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Independência e Cidadania: o que comemoramos hoje?

1 de setembro de 2026,
E-docente
Independência do Brasil

Todos os anos, o dia 7 de setembro mobiliza diferentes instituições e grupos da sociedade em torno das comemorações da Independência do Brasil.

Entre desfiles cívicos, atividades pedagógicas e referências ao famoso Grito do Ipiranga, a data costuma reforçar a ideia de que, naquele momento, o país conquistou sua liberdade e passou a definir os próprios rumos.

Poucas vezes, porém, nos perguntamos o que significa, de fato, ser um país independente ou por que esse acontecimento continua despertando debates mais de duzentos anos depois.

As reflexões sobre Independência e Cidadania nos convidam a ir além da celebração da data e a analisar criticamente como esses processos continuam a impactar a sociedade brasileira contemporânea.

Você irá ver a seguir no artigo uma análise aprofundada sobre as contradições do processo de emancipação política do Brasil, a trajetória de lutas pela conquista da cidadania e propostas práticas para trabalhar essas temáticas de forma crítica em sala de aula.

As múltiplas dimensões de independência, cidadania e soberania

Essa reflexão se torna ainda mais interessante quando percecemos que independência, cidadania e soberania não possuem um significado único.

Ao longo da história, esses conceitos assumiram sentidos diferentes conforme as transformações políticas, sociais e culturais de cada época.

A própria ideia de cidadania ilustra esse movimento: na Antiguidade, ela era restrita a uma pequena parcela da população; após as revoluções liberais, passou a incorporar o princípio da igualdade jurídica; atualmente, envolve também o acesso a direitos, a participação democrática e o reconhecimento da diversidade de sujeitos que compõem a sociedade.

Leia mais: A celebração de datas comemorativas nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental

A soberania, por sua vez, diz respeito à capacidade de um Estado tomar decisões de forma autônoma e defender seus interesses diante de pressões externas, dimensão que continua presente em muitos dos debates políticos contemporâneos.

A complexidade do processo histórico brasileiro

Quando observamos a história do Brasil a partir dessas lentes, a independência deixa de parecer um acontecimento concluído em 1822 e passa a revelar um processo muito mais complexo.

A ruptura política com Portugal não eliminou estruturas herdadas do período colonial, como a escravidão, a concentração fundiária e diferentes formas de exclusão política.

Também não garantiu que todos os habitantes do país fossem reconhecidos como cidadãos nem encerrou os desafios relacionados à soberania nacional.

Em muitos aspectos, essas disputas continuaram atravessando os séculos seguintes e permanecem presentes nas discussões sobre democracia, direitos e participação política.

Objetivo e proposta de reflexão do artigo

Partindo dessa perspectiva, este artigo propõe uma reflexão sobre o processo de independência brasileira e sua relação com os conceitos de cidadania e soberania.

Mais do que revisitar um dos acontecimentos mais conhecidos da História do Brasil, o objetivo é discutir como essa temática pode ser trabalhada de forma crítica na escola.

Leia mais: 7 de Setembro: Dia da Independência (?) do Brasil

A intenção é incentivar os estudantes a analisar diferentes interpretações sobre o passado e a compreender que a construção de uma nação democrática depende de processos históricos muito mais amplos do que um único episódio ou personagem.

O processo de Independência do Brasil: entre rupturas e permanências

Contexto histórico e a vinda da Família Real (1808)

A Independência do Brasil não surgiu de um único acontecimento, mas de um conjunto de transformações que vinham alterando profundamente a relação entre a colônia e a metrópole portuguesa desde o início do século XIX.

A chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, modificou a posição ocupada pelo Brasil dentro do Império português.

A abertura dos portos ao comércio internacional, a criação de instituições administrativas, culturais e científicas e a instalação da própria corte favoreceram o fortalecimento econômico das elites locais e ampliaram sua autonomia política.

A Revolução Liberal do Porto e a atuação de D. Pedro I

Quando a Revolução Liberal do Porto, em 1820, passou a defender o retorno da família real e a retomada do controle direto sobre a antiga colônia, muitos grupos influentes no Brasil passaram a enxergar a independência como uma alternativa para preservar os privilégios conquistados durante o período joanino.

Leia mais: Independência do Brasil: como desenvolver práticas educativas?

Foi nesse contexto que Dom Pedro I decidiu permanecer no Brasil, aproximou-se das elites locais e assumiu a liderança do processo de separação política de Portugal.

O mito do Grito do Ipiranga e os símbolos nacionais

O episódio ocorrido às margens do riacho do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, tornou-se o principal símbolo dessa ruptura.

A historiografia recente, entretanto, chama a atenção para o fato de que a independência já vinha sendo construída por meio de negociações políticas, decisões tomadas pela corte instalada no Rio de Janeiro e articulações conduzidas por diferentes personagens, entre eles a princesa Maria Leopoldina.

Como observa a historiadora Lilia Schwarcz, em entrevista à CNN Brasil, o chamado “Grito do Ipiranga” representou muito mais um marco simbólico de um processo em andamento do que um acontecimento isolado capaz de transformar, sozinho, os rumos do país.

A própria imagem que costuma representar esse momento também merece reflexão.

O famoso quadro Independência ou Morte, pintado por Pedro Américo em 1888, não registra fielmente a cena ocorrida em 1822, mas contribuiu para consolidar uma narrativa heroica da independência, apresentando D. Pedro I montado em um imponente cavalo e cercado por uma atmosfera épica que marcou profundamente o imaginário nacional.

Independência ou Morte, quadro de Pedro Américo completado em 1888. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/noticias/2023/09/07/d-pedro-no-cavalo-nem-tudo-e-verdade-no-quadro-da-independencia-no-brasil.htm. Acesso: 27/07/2026.

Os limites históricos e as estruturas preservadas pós-1822

Reconhecer esse caráter simbólico não significa diminuir a importância da Independência, mas compreender seus limites históricos.

A ruptura política com Portugal preservou boa parte das estruturas que organizavam a sociedade brasileira.

A escravidão continuou sustentando a economia por mais de seis décadas, a concentração de terras permaneceu praticamente intacta e o poder político seguiu concentrado nas mãos de uma pequena elite.

O Primeiro Reinado também foi marcado por intensos conflitos internos, disputas entre diferentes projetos de país e pela promulgação de uma Constituição outorgada por D. Pedro I, evidenciando que a emancipação política não eliminou práticas autoritárias nem democratizou, de imediato, a vida pública brasileira.

Olhar para a Independência por essa perspectiva permite compreender que a formação do Brasil não pode ser reduzida a um único personagem ou a uma única data comemorativa.

Se a separação de Portugal representou um passo importante na construção do Estado brasileiro, ela não respondeu a uma pergunta que permaneceria aberta nas décadas seguintes: afinal, quem seria reconhecido como cidadão nesse novo país?

É justamente a partir dessa questão que as disputas em torno da cidadania ajudam a revelar que a independência brasileira foi apenas um capítulo de um processo histórico muito mais amplo.

História da cidadania no Brasil: quem pôde ser cidadão?

A exclusão social no nascimento do Estado Brasileiro

A Independência marcou o nascimento do Estado brasileiro, mas isso não significou que toda a população passasse a participar igualmente da vida política do país.

Se a ruptura com Portugal garantiu alguma autonomia administrativa ao novo Império, a cidadania permaneceu profundamente limitada.

Como discute Eduardo Martins (2021), a formação da sociedade brasileira foi marcada por processos históricos que restringiram o acesso aos direitos e à participação política de diferentes grupos sociais, fazendo com que a construção da cidadania ocorresse de maneira lenta e desigual.

Em outras palavras, tornar-se um país independente não significou, automaticamente, tornar-se uma sociedade democrática.

A evolução histórica dos direitos políticos e civis

Essa realidade pode ser observada ao longo de todo o século XIX e de boa parte do século XX.

A escravidão permaneceu como base da economia brasileira até 1888, mulheres permaneceram afastadas do direito ao voto durante grande parte da história republicana e pessoas analfabetas só conquistaram esse direito com a Constituição de 1988.

O reconhecimento da cidadania, portanto, foi sendo ampliado por meio de disputas sociais e políticas que envolveram movimentos populares, organizações da sociedade civil e diferentes grupos historicamente excluídos da participação pública.

Mais do que uma concessão do Estado, muitos dos direitos que hoje consideramos fundamentais resultaram de décadas de mobilização coletiva.

Cidadania como processo contínuo no ambiente escolar

Observar esse percurso ajuda a compreender que cidadania não é uma condição estática, mas um processo permanente de ampliação de direitos e fortalecimento da participação democrática.

Logo, discutir a Independência do Brasil na escola vai muito além de relembrar acontecimentos de 1822.

Refletir sobre quem participou da construção da vida política brasileira, quem permaneceu à margem desse processo e quais desafios ainda persistem permite que os estudantes percebam a cidadania como uma conquista histórica, construída coletivamente e continuamente ressignificada pelas transformações da sociedade.

Práticas pedagógicas: como trabalhar Independência e Cidadania na escola

O papel da BNCC e o ensino crítico de História

A Base Nacional Comum Curricular propõe que o ensino de História e das Ciências Humanas contribua para a formação de estudantes capazes de interpretar processos históricos, analisar diferentes perspectivas e participar de forma crítica da vida pública (Brasil, 2018).

Nesse sentido, discutir a Independência do Brasil representa uma oportunidade para superar narrativas comemorativas e transformar o 7 de Setembro em um momento de investigação histórica.

Mais do que memorizar datas e personagens, vale a pena criar situações em que os(as) estudantes percebam que independência, cidadania e soberania continuam sendo temas presentes nos debates da sociedade brasileira.

Atividades práticas para a sala de aula

1. Leitura comparativa de documentos históricos

Uma atividade interessante consiste em comparar trechos da Constituição de 1824, primeira constituição brasileira, com dispositivos da Constituição Federal de 1988.

Organizados em pequenos grupos, os estudantes podem identificar diferenças relacionadas aos direitos políticos, à organização dos poderes e às garantias individuais, refletindo sobre quem era reconhecido como cidadão em cada contexto histórico.

Ao final, a turma pode construir uma linha do tempo destacando as principais ampliações de direitos ocorridas ao longo da história brasileira.

Essa proposta favorece a leitura de fontes históricas, desenvolve a argumentação e evidencia que a cidadania foi sendo construída por meio de disputas sociais e transformações políticas.

2. Assembleia de 1823: construindo um projeto de país

Uma proposta bastante envolvente consiste em transformar a sala de aula em uma Assembleia Constituinte inspirada no contexto de 1823.

Antes da atividade, cada grupo recebe um personagem ou representa um setor da sociedade da época, como integrantes da Corte portuguesa, membros das elites agrárias, comerciantes, militares, pessoas escravizadas, povos indígenas, pequenos proprietários ou representantes da Igreja Católica.

Após uma breve pesquisa, os grupos recebem o desafio de responder à pergunta: “Que Brasil queremos construir após a Independência?”

Cada equipe deverá elaborar pequenas propostas para temas como a forma de governo, quem deve participar das decisões políticas, quais direitos devem ser garantidos à população e quais mudanças consideram essenciais para o futuro do país.

Ao final da assembleia, as propostas podem ser comparadas com a Constituição de 1824 e, posteriormente, com a Constituição Federal de 1988.

A atividade permite compreender que a Independência não produziu um único projeto de nação, mas foi atravessada por disputas de interesses, diferentes concepções de cidadania e conflitos sobre quem deveria participar da vida política brasileira.

3. Independência e soberania no Brasil contemporâneo

A discussão também pode ser aproximada da realidade dos(as) estudantes por meio da análise de acontecimentos contemporâneos que envolvam a soberania nacional.

Um exemplo recente é o debate sobre a suspensão da rede social X (antigo Twitter) no Brasil, após o descumprimento de decisões do Supremo Tribunal Federal.

Outro caso diz respeito às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos envolvendo tarifas de importação e às respostas do governo brasileiro em defesa da autonomia econômica do país.

Situações como essas permitem mostrar que a soberania não pertence apenas ao passado, mas continua presente em debates políticos, jurídicos e econômicos da atualidade.

Após a leitura de diferentes reportagens sobre um mesmo tema, os estudantes podem discutir questões como:

  • O que significa um país ser soberano?
  • Até que ponto as empresas estrangeiras devem seguir a legislação brasileira?
  • Como as relações econômicas entre países podem influenciar a autonomia de um Estado?
  • Existe diferença entre cooperação internacional e dependência econômica?
  • De que forma esses debates se relacionam com a Independência de 1822?

Ao comparar diferentes fontes de informação e construir argumentos fundamentados, a turma desenvolve competências importantes de leitura crítica, análise de discursos e participação cidadã, compreendendo que a História continua oferecendo ferramentas para interpretar os desafios do presente.

Considerações finais

A independência como um processo permanente

Mais do que celebrar um acontecimento ocorrido em 1822, refletir sobre a Independência do Brasil significa reconhecer que a construção de uma nação é um processo permanente.

A história mostra que a emancipação política não eliminou, de imediato, desigualdades, exclusões e disputas em torno da cidadania e da soberania nacional.

Por isso, compreender o passado também é uma forma de interpretar os desafios do presente e de perceber que a democracia se fortalece quando diferentes grupos participam da construção da vida pública.

Nesse contexto, a escola ocupa um papel fundamental. Ao incentivar a análise crítica das narrativas históricas, promover o contato com diferentes fontes e criar espaços de debate fundamentado, ela contribui para que os estudantes compreendam que cidadania não se limita ao conhecimento de direitos, mas envolve participação, responsabilidade e compromisso com a sociedade.

Talvez essa seja uma das maiores contribuições que o ensino sobre Independência e Cidadania pode oferecer: ajudar as novas gerações a entender que construir um país mais democrático continua sendo uma tarefa coletiva, que não terminou no século XIX e que segue sendo escrita todos os dias.

Minibio

Beatriz Rodrigues Gomes Vidal é graduada em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como professora na Educação Básica, lecionando disciplinas da área de Humanidades no Ensino Médio. Possui experiência também como professora bilíngue, tendo lecionado Inglês para diferentes faixas etárias e obtido certificação de Cambridge. Pesquisadora em Antropologia, realizou pesquisa etnográfica com foco em questões de gênero, desenvolvida em unidades de acolhimento público na cidade de Santos (SP). É também autora de materiais didáticos para o Ensino Fundamental na área de Ciências Humanas. Seu percurso articula formação acadêmica, pesquisa e prática docente em contextos diversos, sempre voltados à reflexão crítica e ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Referências

AMARAL, Talita. “Não foi exatamente um grito”, dizem historiadores sobre o dia da Independência. CNN Brasil, São Paulo, 7 set. 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/nao-foi-exatamente-um-grito-dizem-historiadores-sobre-o-dia-da-independencia/. Acesso em: 27 jul. 2026. 

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.  

JULIÃO, Fabricio. CNN Bicentenário: historiadores falam sobre a chegada da Família Real ao Brasil. CNN Brasil, São Paulo, 22 jan. 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/cnn-bicentenario-historiadores-falam-sobre-a-chegada-da-familia-real-ao-brasil/. Acesso em: 27 jul. 2026. 

MARTINS, Eduardo. Educação brasileira e as questões envolvendo a construção da cidadania no Brasil. Revista on-line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 25, esp. 2, p. 1238-1251, 2021. DOI: 10.22633/rpge.v25iesp.2.15125.  

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 

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