Aula Remota: os desafios na Educação Básica | E-docente Aula Remota: os desafios na Educação Básica | E-docente

Aula Remota: aprendizado, desafio e a valorização de profissionais da Educação

31 de agosto, 2021 - Por e-docente

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Ensino remoto, híbrido. Palavras que, até antes de março de 2020, estavam quase que totalmente associadas à Modalidade de Ensino EAD para jovens e adultos. Algo bastante distanciado da realidade de crianças e adolescentes do ensino fundamental e ensino médio.

Daquele mês em diante, entretanto, todo o panorama educacional do Brasil e de quase todo o mundo precisou passar por uma inesperada e brusca mudança de cenário. Com a deflagração da pandemia da Covid-19 e a consequente necessidade de isolamento, a sala de aula deu lugar ao quarto, escritório, mesa de jantar ou batente de casa.Muitos não tiveram acesso nem a isto. 

Quantas crianças não vão à escola no Brasil e como é a desigualdade no país?

De acordo com levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em novembro de 2020, no Brasil, quase 5,1 milhões de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos não frequentavam a escola. Em um país com altos níveis de desigualdade social, realmente não são poucos os desafios para a viabilização do processo remoto de escolarização. Há a questão da aquisição de dispositivos (computador, smartphone, tablets, etc.) e o acesso à internet de qualidade. 

Dentro das casas, muitas vezes não há nem mesmo condições adequadas à sobrevivência como alimentação, energia elétrica e saneamento. De forma ainda mais grave, em muitos lares, a violência doméstica aumentou, dada a proximidade ainda maior entre seus integrantes.

Soma-se a estes fatores a incapacidade ou sensação de impotência dos pais em auxiliar seus/suas filhos(as) no processo didático, seja por limitações de conhecimento, informação, tempo, letramento digital, saúde física ou mental. E tudo interfere diretamente neste processo de aprendizado.

Quais são os desafios do ensino remoto na educação básica?

Uma gama imensa de desafios para todos: gestão escolar, pais, psicólogos, educadores. O importante é perceber, em conversa com os mais variados atores deste cenário, que a maioria entende que, assim como os problemas, as soluções também perpassam por todos. E que concluem, ainda, que ninguém, neste momento, é dono da fórmula secreta de sucesso.

De acordo com a psicóloga clínica e escolar, Aracelly Julieta, o maior impacto inicial foi o medo. “Todos estavam partindo do zero, de uma situação desconhecida”, afirma a psicóloga que acredita que todo este processo gerou importantes mudanças em casa e na escola, desde então.

“Tínhamos, na educação, um modelo um tanto quanto rígido e arcaico. Mudamos nossa capacidade de nos reinventar com poucos ou limitados recursos. Vivemos a necessidade de se reciclar profissionalmente independentemente de se estar buscando isto ou não”, explica.

Qual o maior desafio do ensino remoto para os alunos?

Para os(as) estudantes, uma das maiores dificuldades foi, de acordo com a faixa etária, a de concentração. “Há todo um manejo pedagógico que ainda está se ajustando. Sabemos, agora, que talvez o tempo tão longo de aula não seja tão eficiente. É mais interessante buscar conteúdos menores e mais precisos, utilizando a criatividade para repassá-los”, sugere. 

A psicóloga destaca, ainda, o novo contexto socioeconômico com que muitos acabaram se defrontando. “Muitos pais perderam o emprego ou tiveram seus salários reduzidos. Então, a mudança não foi só estrutural e física. Não é só não estar na escola. Lembrando que estar em casa demanda prescindir de mais gastos, atenção, brincadeiras, carinho. Então, esta continência afetiva também foi bastante impactada”, analisa. 

Qual o futuro da educação e ensino remoto pós pandemia?


Do ENSINO REMOTO para o ENSINO HÍBRIDO na EDUCAÇÃO INFANTIL com Renata Oliveira | E-docente

“Isso é uma loteria”, responde Aracelly, enumerando que elas vão desde o conteúdo pedagógico até a vivência prática e às relações interpessoais. 

A falta do ambiente de sala de aula, por exemplo, pode trazer consequências. “Trata-se de um espaço extremamente enriquecedor. Quem é filho(a) único(a), por exemplo, aprende a compartilhar, dividir, escutar o outro, ter seu momento de fala. Os desafios, neste local, por sua vez, também são gigantescos e, a partir do momento que eles são superados, isso se reflete na formação de um adulto com mais condições e capacidade de elaboração e de superar desafios, saber lidar com conflitos. Se a criança não tem oportunidade de vivenciar estes desafios na infância, isto fica pendente lá na frente”, resume.

Pessimismo, entretanto, não é a palavra-resumo para ela em relação a estes momentos pandêmico e pós-pandêmico. “Não fico só focada no lado drástico. Acredito no ser humano, na vida, na sua capacidade de se reinventar. O estudo híbrido, por exemplo, possivelmente é algo que vai perdurar e fazer parte do cenário educativo.

Além disso, crianças e jovens terão oportunidade de saber lidar com sua própria autonomia muito mais cedo. Para isso, precisamos deixar os padrões rígidos do passado para saber ganhar com o que temos como, por exemplo, a melhor utilização de recursos tecnológicos de forma pedagógica”, esclarece.

Quais os maiores desafios para os docentes na educação pós-pandemia?

Não foi apenas na via do recebimento da informação que todo o iniciante processo virtual de educação apresentou ruídos. Isto porque os(as) professores(as) foram surpreendidos com esta necessidade premente sem, na maioria das vezes, possuírem qualificação e formação para tal.

A metodologia, o agir pedagógico de todos os processos (presenciais, virtuais e híbridos) – quando visando a sua completa e competente absorção –são diversos. Sem contar os custos que precisaram ser arcados pelos(as) professores(as), em si mesmos, também precisando lidar com os aspectos psicológicos da pandemia, do isolamento. Uma nova realidade, desconhecida, angustiante e incerta quanto ao seu término – com a qual todos precisaram lidar.

Mesmo com 16 anos atuando como docente no sistema de ensino estadual, a professora dos 8° e 9° anos do Ensino Fundamental II, Marília Monteiro, nunca havia dado aula on-line nem se utilizado de ferramentas com as quais precisou lidar, como Google Meet e Google Classroom (para postagem de atividades). Assim como muitos de seus colegas de profissão, também passou a utilizar as redes sociais, como Instagram e WhatsApp, para além do âmbito pessoal. “Passei a tirar dúvidas dos(as) estudantes também por meio delas”, relata.

Além destes desafios, Marília também acrescenta a exacerbação da falta de interesse quanto aos estudos, por parte daqueles onde ela sempre existiu. “Sem frequentarem a escola presencialmente, creio que tenham se sentido mais livres, digamos assim. Durante o decorrer da pandemia, a participação na devolução de atividades no Google Classroom diminuiu em até 50%”, analisa, complementando que há, entretanto, outros fatores envolvidos além do mero interesse.

“A gente também não sabe as condições desses estudantes. Se tem internet em casa, uma boa estrutura familiar que cobre dele(a) a realização das atividades ou até mesmo uma alimentação saudável que permita que ele(a) tenha plena assimilação do conteúdo”, pondera.

A professora acredita, entretanto, que para muitos a utilização das novas plataformas tem funcionado. “Os que realmente possuem condições e interesse têm respondido. Estamos ali para tirar dúvidas, auxiliar e é este retorno, deles, que nos motiva”, afirma. 

Para a psicóloga Aracelly, esta disponibilidade do(a) professor(a) é essencial. “Ele(a) é a ponta, o elo com o(a) estudante. Esta relação dual tem que estar cada vez mais fortalecida”, acredita, salientando, também, que o modelo de avaliação também precisou passar por uma transformação. 

“O(A) professor(a) que conseguir oferecer menos quantidade e mais qualidade é quem vai fazer o grande diferencial no(a) estudante. A aula deve ser precisa e objetiva. Lembrando que a questão da saúde mental precisa estar presente dos dois lados”, analisa.

O que aconteceu com a educação com a pandemia? Houve queda na qualidade?

A percepção da professora acerca da queda do rendimento ou respostas de boa parte dos(as) estudantes também é compartilhada por Maria da Conceição Medeiros Macedo, diretora de uma escola particular do município de Olinda. A instituição de ensino, que contempla até o 5° ano do ensino fundamental, sofreu com a perda de cerca de 50% dos seus estudantes.

“Além disso, sentimos que para aproximadamente 30% deles houve uma grande perda na recepção na qualidade do ensino. Esperamos, entretanto, que quando toda a população estiver vacinada, não exista mais evasão escolar em todas as redes de educação”, imagina. 

No colégio, fechado durante quase todo 2020, ela só começou a pôr em prática as medidas de segurança neste ano. “Agora, fazemos controle da higienização na entrada dos(as) estudantes, aferimos a temperatura, observamos a utilização das máscaras, se estão resfriados, etc. Enfim, mantemos um olhar crítico e evitamos a entrada de visitantes ou portadores, por exemplo”, relata.

Relatos de pais que precisaram ensinar o que ainda nem sabiam

Neste espaço destinado a profissionais da educação, munidos de tantas informações a respeito do assunto a que provavelmente mais aludiram desde março de 2020, não poderia (como não profissional da área) fazer algo diferente de um relato pessoal acrescido de um profundo e sincero agradecimento a todos da classe.

Mãe de um filho de 8 anos de idade, quando da passagem do ensino presencial para o virtual, imaginei que seria relativamente simples auxiliá-lo no acompanhamento das aulas, correção de tarefas e demais funções que o exercício escolar pudessem exigir. Achava que o fato de possuir curso superior, de ter a leitura como hábito contumaz desde os 13 anos, além de ter um letramento digital atualizado me configurariam a, habilmente, fazer o devido acompanhamento. Cedo, portanto, percebi que me faltavam aspectos essenciais para quem acumulava estas funções com a de profissional e dona de casa: tempo, paciência e didática. 

Não sabia como ensinar de outra forma, percebi que a minha maneira de aprendizado era diferente da que ele recebe, agora, e que, por vezes, os parâmetros não se encontravam. Não sabia lidar, também, com o desestímulo da criança. Além disso, as aulas on-line, em grupo, também escancararam a importância do equilíbrio e saúde emocional que o docente precisa ter para lidar com uma turma (volumosa ou nem tanto) de alunos(as) tão díspares em relação a conhecimentos, comportamentos e entendimento do que é apresentado.

Assim como eu, a também jornalista Rochelli Dantas, mãe de Bernardo, agora com 6 anos, também enfrentou desafios diversos. “Fazer com que ele despertasse o interesse pelas aulas. Não foi fácil para uma criança de 5 anos, presa em casa e tendo que se prender por horas em frente a uma tela (antes proibida). Além disso, ter que conciliar a vida de mãe que trabalha com as demandas da escola em casa”, relata. O processo, entretanto, também trouxe aspectos positivos. “Acho que aproximou mais a família. Podemos (eu, ele e meu marido) compartilhar de tudo e nos ajudar mais. Isso fica para sempre. Além disso, eu pude melhor identificar as necessidades do meu filho. Ver o que ele estava precisando e como nós e a escola podíamos ajudar”, exemplifica.

Para ela, a melhor forma de os pais agirem, seja para qualquer uma das modalidades de ensino (virtual, híbrida ou presencial) para conduzir a criança com um misto de tranquilidade e responsabilidade neste novo mundo normal, é justamente mostrar que ninguém tem a fórmula é que todos estão buscando como se ajustar, adequar e conviver com esse novo mundo. “Se os pais mostrarem à criança insegurança, medo e ansiedade, ela vai ter isso. Se, entretanto, demonstram que estão no mesmo barco que ela e que enfrentarão tudo juntos, ela se fortalece. Além disso, ter uma rotina, mesmo estando trancado em casa, é muito importante. Tem que ter horário de assistir aula, de fazer tarefa e de lazer. Com rotina a criança se adequa mais facilmente”, afirma.

A opinião de Rochelli é corroborada pela psicóloga Aracelly. “É importante, primeiramente, não exigir tanto do(a) aluno(a). É preciso ter uma relação de mais troca, mas, ainda assim, manter a rotina (uma das coisas mais difíceis). É importante que a criança acorde ainda pela manhã, alimente-se nos turnos regulares e não vá dormir tão tarde. Vi crianças muito jovens dormindo mais de meia-noite”, relata.

O tempo em relação ao uso do aparelho eletrônico também precisa ser melhor monitorado, neste momento em que ele teve maior demanda. “É preciso estabelecer horários, mas com menos rigidez (embora com limites definidos). Entender qual recurso disponível do ensino on-line e se comprometer com ele”, sugere Aracelly. 

A psicóloga lembra, ainda, que um dos maiores desafios para os pais, notadamente aqueles que tinham uma dinâmica muito ativa de trabalho fora de casa, é a administração do tempo domiciliar. “Começou a ser preciso ter mais contato com o(a) professor(a) e, principalmente, estar mais próximo dos(as) estudante. Os responsáveis devem apropriar-se do conteúdo da criança, estar junto e mostrar que aprende também. Construir junto com o(a) filho(a) e tentar não exercitar o autoritarismo de forma desnecessária”, ensina.

Resumindo, quando todos remam juntos no mesmo barco, a trajetória traz resultados mais positivos, mesmo que haja obstáculos no caminho. “Eu e meu filho desenvolvemos uma ansiedade muito forte e passamos a tratar isso. Foi um período doloroso e difícil, mas, com acompanhamento, passamos e agora estamos mais seguros. Acho que a pandemia trouxe isso de podermos olhar para nós mesmos e buscar nos fortalecer”, conclui Rochelli.

Patrícia Monteiro de Santana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

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