estante alta, como a criança vai olhar, ter interesse? Pode dificultar. Uma vez, em um curso de escrita, foi feita a seguinte pergunta: “qual o espaço dos livros na sua casa?”. Os leitores mais ávidos tinham livros por todos os lugares, até na cozinha”, finaliza.

Sugestões de Leituras dos nossos entrevistados

O presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Marcos da Veiga, informou que está ocorrendo um ressurgimento forte de livros juvenis, para faixa pré-adolescente de 11 a 13 anos de idade. Nossos entrevistados nos fornecem algumas sugestões e observações a respeito:

Verônica Pragana:

  • A Gralha Gralhosa, de Ana Carolina Lemos – sobre acreditar no que quer ser e buscar, se esforçar, para desenvolver seu talento, ir atrás do seu sonho e conquistar. 
  • Livros de Jonas Ribeiro, de São Paulo (Uma Ilha a Milhas Daqui; O Banho de Cores) – possui obras premiadas, adotadas para as escolas públicas.

Álisson da Hora:

  • Aos trancos e relâmpagos, de Vilma Arêas – reeditado pela Iluminuras. Originalmente veio a público em 1988 pela Scipione, na Série Diálogos, que foi um projeto interessante da editora, propondo a autores conhecidos de ficção adulta escrever literatura infanto-juvenil e juvenil.
  • Guerra dentro da Gente, de Paulo Leminski – outra obra da mesma série (que visava a uma faixa etária até mais ampla, mas a partir de 11 anos) e que foi reeditada pela própria Scipione com novo projeto gráfico e novas ilustrações. 
  • Crônicas indígenas para rir e refletir na escola, de Daniel Munduruku – apesar de ser indicado para adolescentes de 13 anos, pode ser utilizado dentro desta faixa.

Para quem prefere os clássicos ou mais famosos:

  • Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett – livro infantil da autora inglesa, primeiramente publicado completo em 1911. É considerado a mais importante obra de Frances Hodgson Burnett, pois é o primeiro livro no qual um garoto e uma garota são os personagens principais. Além disso, é um dos poucos que trazem personagens apáticos ao começo da obra. Em 1987, foi lançado como filme direto para a TV. Existe também a versão do filme de 1993, O Jardim Secreto, dirigido pela polonesa Agnieszka Holland.
  • Oliver Twist, de Charles Dickens – relata as aventuras e desventuras de um rapaz órfão. É um dos romances em que o autor trata do fenômeno da delinquência provocada pelas condições precárias da sociedade inglesa da época. Foi o primeiro romance inglês protagonizado por uma criança e é considerado uma obra-prima da literatura deste país.
  • Mulherzinhas, de  Louisa May Alcott – é um livro de inspiração autobiográfica publicado em 1868. Conta a história de quatro irmãs crescendo entre 1861 e 1865, durante a Guerra Civil Americana. Teve uma sequência chamada “Good Wives” em 1869. Duas outras sequências se seguiram: Little Man e Jo´s Boys, publicadas em 1871 e 1886, respectivamente.
  • Pequeno Príncipe Preto, de Rodrigo França – em um minúsculo planeta, vive o Pequeno Príncipe Preto. Além dele, existe apenas uma árvore Baobá, sua única companheira. Quando chegam as ventanias, o menino viaja por diferentes planetas, espalhando o amor e a empatia. O texto é originalmente uma peça infantil que já rodou o país inteiro. Agora, Rodrigo França traz essa delicada história no formato de conto, presenteando o jovem leitor com uma narrativa que fala da importância de valorizarmos quem somos e de onde viemos – além de nos mostrar a força de termos laços de carinho e afeto. Afinal, como diz o Pequeno Príncipe Preto, juntos e juntas todos ganhamos.
  • Amoras, de Emicida – na música “Amoras”, Emicida canta: “Que a doçura das frutinhas sabor acalanto/ Fez a criança sozinha alcançar a conclusão/ Papai que bom, porque eu sou pretinha também”. E é a partir desse rap que um dos artistas brasileiros mais influentes da atualidade cria seu primeiro livro infantil e mostra, através de seu texto e das ilustrações de Aldo Fabrini, a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos — desde criança e para sempre. “Um livro que rega às crianças com o olhar cristalino de quem sonha plantar primaveras para colher o fruto doce da humanidade”, por Sérgio Vaz.

Fonte: Wikipedia e Amazon

Patrícia Monteiro de Santana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

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