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A formação de docentes e o ensino mediado pela tecnologia

23 de setembro, 2021 - Por e-docente

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O ano era 1998. Sempre que um(a) professor(a) solicitava algum trabalho, meus amigos e eu tínhamos de marcar uma reunião em grupo para ir até a biblioteca pública da cidade para “pesquisar” e conseguir uma boa nota. As aspas são propositais, vou tentar explicá-las: geralmente, como era essa pesquisa? Era um belo “copia e cola”, só que manuscrito, diferentemente da facilidade que temos hoje em dia com o advento do computador e da internet. E para encontrar os amigos, também era necessário marcar antes, num ponto específico, já que não havia celulares para nos comunicarmos.

Antes do Google e da Wikipédia, como eram as pesquisas?

Nessa época, lidar com a informação e com o conhecimento era bem diferente de hoje em dia. Além de haver ambientes específicos para acesso a informações confiáveis, como bibliotecas, museus etc., os suportes eram em sua maioria impressos e não manipuláveis, a não ser por cópia à mão.

A escola sempre utilizou livros e apostilas como principais materiais a serem utilizados em sala de aula, com conteúdos estáticos, desatualizados, utilizados por anos e anos. Quantos de nós aprendemos sobre a tal “tundra” nas aulas de Geografia sem ter ideia do que se tratava, pois as imagens que a ilustravam sempre eram simplórias e com baixa resolução. Assista ao vídeo abaixo e conheça, finalmente, as Tundras:

Desde os livros ilustrados e, depois, com os jornais e revistas, o ato de ler passou a não se limitar apenas à decifração de letras, mas veio também incorporando, cada vez mais, as relações entre palavra e imagem, entre o texto, a foto e a legenda, entre o tamanho dos tipos gráficos e o desenho da página, entre o texto e a diagramação. (SANTAELLA, 2013, p. 19)

E os docentes formados nessa época, estão prontos para as novas tecnologias?

Paremos, então, para pensar: muitos dos(as) professores(as) formados nessa época, sem internet, tendo como base de informação textos impressos, ainda continuam em atividade. Mas e a sua prática no dia a dia, ao longo desses anos, mudou? Será que houve investimento público para a formação continuada desses docentes? Ou foram necessárias iniciativas próprias para uma renovação e atualização de suas bases curriculares? Ou, ainda, há cursos na atualidade que oferecem para os(as) professores(as) formações com estratégias para lidarem nesse novo mundo digital, em que tantas tecnologias estão a nosso alcance? Você, que me lê, teve alguma disciplina, seja na graduação ou em qualquer outro curso, que tratava da necessária mudança de postura em sala de aula frente à interatividade tecnológica diária que se apresenta?

De qual tecnologia estamos falando?

Primeiramente, vale a pena tratarmos sobre a tal tecnologia. Quando ouvimos esse termo no meio da educação, é natural pensarmos em computadores, celulares de última geração, salas de aula com inúmeras ferramentas interativas, quadros inteligentes, etc. Porém, a tecnologia está e sempre esteve presente em nossas vidas.

O livro impresso é uma tecnologia, assim como a lousa e o mimeógrafo (alguns que me leem nem devem saber do que se trata). Todos esses itens, apesar de antigos, são um tipo de tecnologia presente nas escolas, que se unem a outras, mais atuais, que possibilitam maior integração entre estudantes, informações e conhecimento por meio de uma interatividade impensável em materiais analógicos. 

Você pode estar pensando: “na escola em que trabalho, não tem nem água direito, como trabalhar com tecnologias?”. Tem razão nesse aparte. Existem locais em que há pouquíssimos materiais disponíveis para desenvolvermos nosso trabalho. Por isso, é importante avaliarmos nosso contexto para planejar quais serão nossas estratégias, aproveitando ao máximo as tecnologias disponíveis, seja um tablet de última geração ou um mimeógrafo que deixa as folhas com aquele inesquecível cheirinho de álcool.

Por falar nessa questão do álcool, lembramos que a pandemia nos jogou em um terreno até então desconhecido para muitos: a comunicação com nossos(as) estudantes por meio de ferramentas digitais. Encarar a grande rede de computadores como um ambiente propício para a aprendizagem, não apenas para entretenimento, foi e ainda é um desafio para estudantes e professores(as). Nesse ponto, volto a questionar sobre a preparação que nos foi oferecida: houve cursos, por mais rápidos que fossem, que nos trouxessem conceitos básicos para lidarmos com essa nova realidade, tanto técnica como pedagogicamente? 

Apesar de todo o apelo para a continuação remota das aulas, houve raríssimas iniciativas públicas para a formação dos(as) professores(as) nessa área, o que traz dores de cabeça até hoje. Mais do que preparar docentes e toda a equipe pedagógica para utilizar as novas tecnologias, as políticas públicas em educação precisam estar voltadas à nova escola que surge em meio ao mar de informações que se apresenta na atualidade. A propósito, você já ouviu falar de ubiquidade? 

O que é aprendizagem ubíqua?

O termo “ubiquidade” se refere à possibilidade de se estar em diversos lugares, de diversas maneiras, coexistindo e interagindo com outras pessoas e coisas, abstratas e concretas. Trazendo essa ideia para a forma como nos informamos e aprendemos atualmente, fica bem claro que a ubiquidade é exatamente o que grande parte de nós, estudantes, professores(as) e pesquisadores, vivemos atualmente.

Andamos pelas ruas, interagindo com o espaço físico e, ao mesmo tempo, por meio do smartphone, conversamos com outras pessoas virtualmente, enviando e-mails, lendo o livro predileto, ouvindo nosso podcast, planejando as compras do mês (e fazendo as compras do mês e se assustando com o preço), montando nossas aulas, tirando uma dúvida no Google sobre a idade daquela artista famosa, etc. 

Ora, na medida em que a comunicação entre as pessoas e a conexão com a internet começaram a se desprender dos filamentos de suas âncoras geográficas – modems, cabos e desktops – espaços públicos, ruas, parques, todo o ambiente urbano foram adquirindo um novo desenho que resulta da intromissão de vias virtuais de comunicação e acesso à informação enquanto a vida vai acontecendo. Assim, a revolução digital encontra-se hoje em plena era da mobilidade, que também chamo de tecnologias comunicacionais da conexão contínua constituídas por uma rede móvel de pessoas e de tecnologias nômades que operam em espaços físicos não contíguos. (SANTAELLA, 2013, p. 22-3)

Fazendo mais uma vez um exercício reflexivo, pensemos em como nos portamos em nossas salas de aula. Aproveitamos o fato de vários(as) estudantes terem smartphones? Criamos situações em que os discentes construam conosco as aulas? Tratamos dessa interatividade contínua com as coisas materiais e virtuais? Permitimo-nos mostrar nossas incertezas, nossos pontos de interrogação ou apenas mostramos a falsa segurança de pontos de afirmação? E depois da experiência iniciada com a pandemia, mudamos nossa visão sobre o uso das novas tecnologias digitais? Vejamos o trecho de uma entrevista que fiz com o professor José Armando Valente, da Unicamp, em 2012:

O que é autonomia discente e qual seu propósito?

Com as novas tecnologias, a comunicação mudou e muitos são os desafios colocados para a escola. Os principais são tornar o aluno um produtor de conteúdo (considerando toda a diversidade de linguagem) e um ser crítico. (ROJO, 2013, p. 5)

Pensando neste momento de revolução informacional em que vivemos, será que as aulas conseguem se manter atrativas se utilizarmos as mesmas estratégias de ensino de 30 anos atrás? Mais do que os aparatos tecnológicos de que dispomos em sala, é importante que tenhamos uma postura diferente com nossos(as) estudantes. Independentemente de onde trabalhemos, precisamos proporcionar maior possibilidade de interação entre o(a) estudante e as informações, transformando-as em conhecimento. Pontualmente falando, é urgente criar mais travessões, trazer mais personagens para nossa história. 

Maryanne Wolf, em seu excelente O cérebro no mundo digital, comenta as transformações que nossos cérebros sofrem diante das leituras digitais às quais acessamos cada vez mais intensamente. A dificuldade de concentração e de aprofundamento nas leituras, quaisquer que sejam, de um livro ou de um filme, são cada vez mais latentes entre todos nós, jovens, adultos e idosos. 

A autora explica, citando outras obras, que essa dificuldade de aprofundamento em leituras, como um romance, por exemplo, reflete até mesmo na falta de empatia da sociedade atual. Ao não conseguirmos mais nos concentrar, como mergulhar na história? Como assumir o papel do personagem principal e viajar para outros mundos, outras possibilidades? Como assumir outras vidas? 

…o ato de ler é um lugar especial em que os seres humanos são libertados de si mesmos para se transportarem a outros e, assim, aprender o que significa ser outra pessoa com aspirações, dúvidas e emoções que nunca teriam conhecido de outro modo. (WOLF, 2019, p. 58)

Sem essas viagens, acabamos nos ensimesmando, vivendo apenas uma vida, a nossa, menos tolerantes, menos amorosos, menos viajantes. Esse novo contexto em relação à leitura, em que a atenção se dispersa e só consegue ter percepções fragmentadas, precisa ser levado em consideração pela escola. 

Retomando o termo anterior, a tal “ubiquidade” é uma realidade e, frente a tantas informações disponíveis, podemos atuar como mediadores, guias, indicando caminhos e proporcionando autonomia aos nossos aprendizes, cada qual criando uma trilha única, em busca de seus destinos, sempre expansíveis e mutáveis. Não é uma tarefa nada fácil, principalmente quando pensamos nas dificuldades que enfrentamos para uma formação contínua, ainda mais em tempos de pandemia. Tentarei, a seguir, trazer algumas sugestões dentro do nosso dia a dia de trabalho:

  1. Parceria com os(as) estudantes: que tal criarmos momentos em que os(as) alunos(as) se tornem professores(as) e nós nos tornemos alunos(as)? Isso, mesmo. Em se tratando de usos criativos de novas tecnologias, geralmente, eles têm muito a nos oferecer. Então, por que não construir oportunidades para que sejam trazidas novas possibilidades nos usos de redes sociais, jogos e outras que aproveitem a interação da grande rede? Assim, associando a experiência técnica dos(as) estudantes ao nosso conhecimento pedagógico, poderemos avançar significativamente na atualização de nossas práticas;
  2. Formações dentro das escolas: outra possibilidade é compartilhar experiências com os demais professores(as) nas escolas, criando momentos de formação em tempos destinados a reuniões pedagógicas. Claro, nesse caso, é necessário um apoio da direção, o que, geralmente, não é tão difícil de ser negociado. Quando conseguimos ver em nossos pares ideias criativas que aproveitem não só as tecnologias disponíveis em nosso ambiente de trabalho, mas também o potencial interativo de nosso público discente, também chegamos a resultados muito positivos que enriquecem nosso dia a dia profissional;
  3. Sugestões diárias por meio de mensagens: uma ideia que me veio escrevendo este texto foi o envio, por meio de listas de transmissão, que podem ser criadas entre professores(as) e demais membros da escola, de sugestões de atividades, sejam elas interdisciplinares ou não. Assim, poderíamos aproveitar as novas tecnologias para expandir ideias e motivar a todos em dias menos inspirados (quem trabalha em sala de aula sabe que nem sempre estamos no nosso melhor momento criativo e precisamos de ideias… Ah, você já deve ter reparado que gosto de usar os parênteses para criar uma maior cumplicidade, né?).

Além dessas sugestões, vale lembrar que existem hoje em dia diversos meios de divulgação do conhecimento científico disponíveis para auxiliar em nossas formações. Você pode encontrar alguns exemplos no meu post sobre o assunto em “Novas formas de divulgação do conhecimento científico”. O próprio E-docente está oferecendo gratuitamente cursos de formação continuada para professores da rede pública, através do PROFS, que é o ambiente virtual de formação continuada e apoio pedagógico da SOMOS Educação para educadores de todo o Brasil. Conheça a PROFS EDUCAÇÃO.

Claro, todas essas iniciativas podem e devem acompanhar nossa luta contínua para que a formação continuada de todos que trabalham com a educação seja incluída em nossas cargas horárias como política pública, coletiva, para que haja uma real mudança na estrutura da educação do nosso país. 

Qual será o futuro da educação EAD no Brasil?

A pergunta que fica é: será que, daqui a 30 anos, quando pensarmos em tudo que a pandemia causou à educação com relação ao uso forçado da internet e dos recursos digitais disponíveis, lembraremos de uma mudança de paradigma, um ponto de conversão que levou o(a) professor(a) a ter uma postura mais construtiva em sala frente aos seus/suas estudantes e às informações disponíveis; ou será que lembraremos de um capítulo isolado, separado por vírgulas, que veio, foi embora e depois nos levou às mesmas atitudes de antes? Teremos muitas outras novas tecnologias disponíveis, mas será que as escolas serão capazes de formar estudantes prontos para tais inovações? Mais ainda: será que as universidades conseguiram nos formar para formarmos tais estudantes?

Desculpem, mas acabo este texto com muitas perguntas. A intenção era essa, mesmo, afinal de contas, sempre será o ponto de interrogação que nos moverá todos os dias de nossas vidas, evitando que cheguemos ao ponto final. Na verdade, ao longo do texto, como professor de português que sou, tentei explorar bem a tecnologia da pontuação, já tão antiga, mas com um potencial interativo enorme. Espero que a experiência da leitura lhe tenha trazido exclamações e que as ideias aqui discutidas sejam expandidas e passadas à frente, por isso, nada melhor que não fechar o texto, mas…

Tiago da Silva Ribeiro

Professor do Magistério Superior no Instituto Nacional de Educação de Surdos nas disciplinas de Língua Portuguesa e Tecnologias da informação e comunicação. Tem experiência em turmas do ensino fundamental e médio, além de já ter atuado na modalidade on-line como mediador, orientador de trabalhos finais de curso, desenhista educacional, professor-autor e coordenador de curso. Seu Doutorado em Letras é pela PUC-Rio e teve como tema de trabalho o Internetês.

Referências

ROJO, Roxane. Cenários futuros para as escolas. In: EDUCAÇÃO no século XXI: multiletramentos. v. 3. São  Paulo:  Fundação  Telefônica,  2013.  Disponível em: http://fundacaotelefonica.org.br/wp-content/uploads/2013/03/caderno3_multiletramentos.pdf.  Acesso  em: 27 ago.  2021.

SANTAELLA, Lucia. Desafios da ubiquidade para a educação. Revista Ensino Superior. ed. 04 abr. 2013. São Paulo: Unicamp, 2013. Disponível em: http://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/edicoes/edicoes/ed09_abril2013/NMES_1.pdf. Acesso em 27 ago. 2021.

WOLF, Maryanne. O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era. Tradução de Rodolfo Ilari, Mayumi Ilari. São Paulo: Contexto, 2019. 256 p.

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